Que a cordialidade do brasileiro seja mero mito, todos já se aperceberam: além da brutalidade e bestialidade da escravidão, o coronelismo, os jagunços, a grilagem de terras, as forças repressivas das ditaduras sob Getúlio e sob o militarismo 1964-85, a guerra urbana, os massacres a famílias, a morte de mendigos queimados, o caso do Índio Galdino, o narcotráfico e a violência doméstica são demonstrações de quanto a violência é uma das características essenciais da realidade brasileira, que não pode ser compreendida sem sua consideração.

Não se explica nenhuma hegemonia nem na atividade econômica - agricultura, indústria, comércio, mídia, finanças -, nem na política tradicional, como se se tivesse construído no Brasil a partir, exclusivamente, em função de disputas transparentes, legalmente e eticamente aprovadas. POr tal razão, podemos afirmar uma graduação e linha de continuidade entre a fraude, o conluio, a corrupção, as ameaças e os atentados, a tortura, os massacres, os homicídios.

Talvez por um pouco de desatenção anterior, estou surpreendido pelo nível de exacerbação dos eventos de violência neste ciclo eleitoral. É sabido que nos pleitos municipais, em função da proliferação de disputas locais e do maior número de candidatos - são várias dezenas ou centenas de milhares de candidatos a vereador, tende-se a um número maior de "ocorrências" (em duplo sentido, mesmo, enquanto acontecimentos e enquanto registros policiais). Mas, nestas eleições, a informação que nos chega dá a impressão de nítida elevação das taxas em relações a pleitos anteriores. Vários foram os casos de mortes de candidatos, de atentados, mesmo em cidades de médio e grande porte. No Rio de Janeiro, as ameaças e prisões "roubaram" a cena, várias vezes, no noticiário eleitoral. O fenômeno, entretanto não se restringe aos grandes centros: o exército está convocado a garantir a segurança eleitoral em mais de 400 municípios!!!

O que estará ocorrendo?

Será que a ruptura dos padrões de reprodução da hegemonia, dados o alcance das políticas sociais recentes, ensejou a necessidade de acirramento da imposição das forças tradicionais locais? Nas eleições presidenciais, alegava-se que a mídia e os "coronéis" haviam perdido o controle da influência eleitoral, por conta do Bolsa Família, todos se recordam dessa argumentação, com certeza.

Será que a elevação dos níveis médios de renda e alguma maior mobilidade social, apontada, com frequência por alguns comentaristas e outros líderes, na forma de uma maior emergência de segmentos a patamares mais elevados de estratificação social (falam de ascenso à "classe média" de alguns milhões de pessoas) teria produzido espaço para algum "descontrole" e a exacerbação das relações?

Será consequência das mudanças em andamento no quadro institucional e normativo das práticas eleitorais, com a tendência ao esvaziamento dos partidos de aluguel, a demanda pela fidelidade partidária, a luta pelo fim do nepotismo e da atribuição de cargos de confiança?

Estamos diante de um quadro de regressão democrática ou diante de um vácuo que poderá permitir novas correlações de poder local? Ou nada disso?

Quero compartilhar a questão e abrir o diálogo, para novas perguntas ou esclarecimentos.

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Edmar, o tema suscita muitas indagações. Uma que me ocorre é sobre a natureza urbana do fenômeno... ou melhor: caberia a gente se perguntar se o modus operandi deste tipo de violência mantém-se inalterado no interior e se ganha uma nouva roupagem nos centros urbanos.

No interior, as práticas coronelistas tradicionais (o poder local detido pelo senhor de engenho e latifundiário) fazendo a ligação com o poder central, através dos governadores, está alterada, mas se mantém ainda uma forte dominação de grupos locais na vida política de extensas regiões. Falo isto e me lembro da figura de Efraim Morais e seu clã, na Paraíba. E no congresso. O cara elege quem ele quer. O preço? Precisa ser melhor investigado.

