A transcrição publicada na revista Veja de um grampo ilegal envolvendo mestre Gilmar e o senador Demóstenes é surpreendente - insólita.

Mas o insólito, como ensina o poeta Manuel de Barros instaura o artístico:

“Ao lado de um primal deixe um termo erudito.

Aplique na aridez intumescências.

Encoste um cago ao sublime.

E no solene um pênis sujo.”

Assim, ao lado do “sublime” interesse do senador e do magistrado em combater a pedofilia, foi encostado o “pênis sujo” de uma intrigante escuta ilegal.

É insólito, artístico.

Coisas que estavam tão distantes juntaram-se de repente como fazem os músicos de jazz jogando musicalmente, fintando, fazendo de conta que se dispersaram para em seguida, numa surpresa artística, reunirem-se novamente.

“Para ser arte, é preciso que a idéia da coisa seja representada por outra coisa.”

Mestre Gilmar ficou furioso e – tomado pela ira inquebrantável da qual Nelson Rodrigues desconfiava – chamou o vacilante presidente às falas.

Arte, pura arte: uma conversa inocente é usada como adaga rombuda.

Por quê?

Talvez porque outras conversas – outras que nada têm de inocentes – devam ser resguardadas. E não só conversas, atos.

Por que a revista Veja foi municiada apenas com aquela “conversa inocente”? A fonte que produziu aquele grampo fez apenas aquele, sob encomenda?

Ora, não há agentes secretos inocentes.

São todos homens e mulheres solitários no costume de guardar segredos das próprias famílias, dos colegas de trabalho, de superiores e subalternos, manipuladores que não têm amigos, habitantes tristes e espertos das obscuridades moldados em meio às intrigas da espionagem e da contra espionagem.

Todos têm seus trunfos escondidos, documentos, fotos, filmes, gravações, suas redes de informação e contra informação – unindo porteiros a jornalistas, viciados a empresários, autoridades a condenados – que cuidam e protegem.

E todos estes trunfos têm preço. Raramente preço em dinheiro para fins de fortuna, mas preço que os mantenham vivos neste mundo sombrio no qual se desnaturaram. Fizeram-se assim. Nenhum inocente. Sua lealdade é fluida, eles se mantêm em equilíbrio precário como jogadores à margem influindo sobre um jogo onde nunca podem ser vistos.

Ler John Le Carré num tempo desses é boa luz.

São controlados e controladores dependendo de como, com quem e onde se dá o jogo.

Voltemos à fonte que produziu aquele grampo da conversa inocente, do “cago encostado ao sublime”. Não. Certamente não produziu apenas aquela gravação.

Mestre Gilmar na certa foi controlado a dizer o que disse do modo que disse – penso.

Acossado uma primeira vez – primeira mesmo? – soltou duas vezes o banqueiro Daniel Dantas. É ingenuidade pensar que ele o fez porque é homem de má índole, ele o fez porque foi obrigado a fazer correndo todos os riscos do opróbrio, do ridículo ante seus pares, ante a opinião pública. Um alto preço.

Pode que tenha ocultas fraquezas que o incomodem. Próximas ou distantes.

Pouco antes da soltura viera à luz a informação de que o banqueiro Daniel Dantas disse que no STF estava tudo sob controle, que o seu temor eram as instâncias inferiores.

Uma armadilha límpida: se mestre Gilmar soltasse o banqueiro estaria confirmada a sua cumplicidade, se não soltasse estaria claro que foi infiel ao seu controlador.

Perderia dos dois modos.

Dos males, o menor: obrigou-se a manifestar lealdade aos seus controladores soltando o banqueiro.

Para isso deve ter recebido ameaças de um lado e garantias de que não ficaria na chuva. “Uma proposta irrecusável” dos novos Cor-lee-owns que é como os americanos pronunciam Corleone.

Mas a crença de que não ficaria na chuva surpreendeu a todos. A chuva veio em forte granizo, em furacões. Os outros – delegados, procuradores e juízes? Mais quem? - deveriam ter trunfos altos.

E os mostraram.

Outras gravações? Perigosas para ele e para os seus controladores? Que ameaças a ele e a outros o fizeram agir como agiu injuriando o presidente vacilante com um desjuízo que abeirou a leviandade?

Certamente os cordões dos controladores foram esticados de lado a lado e mestre Gilmar, junto com o senador, não teve outra escolha.

Confirmou a transcrição do grampo que saiu na revista Veja.

A reportagem da revista foi o motivo que seus controladores lhe deram. O intrigante, artístico motivo. A ele foram mostradas outras gravações ou documentos? Não se saberá, mas foi a partir daquela pequena obra de arte que ele se expôs mais uma vez.

Se expôs num rito histérico de lealdade aos seus controladores. Talvez sua atuação tenha saído ruim, sobre-atuou como se diz na gíria dos palcos, mas encostou um “cago ao sublime”.

Princípios da arte na espionagem. Princípio do drama. Descobrem-se equipamentos de escuta em todos os poderes. Talvez na iniciativa privada também. A própria TV Globo grava imagens e conversas ilegalmente e as exibe em horários nobres. As outras emissoras também. São equipamentos de uso exclusivo do governo ou qualquer um pode adquiri-los?

E o drama envolveu mestre Gilmar, envolveu a todos.

Algo deve ser feito. Controladores dos dois lados hão de estar selando a paz da obscuridade em face do perigo que todos passaram a correr: a “opinião pública” agora quer saber. A internet fervilha de perguntas e suposições. Algum modesto espião poderá ser encarregado de chamar a si o sacrifício de um grampo ilegal, como hoje já apontou a revista Isto É. As assombrosas lutas empresariais que resvalaram para os serviços secretos governamentais serão submersas durante algum tempo.

Ingenuamente jornalistas, intelectuais e políticos dirão do estado policialesco, do descontrole sobre os serviços secretos. Como se algum deles, ao longo da história, tenha se submetido às rédeas de quaisquer governos.

Aparentemente algum verniz legal será sancionado para endurecer com as escutas clandestinas. Pessoas serão remanejadas de postos, alguns serão desligados, mas continuarão trabalhando e recebendo. Dentro de duas semanas tudo cairá no esquecimento. E assim ficará durante algum tempo.

Somente um homem não terá salvação.

Mestre Gilmar perdeu o poder, tornou-se marionete completa, dócil e inofensiva aos que o controlam. E alvo sem remissão dos que se opõem ao banqueiro cujos amigos foram vistos oferecendo um milhão para que a PF o deixasse em paz. E alvo dos políticos que protegem o banqueiro. Mestre Gilmar virou sombra. Nada mais pode salvá-lo do escárnio e da pecha de homem controlado.

Assim eu penso

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