O IPEA divulgou o primeiro diagnóstico sobre os erros de previsão. No caso, dos resultados do Balanço de Pagamentos.

É uma experiência nova, que poderá aprimorar o sistema de análises e projeções do país.

Ainda não li, mas deixo o trabalho para começarmos uma discussão.

PS - Para baixar o trabalho, salve no HD e depois abra.

Exibições: 82

Anexos

Responder esta

Respostas a este tópico

Em uma sociedade democrática, não se pode considerar justo que a metade da sua população economicamente ativa encontre-se desempregada ou subempregada. Não se pode considerar justo que o sistema financeiro cobre taxas médias de juros de 47,4% a.a. para pessoas físicas e 26,9% a.a. para pessoas jurídicas quando a expectativa de inflação do próprio sistema para os doze meses seguintes encontra-se abaixo dos 6%. Levando-se em conta a taxa básica de juros brasileira, esses números revelam diferenciais em termos de spread de dois dígitos. Dificilmente se pode esperar numa sociedade em que os 10% mais ricos respondem por 75% da riqueza nacional pela espontaneidade de uma política monetária neutra.
Os ataques à direção do IPEA são ideológicos. Vejamos uma pista a partir da nota técnica da avaliação das previsões sobre as transações correntes realizadas em março e novas previsões: “O principal fator responsável pela deterioração nas transações correntes foi as remessas líquidas de lucros e dividendos. Com o resultado de maio, o acumulado no ano já totaliza um déficit de US$15,6 bilhões. Na comparação com o mesmo período do ano passado, este valor representa uma variação de 93%. O crescimento da remessa de lucros e dividendos ao exterior é reflexo, basicamente, da expansão da atividade econômica, do elevado estoque de capital estrangeiro investido no país e da apreciação da taxa de câmbio”.
Li o estudo do IPEA sobre os erros de previsão no último cenário do órgão. O erro maior foi na previsão do déficit em transações correntes.

Primeiro ponto que chama a atenção: os críticos sustentaram que as mudanças no órgão visaram torná-lo “governista”. A afirmação foi feita pelo economista Fábio Giambiagi e repercutida por jornalistas.

O trabalho alerta para a ampla deterioração nas contas externas brasileiras, em função da apreciação do real provocada pela política de juros do Banco Central. O antigo Grupo de Conjuntura do IPEA, liderado por Giambiagi, jamais ousou fazer esse tipo de alerta.

O segundo ponto é o estudo em si. A iniciativa é louvável: analisar porque são cometidos erros de previsão. É um exercício que ajudará a melhorar a análise econômica no país.

Mas ainda é muito incipiente. O trabalho identifica que o maior erro de previsão foi na remessa de lucros e dividendos, e relaciona com a apreciação do real. Faz sentido. Mas ainda é um estudo inicial, que exige elaborações maiores.

Sugiro o seguinte aprofundamento nas próximas avaliações:

1. Como identificar os momentos de inflexão aguda da economia, que só serão captados mais adiante pelos indicadores? Exemplo: com a apreciação do câmbio, as empresas passaram um bom tempo pensando se deveriam ou não substituir fornecedores internos por externos. Depois, um bom tempo identificando os fornecedores e estabelecendo relações comerciais. Essa tendência não foi apreendida por nenhum estudo. Quando decidiram ampliar as importações, pegaram todos os analistas de surpresa. É só conferir aqui mesmo, como levei pancada em dezembro, quando previ que haveria uma enxurrada de importações não previstas.

2. Ainda não temos mecanismos de avaliação dos impactos internacionais sobre comércio exterior e sobre fluxo de investimentos. As famosas taxas de arbitragem (Selic x remuneração dos títulos soberanos brasileiros expressos em dólar) mereciam ser melhos avaliadas.
Seria ótimo se o debate se deslocasse para a temática do desenvolvimento econômico. Todos os países democraticos e desenvolvidos abrigam investidores estrangeiros. O problema é identificar se os mesmos atuam em consonância ou não com um projeto de nação. A temática da integração competitiva, por exemplo, me parece um assunto que precisa ser retomado.

A Unicamp publicou em 2005 um excelente livro que poderia instigar maiores reflexões no Brasil. Trata-se de um livro de Linsu Kim, ‘Da imitação à inovação: a dinâmica do aprendizado tecnológico da Coréia’. Coréia do Sul, claro. Em 1961, seu PNB per capita era inferior ao do Sudão e representava não mais do que um terço daquele do México. O Brasil era um país mais promissor do que a Coréia do Sul na década de 1960.

Os sul-coreanos compreenderam que a mudança tecnológica é o fator determinante do desenvolvimento das economias nacionais. Como eles operaram a transição de uma economia pobre agrícola para uma altamente competitiva e sofisticada em indústrias que agregam P&D? O Estado nacional foi um ator importante do processo de catching-up. Ele criou um clima propicio ao investimento em capacidade tecnológica. Certamente o Estado sul-coreano não se omitiu na administração do sistema financeiro nacional.

Houve engenharia reversa. Não se pode deixar de observar que 60% das inovações patenteadas legalmente foram imitadas, legalmente ou não, dentro do período de quatro anos a partir de sua introdução no mercado. À medida que se aproximava da fronteira tecnológica, a capacidade tecnológica sul-coreana havia incorporado atividades incipientes de P&D. A estratégia sul-coreana esteve, desde o início, voltada para o comércio exterior, fato que impôs uma pressão competitiva sobre as suas estruturas produtivas nacionais. Desprovida de recursos naturais, seus principais recursos são humanos.

A crise financeira de 1997 fez com que o nacionalismo fosse acentuado no Leste asiático, fato que conteve a dilapidação das indústrias domésticas da região. Em síntese, não se chegou por lá no fim da história.

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço