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Você passa uma vida para construir o nome de sua indústria alimentícia e de repente você ouve a reclamação de alguém que diz ter encontrado um rato dentro da embalagem do seu produto. Então você corre para saber o que está acontecendo; toma as providências cabíveis – porém, mais rápida do que a luz, toda a imprensa já ecoou o gravíssimo acontecimento. Por que? Que tipo de jornalismo é esse?

Apresso-me em dizer que é gravíssimo o fato de haver adulteração num produto alimentício que venha a ameaçar a saúde dos consumidores. E digo também que a imprensa, se tivesse juízo, discernimento e isenção, ajudaria - e muito - em casos afins para alertar os consumidores e comerciantes; para chacoalhar a fiscalização sanitária e, enfim, deixar as indústrias alimentícias conscientes de que um grave descuido pode, além da devida punição, trazer consequências "morais" desastrosas para as mesmas. Mas é isto que tem acontecido? Será que a imprensa tem noticiado TODOS os casos de denúncias contra empresas? Será que não existe um jogo pesado e... sujo? Vamos lembrar que todas as empresas comunicação normalmente integram um grupo de empresas no qual, entre diversos outros setores, incluem imóveis, restaurantes, rede hoteleira, bebidas, alimentação etc. Assim, o jogo começa a ficar mais claro. E neste jogo peso-pesado, os grandes veículos de comunicação só tem a ganhar, já que ficam reputados aos espectadores como sacros serviços de utilidade pública que não se intimidam diante dos "poderosos". Contam para isto com um grande aliado, que é o irresistível apego ao "David contra Golias" das pessoas; a recôndita sanha que muitos extravasam ao ver um poderoso se estrepar. 

Foi em 2002 que aprendi a enxergar de forma mais cautelosa (para não dizer incômoda) as denúncias da mídia contra determinados produtos. Foi quando passei uma temporada na casa de amigos numa estância hidromineral mineira. Lá, ouvi a espantosa história de uma famosa marca de água mineral engarrafada na cidade que fora alvo, junto com outras marcas, de uma denúncia num programa de TV de grande audiência. A denúncia, feita no final dos anos noventa, era referente à presença de coliformes fecais em algumas amostras de água mineral e que quase levou a tradicional empresa à falência. Na época, a INMETRO analisou o produto e apontou a contaminação (algo muito mais comum do que nós, mortais consumidores, podemos imaginar). Mas na sua home page, a autarquia explicitou o nome das marcas denunciadas por apenas 90 dias; depois deste prazo, retirou os nomes. Isto até porque as falhas técnicas apontadas eram irrisórias se comparadas com o sensacionalismo das denúncias. Entre as justificativas técnicas para preservar o nome das empresas, é na última – a não-técnica – que a INMETRO nos mostra que a sua relevância vai além da estrita preocupação no campo técnico. Eis o trecho:

 

"Uma última razão diz respeito ao fato de a INTERNET ser acessada por todas as partes do mundo e informações desatualizadas sobre os produtos nacionais poderiam acarretar sérias conseqüências sociais e econômicas para o país."

Clique AQUI para o relatório completo

 

Do trecho citado acima, fica uma questão para refletir: será que as empresas de comunicação nutrem da mesma ética; da mesma preocupação social demonstrada pela INMETRO? Lanço esta questão por causa do lado underground da história da água mineral e que dizia respeito ao pesado jogo comercial em que teria se metido o grupo proprietário da empresa denunciada – jogo que esta acabou vencendo. Por coincidência, a empresa perdedora teria participação do grupo midiático que veiculou a denúncia. Como o perdão do malandro clichê jornalístico, digo que não há como provar se tal história é verdadeira – mas também não há como provar que é falsa. Mas ao menos estou preservando o nome das empresas envolvidas... Mas, independente disto, há uma coincidência mais fácil de apontar: no Brasil, raramente as empresas denunciadas por um veículo são anunciantes do mesmo, ou seja, dedicam à empresa de comunicação as vultosas verbas de publicidade.

 

O Caso Toddynho

 

Conforme já foi dito, o caso da adulteração de qualquer produto alimentício é grave e não deve ficar impune, mas às vezes devemos questionar se a dimensão da notícia coaduna com a realidade e os limites da responsabilidade. Pois chega a ser assustador você ler toda a imprensa papaguear que o “pH encontrado no Toddynho era similar ao da soda cáustica”. Este dado descontextualizado extraído de laudo técnico – e repetido infinitamente pelo jornalismo-preguiça – tem claro propósito de deturpar o problema e potencializar a gravidade do caso, já que força o leigo a interpretar que beber o produto é a mesma coisa que beber soda cáustica – o que gera compreensível revolta de quem, por exemplo, tem crianças para zelar. Com o peso que a mídia deu ao caso, espanta-me que nenhum jornalista tenha se dado ao trabalho de entrevistar um especialista para "traduzir" o laudo técnico; para explicar, por exemplo, qual o efetivo grau de periculosidade de se consumir um produto com pH acima do tolerado. Tal descompromisso com o apuro jornalístico (que é sinônimo de irresponsabilidade) lembra do escândalo da adulteração do chamado leite longavida (o UAT – Ultra Alta Temperatura) que a mídia denunciou com estardalhaço por conter, entre outros produtos químicos, soda cáustica, água oxigenada e citrato de sódio.  O professor da USP Ismael Maciel de Mancilha – sem obviamente diminuir a gravidade da adulteração – desmontou o sensacionalismo afirmando que, diante das fraudes encontradas, havia o mínimo risco à saúde do consumidor que porventura tenha consumido o leite adulterado. Clique AQUI.

 

Pouco tempo depois do caso Toddynho, surgiu na mídia outro escândalo: uma consumidora teria encontrado um rato dentro do salgadinho Baconzitos. Clique AQUI para saber por que esta história pode ter sido pura "ficção jornalistica"; e que a suspeita não mereceu, posteriormente, uma linha sequer da mídia para ao menos publicar o resultado da denúncia, ou seja, se o rato no salgadinho era verdade ou mentira; se foi feita análise técnica; o que as autoridades concluíram.

A coincidência, aqui, começa pela empresa responsável: a PepsiCo, a mesma do Toddynho. Mais curioso do que a inacreditável coincidência de, num curto espaço de tempo, apontarem contaminação em produtos diferentes de uma mesma empresa, foi a rapidez e a precipitação da mídia em expor os casos. Creio que todo mundo já tenha presenciado casos de corpos estranhos em diversos alimentos industrializados - mas que nunca mereceram qualquer interesse da mídia em divulgar. Haveria, então, algum motivo para isso?

Tenho todos os motivos do mundo para acreditar que as denúncias da mídia, no geral, são seletivas. Ou seja: há sempre um recôndito motivo tanto para denunciar um fato quanto para omitir. Isto vale para todas as áreas: empresarial, política etc. Clique AQUI para conhecer um caso às avessas, ou seja, um vídeo que explodiu na Internet e que boa parte da mídia protegeu até onde pôde o nome da empresa denunciada.

Por conhecer os critérios da grande imprensa para suas “denúncias seletivas”, no princípio causou-me estranheza que o caso do “detergente no Toddynho” tenha adquirido tamanha repercussão na mídia – já que a PepsiCo, dona da marca, sempre foi grande anunciante (embora bem mais modesta que a tradicional concorrente). Mas depois, pesquisando melhor, creio que haja uma explicação que se encaixe na lógica da mídia. Pura hipótese, claro. 

 

PepsiCo e o investimento na mídia alternativa

 

Qual seria então a real motivação para os fatos denunciados pela mídia de forma tão irresponsável envolvendo, em curto espaço de tempo, dois produtos da mesma empresa? Como a imaginação é livre – e as teorias conspiratórias são atraentes – então poderíamos especular algum jogo comercial ora em disputa. Ou então esta motivação mais plausível: a brusca pisada no freio nas verbas de publicidade que a PepsiCo sempre fez despejar nos veículos de comunicação – muito embora bem abaixo da sua maior concorrente. Pois ultimamente é notável a ausência de publicidade na mídia dos produtos da empresa. Tal observação não é mera intuição, mas parte de uma orientação da PepsiCo partida dos EUA conforme foi noticiado no ano passado. E a informação é esta: nos EUA, a PepsiCo decidiu, em 2010, destinar boa parte do orçamento outrora dedicado à mídia tradicional para projetos sociais e a mídia alternativa (Internet). E tal projeto tendia a se estender para outros países. E na própria revista Época podemos ler:

 

A novidade é que esse dinheiro não sai da fundação com a qual a PepsiCo conta para destinar fundos a trabalhos filantrópicas, mas do orçamento que a empresa destina a publicidade.

(...)

a empresa não descarta que o projeto seja ampliado e, inclusive, saia do país.”

Clique AQUI para a matéria

 

E a aposta em redes sociais (Internet) feita pela PepsiCo chegou ao Brasil este ano, mais notadamente na campanha da Elma Chips - que inovou na interatividade com os internautas ao provocá-los a decidir sobre o sabor de um dos seus produtos. Tal ousadia rendeu severas críticas do meio publicitário (clique AQUI)– concomitante ao silêncio da mídia tradicional. Silêncio?

 

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