Dois países, algum destino?


Dois países tomaram trajetórias radicalmente distintas, considerando-se a quase vizinhança, parcialmente obstruída por Coréia e por inacessível nesga da Rússia do Oriente, além do Mar do Japão, barreiras minúsculas ante a colossal distância cultural de 2500 anos a separar um país ocupando 9.600.000 km² da Ásia Central – China – de outro com modestos 377.000 km² pulverizados em 3400 ilhas pelo Pacífico, a configurar Japão.

Originários da mesma raiz ancestral – H*** sapiens asiaticus paleolítico –, dois povos, dos mais relevantes produtores culturais, debatem-se hoje entre a voluntariedade operacional-pragmática do pós-moderno e a contenção minimal-abstrata dos que padeceram milenares instabilidades.

À China coube vantagem de postar-se praticamente no centro asiático, o que lhe proveu diversidade de gentes e hábitos, confluídos para a multietnia benigna à formação de nações (e também as desvantagens decorrentes), no que se refere a acréscimos técnicos e culturais. O contato, cedo, com povos de iguais ou distintas estaturas disseminou no país a prática do intercâmbio, possibilitando aquisição de destrezas de cunho prático-imediato (produtivas, técnicas, logísticas), tanto quanto abstrato e teórico (filosofia, arte, religião). Com isso, enriqueceu o repertório de sua própria produção sociocultural, a ponto de ser o povo que mais colaborou com a humanidade em engenho e arte. Nação única, diga-se, a manter reconhecida presença como inventora de técnicas, depositária de conhecimentos e transformadora da realidade.

A interminável fronteira a lhe franquear toda a porção restante da Ásia, ao mesmo tempo permitiu acesso às terras que se tornariam China aos incontáveis agrupamentos que vagavam atrás dos rastros de caça. O povoamento processou-se, assim, no agitar-se de um caldo composto por nada menos que 56 etnias, a partir dos fluxos migratórios do pós-neolítico – por volta dos 3000 a.C. -, que foram descendo as estepes frias e instalando-se no ameno norte-nordeste asiático, contornando, depois, o inóspito deserto central, na direção centro-sul e sudeste, seduzidos pela abundância que a natureza proporcionava ao longo das bacias hidrográficas e na faixa costeira dos mares Amarelo e da China. Ali, onde tudo era favorável, puseram-se a cultivar, durante uma centena de gerações, uma frágil e difícil semente de nação.

De início, as diversas etnias se fixaram e proliferaram segundo suas próprias vontades, fundando povoações, desenhando uma geografia humana multilingüe e plural; uns dedicando-se à caça, outros à agropecuária; uns dando ênfase às artes literárias, outros a artefatos em cerâmica, cobre, bronze e madeira; outros, ainda, na produção de mentes habilitadas à reflexão filosófica, moral e ética. Alguns preferiram voltar-se à pesca, outros ao cultivo da seda. A seguir, com o passar dos séculos, acabaram invariavelmente desenvolvendo sociedades agropecuárias às feições de um “feudalismo laico”, praticando acumulação primitiva sob a égide de donos de terras e exércitos, os mesmos que iriam tornar-se reis, príncipes, barões, mandarins, suseranos de vários quilates incumbidos de prover segurança e sustento a uma gente, à qual, em troca, cobravam obrigações, parte da renda sobre as terras que cediam para a lavoura e a pecuária, afora isso exigindo engajamento familiar e hereditário em ações militares, quando necessário.

Os nobres, progressivamente fortalecidos com a centralização, passaram a olhar as outras terras com um misto de cobiça e temor. Empenharam-se, então, em montar e adestrar efetivos armados que garantissem a defesa ou (por que não?) um eventual ataque, desenvolvendo, com isso, estratégias guerreiras, armamentos, conceitos de fortificação, deslocamento e aprovisionamento de tropas. A vida política e social estava exclusivamente voltada à guerra.

O objetivo implícito: hegemonia.

Anexar, para não ser anexado.

As lutas fortaleceriam algumas casas nobres, as mesmas que iriam gerar futuras dinastias e reis, unindo aristocracias guerreiras coligadas em projetos de conquista, expansão e supremacia. Não tardariam os inevitáveis engalfinhamentos internos, as alianças, anexações e definição de fronteiras. Sim, havia que assegurar os territórios cada vez mais vastos: Estados resultantes da supremacia e do... progresso (progresso tão peculiar, fomentado a ferro e sangue, sina da trajetória humana). O progresso gerava mais riquezas, que, por sua vez, geravam mais progresso, exigindo, a sustentá-lo, estrutura política apoiada num poder central que organizasse de forma racional as tantas e muitas questões relativas a administração, comércio, sistemas de venda e troca, organização produtiva, segurança, administração, tributação, legislações, comunicações, pedágios, transportes, preservação de fronteiras, padronização idiomática; questões que levarão à idéia da unificação, por tratar-se, já naquele momento, de questões da organização coletiva, primeiro patamar da pauta questões nacionais.

Dessa forma, e no transcorrer de mais de dois milênios, agruparam-se terras e centralizaram-se regiões, em processo cada vez mais abrangente. Os Estados regionais foram tomando formas que comporiam o painel definitivo de um Estado Central. Partos complicados, dolorosos, sangrentos, barulhentos; mas ponto de partida à estonteante fase dourada que eternizou China como a civilização da sabedoria, da arte e do refinamento. As sucessivas casas primordiais, dinastias várias como Yu, Chi, Hsi, Yin, Chan, Lu, Chou, Tcheu, Yuen, Wu, Wei, Tsi, Shu, somaram-se e fundiram-se no propósito histórico de produzir um Shih Huang-Ti, que, em 221 a.C., submeteu províncias e Estados autônomos para fundar um Estado Unificado sob o mando da dinastia Chin (ou Qin) – a nação China, afinal.

O Japão, à época, pela ação das migrações tribais advindas da Sibéria Oriental, Coréia e norte da China, a se estabelecerem nas ilhas mais favoráveis do arquipélago, assimilava os primeiros rudimentos técnicos, mitos religiosos e noções de ordenação social. Abrindo olhos à luz em espasmo inaugural, no exato momento em que a vizinha China conquistava maioridade política, administrativa e cultural como nação soberana e integrada, algumas das ilhas que iriam constituir o futuro Japão ensaiavam o seu primeiro estertor de civilização.

A evolução das sociedades ilhotas iniciou-se efetivamente nos primórdios da era cristã - a partir do século 3 -, conforme os registros históricos locais, adotando de início as linhas básicas da organização social chinesa pré-unificação. A escrita chinesa, devidamente adaptada às peculiaridades fonéticas das etnias regionais, foi tomada de empréstimo, assim como as artes ornamentais e, posteriormente, por volta de 500 d.C., a religião budista, que vazara da Índia para os territórios do Yang-Tsé. Predominavam, então, grupos familiares a dominar terras autônomas, tateando ações de política primitiva sob o peso das armas. Devido à exigüidade territorial, circunscrita pelo mar, suas primeiras tentativas de expansão teriam de ser rumo ao território continental mais próximo; no caso, Coréia.

A China, modelo cultural, parceira de primeira hora, proporcionou as formas administrativas, econômicas e políticas a um Japão que nascia; e também lhe ofereceu princípios morais, religiosos e rumos estilísticos, até o país estruturar-se suficientemente para o exercício da política, inaugurando dissensões e conflitos que se alastrariam pelo arquipélago, abrindo caminho à unificação interna, que iria propor novos rumos às relações internacionais, afetando em especial os interlocutores de praxe – a própria China e a Coréia.

O que marcou o sistema político japonês, naquilo que o distinguiu do chinês, foi a predominância associativa em redor dos núcleos familiares. Diferentemente das casas nobres chinesas, nas quais era praticamente irrelevante a interferência de interesses estritamente familiares no exercício da política - estabeleciam relações “de fidalguia” essencialmente como via de entendimento político, projetadas de dentro para fora do espectro doméstico (anexações, alianças e diplomacia) – as articulações e relações sociais japonesas caminharam sempre ao encontro dos interesses nucleares de clãs (de fora para dentro), ao modo das condensações eminentemente primitivas, rurais e tribais. Tal modo de evolução projetou sobre a sociedade, como um todo, configurações políticas e morais próprias de sistemas fechados, excludentes, confinando as elaborações políticas, morais e culturais no âmbito de uma notada fixação fetichista ao detalhismo, ao formalismo e ao ritualístico, confundida por vezes como busca da perfeição (que também é marcada por tais disposições). É questão que pode parecer irrelevante ao foco central do estudo, mas ilustra as características psicossociais de um povo e, conseqüentemente, de uma nação. Clarifica constatações empíricas sobre reações típicas, individuais ou de massa perante instâncias tidas “superiores” ou “transcendentes”, tais como culto à honra pessoal, cega fidelidade, autoflagelação, o suicídio e a consagração divinatória das lideranças.

Por isso, se a história da China é a crônica dos sucessivos reinos e dinastias associativas e étnicas, a do Japão é a dos reinos e dinastias familiares exercendo papéis aglutinadores, apoiados em relações de parentesco e adesão a clãs. Havia uma gama de clãs secundários, cada qual com sua estrutura interna de hierarquia, a prestar obediência ao predominante, a quem se pagavam tributos, serviços e honras; isto apesar da autonomia que gozavam quanto à resolução de assuntos internos (esfera familiar), com leis próprias e garantidas por milícia privada. Foram, assim, exércitos privados cedidos pelas famílias nobres que atuaram por requisição do império, após a reforma política que concentrou o poder nas mãos do Estado Imperial sob a força da espada, no século 8, para debelar levantes budistas levados por monges inconformados com a perda dos privilégios clericais anulados pelo imperador.

Não foi tranqüilo o processo. A fragmentação territorial, que sempre lhe foi problemática, além dos poucos recursos naturais, impulsionou rapidamente o país na trilha do belicismo, até por necessidade de subsistência. A via de expansão possível era a região leste/sudeste do continente asiático. Para isso, era forçoso ultrapassar Coréia, Rússia Oriental e China. Rivalidades entre clãs, além das contínuas rixas territoriais e religiosas, foram outros fatores a dificultar o alcance de uma unidade interna. Houve épocas de conflagração acentuada, em que se contestou e se pôs em disputa a supremacia dos clãs dominantes, e também a dos imperadores, ameaçados por núcleos oligárquicos regionais insatisfeitos com taxações e obrigações, pelo antagonismo permanente entre clãs e pequenos proprietários lesados em acordos e subornos, e pelo clero budista, cuja influência cresceu a ponto de ameaçar o equilíbrio político, concentrando enorme volume de patrimônios recebidos por doação dos fiéis. Os comandantes militares avulsos, originalmente a soldo do império, à época da campanha de consolidação da reforma – shoguns –, foram alcançando status de força autônoma, apoiados em exércitos samurais aos quais se ligavam por laços de fidelidade entranhados na honra e no sangue (outra vez, familiares). Elementos decisivos na corrosão da estrutura de poder imperial, os shoguns lançaram, a partir do século 10, ataques devastadores às fortalezas do império, acabando por obter, no século seguinte, supremacia de fato no cenário político, inaugurando a série dos 3 shogunatos que iriam administrar efetivamente o Estado sob regime semimilitar dos comandos bakufu (que durariam até o ano de 1867), à revelia da anulada vontade imperial.

A era shogunato foi marcada pela vigência de um código feudal intimamente ligado aos conceitos de mando senhorial, fidelidade, culto ao nome familiar, honra pessoal, autoflagelação e auto-imolação para efeitos de purificação e remissão. Foram etapas de transições e exacerbações, agravadas pelos conflitos advindos da agressividade guerreira de Gêngis Khan, braço armado do expansionismo mongólico, sob Kublai Khan, que se lançou contra a China instaurando a dinastia Yuan; pelas lutas anti-restauração contra forças imperiais remanescentes; pelas primeiras investidas da Europa colonialista, em meados do século 14, com as ordens católicas de Portugal e Espanha enviando seguidas incursões catequistas e, finalmente, pela emergência irresistível de uma classe senhorial de bases rurais que, com o enfraquecimento do governo central, tornou-se mais rica e poderosa. Apoiada nos seus exércitos samurais, varreu as antigas estruturas e apossou-se da máquina política, subjugando clãs tradicionais, líderes provinciais e a nobreza regional. Os daymios (como foram denominados) e seus shoguns reformariam as funções do Estado, incrementando pela primeira vez a política externa, o comércio exterior, a abertura religiosa (ao cristianismo ocidental) e demais reformas, que juntamente à implantação de uma manufatura pré-industrial iriam preparar a nação japonesa para a transição à Idade Moderna.

Nesse ínterim, houve conflagrações internas, rebeliões, tratados entre clãs e daymios, traições, extermínio de famílias inteiras, juntamente com agregados, perseguição a sacerdotes budistas e católicos, torturados e chacinados ao sabor dos caprichos do poder e dos interesses político-econômicos de ocasião, guerras contra a Rússia e a Mongólia pela região estratégica da Manchúria, pressão, terror e chacinas contra a própria população, além de incontáveis haraquiris individuais e coletivos. A circunscrição familiar mostrava sua face problemática, permeando por inteiro as relações sociais, políticas e econômicas de um país a se modernizar em alta velocidade. Houve igualmente, nesse ínterim, a reflexão, o cultivo dos jardins zen, a proliferação das cerejeiras, o gestual kabuki, o haicai livremente burilado e arredondado no absoluto silêncio, no traçado de densa conotação do ideograma que ambiciona abarcar o universo; enfim, o cataclismo e a aridez, mas também a semeadura e a colheita de inestimáveis safras de elaboração criativa em contida inquietude e fervilhante placidez.

A constituição da nação japonesa moderna realizou a fusão impossível (a transfusão do fugaz no permanente) das tradicionais heranças familiares fundadas em rigor moral, honra e responsabilização pessoal com o pragmático “vale-tudo” utilitário, diluidor e amoral da sociedade industrial do ocidente. Princípios éticos e flexibilidade mercantil, honra individual e massificação de classe, vassalagem e salário, namyohôrenguêkyô e Sancta María Mater Dei ora pro nobis peccatóribus nunc et in hora mortis nostræ amen, devoção figadal e assessoria profissional, bushi e operário, família e corporação, absoluto e relativo, gritos kenkyakus e sussurros de gabinete; extremos subitamente mesclados e confundidos no fragor das siderúrgicas produzindo aço para frotas de guerras, obuses, baionetas e canhões; diluídos na exasperante lentidão de um samurai afiando a lâmina, na catatônica brutalidade com que o mesmo samurai emascula o oponente, no slow motion com que se ferve a água e se serve o chá, no áspero e gutural tom com que o shujin profere ofensas, ordens, ameaças ou elogios, na concisa precisão poética de mínima retórica, na impávida indiferença com que servos marcham para a morte, no eterno repouso do Fujiyama nevado, no frenesi das labaredas que tostaram monges e frades. Lava e gelo, deus e diabo, noite e dia, ordem e caos, nuvem e barro, morte e vida; tudo em tão poucas, tão insuficientes décadas.
Inimaginável mistura, inimagináveis resultados.

A China, enquanto isso, desdobrava-se na administração do caldeirão étnico que acabou esfacelando o Primeiro Império do carismático unificador Huang-Ti, após 15 anos de reinado. A hegemonia da dinastia Chin, da qual fazia parte o governante, desagradava às outras etnias. Essas, através de suas aristocracias feudais, ensaiavam insistentes sinais de insubordinação. A imposição dos dogmas culturais Chin levou insatisfação aos demais centros de produção intelectual do país, confrontando tendências acadêmicas e filosóficas, e inviabilizando a imprescindível adesão moral de que todo projeto unificador necessita. O que ainda fez retardar o ímpeto desintegrador, à parte supremacia militar e a figura emblemática de Shih Huang-Ti, foi a ameaça representada pelas tribos tártaras, que tentavam adentrar pela Mongólia, ao norte, mobilizando a população chinesa como um todo à defesa e à edificação do embrião da monumental muralha – que nada mais era, no início, que diversas muralhas defensivas erigidas pelas casas nobres antes da unificação – ao custo de extraordinários recursos materiais e esforço humano, e proporcionando uma providencial “união nacional” que desviou por algumas décadas o foco sobre as questões internas. A dinastia deteriorava-se, porém, dia após dia, ante o inconformismo da aristocracia rural, dos pequenos proprietários, dos outros segmentos étnicos e da intelectualidade, principalmente após uma pesada repressão, seguida da imprudente queima de livros que abriu campo às hostilidades abertas contra o regime.

A morte do imperador Huang-Ti mergulhou o país no caos da guerra civil. Facções étnicas e militares se atracaram em sangrentos enfrentamentos pelo espólio de uma dinastia em completa desagregação. Incertezas e anarquia dominaram a cena política por cinco longos anos, até um guerreiro autônomo, de nome Liu Pang, marchar contra a capital Loyang, desfechar o golpe de misericórdia contra Chin, inaugurando a dinastia Han e transferindo a capital do governo para Changan. Liu Pang apossava-se, na ocasião, de um império que se equivalia ao romano, em dimensões, riqueza e poder.

Mas a unidade se rompera, para voltar a se recompor somente 22 séculos depois.

Não sendo esta uma explanação detalhada da história da China, cabe dizer apenas que os períodos dinásticos, após o Primeiro Império, foram marcados por acordos, traições, dissimulações, concessões, ameaças, chantagens, corrupções, conflitos internos, guerras externas, mudanças de comando, divisões territoriais, seguidas fragmentações e reunificações; tudo caracterizado por ações de extrema violência ideológica e militar, num quase retorno ao feudalismo. As forças políticas regionais instalaram centros de mando em suas respectivas localidades hegemônicas ou submissas, de acordo com as circunstâncias, causando a ruptura do poder central e destroçando a unidade necessária à evolução equilibrada das forças produtivas nacionais. Um país politicamente fragilizado favorece rebeliões internas e incursões invasoras. A forma clássica de enfrentar crises foi sempre a escalada expansionista. Com isso, anexou Coréia, Turquia Oriental, Tibete, Manchúria, partes da Índia e Birmânia, e arcou com as conseqüências, desgastando-se na onerosa manutenção das possessões, lutando contra as inevitáveis lutas nacionais por soberania.

A destacar, nesta ligeira passagem pela trajetória das dinastias chinesas: várias idades de ouros nos campos da arte e das ciências, dentre elas, a do século 8, durante a dinastia Tang, iniciada por Kao Tsu; a introdução do papel-moeda, da pólvora, do lança-chamas, dos canhões e a formação de fortíssima armada durante a dinastia Sung, quando prevaleceram as artes da guerra; a vitória de Gêngis Khan contra o exército imperial, submetendo toda a China ao poder de Kublai Khan, líder do império mongol, que transferiu a capital para Pequim, decretando o fim da dinastia Sung e o início da Yuan, em 1200 d.C; a era de prestígio e prosperidade durante a dinastia Ming, que à parte expulsar o invasor mongólico e empreender vitoriosas campanhas de conquista contra Sião, Vietnã, Coréia, Turquestão e Manchúria, despachou frotas à Ceilão, Sumatra, Oriente Médio e África. Desentendimentos crônicos com o vizinho Japão, por questões territoriais, ocorriam com indesejável freqüência. Aportaram as primeiras caravelas de expedições navais ocidentais, a começar pelas portuguesas, como a de Vasco da Gama, logo secundadas pelas holandesas e espanholas, que, entre outras coisas, introduziram o cristianismo. A ascensão manchu, aproveitando-se da passividade militar da Casa Ming, veio desde o deserto norte, ultrapassou a Grande Muralha, e instalou-se em Pequim, instaurando, em 1644, a dinastia Ching. A Idade Moderna atingia seu auge na Europa e alastrava-se a todos os quadrantes do mundo através de navegadores, soldados, comerciantes, aventureiros, artistas e estudiosos de todas as áreas do conhecimento humano.
A China do ano 1867 era uma criança com pouco mais de 5000 anos, à mercê da diplomacia especializada empreendida pelas nações industriais da Europa e os EUA. Arrasada pelo recente confronto motivado pelo ópio britânico manufaturado em Bengala, possessão de Sua Majestade Real, cujo comércio (tráfico legal) os governantes manchus tiveram a ilusão de pretender bloquear (chegando a lançar cargas de ópio ao mar), a China assistiu impotente à ação modernizadora das potências ocidentais – Grã-Bretanha à testa, mais EUA, França, Bélgica, Suécia, Alemanha, Holanda... e todos os que chegaram a tempo – que a retalharam em territórios privados, zonas de influência e reservas de mercado.

Em tempo: pelos onerosos massacres, represálias e bloqueios que forçou a “civilização” a praticar, praticou ao menos o civilizado ato de pagar indenização a todos.

Enfim, capengando, rastejando, arfando e sangrando, o povo chinês, sob a cada vez mais inócua dinastia manchu, iria finalmente desfrutar as benesses da modernidade: máquinas e cortiços, bancos e assaltantes de banco, catedrais e prostíbulos, recompensa e castigo, casas de chá e câmaras de tortura. O chinês, ente de segunda classe, submetido ás implacáveis leis locais, foi por fim apresentado ao ocidental first-class, inimputável, submisso tão somente à moderna legislação de seu próprio país natal, situado a oceanos de distância (ou seja, a nenhuma lei).

Inimaginável situação, inimagináveis resultados.

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Respostas a este tópico

Numa visão marxista e pessoal da ásia, a partir de 1854, acredito que a restauração meiji tenha sido uma espécie de delegação britânica de interesses colonialistas regionais no sentido de manter rivais em potencial( China, o próprio Japão e o reino Thai) se engalfinhando pela sobrevivência política, já que, em termos nacionais, todos eles tinham dissensões internas(a pluralidade de etnias chinesas, as duas ou três conflitantes na Thailandia e, no japão, Ainos e Japoneses).
É bom lembrar que Japão e Grã-Bretanha foram "aliados" até o famoso tratado de Washington, que dispôs sobre a tonelagem naval das marinhas de Guerra(três couraçados para USA, três couraçados para GB, 1 couraçado para o Japão).
Quanto a China, ela sempre foi vista como fornecedora de matéria-prima, mão de obra escrava e mercado consumidor, estando no mesmo pé que a índia. Acredito que, hoje em dia, a China, ao cooptar a ideologia de mercado, utilizando técnicas fordistas de produção (excesso de mão-de-obra+ produção em massa), vá- em um prazo máximo de uma década- liderar a economia mundial, introduzindo uma nova forma descartável de consumo, sem garantia e sem qualidade, tornando o quebrável e destrutível em objeto de desejo.
A política de "Boa vizinhança e influência", iniciada pelos EUA em consõlo à primeira guerra nuclear da história, encerrou seu ciclo com a emersão da Coréia como potência industrializada e digital. Basta apenas agora cooptar os norte-coreanos com os bens de consumo idispensáveis que a sua economia carece.
Meiji: Consenso de Washington à época, portal à modernização do Oriente como fornecedora de matéria-prima, mão de obra e potencial mercado consumidor.
Mercado concorrencial pesado: o império britânico tinha prioridades no cobiçado mercado europeu, por pioneira da Revolução Industrial.
Saídas aos "retardatários" Alemanha, Holanda, França, Itália, EUA: saída para o Oriente, corrida do ouro para o Leste, território livre.
Zonas de Economia Especial-séc. XXI: portal à modernização do Oriente como fornecedora de mão-de-obra barata e potencial mercado consumidor.
Mercado concorrencial pesado: Bush, Sarkozy, Putin, G-7 em peso, BRIC, OMC, BM. 1,3 bilhões de chineses, superprodução, território livre.
Saco de gatos, devastação ambiental, pirataria, compra e venda, encrenca.
Cría cuervos...


luiz sergio lindenberg nacinovic said:
Numa visão marxista e pessoal da ásia, a partir de 1854, acredito que a restauração meiji tenha sido uma espécie de delegação britânica de interesses colonialistas regionais no sentido de manter rivais em potencial( China, o próprio Japão e o reino Thai) se engalfinhando pela sobrevivência política, já que, em termos nacionais, todos eles tinham dissensões internas(a pluralidade de etnias chinesas, as duas ou três conflitantes na Thailandia e, no japão, Ainos e Japoneses).
É bom lembrar que Japão e Grã-Bretanha foram "aliados" até o famoso tratado de Washington, que dispôs sobre a tonelagem naval das marinhas de Guerra(três couraçados para USA, três couraçados para GB, 1 couraçado para o Japão).
Quanto a China, ela sempre foi vista como fornecedora de matéria-prima, mão de obra escrava e mercado consumidor, estando no mesmo pé que a índia. Acredito que, hoje em dia, a China, ao cooptar a ideologia de mercado, utilizando técnicas fordistas de produção (excesso de mão-de-obra+ produção em massa), vá- em um prazo máximo de uma década- liderar a economia mundial, introduzindo uma nova forma descartável de consumo, sem garantia e sem qualidade, tornando o quebrável e destrutível em objeto de desejo.
A política de "Boa vizinhança e influência", iniciada pelos EUA em consõlo à primeira guerra nuclear da história, encerrou seu ciclo com a emersão da Coréia como potência industrializada e digital. Basta apenas agora cooptar os norte-coreanos com os bens de consumo idispensáveis que a sua economia carece.
Liu, este teu texto não é para ser lido simplesmente. É para ser estudado. Desfrutado. Aliás, tem momentos literários belisíssimos. Você o tinha guardado, esperando pelas Olimpíadas? abração. luzete
Salve, Luzete,
É um texto que fui compondo aos poucos, na verdade um capítulo que fazia parte de uma encomenda, um livro esmiuçando a guerra sino-japonesa, que depois acabou não indo adiante por conta de sucetibilidades várias. Para não adotar postura revanchista ou de vitimização, fui desenvolvendo (tentando, pelo menos) uma abordagem histórica, algo na linha close-up/panorâmica, de modo a situar o acontecimento dentro de um todo abrangente, global.
Foi tema que acabou suscitando variada gama de emoções, que acabaram se refletindo no texto (contaminação), o que não é exatamente recomendável.
Caso se interesse, apenas como curiosidade, posso ir passando alguma coisa mais. Afinal, é história, apenas isso. Nada de chauvinismos ou ressentimentos, senão a gente pira.
Abração e obrigado.
Liu

luzete said:
Liu, este teu texto não é para ser lido simplesmente. É para ser estudado. Desfrutado. Aliás, tem momentos literários belisíssimos. Você o tinha guardado, esperando pelas Olimpíadas? abração. luzete
:) Liu, que texto maravilhoso. Uma aula bastante oportuna quando os olhos do mundo estão voltados para a China, e podemos admirá-la em toda sua grandeza. Quem não o fizer, é por mero despeito de uma grande nação.

Temos muito a aprender, com os 5000 anos de história, e tão pouco a ensinar a este nobre povo...

:)) "Um mundo, um sonho", um dia ...estarei lá!

Um abraço,

Dulce.
Olá
Obrigado.
Às vezes tenho receio de inserir textos e estes serem vistos como apologéticos, ufanistas ou "chapas-brancas". Não é a intenção. Problema é que há demasiada concentração sobre as questões econômicas, crescimento do PIB, abertura ao mercado, etc. Parece que China só começa a valer a pena à medida em que se ocidentaliza.
O que veio anteriormente, então, vira folclore, bibelô, artes decorativas...
Não vejo o passado como saudosismo, mas patrimônio sócio-cultural essencial para se entender o processo presente.
Abraço


Dulce Leão said:
:) Liu, que texto maravilhoso. Uma aula bastante oportuna quando os olhos do mundo estão voltados para a China, e podemos admirá-la em toda sua grandeza. Quem não o fizer, é por mero despeito de uma grande nação.

Temos muito a aprender, com os 5000 anos de história, e tão pouco a ensinar a este nobre povo...

:)) "Um mundo, um sonho", um dia ...estarei lá!

Um abraço,

Dulce.
Liu, para mim seria muito interessante compartilhar mais desta sua leitura, que vc diz contaminada, como sei isto fosse defeito. Eu vejo como virtude. E como se diz: quem quiser que conte outra, não é não?!

Eu mesma imprimi o texto para desfrutar melhor da leitura...

abração.


Recado prô Jair:

jair. jair. espero que vc não me inclua entre o/as milindradas... se houver divergência a colocarei... não é isto aqui um forum... exatamente para debater? então! vamos em frente...
Oi Dulce!!!!!!!!!!!!!!!!
Desculpando-me pela frivolidade:
Será tremenda injustiça se Dulce Leão não for do signo "Leão"!

luzete said:
Oi Dulce!!!!!!!!!!!!!!!!
nossa, de repente me vi envolvida com tantos grupos que mal dá tempo de acompanhar tudo, e ainda tem as olímpiadas... e eu com esta velha mania de torcer pelo Brasil.... e, quando não é mais possivel, torço pela China. assim faço uma média com o Liu e ainda fico contra os americanos... hahahahahahah

Mas, Liu, uma pergunta:
é impressão minha ou o povo japonês guarda certa "parecença" com o brasileiro: é ele um pouco gozador, divertido, irreverente, feito a gente aqui (inclusive vc, que tem um excelente humor)? aquele tipo "cara folgado", vc me entende?
Olá, Luzete,
Uma confissão (só entre nós): torci pelo Phelps!!!!! (buááááá!).
Mas no fim acho que o "nosso" Cielo saiu bem mais feliz com a medalhinha dele do o gringo com aquele caminhão de ouro. Honra ao mérito!
Sobre o povo japonês, os jovens se integraram, os esportistas ainda mais. Treinam todos em Chigago, Montreal, Frankfurt, Carapicuíba...
A velharada é mais contida, na base do "rái, rái, rái"... Os jovens estão iguais, no mundo todo. Tem japonês punk, rapper, jazzista, de tudo. E japonês é peculiar: quando nasce certinho, não tem "cdf" igual, mas quando nasce torto, é mais tranqueiro que todo mundo. Aliás, nós também, né?
Abração e boa praia!
Liu

luzete said:
nossa, de repente me vi envolvida com tantos grupos que mal dá tempo de acompanhar tudo, e ainda tem as olímpiadas... e eu com esta velha mania de torcer pelo Brasil.... e, quando não é mais possivel, torço pela China. assim faço uma média com o Liu e ainda fico contra os americanos... hahahahahahah

Mas, Liu, uma pergunta:
é impressão minha ou o povo japonês guarda certa "parecença" com o brasileiro: é ele um pouco gozador, divertido, irreverente, feito a gente aqui (inclusive vc, que tem um excelente humor)? aquele tipo "cara folgado", vc me entende?

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