Não se trata de uma tarefa simples nadar ou mesmo remar contra a corrente da sabedoria convencional estabelecida. Tampouco se pode dizer que essa dificuldade é nova na história da humanidade. Mais recentemente, alguns exemplos chamam a atenção das mentes progressistas. Thorstein Bunde Veblen (1857-1929) foi um intelectual diferenciado e que causou diversas polêmicas. Sua capacidade de pensar fora do enquadramento acadêmico estabelecido de seu tempo lhe rendeu fama e seguidores do porte de Wesley Clair Mitchell (1874-1948) e John Kenneth Galbraith (1908-2006), dois ex-presidentes da Associação Americana de Economia.

Pelos padrões da vida acadêmica da época, Veblen não pode ser enquadrado como conformista. Veblen destacou-se como o intelectual que analisou com olhos penetrantes o ganho pecuniário e o modo como as pessoas se comportariam para obtê-lo. Teoria da classe ociosa (1899) ainda instiga profundas reflexões. Segundo Galbraith, “a grande obra de Veblen é um comentário de amplo alcance e atemporal sobre o comportamento das pessoas que possuem ou buscam a riqueza e que, olhando além de suas posses, querem a eminência que, como acreditam, a riqueza pode comprar” [1]. Como se pode passar pela vida acadêmica sem reconhecer os efeitos do consumo conspícuo ou da emulação pecuniária? Aos trinta e cinco anos de idade Veblen foi lecionar na Universidade de Chicago. Lá, amparado por James Laurence Laughlin (1850-1933), ele colaboraria com o Journal of Political Economy e lançaria sua obra máxima em 1899, seu primeiro livro.

Teoria da classe ociosa ilumina o efeito da riqueza sobre o comportamento. Ninguém que tenha lido esse livro voltará a encarar o consumo à luz da ortodoxia neoclássica. Embora careça de fontes bibliográficas, a obra maior de Veblen contempla os anos de leituras e estudos antropológicos do autor.

Os professores liberais da Universidade de Chicago vinham sofrendo ataques da parte da plutocracia local na época da confecção do primeiro livro de Veblen. Seus membros, conta Galbraith, “esperavam que a economia e outras ciências sociais fornecessem a doutrina justificadora de seus privilégios” [2]. Chegou-se a contar aos estudantes de Chicago que aquela instituição devia sua existência à beneficência de Rockefeller. Guardadas as devidas proporções, o mesmo se passava em Cornell, em relação à Vanderbilt, e em outras instituições mais antigas que recebiam a beneficência da riqueza generosa e patriótica. Na década de 1890, The Chicago Journal publicou: “O dever de um professor que aceita o dinheiro de uma universidade por seu trabalho é ensinar a verdade estabelecida, não se envolver na ‘pesquisa de verdade’” [3]. Veblen não aceitou essa lição de bom comportamento.

Seus colegas mais ortodoxos não o apreciavam; eles promoviam a perspectiva estabelecida em troca dos favores do sistema. Quem não compartilhava de suas crenças era uma ameaça por fazê-los parecerem rotineiros e sicofantas, fato que atingia a auto-estima do grupo. Veblen não foi um reformista. Ele foi um intelectual acrimonioso capaz de atacar questões que até hoje causam embaraços. A ciência social estabelecida estava sendo usada para camuflar a ortodoxia. Veblen seria forçado pela tirania das circunstâncias a emigrar de Chicago. Estudantes e discípulos frequentemente vieram ao seu auxílio até sua morte.

E o que o Brasil tem a ver com isso? No momento em que o “mercado” aponta para a “necessidade” de um novo aumento da taxa básica de juros brasileira, mesmo quando se sabe que os choques externos da especulação em torno das commodities agrícolas e energética estão arrefecendo, se faz necessário refletir até que ponto a sabedoria convencional estabelecida está comprometida com a manutenção do status quo. O relatório de mercado do Banco Central do Brasil de 29/08/08 aponta para uma meta de 14,75% a.a. para a Selic no final deste ano e um respectivo déficit de US$26,4 bilhões nas transações correntes. Profecias auto-realizáveis da parte das expectativas racionais do mercado?


Notas

[1] GALBRAITH, J. Galbraith essencial. Futura, 2007. p.217.
[2] Ibid., p.230.
[3] Ibid., p.230.

Exibições: 44

Anexos

Responder esta

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço