As transformações globais ocorridas nos últimos trinta anos provocaram mudanças multifacetadas nas sociedades organizadas. Choques do petróleo, a crise da dívida externa dos países da América Latina, o fim da Guerra Fria e a avalanche de crises financeiras demandaram a necessidade de se repensar o sistema econômico mundial.

O fim da bipolaridade, por sua vez, libertaria forças até então contidas pelo império do mal. Diagnósticos apressados e superficiais afirmavam que não restara nenhuma opção real fora do liberalismo econômico. Até mesmo as exitosas instituições social-democratas européias deveriam, portanto, ser relaxadas para que o capital pudesse ter sua eficiência marginal elevada.

Para os países da denominada América Latina, a receita padrão do Fundo Monetário Internacional (FMI) deveria ser aceita sem questionamentos. Todas as idéias desenvolvimentistas deveriam ser simplesmente jogadas no lixo. Não haveria, portanto, com o que se preocupar. Bastaria reduzir o peso do Estado nas respectivas economias nacionais, privatizando inclusive empresas públicas que atuassem em setores de concorrência imperfeita, e liberalizar a conta de capitais. Um clima institucional favorável ao investimento privado complementaria o quadro de recomendações do mainstream economics.

O retorno às vantagens comparativas estáticas era encarado como o caminho a ser trilhado. As idéias desenvolvimentistas deveriam ser tratadas como artefatos do passado. Indústrias nacionais em dificuldades eram vistas como artificialidades criadas pelo desenvolvimentismo. Se as mesmas não fossem momentaneamente competitivas, que elas simplesmente deixassem de existir. Não importavam quantos empregos fossem perdidos ao longo das cadeias produtivas, pois o próprio mercado haveria de acomodar a situação.

A década de 1990 testemunhou a arrogância neoliberal e as limitações de um processo de modernização baseado nas tradicionais vantagens comparativas estáticas. Com expressivos contingentes de trabalhadores desocupados, não se pode afirmar que a mera estabilidade econômica é capaz de engendrar um ciclo de desenvolvimento sustentado e equitativo em sociedades tão desniveladas. Os avanços frustrados na rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio e os atentados de 11/09/2001, por sua vez, fizeram do globo um novo campo de conflitos e tensões. Os países mais desenvolvidos têm claras dificuldades de manobrar o sistema multilateral para satisfazer seus interesses econômicos. Nas Américas, a proposta norte-americana de uma área de livre comércio para o capital, desvinculada da contrapartida de mobilidade do fator trabalho, foi jogada no limbo.

A emergência do sentimento de que os países latino-americanos estavam sendo prejudicados pelas vigentes regras do jogo global materializar-se-ia nos pleitos presidenciais da região. Candidatos não identificados com as idéias prescritas pelo Consenso de Washington sagrar-se-iam nas urnas. Os debates quanto às alternativas dos países da região ressurgiriam.

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