Acho muito difícil não ficar ligado na televisão nos casos de sequestros e outros em que há crimes incomuns. As imagens ao vivo despertam a curiosidade e o desejo de compreender o que está acontecendo, seja sobre a motivação e a real intenção do "sequestrador", seja em relação a ação da polícia e das autoridades envolvidas. A maioria das pessoas ficam apreensivas e torcem para que tudo termine sem violência e sem vítimas. Se por um lado a cobertura da mídia televisiva é importante, por outro, temos a sensação de que as interpretações sobre os fatos podem nos conduzir a uma visão restrita acerca dos acontecimentos. Afinal, são tantos os canais de televisão, com suas câmeras, seu repórteres, seus analistas, seus entrevistados, etc., que surge um tal leque de circunstâncias que, ao final, ficamos perdidos na imensa profusão de informações e interpretações. Em alguns casos, é possível estabelecer a lógica dos fatos, em outros, no entanto, ela nos escapa qual água entre os dedos.
No caso em questão, fica patente que o desenvolvimento dos acontencimentos, permitido pelos comandantes, foi completamente equivocado. O comando da operação errou ao permitir o reingresso de Nayara no apartamento. Ora, ela tinha estado lá antes, na condição de seqüestrada, e não conseguiu influenciar o seqüestrador a se entregar. Por que, quando a situação já tinha tomado contornos mais graves, ela conseguiria melhor sorte?
Os negociadores especializados, os familiares, os amigos e várias outras pessoas já tinham mantido contato com o rapaz sem conseguir resultado positivo. No meu ponto de vista, isso indicava que, no referente às pessoas que conviviam com o rapaz, como no caso de Nayara, as tentativas de convencê-lo estavam totalmente esgotadas. Permitir o retorno de Nayara às negociações, portanto, foi decisão inteiramente equivocada. Mesmo que ela tivesse voltado ao contato com ele por telefone, a atitude não poderia obter sucesso. Isso determina, portanto, que conduzi-la a proximidade física com o seqüestrador foi decisão injustificada e permeada de risco. No meu entendimento, o contato dessas pessoas mais próximas a ele estava agravando a situação. O efeito que resultava era o oposto do preconizado, ele terminava focando mais ainda no lamentável relacionamento com Eloá. Se o problema residia na paixão desenfreada mantida para com ela, e as súplicas dos familiares e das pessoas próximas de nada adiantavam, somente alguém que conseguisse retirar a atenção dele sobre ela poderia conquistar sucesso. Mas, quem poderia ser essa pessoa? Ele mantinha com Eloá relação amorosa e afetiva desmedida. Entretanto, sabemos que um jovem de 22 anos, até por manter namoro longo (três anos, segundo o noticiado), certamente tinha interesses não efetivados com outras garotas. No trabalho, no grupo de amigos, na escola, o fato é que, entre os jovens, comumente acontece o despertar do interesse por outras. Apenas uma mulher nesses moldes, QUE NÃO FOSSE CONHECIDA PELA EX-NAMORADA, e mantivesse contato com ele no apartamento, APENAS POR TELEFONE, poderia desfocar a atenção dele em Eloá e permitir o relaxamento dos ânimos a ponto de ocasionar-lhe a decisão de se entregar. É apenas uma hipótese, mas, no meu ponto de vista, diante das circuntâncias, era a última que poderia ser tentada.
Fora disso, apenas a invasão meticulosamente planejada poderia dar fim ao seqüestro. Contudo, o momento em que isso aconteceu, bem como as circuntâncias até o presente inexplicadas, recaíram em erros absurdos.
Afinal, Nayara não informou aos responsáveis que pretendia entrar e ficar novamente no apartamento? Temos que convir que eles não podem ter sido enganados por ela. E qual o real interesse dela em novamente ingressar no local em que tinha passado por sofrimentos? Por que o pai dela não foi informado sobre aquilo que estava acontecendo?
A cobertura da mídia foi exasperante e cansativa. Não consigo compreender o porquê da atuação do governador J. Serra ter sido pouco mencionada. Em primeiríssima instância, o responsável pelo comando das ações era dele. Evidentemente, e sobretudo neste período de acirramento político em razão das eleições, as ordens partiam dele. Tanto que apressou-se e foi o primeiro a informar erradamente que Eloá havia morrido, demonstrando que estava acompanhando atentamente o desenrolar dos acontecimentos. Estava até adiantado em relação a eles. Eloá estava, e ainda está, viva.
E, para terminar (por enquanto), também não dá para compreender o porquê da invasão não ter ocorrido antes já que, segundo o comandante no local, o seqüestrador estava batendo muito em Eloá. Ora, sendo assim, ela estava em eminente risco de vida. No entanto, conforme as informações, a invasão foi deflagrada depois porque estavam aguardando tiros do seqüestrador.

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