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A vingança dos heterodoxos

Por Sérgio Léo, Valor

Analistas como Martin Wolff, do "Financial Times", já registraram, no início do ano, a morte do sonho liberal de um capitalismo global regido pelo livre mercado. Faltava um documento oficial para decretar o óbito. Essa certidão acaba de ser lavrada - pela mais heterodoxa das organizações econômicas multilaterais, a Unctad, sigla em inglês da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento.


Críticas como a da Unctad contra o sonho liberal alimentam-se do socorro desesperado do governo dos EUA a bancos e às instituições hipotecárias Fanny Mae e Freddy Mac; da nascente recessão na Europa que se debate entre combater a inflação ou baixar juros; e da emergência das economia asiáticas fortemente impregnadas pelas digitais do Estado. Os economistas da ONU tiraram do limbo peritos de linha heterodoxa, como o neokeynesiano Nicholas Kaldor, para decretar o que chamam de "fracasso do modelo neoclássico", predominante no Ocidente.


"Embora a maioria dos economistas concorde que os pressupostos do modelo neoclássico estão longe da realidade, este modelo continua a servir de base para as prescrições de política econômica", acusa a agência da ONU, no seu recém-lançado Informe de Comércio e Desenvolvimento 2008. O documento combate prescrições do modelo neoclássico que considera baseadas em premissas equivocadas e potencialmente danosas.


Entre as premissas, está a de que os preços são sinais claros do mercado para corrigir distorções de oferta e demanda. A Unctad também combate a idéia de que o investimento para aumentar a produção tem de ser precedido pelo acúmulo de poupança. Contra a teoria tradicional, por exemplo, os países em desenvolvimento com mais investimentos são os que enviam ao exterior mais poupança do que recebem, nota o Informe.


Ao lado de questionamentos teóricos sobre a teoria neoclássica de formação preços, o documento menciona os problemas criados com a influência das expectativas nos mercados financeiro sobre os mercados de mercadorias e a produção real. Os economistas da Unctad não sabem dizer o quanto a especulação influencia a atual alta de preços de mercadorias, mas comentam que a lógica de uma parte substancial dos mercados de futuros e hedge hoje descolou do terreno produtivo e atende a decisões de "diversificação de portfólios de investidores".


Unctad vê fracasso do modelo neoclássico


Em linguagem um pouco mais simples (só um pouco; nada no mundo atual é simples como se gostaria): ao notarem riscos maiores nos mercados de títulos, ou de ações, por exemplo, uma parte crescente de investidores do mercado financeiro tem diversificado aplicações comprando contratos de mercadorias no mercado futuro. Esses operadores não mudam de posições (comprando contratos ou vendendo os que têm) em função apenas da expectativa de mudança nos preços das mercadorias; só mexem em suas carteiras com base no que acontece nos outros mercados. A alteração no humor de investidores ganha efeito desproporcional no mercado de commodities.


"Em vez de reduzir riscos, os complexos instrumentos financeiros desenvolvidos recentemente têm servido para espalhar o impacto de investimentos arriscados através de continentes, instituições e mercados", alerta a Unctad. A interpenetração dos mercados financeiro e de mercadorias e a arbitragem com juros e taxas de câmbio provocam movimentos que contrariam o saber convencional: países com grandes déficits nas contas externas no Leste Europeu vêem suas moedas se valorizarem e países com grandes superávits em conta corrente, como Japão e Suíça sofrem desvalorizações. Políticas baseadas nos pressupostos tradicionais podem exacerbar a crise, acreditam os economistas da ONU.


"Seguindo a agenda do Consenso de Washington, que visava 'obter os preços corretos', muitos países mantém errados dois dos mais importantes preços - as taxas de câmbio e de juros", diz a Unctad. "Isso pode explicar por que o Consenso de Washington não se aplica em Washington: os EUA, depois de flertar brevemente com a ortodoxia monetária no começo dos anos 80, voltaram à sintonia fina da taxa de juros e a uma política monetária extraordinariamente complacente nas últimas duas décadas."


É o tipo de leitura que, se não for descartada imediatamente com risinhos de desdém, poderia animar as reuniões do presidente Lula com seus conselheiros econômicos e o presidente do Banco Central. Mas engana-se quem quiser usar o documento da Unctad para encurralar o ortodoxo presidente Henrique Meirelles: embora condenem o aumento de juros como arma contra as atuais pressões inflacionárias, os autores reconhecem a utilidade da medida onde haja risco de uma espiral de aumentos de preços e salários - e listam o Brasil entre os países em que essa mexida nos juros pode, talvez, se justificar.


