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A esquerda, a religião, o eco-aquecimentismo e as alianças espúrias.

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Há alguns anos, lá pela década de 60 e 70 quando surgiu o movimento ambientalista, todos os teóricos de esquerda denunciavam de forma imprópria o movimento ambiental como um movimento neomalthusiano ou como um movimento diversionista para levar a juventude a outros rumos do que a revolução. Sinto muita pena que naquela época não havia internet e muito menos blogs, mas era a pauta de todos os movimentos de esquerda que dentro do movimento ambiental só encontravam inimigos, isto fica claro, por exemplo, no Brasil na figura de José Lutzemberger.

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Para quem não acreditar no que estou falando no parágrafo anterior coloco uma pequena transcrição do livro MEMÓRIAS DA RESISTÊNCIA E DA SOLIDARIEDADE, onde na página 39 no depoimento de Jair Krischke está escrito claramente a posição deste famoso ambientalista “....Isto eu tenho que salientar, porque, dentro desses universos havia figuras indiscutíveis como ambientalistas, como José Lutzenberger, mas, se falasses em comunismo, o Lutzenberger saía disparando, era o mesmo que falar do demônio. Essa figura fantástica, meu querido amigo, tinha essa postura, mas era um parceiro importante para uma série de questões. A mesma coisa a questão dos índios. Foram organizações com as quais estávamos muito próximos, possibilitava nos reunirmos. Mas parceria “parceria” era muito difícil.” Poderia acrescentar meu depoimento pessoal, que numa das poucas vezes que falei com Lutzemberger ele quase babava de raiva quando falava dos comunistas.

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Logo, por diferenças ideológicas, por leitura da realidade o movimento ambientalista andava na contramão da esquerda. Enquanto os ambientalistas viam na organização da produção e no uso dos recursos naturais o grande problema ambiental, a esquerda via na propriedade da produção e dos recursos naturais o verdadeiro problema. Ou seja, os ambientalistas pensavam que através de legislações restritivas e até com a educação ambiental dos proprietários a solução de tudo, por outro lado a esquerda achava que simplesmente passando os meios de produção para domínio do povo tudo se resolveria.

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Hoje em dia é fácil verificar que tanto uma como outra solução não leva ao respeito da natureza, porém o que mudou nos últimos anos foi a tentativa da esquerda de se apossar de determinadas bandeiras ambientais e fazer alianças espúrias com pessoas que estão no polo oposto do materialismo dialético. É fácil achar no mesmo ato de protesto sobre o meio ambiente, ambientalistas religiosos (quase a maioria destes) e esquerdistas.

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Agora talvez aí esteja mais um erro que a esquerda tem por hábito de fazer, algumas alianças espúrias que contrariam a base de sua ideologia. Quem é mais a direita do que um religioso criacionista ou variações sobre o mesmo tema? Talvez possamos encontrar neoliberais mais a direita do que estes, porém jamais neoliberais algum dia farão políticas públicas de execuções de bruxos ateus, agora de crentes no poder tudo é possível.

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Com toda esta diferença ideológica como se firmou este pacto espúrio? Talvez tenhamos no fim da experiência do socialismo real da União Soviética e a guinada política da China para a direita o motivo disto tudo. O socialista do século XIX via em países industrializados como a Alemanha e Inglaterra o grande celeiro para a revolução, e com a primeira grande guerra quase atingiram na Alemanha o poder, mas como o capitalismo reage com maior velocidade do que a esquerda, permitiram a entrada de Lenin na Rússia e rapidamente terminaram com esta guerra por mercado. Com isto a esquerda implantou em estados que há muito pouco tinham saído do regime feudal uma tentativa de governo popular. Devido as próprias características destes países, a permanente ameaça e agressão dos contrários a revolução deu no que deu. Alguns procuram culpar Stalin ou Mao, ou o raio que parta, pela falência das experiências, porém como se diz vulgarmente, deu à lógica.

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Órfãos de modelos, divididos como sempre, partiram para achar novas estratégias e partiram tentando assimilar um movimento que ganhava força, o Ambientalismo. Parece simples, denunciar o mau uso dos meios naturais parece que logicamente levará a contestação da propriedade dos mesmos. Porém uma fábrica limpa com ISO 14001 satisfaz aqueles que pensam no ambiente pelo ambiente. Talvez a aliança contra o agronegócio levasse a um questionamento da propriedade da terra, porém qualquer agricultor sem terra deseja ter para si ou em cooperativa o mesmo trator ou a mesma colheitadeira para produzir no seu pequeno lote. Uma agricultura biológica sem consumo de adubos ou agrotóxicos e que produza excedentes suficientes para manter condignamente uma família exige um trabalho de sol a sol, sete dias da semana e doze meses por ano. Logo este pequeno agricultor é companheiro para algumas empreitadas, para jogar a tecnologia para o ar torna-o um adversário.