Em São Paulo, capital, o que está acontecendo? Uma forma nova de fazer política e detonar o adversários ou vemos apenas os últimos suspiros de um modo de fazer política que ainda dá alguma sobrevida aos mais conservadores? Com a violência ganhando cara nova...

Por aí que vai minha reflexão...
Luzete,

Acabo de verificar que um vereador, recém-eleito em uma pequena cidade, com seu filho, foram mortos enquanto trocavam o pneu de seu carro.

http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_3/2008/10/06/notic...

Veja, trata-se de uma pequena cidade mineira. Além disso, os números de municípios em que o exército foi chamado a intervir para garantir a eleição ultrapassou não apenas os 400 que eu havia vitado, mas mais de 450 municipios, quase 8% do total nacional: um número absolutamente alarmante.

Acho que este tema merece mais atenção.
Alexandre,

Não sei se seria este o caminho. Penso que, se com o voto obrigatório a compra já é grande, imagina se for opcional. Nossa sociedade, a grosso modo, ainda não tem plena consciência de cidadania que a faça ver o ato de votar como a definição do futuro da cidade, do Estado e do País. Enxergam apenas a resolução de problemas próximos. Mais ou menos como "ele colocou água e consertou a minha rua, não importa se rouba". Claro que corro o perigo de estar sendo reducionista e simplificando uma questão bastante complexa, mas esta é a reaidade de muitos.

Abraços.
Alexandre, entendo. Mas, sua avaliação não trata do assunto central que estou tentando propor para a discussão. Se comparássemos este pleito com os anteriores, houve ou não incremento da violência eleitoral? Se houve, qual seria a razão? A sua avaliação não pode ser uma das explicações, porque nas eleições anteriores também vigorava a regra do voto obrigatório, não tendo havido mudança alguma neste sentido.
Alexandre,

Interessante este ponto de vista. Há um tempo atrás vi uma pesquisa sobre violência, acho que na cidade do Rio de Janeiro. Pois bem, os números oficiais mostravam uma queda nos indicadores de violência (assaltos, assassinatos, furtos, etc.) mas, paradoxalmente, a pesquisa revelava um aumento do sentimento de insegurança por parte da população. A explicação dos responsáveis pelo trabalho era que a mídia havia pautado muito mais matérias nos noticiários para os casos de segurança pública. O aumento da cobertura trouxe consigo aquela sensação de "não poder mais sair de casa tranquilo". Não digo que é a explicação, mas pode ser parte dela.
Tenho absoluta concordância de que parte da sensação de medo quanto à violência decorre da amplificação de sua divulgação pela imprensa. Mais que isso. A divulgação de violência é um artifício intencional da mídia. Ela recorre a ele não de maneira linear, conforme a intensidade da manifestação de violência na realidade, mas de maneira seletiva: agora é hora de usar este tipo de notícia ou agora não é hora disso. É um uso mesmo, absolutamente interessado e funcional.

O que gostaria de discutir não é este "modus operandi" da imprensa. Mas a realidade mesma. O que mais me chamou a atenção foi o número de cidades em que a condição de ordem para o processamento das eleições dependeu da convocação do exército: mais de 8% das cidades do país. Este é um número alarmante e com ou sem apelo emocional (assim tratado é uma estatística) revela a necessidade de compreendermos o que está ocorrendo no sub-solo da nossa democracia.

Quão democrática é uma democracia ou uma eleição cuja vitória ou derrota, além dos já espúrios mecanismos de desigualdade econômica amplamente conhecidos, ainda constrói-se por meio de liquidação dos oponentes, ameaças clara à vida?

Considero a discussão da mídia relevante, e concordo que seja um aspecto do qual não se pode descuidar na busca por compreender a sociedade contemporânea, mas também penso que seja reducionista evocar esta variável sempre como explicação totalizadora da realidade. Há mais do que mídia na realidade social.

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