Já os nacionalistas encontrarão, no documento, argumentos empíricos para bradar que o petróleo do pré-sal é nosso. Os ganhos adicionais com o abrupto crescimento de preços internacionais de petróleo e minerais chegaram a representar entre 4% a 7,5% dos Produto Interno Bruto dos países exportadores dessas commodities, mas parte dessas receitas adicionais geraram apenas maiores remessas de lucros feitas pelas empresas transnacionais envolvidas na exploração de recursos naturais, afirma a Unctad. Em países como Chile, Peru e Zâmbia, cerca de 60% ou mais dos ganhos com os aumentos de preços foram convertidos em remessas de lucros ao exterior.


O Informe dá argumentos em defesa do crédito dirigido para investimentos, e cita o BNDES brasileiro como bom exemplo. No capítulo de propostas para lidar com a crise mundial, porém, apela para uma utópica coordenação multilateral para criar, nos mercados financeiros e na administração das taxas de câmbio, regras e códigos de conduta como os que a desmoralizada OMC aplica ao comércio internacional. O relatório completo, em inglês ou espanhol, está no portal www.unctad.org .

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

Tags: unctad

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Respostas a este tópico

Nassif, é pio vero. Agora, é lamentável como algo tão razoável e com o qual os economistas dos anos 30 e 40 tanto se debateram seja tão difícil de ser assimilado pela nossa classe política e pela mídia especializada. Quem passou por uma boa escola de economia - e leu algo mais que os manuais - sabe que o nó górdio de todo e qualquer modelo econômico é a questão dos preços. Por um lado, para os neoclássicos e seus derivados (incluso neokeynesianos!!!) o mundo econômico funciona como um mercado de trocas diretas em que a moeda é neutra, ou seja, cumpre as suas funções clássicas, mas não interfere nas relações produtivas. Por outro lado, de um ponto de vista estritamente keynesiano - e hoje pós-keynesiano - a moeda tem papel crucial no sistema produtivo, uma vez que 1) constitui um ativo como outros tantos (commodities, imóveis, títulos, etc) e 2) é gerada endogenamente através das inúmeras inovações financeiras e portanto está fora da alcance dos Bancos Centrais. Foi este o grande legado de Keynes, que as finanças internacionais fizeram jogaram para baixo do tapete.
A este respeito, aliás, vale a pena a leitura de um capítulo da tese de livre docência da Prof. Maria da Conceição Tavares, sob o sugestivo título de 'a explosão do sol". Com muita propriedade, e escrevendo em 1978, ela aponta para o fato de que, em uma economia permeada pelas finanças (onde a moeda é um ativo e portanto afeta o produto real) o sistema de preços não possui qualquer âncora real, quanto mais porque os três preços fundamentais do sistema - taxa de câmbio, taxa de juros e salários - sempre serão objeto de disputas políticas entre nações, entre classes, entre produtores e, principalmente, entre detentores de riqueza, condenados à incessante tarefa de denominar seu capital em termos do ativo que esteja se valorizando ante os demais. Diante de tamanhas forças disruptivas, não há razão para acreditar na lei de oferta e procura ou na eficiência alocativa dos mercados.
Como lembra o Belluzzo, foi com base nesse diagnóstico que Keynes traçou as linhas de sua utopia de uma "economia monetária de produção". Com o controle da moeda internacional a cargo de uma autoridade supra-nacional e garantida uma regulação restritiva dos fluxos de capital, criar-se-iam as condições para que a valorização do capital se desse prioritariamente através das inversões produtivas.
Isto feito, estaríamos no melhor dos mundos: aptos a usufruir das virtudes do capital, mas protegidos de seus vícios.
PS: e por falar nestes assuntos, cabe um comentário sobre o Marcos Lisboa. O sujeito pode até ter boas idéias quanto à gestão, mas é notória a sua tibieza quando o tema é macroeconomia. Aliás, ele expressa em alto e bom som que a macroeconomia não existe, é apenas a soma das variáveis microeconômicas, desconhecendo portanto todo essa problemática da financeirização econômica (i.é., a falta de âncora no sistema de preços)
Com uma perspectiva simplista, mas um aparato sofisiticado, ele professa e convence os incautos que, garantidas as eficiências parciais (por isso a gestão é tão relevante), chega-se à eficiência do todo.
Ora pois!!!

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