O que será o mundo pós-liberalismo? Essa é a grande incógnita.
No início do século 20, quando se constata o esgotamento do modelo de libralização financeira mundial, criou-se um vácuo. As sucessivas tentativas de criar um modelo alternativo de coordenação global acabaram falhando. O mais rotundo fracasso foi o da Liga das Nações, que acabou não impedindo a eclosão da Segunda Guerra.
Antes disso, com o liberalismo que predominou no século 19, a coordenação se dava através do sistema financeiro, da “haute finance”, como era chamado. Criavam-se regras gerais para as economias nacionais (liberalização de capital, equilíbrio fiscal, liberdade de comércio etc.). E a coordenação global ficava a cargo do Banco da Inglaterra, secundado por outros grandes BCs europeus.
No plano nacional, essas idéias se impunham através de aliados internos – bancos, políticos e, principalmente, financistas.
Quando o modelo implodiu, tentou-se empurrar a Liga das Nações, uma utopia forjada nos meios intelectuais, mas que não encontrou respaldo no mundo real e imediatista da política e dos movimentos de massa.
O desafio é semelhante, agora.
Meses atrás, tentei mostrar, aqui, a falta de condições básicas para um acordo bem sucedido na Rodada Doha, apesar da comovente boa vontade do Itamarati e de algumas outras nações.
O ciclo da coordenação de países já se esgotara. O edifício financeiro já começara a se desmanchar e, na seqüência, o vácuo seria preenchido com medidas protecionistas dos países. Esse é o risco atual. Em 1929, foi a decisão norte-americana de restringir as importações que apressou a passagem da crise financeira para a economia real.
Agora, nas sucessivas conferências de países, todos alertam para que países não busquem soluções individuais. A questão é que o jogo político não costuma obedecer à racionalidade dos teóricos.
A propósito do tema, estou lendo “Vinte Anos de Crise”, de E. H. Carr, mostrando essa dicotomia entre o pensamento mais geral, sistêmico (e desfocado da realidade) do intelectual e o imediatismo desestrutrurado do que ele chamava de burocrata.
Antes que se crie uma nova ordem, para substituir o antigo modelo, muita água ainda irá rolar e muita tensão ainda vai explodir.

