A Lingüística e o talvez peremptório de Caetano Veloso

Se há um artista brasileiro que diz sim para dizer não, e acaba reafirmando o seu talvez definitivamente é Caetano Veloso. Com essa des-retórica genial, Caetano consegue levar pessoas a pensar que estão fazendo grandes discussões.

Atenção ABRALIN: o próximo congresso não precisa se preocupar com as desafirmações de Caetano sobre a Lingüística. Caetano é poeta, é artista e está já imunizado contra a necessidade de certezas. Mas qualquer pessoa, mais ajuizada, não vai passar pelo vexame de dar muita importância ao que, em Caetano, é aparentemente peremptório.

Caetano postou ontem em seu “Obra em Progresso”, o blog, um post sobre “Lingüistas”, que está dando o que falar.

É relevante na medida em que ele põe num mesmo texto muitos dos discursos possíveis sobre os lingüistas. Os contrários, os favoráveis. E também sobre a língua: o reconhecimento do dinamismo da língua, a defesa apaixonada da chamada norma culta etc. E concorda com todos estes pontos de vista ao mesmo tempo. Isto não é contraditório. É Caetano. Seria contraditório se deixasse de sê-lo.

Mas também, com isso, não firma muita posição sobre nada. E ninguém esperaria que firmasse.

Levanta uma polêmica: a do “populismo lingüistico”, como se a Lingüística, como ciência, pudesse fazer escolhas, diríamos, de marketing político. E particulariza como tendência brasileira questões universais (ciências são universais).

Como disse que leu Saussure e quem sabe Chomsky, deve ainda acreditar que a Lingüística é aquele "UM da estrutura", o monolito bem montado. Nada. Se existe um campo que não diz uma coisa só é a Lingüística: mil faces.

Mas há algo em comum: lingüistas do mundo inteiro sabem diferenciar “gramática normativa” de “língua”, e sabem também que a língua é uma força viva, a mais familiar das estranhezas. Algo que nos separa do bicho, e nos diz quem somos. Mas que mesmo assim sempre nos surpreende.

Caetano desfilou as muitas variações lingüísticas do país: os muitos usos da segunda pessoa. Está atento, percebe-se. E, como artista, deveria estar. No texto, portanto, valoriza a diversidade. Ótimo.

E afirma algumas coisas sem muito sentido, como “Lingüistas criticam pessoas que querem aprender gramática” (transcrição não fiel). Lógico que não. Quem disse? Mas era para defender os gramáticos. Também.

Não dá para fazer um tratado sobre o que disse. Mas dá para brincar um pouco sobre suas palavras. Com essa capacidade, como poucos, de afirmar peremptoriamente o seu talvez.

Ou não.

Exibições: 112

Responder esta

Respostas a este tópico

Não, eu não fui ao blog do Cae... mas sua análise, como sempre, é excelente e, neste caso, foi também divertida.

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço