Abaixo o diálogo do ministro Gilmar com o senador Demóstenes.
Como dramaturgo, faço minhas críticas. Posso fazê-las.
Referem-se ao modo de falar das duas personagens, Gilmar Mendes e Demóstenes, na cena transcrita pela revista Veja.
Trata-se de uma cena curta que, em sua síntese, nos revela dois amigos em conversa confiante, ainda que sejam, os dois, altas autoridades da república.
As falas do ministro são compostas por frases curtas e elaboradas.
Nessas falas curtas começam tomar forma as minhas desconfianças quanto à dramaturgia.
Parecem frases escritas e não faladas.
Não têm o frescor da fala coloquial.
Na fala coloquial não se diz “Está demais, não é, Demóstenes?” e sim “Tá demais, né Demóstenes?”.
Experimente dizer a frase como ela foi transcrita. Ela fica “dura na boca” como se diz nos jargão dos palcos, comum a todos os atores.
Ficaria ainda mais dura na boca de uma pessoa que não tem treinamento de ator.
Se pedíssemos aos dois personagens que lessem as falas transcritas, creio que elas soariam falso. Um diretor de teatro teria dificuldade em fazê-las soar verdadeiras.
Agora uma palavra sobre as falas da personagem Gilmar Mendes:
Fiquei com a impressão de que, não tendo conhecimento do linguajar do ministro, quem redigiu o texto preferiu usar frases muito curtas que poderiam ser usadas por uma alta autoridade – bastante culta - sem despertar suspeitas. Quando elaboram diálogos sobre personagens históricos, os dramaturgos, em geral, fazem pesquisas de linguagem para não derraparem em pequenos declives. Como, talvez, não tivesse tempo para a pesquisa, o dramaturgo preferiu frases curtas, menos identificáveis para a ocasião da cena.
Já com as falas da personagem Demóstenes o dramaturgo parece mais familiarizado, sente-se mais à vontade, tanto que usou termos como porra-louquice, embarcou nessa, monte de autoridades que, talvez, sejam comuns ao modo de falar do senador.
Pois bem, o diálogo foi reconhecido em seu teor tanto pelo senador quanto pelo ministro. Nenhum deles disse que foi aquele diálogo mesmo, disseram apenas que reconheciam o teor.
Por isso é preciso que o CD ou a fita gravada apareçam.
Caso contrário persistirá um diálogo inverossímil editado por um dramaturgo colegial, talvez da revista Veja.
Só como curiosidade, fiz uma re-criação do diálogo da maneira como imagino poderia ter se dado sem parecer inverossímil, e mantendo o teor do que foi dito.
Vejam se não ficou melhor:
Meus acréscimos para dar mais credibilidade ao texto estão grifados

Gilmar Mendes:
- Oi, senador, tudo bem? Só agora pude retornar sua ligação, desculpe.
Demóstenes
:
- Que é isso, ministro? Tudo bem.
Gilmar:
Muito obrigado pelas suas declarações.
Demóstenes Torres:
Esse pessoal (ao invés de está) maluco. Impeachment? Isso é coisa pra (ao invés de para que é menos coloquial) bandido, não pra (para não é coloquial) presidente do Supremo. Podem até discordar do julgado, mas impeachment...
(Embora eu, como dramaturgo nunca me permitisse uma fala assim: “impeachment? Isso é coisa pra bandido.” Nunca soube de nenhum bandido que sofreu impeachment.)
Gilmar:
- Querem fazer tudo contra a lei, Demóstenes, só pelo gosto...
Demóstenes:
- A segunda decisão foi uma afronta à sua, só pra (aqui ele usou o pra. Por que não usou antes nem depois?) te constranger, mas, felizmente, não tem ninguém aqui que embarcou nessa "porra-louquice". Se houver mesmo esse pedido, não anda um milímetro. Não tem sentido.
Gilmar:
- Obrigado.
Demóstenes:
- Gilmar, obrigado pelo retorno, eu te liguei porque tem um caso aqui que vou precisar de você. É o seguinte: eu sou o relator da CPI da Pedofilia aqui no Senado e acabo de ser comunicado pelo pessoal do Ministério da Justiça que um juiz estadual de Roraima mandou uma decisão dele pro (para o não é termo coloquial) programa de proteção de vítimas ameaçadas pra (para não é coloquial) que uma pessoa protegida não seja ouvida pela CPI antes do juiz.
Obs.: Esta fala é muito longa para caber dentro de uma conversa coloquial. Em geral, isto acontece nas falas escritas.
Gilmar:
- Como é que é?
Demóstenes:
- É isso mesmo! Dois promotores entraram com o pedido e o juiz estadual interferiu na agenda da CPI. Tem cabimento?
Gilmar:
- É grave.
Demóstenes:
- É uma vítima menor que foi molestada por um monte de autoridades de lá e parece que até por um deputado federal. É por isso que nós queremos ouvi-la, mas o juiz lá não tem qualquer noção de competência.
A fala acima também é pouco comum na linguagem coloquial. A palavra “monte” e a expressão “Parece que até” criam um tipo de linguajar não integrado ao conjunto da frase, vê só: “É uma vítima menor que foi molestada por um monte de autoridades de lá e parece que até por um deputado federal”.
Ora, uma vítima menor pode ser uma menina ou um menino. Numa conversa coloquial tal coisa não acontece. Ele diria: “A vítima é uma menina, tem tantos anos. Foi molestada por um monte (?) de autoridades de lá. Parece até que por um deputado federal.

Gilmar:
- O que você quer fazer?
Demóstenes:
- Eu estou pensando em ligar pro (para o é expressão escrita) procurador-geral de Justiça e ver se ele mostra pros (para os não é coloquial) promotores que eles não podem intervir em CPI federal, que aqui só pode chegar ordem do Supremo. (Fala muito longa numa conversa coloquial) Se eles resolverem lá, tudo bem. Se não, vou pedir ao advogado-geral da Casa pra (para não é coloquial) preparar alguma medida judicial pra (para não é coloquial) você restabelecer o direito.
Gilmar:
- (melhor do que está) demais, (melhor do que não é), Demóstenes? (“Está.” Será que mestre Gilmar fala assim no cotidiano?)
Demóstenes:
- Burrice também devia ter limites, (melhor do que não é), Gilmar? Isso é caso até de Conselhão. (risos)
Gilmar:
- Então está bom. (está?)
Demóstenes:
- Se eu não resolver até amanhã, eu te procuro com uma ação para (para?) você analisar. Está bom?
Gilmar:
- Está (Está?) bom. Um abraço, e obrigado de novo.
Demóstenes:
- Um abração, Gilmar. Até logo. (Aqui também eu não diria “até logo”. Por que até logo?)
Observações
No princípio, usei os termos ministro e senador para, só depois, entrar na conversa coloquial. Penso que fica mais respeitoso no trato entre duas autoridades da república. A menos que os dois dêem de se chamar pelos prenomes por mor duns benefícios de vaidade ante outros ouvintes.
Passei para o coloquial as expressões está, para, para as, para os.
Coloquei estranhamentos a respeito de frases muito longas, incomuns na conversa coloquial.
Estranhei também a falta de reticências numa transcrição de texto falado.
Tal como foi publicada a cena é colegial. Talvez criada pelo melhor aluno da classe, mas ainda assim colegial.
Ou o dramaturgo da revista Veja transcreveu a fita corrigindo algumas informalidades – o que demonstra amadorismo - ou criou toda a cena sem os devidos cuidados de pesquisa, ou tem mesmo pouco talento teatral.
O certo é que depois as duas personagens, mesmo diante de um texto pouco crível, confirmaram o teor dele.
Importante que o texto gravado surja.

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Respostas a este tópico

Excelente, muito bem observado Walmir.
Não cabe num diálogo entre amigos, o coloquial e certamente está aí o motivo pelo qual a tal gravação não aparece, ela inexiste ou há algo mais comprometedor no diálogo que a Veja não quer ou não pode divulgar.
Seria interessante se algum "passarinho" contasse aos nossos queridos blogueiros do bem, se pelo menos há ou não a existência de tal fita. Pois se houver, cedo ou tarde ainda a ouviremos.
Pessoalmente, creio que se existisse já teria sido exibida em todos os telejornais.
Dá até vontade também, de sugerir que todos escrevam, "com todas as letras" que a tal revista não tem a tal fita e está mentindo descaradamente, só para tirar a "cobra" da tocaia mas, valeria a pena ?

Parabéns pelas observações

Uma abraço

Gabriel.
Mano,
li e reli o dialogo da cena entre o mestre Gilmar e o senador. Cada vez que relia as falas me pareciam mais falsas.
Ninguem conversa daquele modo.
Parece uma conversa inventada por um dramaturgo de pouco talento. Ele pegou o roteiro que lhe foi dado e desenvolveu a cena sem conseguir a credibilidade que a escolha de palavras certas confere aos bons textos dramaticos.
Se convidarem os dois para uma leitura dramatica da cena, tenho certeza de que irao tropecar nas palavras.
Acho que o texto deveria ser melhor averiguado por um linguista.
Fica a sugestao para o mano Nassif.
Paz e bom humor, sempre.
Walmir,

Muito interessante as suas observações. Realmente parecem mais frases escritas. Seria mais um indício de que foi tudo armado? Se outros dramaturgos ou talvez linguistas, como você sugeriu, coroborassem essa sua desconfiança, daria até para fazer uma matéria em alguma revista ou jornal de grande circulação.
Pois isso dah pano pra manga, mano.
E tanto Abin quando PF podem fazer isso. Teem especialistas.
Acredito que os dois nao conseguiriam dar credibilidade aaquele dialogo se tivessem que fazer uma leitura dramatica dele.
Paz e bom humor, sempre.
Walmir,

Realmente é muito engraçado. Lembra quando veio à tona o relatório do Protógenes? A mídia armou o maior fuzuê em torno de erros gramaticias, isso e aquilo. De repente, na matéria da Veja, nenhum pio. Aceitam como se verdade fosse.

E isso não é o pior. Na conversa, verdadeira ou não, se bem que o Senador atestou como verídica, eles conversam sobre o depoimento de uma menor molestada por autoridades. Os promotores e o juiz não permitiram que se expusesse a vítima. Mas o Senador insiste. Quer que a menor seja mostrada diante da CPI, na condição de estuprada, para curiosidade do público. Duvido que permitisse este depoimento se fosse sua filha. Porque não manda um grupo de Senadores para colher o depoimento da vítima em local reservado e sem exposição?

Isso é de uma safadeza sem limites. Simplesmente brinca com a imagem de uma pessoa que já tem um futuro, psicologicamente falando, comprometido por conta dos fatos. E poderá, quase que com certeza, ser lembrada como a menina que foi estuprada por meio mundo.
e ATEH HOJE A PF NAO ENCONTROU NEM INDICIOS DE GRAMPO. VAI QUE NAO HOUVE MESMO GRAMPO NENHUM. PENSO: SE NAO HOUVE GRAMPO HOUVE "INVENCAO" DE GRAMPO. QUEM PAGA? A REVISTA VEJA? O MESTRE GILMAR? O SENADOR? ACHO QUE OS TRES ESTAO NA BEIRA DO BARRANCO, SEGUNDO RAIZ. ESTAO COM A BROCHA NA MAO. SEM ESCADA.
PAZ E BOM HUMOR, SEMPRE.

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