Exibições: 433

Responder esta

Respostas a este tópico

Sugiro a leitura de WALLERSTEIN, Immanuel. "Após o liberalismo", esta reflexão já foi feita por ele em 2002. Grande historiador e cientista político, discípulo de Fernand Braudel, que tem sido a base teórica de grandes pensadores como Boaventura de Souza Santos, Zygmunt Bauman, Enrique Dussel, Eric Hobsbawn.
Assim como eles, com bem menos fundamentação teórica, o ato de repensar o liberalismo deve ser ampliado para além das fronteiras da teoria econômica.
Abraço,
Dani Felix
Como repensar o liberalismo econômico, se as "corporações liberais" é que estão dando as cartas, impingindo legislações auto-protecionistas àquilo que julgam ser propriedades delas, sejam físicas ou intelectuais?Essa repensagem não seria articular uma volta do intervencionismo puro e simples?
Parece-me que corremos o risco de viver um longo período de instabilidade econômica devido a inexistência de uma liderança econômica e política alternativa inconteste ao dos EUA. No campo econômico os EUA ainda mantêm uma importante liderança tecnológica, mas já não são os responsáveis únicos pelo dinamismo econômico do mundo. Entretanto, no campo geo-político os americanos, e seu sistema de alianças militares (OTAN), são ainda mais hegemônicos que na época da guerra fria.
Esta é uma situação distinta daquela que prevaleceu no pós-guerra, quando os EUA eram uma liderança econômica absoluta, mas se vivia um relativo equilíbrio político-militar. Não é a toa que os americanos naquela época atuaram decididamente para fortalecer a ONU e regulamentar o direito a Guerra através do Conselho de Segurança. Já no campo econômico sua atuação em "Bretton Woods" foi no sentido ganhar autonomia econômica e financeira em relação aos outros países, o que culminou na não instituição de OIC para que comércio ficasse submetido aos frágeis mecanismos institucionais do GATT.
Em síntese, naquele momento era multilateralismo político, onde eles eram mais frágeis, e unilateralismo econômico, onde eles eram fortes. Esta questão não precisa do Freud, ma sim do Nietzsche para explicar.
Agora vivemos uma situação inversa, os EUAs clamam por responsabilidades multilaterais no comércio (Rodada Doha da OMC), mas agem unilateralmente em termos militares (II ª Guerra do Iraque). Entretanto, em termos financeiros a questão é mais delicada, pois apesar de precisarem coordenar ações monetárias multilaterais, os EUA beneficiam-se amplamente do papel de moeda de reserva internacional que o dólar goza.
Portanto o cenário é complexo e único, pois se estamos vivendo uma crise da “haute finance” do país hegemônico como no início do século XX, não se pode identificar uma liderança emergente como os EUA o eram, já que é muito difícil acreditar que a CHINA e o Yuan possam desempenhar este papel no curto prazo. Ou não ?????
Obviamente que uma nova ordem mundial que colocasse o bem-estar humano acima dos interesses econômicos de uma minoria de privilegiados seria ideal. O problema é que ninguém sabe como construir esta desejável "utopia". O caso de Cuba é emblemático, seu modelo foi viável até os anos 90 porque era sustentado por volumosos subsídios da antiga URSS, entretanto, a partir do momento que estes auxílios foram extintos, ela entrou numa profunda crise econômica que vive até hoje. Ou seja, ela não era independente de fluxos comerciais. Pelo contrário, quanto menor um país, mais ele necessita se importações. O problema não é confiar em países ricos, mas sim necessitar deles. Então, para cada país o problema é como fortalecer sua posição econômica e política na ordem mundial atual, e para cada segmento interno, como se colocar nesta posição no sentido de ter maiores (menores) ganhos (perdas). Obviamente então devemos sempre levar em conta as questões distributivas quando discutimos comércio internacional. Retomando a questão, interessa ao Brasil a instituição de um novo sistema monetário multilateral? E internamente como se distribuiriam os ganhos?
"Uma nova pauta mundial centrada em questões sociais e ecológicas". Pensar o mundo e a realidade a médio e longo prazo, escapando do círculo vicioso, para além de resultados imediatos. Recriação de utopias que mobilizem intelectuais, governos, enfim. Lembrei da sabedoria taoísta. Crise é sinônimo de oportunidade.
Um mundo não mais inteiramente dependente da grande mídia mecantilizada que constrói essa apatia pós-qualquer coisa. Interatividade global via rede, blogs, wikis...fim do discurso único. Penso que o caminho está aberto ao novo...sem euforias ingenuas.
Olá todos, Luis Nassif fala sobre o "jogo político não obedecer à racionalidade dos teóricos", e indica um livro sobre a temática. Parece que mais do que nunca se percebe a dicotomia entre a as teorias e as práticas. O modelo neo-liberal tem como fundamento a liberdade máxima do economia e a intervenção mínima do Estado, no entanto, agora, o Estado americano socorreu o desatre do edifício financeiro. Nós, estou falando dos mortais que não compreendem a lógica profunda que sustenta a economia mundial, me incluo nesta lista, ficamos chocados ao ouvir especialistas do mundo todo explicarem a crise econômica mundial com riqueza de detalhes, apontando erros e falhas e possíveis saídas racionais e teoricamente consistentes, mas, basta um depoimento de alguém importante do staff econômico para a bolsa despencar, ou se elevar a patamares astronômicos. Aceito, naturalmente, que não sou entendida no assunto, mas me parece que todo o sistema financeiro sofre do "imediatismo desestruturado" , de uma irracionalidade que leva manadas de investidores a ir daqui para lá sem obedecer qualquer racionalidade teórica (neo-liberalismo, no caso),racionalidade esta, que a priori, seria a base onde se assenta todo o sistema financeiro.
Olá a todos , sou novo no Blog e como vocês logo hão de peceber, nem jornalista , nem economista. Na verdade sou comerciante, destes que dá umbigada no balcão de segunda a sábado, tenho uma micro empresa em Santos -SP onde vendo roupas femininas.

Como hobby gosto de Matemática, em especial Geometria e também de Astrologia e Tarot. No campo da economia minha diferença é com , pela órdem - Taxa de juros pornográficas praticadas no Brasil - Yen Carry Trade ( God answer to my preaches, it is unwind right now ) - e o bossal deficit interno.

Feita minha profissão de fé, vou dar um pitaco no mundo pós-liberalista financeiro driblando o quanto possível qualquer relativismo e tergiversação.

Primeiro gostaria de observar que o pós-liberal strict sensu, seria o que não existe, pois liberal mesmo, prá valer, só se tivesse existido free market realmente, o que não ocorre e toda teoria que pressupor esta condição e isto mesmo - t e o r i a .

Como sou um viciado em teoria , vou falar de uma que eu realmente gosto, acredito e admiro, a minha.

Assim , com pompa e sem circunstâcia lhes apresentoa a minha teoria Tri-Dimensional econômica, devo dizer que atualmente ele só se materializa no DR forum, mas agorá há chegado a hora.

Ela é assim mesmo, tri-dimensional, pois é como o nosso mundo se manifesta e eu e o Euclides gostamos assim.

Por ela, concluo , sem delongas que o espaço liberal encontra-se em detrimento na atual conjuntura, e que alguns Deuses regentes necessários ao vetor estão enfraquecios, a nova estrutura, na minha opinião pode ser igual a atual, porém, com alguns pequeninos ajustes, aqui e ali , para que distorções maléficas encontrem pouca progressão.

Já me alonguei muito aqui, espero poder colaborar com todos de forma honesta, produtiva e amigavel nesta que é , sem a menor sombra de dúvida, a comunidade Alfa da economia brasileira.

Um abraço especial pro Nassif.
Algumas idéias heterodoxas sobre as origens do atual neo liberalismo, note que Greespan foi um dos protegidos da Ayn Rand.

Ayn Rand - Philip Rothschild's Mistress?
« on: April 29, 2005, 04:19:34 PM » Reply with quote
I thought this was amusing...

Quote:
http://www.kt70.com/~jamesjpn/articles/john_todd_and_the_illuminati...

PHILLIP ROTHSCHILD ORDERED ONE OF HIS MISTRESSES TO WRITE AN 1100-PAGE BOOK that would describe to all witches how they would take control of the World through the Illuminati: It's called Atlas Shrugged. (By Ayn Rand) One of the things in it is happening on the front pages of the newspapers across the United States right now. In fact she spent a third of the book describing how they would raise the oil prices and then later destroy the oil fields and then they would also completely shut down the coal.

IT ALSO DESCRIBED HOW THEY WOULD BLOW UP GRAIN MILLS, how they would derail trains. Their sole purpose is to bankrupt their own companies and destroy their own companies until they destroyed the currency of the whole World, and still be so financially strong they would withstand it!

Quote:
http://www.kt70.com/~jamesjpn/articles/atlas_shrugged.htm

It is an Illuminati book. The book was ordered written and produced by Philip Rothschild, the leader of the Illuminati in his day and age. It was ordered written by a woman named Ayn Rand. She was, at that time, one of Philip Rothschild's mistresses. She was already a well-known author and her books sell nationwide. She wrote this book, it was suppose to be a novel. It's 1100 pages.

It was written as a novel supposedly, but it is a codebook. And what's in the book, is a step by step plan to take over the whole world by taking over the United States.

Now, the power of the Illuminati and I'll give an explanation, the Illuminati did this following: First, most people have found the Illuminati in things that have crossed their path. People have found it in the occult and mistakenly they have said, "Ah ha, the Illuminati is the occult." Then, they have found it In the Masons and they have said, "Ah ha, the Illuminati is the Masons. Then, they have found it in politics and they said, "Oh, it's politics". So they found it in the International banking system or they found it in Zionism so they list it as just being that.

Actually, it is all these things, and much more. They found it in the Mormon religion. That's because the leaders of the Mormon religion are in high echelons in the Illuminati. They have found it in the John Birch Society, that's because the man who leads the John Birch Society is both a high degree Mason and a Mormon. It is all these things and its power is finance. If you would take its finance away, which is impossible. I am getting ahead of myself. The book is called Atlas Shrugged. They did not want people to buy this book other than those told to buy it within the occult and within the Illuminati. They're extremely mad because just this year alone (1977?) they have sold a million of them, mostly to Christians. And they don't like that. In fact, they tried to stop printing it, but people don't want to stop printing it they're raking so much money.

The bad thing about it though, is since it is written as a novel, it has some passages I think might belong in Hustler or other places. Maybe out of 1100 pages, you might count five that are this way, you can tear them out and throw them away. They're stuck in there on purpose to keep Christians from reading the book. So, if you get to a passage that is a little something you shouldn't read, just turn to the next page, it'll be over by then and you can go on with the story. Now if you don't like to read, skip the first 200 pages. The first 200 pages are exactly the way most people in the world are, they're very boring. No, actually they're the con
No, actually they're the conspiracy from people in all the walks of life talking about this incident happening and that incident happening and you know it's very boring to the fact that let's you know that it's the conspiracy that's planning the incidents.

