Há cinqüenta anos atrás, John Kenneth Galbraith publicou um clássico livro sobre as transformações que se passavam no capitalismo. A sociedade afluente foi traduzido para diversos idiomas e instigou reflexões sobre os rumos das sociedades industriais. Em um dos capítulos do respectivo clássico, Galbraith questiona até que ponto a soberania do consumidor se sustenta como um fato.

Em síntese: “À medida que uma sociedade se torna mais afluente, as necessidades são cada vez mais criadas pelo processo por meio do qual são satisfeitas” (Galbraith essencial. Futura, 2007. p.47). Uma pessoa com fome não precisa ser informada sobre a sua necessidade de alimento. Ela simplesmente sente uma necessidade. Para as necessidades de segunda classe, ou seja, aquelas resultantes do esforço de manter-se adiante ou acima do seu próximo, quanto maior o seu nível, mais altas elas serão. Elas são praticamente insaciáveis, afirmou John M. Keynes.

Como economista institucionalista de corte liberal-democrata, Galbraith afirma que não se deve simplesmente defender qualquer forma de produção para satisfazer as necessidades individuais das pessoas. Em sociedades brutalmente desiguais em termos de distribuição de renda, o quadro analisado por Galbraith torna-se ainda mais dramático. Até que ponto a modernidade associada aos padrões de consumo propagados pelos grandes interesses pecuniários estabelecidos está em consonância com as reais necessidades das sociedades retardatárias e, em que medida, ela se associa a uma estratégia de desenvolvimento sustentado para essas respectivas sociedades?

A crise cambial brasileira de 1998 ainda deveria levantar uma série de questões. O populismo cambial e a indução do consumismo desenfreado traduzidos como “políticas de modernização” contribuíram para que a dívida pública per capita brasileira aumentasse de R$1.000,00 para R$5.300,00 entre 1995 e 2002. Os setores privados claramente dominaram os gastos públicos nesses anos de forma perversa. A desnacionalização de empresas e setores, por sua vez, e a liberalização da conta de capitais foram justificadas como partes integrantes da marcha para a modernidade liberal-internacionalista. Muitos alegavam que se tratava do fim da história e que, portanto, não havia muito a ser feito nacionalmente. Pouco importou se empregos fossem perdidos e tampouco se capacidades tecnológicas nacionais sucumbissem. Nas sociedades democráticas mais desenvolvidas, onde a coesão nacional é maior, dificilmente se aceitaria passivamente tamanha rendição e atestado de incompetência da parte das elites.

No que diz respeito à metade da população economicamente ativa brasileira que se encontra no desemprego ou no subemprego, não se deve esperar uma resposta razoável da parte da sabedoria convencional tupiniquim estruturada em torno da corrente dominante da teoria econômica. Para muitos dos seus mais ortodoxos adeptos, revela-se muito mais seguro possuir uma âncora firme na insensatez do que navegar nas águas revoltas do pensamento crítico.

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Ôôôôô, nóis aqui travêiz!
Ei, deixa o Rodrigo em paz, meu!
Qualé essa de qualidade do consumo?! Que é isso? Agora você está relaxando, baixando a guarda.
O Rodrigo está falando de economia clássica, em tese, antítese e síntese, nada de hic et nunc. Ele está falando em sociedade afluente (macro) e você rebate com classes C e D (micro contingencial). Ele está em 1998 e você está comendo 10 anos!
China vem aí. 1,3 bi de voracidade. Pau na máquina.
Voltemos a Malthus, ou Darwin, Hobbes?
Apocalipse Now?
Power to the people?
Lembra de "Alice", Lewis Carrol? "De onde você vem, basta correr pra se chegar a outro lugar? Aqui, é preciso correr a toda velocidade pra permanecer onde está".
Liu

Está tudo bem. As divisões entre as áreas dos saberes são apenas convenções das ciências constituídas. Há certamente fronteiras, ainda que problemáticas, sujeitas a críticas e revisões.

A obra de Keynes, mais especificamente Teoria geral (1936), é um grande exemplo de construção de um arcabouço teórico integrador. Keynes não atacou a teoria neoclássica, apenas a sua ortodoxia. Ele cita respeitosamente Marshall, Pigou e até mesmo os clássicos, como Malthus e Smith.

Ludwig von Bertalanffy, por sua vez, é um nome importante no campo da teoria geral dos sistemas. Veblen também é muito interessante na análise institucional, ou seja, das crenças e formas de pensamento constituídas numa sociedade organizada.

Coloquei o livro do Veblen sobre a teoria da classe ociosa após o artigo principal. Os teóricos evolucionários da mudança tecnológica incorporaram idéias desenvolvidas por Veblen.


Cordialmente,

Rodrigo
ARKX

Celso Furtado foi um dos maiores nomes do pensamento crítico latino-americano do século XX. Sem sombra de dúvidas. Tive a satisfação intelectual de estar perto lado dele em alguns poucos momentos. Nunca irei me esquecer. Furtado me ensinou na prática como se pode conciliar força moral com refinamento intelectual. Além disso, Furtado sempre acreditou no potencial do Brasil como nação.


Um abraço,

Rodrigo
Prezados Rodrigo e arkx
Tudo bem, na boa, como brinquei com o querido Jair, pavio curto (curtíssimo) mas cara superhipergentefina: "O sonho não acabou, pelo menos na padaria aqui na esquina".
Consenso, só o de Washington, certo?
Abraço e vamos.
Liu

Precisamos mesmo ter cuidado com o uso das palavras escritas.

Cordialmente,

Rodrigo
Caro Arkx,permita-me discordar da sua observação,quando você tenta comparar o citado crescimento do Brasil(do país,não dos brasileiros)nos tempos do governo JK e Geisel,quando tudo foi feito para enriquecer os já ricos,e que nada acrescentou à classe trabalhadora,e os tempos atuais,onde a preocupação do governo é antes de mais nada,dar cidadania a todos,e o que seria dar cidadania? No meu ponto de vista é dar poder de compra aos trabalhadores que sonham em ter qualidade de vida,e poder usufruir de um futuro melhor e com mais tranquilidade.
Enquanto cidadão observador,quando é que o amigo viu uma sociedade com um poder de compra tão alto,comom o da sociedade atual ?
Raí

JK foi um brasileiro raro, do tipo que acreditava no Brasil. Ele assumiu o governo em condições precárias e mesmo assim mostrou-se hábil para implementar o Programa de Metas. Geisel foi um presidente com visão estratégica de país. Pode-se questionar o regime militar por diversos motivos, mas não se pode negar que havia um projeto de Brasil Potência.

E na Nova República? Enfrentamos 25 anos de semi-estagnação e desajustes de diversas naturezas. Pelo menos vivemos em um contexto democrático. Sinceramente, recomendo o livro republicado pela Companhia das Letras, Criatividade e dependência na civilização industrial, do Celso Furtado.


Cordialmente,

Rodrigo

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