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Em nenhum momento vi um autêntico movimento ambiental de esquerda, um movimento que fosse a síntese do positivo das duas visões, a conservação e equilíbrio do meio ambiente com a questão do direito de propriedade, logo rapidamente todo o movimento que surge é cooptado por aqueles que oferecem apresentam como solução um futuro mais promissor bem mais próximo a exemplos que podem ser mostrados.

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É interessante, parte da população enxerga na defesa do meio ambiente uma ideologia de esquerda, enquanto outra parte vê e milita neste movimento procurando afastá-lo das ideologias, como se isto fosse possível, como resultado disto quem assume a vanguarda do movimento são exatamente aqueles que aparentam dissociar um de outro, ficando todo este “aparelho” na mão dos conservadores.

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Neste rastro vem também a nova religião, a religião do aquecimento global, mas aí a história seria muito longa, pois está ainda mais confuso a luta contra ou a favor da teoria, e precisaria mais muitos parágrafos para descrever o imbróglio, pois aí a confusão ainda é maior.

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Respostas a este tópico

Ola Rogério,

deixa ver se entendi. Quer dizer que as esquerdas eram contra, foram contra o movimento ambientalista no passado, e que os ambientalistas entendem que o problema esta na organização dos meios de produção e os esquerdistas que o problema está na propriedade dos meios de produção. É isto?

Outra coisa, hoje as esquerdas tentam se apossar das ideias dos ambientalistas e pra isto não se importam de fazerem qualquer tipo de aliança, é isto? Ah! alianças com religiosos não é algo saudável?

Mais um detalhe: Quem é mais a direita do que um religioso criacionista ou variações sobre o mesmo tema? Talvez possamos encontrar neoliberais . O que seria mais a direita? É algo bom ou ruim? E o que podemos entender por ideologias?

Olha, me desculpe se estou sendo tolo, apenas tô querendo entender melhor os rumos que ora buscam as pessoas.

gd abraço

Capa Dura.

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Falei grande parte da esquerda, principalmente a européia.

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Quanto ao Brasil, o início do movimento ambientalista era algo característico de conservadores (sob o ponto de vista político) e anti-comunistas raivosos.

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Nos dias atuais, quando esquerda e direita parecem a mesma coisa a situação está meio confusa.

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Agora, o porque eu denominar religiosos criacionistas é fácil classificarmos na definição clássica do séculos passados de direita, aqueles que não querem nenhuma mudança. É fácil constatar isto, o partido verde é denominado pelas elites urbanas, as rurais vêem com desconfiança.

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O que quis mostrar é a evolução do pensamento ambientalista e todas as bobagens que se escreve em termos de interpretação política dos mesmos.

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Um grande abraço (não sou da era do tuiter!)

Ola Rogério,

É muito difícil, penso eu, padronizar o comportamento do ser humano. Assim sendo, não é muito geral categorizar como direita todos aqueles que não querem nenhuma mudança? Será que existe esse indivíduo, que não quer mudar nada? Não é a mesma coisa de dizer que esquerda são todos aqueles que querem mudar tudo? Bem, penso que esta é uma discussão muito complexa e deve ser pautada pela isenção.

Nos dias atuais, quando esquerda e direita parecem a mesma coisa a situação está meio confusa.

Também vejo assim, aparentemente a discussão é para ver quem faz melhor certos operando hodiernamente na moda. Quem vai cuidar melhor da saúde, educação....Quem vai conseguir melhor assistir os carente e por aí a fora. Parece até que a República, a Democracia, o sistema de governo não precisam ser entendidos, ou quando se usa o termo, se destorce completamente o sentido.

Quanto ao ambientalismo, não vejo muita veracidade nas afirmações da moda, vejo muito de achismo e pouca seriedade científica dos que militam no meio. 

Gde Abraço.

Caro Capa Dura.

Quando está confusa a discussão devemos voltar as origens, no fim do século XIX e início do século XX quem portava uma bandeira vermelha ou uma bandeira anarquista era simplesmente de esquerda, hoje em dia com a a midiatização de tudo, até as denominações políticas, símbolos e nomes de partidos não dizem nada, logo voltemos às origens.

Quanto ao modismo e o charme que propostas ambientalistas comportam, concordo contigo há pouquíssima seriedade científica, valendo mais o princípio da precaução (se não sei o que vai acontecer, não faça nada) do que análises sérias dos impactos reais que existem.

Só há um detalhe, é preferível falar sobre o aquecimento global, que deverá ser responsabilidade da ONU, do que o uso de enormes e "gastonas" SUVs que é responsabilidade pessoal de quem a possui!

Caro Rogério

Esse antagonismo que você cita seria mais que natural e esperado, uma vez que o berço do ambientalismo esta nas oligarquias anglo-americana, com o firme proposito do conservadorismo, inclusive conservar a distribuição das riquezas mundiais como estavam na ocasião e se mantem hoje.

Depois disso com um belíssimo trabalho de sistemática publicidade, a ideia foi encampada pela esquerda, o que a ultra conservadora direita mundial eternamente agradece.

Como há muito não nos "falamos" vai aqui meu desejo de ótimo 2014.

abraços

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