It's like reading the newspaper today, you don't really know what's happening behind it. But after the first 200 pages, 8 chapters, 9 chapters something like that, it starts showing you that everything that is happening, is conspired to happen. The common name for the Illuminati is The Conspiracy, or the Great Conspiracy. Now until we lost the school system to people within the Communist party and within the Illuminati and so on, you were taught in your history classes and some people can remember this, that history was taught that it happened because somebody conspired for it to happen. Then, we didn't want in this nation anybody to get ideas that maybe our Government was a conspiracy so they decided to start teaching that it happened because it happened. World War II happened because some people got mad, World War I happened because some people got mad. The Depression happened because we bought too much too soon without enough money. They did not want anybody to get the idea that it all happened because somebody conspired for it to happen. I hope to accomplish one thing tonight more than anything, that I will change your attitude, that I will put new forms or patterns or whatever in your life that you will walk out of here and when something happens you'll go. "Now, I wonder what they're really up to." Really.

When you study Atlas Shrugged, you will find out that you are reading the front pages of the paper today. The oil shortage that doesn't exist. They state that they destroy their own oil wells, that they hide their own oil so nobody can have it. They state how they destroy the coal mines and shut the coal mines down, they shut the electricity down, they state how they cripple the country and no food is grown. It states how they pit and derail trains so that no trains go. It states how they sink and pirate thousands of ships every year.

We just recently heard down in Florida, how they're asking people not to sail out in pleasure craft in the Bermuda Triangle area, not because they believe in the Bermuda Triangle, but because over 1,000 ships were pirated last year and everybody on board was killed and dumped in the ocean. Now, they don't like to put that on the front page as you see that might cause some people to wonder about some things.

And this is all in this book that was written 12 years ago and in the book, they gain control of the world by bankrupting their own businesses. The Illuminati owns most, I would say, 99 9/10 of the stores that you walk into and shop, and the gas stations you go to and they are going to destroy them on purpose. They are in the process of buying up the last few years, all the stores they don't own.

They bought up Grants and they bankrupted it. They just bought up Two Guys and you can watch for them to go out of business and they keep in business the ones that they've always owned and they're going to bankrupt them before too long and cripple them and bankrupt them before too long and cripple them and destroy them.

The idea of taking over is to bankrupt the whole world where nothing is of any value and the currency does not exist anywhere and then come back and solve all the problems. The book Atlas Shrugged ends with the hero, John Galt, which is really Philip Rothschild, lifting his hand up in the air and drawing the symbol of his organization, never says Illuminati in the book, in the air and he says, "We shall follow this symbol back." The symbol that he draws is the dollar sign. Now the $ sign is only used in America, by the way. Nowhere else to represent money. It's almost 8,000 years old or probably older, goes back in time to the pyramids and it means to scourge or to punish and through punishment to purify and make right. That's what it means. Funny that that's what we symbolized our money.
Grandes mudanças econômicas são originárias de novas formas de produção, talvez esteja aí a raiz do imbróglio. Os economistas modernos não têm capacidade de extrapolar dados, interpolar é fácil, extrapolar é difícil.
Durante cem anos nossa economia foi baseada em combustível barato e fontes de recursos naturais “inesgotáveis” e agora estamos à frente de novo paradigma.
É enigmático vermos que apesar de toda a crise o petróleo não baixou ainda a níveis de um ou dois anos atrás, continua nos 60 a 70 dólares o barril, namorando talvez os 50 dólares, mas 40 ou 30 dólares ninguém em são consciência espera. Isto demonstra que há um falta deste tipo de produto e a própria crise, adiando investimentos das petroleiras (pré-sal, por exemplo) em médio prazo fará com que ele volte rapidamente a valores bem acima de 100 dólares o barril.
Esta conjuntura levará a uma crise sistêmica países extremamente dependentes de produção agrícola e industrial baseada neste insumo barato. Durante duas décadas as transnacionais para diminuir seus custos diversificaram os pontos de produção de produtos, produziam uma caixa de mudança de um automóvel na Coréia e o vidro na França para ser montado nos USA, este tipo de produção, em que o transporte é um dos seus custos mais importantes, deverá sofrer muito.
Se falarmos na produção agrícola o problema é ainda pior, ela é baseada em insumos (adubos, corretivos de solo, ....) em que o transporte é o principal custo, agregando a isto a baixa utilização de mão de obra no “primeiro mundo” e alto consumo de combustível ao subsídio, a agricultura desses países sofrerá forte revés.
Não se pode ficar pessimista pensando que é o fim do mundo, talvez seja o fim de um modo de produção, a energia começa a cobrar seu preço de forma intensa, e a estrutura da produção e distribuição que deverá ser modificada. Produzir uvas no Nordeste e exportá-las para a Europa, ficará mais caro que as produzir na Europa?
Esta é a grande questão, até quanto economia de escala na produção de produtos manufaturados longe do ponto de consumo perderá sentido com o transporte?
Estas últimas questões poderão ser estudadas pelos nossos economistas desde que tenham capacidade para tanto. Se não for levado em conta o modo de produção na análise das cadeias produtivas e ficarmos atrelados a meras projeções dos resultados passados a crise não será entendida. A crise de 1929 era financeira, esta de hoje é física!
Só um detalhe, Rogério.

No capitalismo não existe crise financeira, ou crise física, ou crise da economia real. Existe é crise. Um problema financeiro bate na economia real, uma crise na economia real bate nas finanças. Esta crise, mesmo, apesar de, até agora, ter explodido apenas na parte financeira, surgiu de um problema "na economia real" (inadimplência).
Olá Rogério:
Não concordo que esta crise seja física e não financeira. Se assim fosse ela teria surgido na economia real e então passado para o setor financeiro. Pelo contrário, na verdade a recessão mundial que está se desenhando está sendo provocada pelo "trancamento" do crédito, e não por qualquer problema no setor real.
Já a crise do início do ano sim, a que provocou a elevação dos preços dos alimentos tinha um componente real, o aumento da demanda de alimentos e matérias primas pelos países em desenvolvimento. Neste ponto podemos discutir se ela tem um caráter conjuntural, com o mecanismo de preços a solucionando, ou estrutural, significando um esgotamento mais ou menos profundo de nossa atual matriz produtiva.
Sua proposição é que o encarecimento dos transportes provocados pelo esgotamento do petróleo levaria a uma diminuição dos fluxos de comércio internacional. É possível, mas em que mediada provável? Não sei se você já ouvir falar do economista inglês do século XIX David Ricardo, que supôs que economia entraria em crise por causa da queda na produtividade agrícola? Pois é, ele estava certo se não se levasse em conta existência de progresso técnico na agricultura.
Então, o que eu quero dizer é que esta sua visão, pelo menos da forma que foi exposta, não leva em conta outros fatores, como o impacto das inovações tecnológicas e organizacionais na logística de transportes. Por exemplo, a disseminação das tecnologias de informação possibilita uma redução dos custos de transação e uma maior otimização das capacidades de carga, o que melhora a relação preço/custo na área de transporte.
Assim, não é que o que você aponta não seja relevante, mas que é apenas que um dos aspectos da questão. O custo de transporte é efetivamente uma barreira que pode inviabilizar o comércio, mas temos um conjunto de outras questões que também são relevantes, como as próprias barreiras e incentivos governamentais, as características dos produtos comercializados e seus mercados de destino, as condições de crédito, a taxa de câmbio, etc.
Não sou adepto do “laissez faire” e nem de uma visão estritamente economicista de organização da sociedade, ou seja, acredito que os mercados existentes são construções sociais imperfeitas, que podem servir ou não para produção e distribuição de bens e que os aspectos econômicos (custos relativos) não são os únicos que devem ser levados em conta em decisões de caráter estrutural.
Acho que temos problemas estruturais no funcionamento da economia internacional, como a má distribuição de renda, conhecimento e poder econômico, porém a excessiva dependência dos combustíveis fósseis são hoje mais um problema ambiental e político do que produtivo, ou seja, os derivados do petróleo continuarão viáveis tecnológica e financeiramente se forem mantidas as atuais condições institucionais, onde uma série de prejuízos associados (naturais, sanitários e militares) não lhe são imputados.
Desta forma, exatamente porque os mercados não são auto-reguláveis é que não devemos esperar a inviabilidade econômica do uso do petróleo para construirmos alternativas para sua utilização. Dadas as atuais condições, uma elevação do preço dos combustíveis pode ser incorporado no funcionamento da economia através de algum efeito substituição, mas o impacto ambiental da continuidade indefinida dos atuais níveis de uso pode ser que não.
Os poderosos interesses econômicos e políticos da indústria petrolífera podem fazer com que só percebamos a inviabilidade da atual matriz energética quando for tarde demais para salvar o planeta, e isto é um assunto importante demais para ficar apenas na mão dos economistas.

RSS

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço