Minha mulher e eu, quando queremos definir alguma moça sem qualquer atributo, temos uma expressão própria – “a noiva do Zeca”.

 

            A expressão tem origem num episódio engraçado: meu sogro, que foi grande contador de casos, dizia-nos que, há muitos anos, quando ainda fazendeiro em Rio Doce, então distrito de Ponte Nova, estava, em certa oportunidade de papo com um amigo, o dentista Odorico Vidigal Soares, que lhe conta que a principal novidade do lugar era que o Zeca Martins, seu primo,  estava noivo de uma moça, em Santa Cruz do Escalvado.

 

            Meu sogro acrescentou-lhe que o Zeca deveria se casar logo, porque, conhecendo bem o temperamento do primo, sabia que ele acabaria falando inconveniência com a noiva, e aí adeus casamento...

 

            Não deu outra: daí a alguns dias, soube-se em Rio Doce que o noivado havia sido desfeito. Comentava-se que o Zeca, como previra meu sogro, em momento  de enlevo, fazendo declaração de amor à amada, saiu com essa: “Veja que você não é bonita, não tem simpatia, não tem grande educação e nem é prendada, além do mais não tem leitura, é pobre e tem gênio forte, Mas eu gosto de você, e quem gosta ignora os defeitos”.

 

            Diante de tanto arrebatamento, a noiva, sem outra alternativa, deu-lhe um pontapé no traseiro...

 

Guido

 

NOTA: Zeca é tio de mamãe, irmão de vovó Camila, casada com vovô Juquinha. O Sogro do Guido é Domingos Carvalho (o Sô Mingo para os familiares). Irmão de Vovô Juquinha

JGeraldo

 

Ao ler este caso, gentilmente cedido a mim, ainda em vida, pelo meu amigo Guido Decaux,  fez-me lembrar de um caso que ouvi contarem várias vezes lá em Rio Doce. Não sabia que era dele, mas como dizia o Odorico Paraguaçu, se não foi quem falou, deveria ter falado.

 

Conheci esse tal Zeca aqui em Belo Horizonte/MG. Pessoa boníssima que gostava muito de ajudar todo mundo e acolhia em sua casa todos que quisessem tentar a vida aqui na Capital. Sua casa vivia cheia de gente como também de alegria. Era realmente, além de uma pessoa muito simples, um bom trapalhão, como retratado muito bem pelo nosso saudoso Guido.

 

Veja o que aconteceu numa roda de amigos em que a filha de um fazendeiro contava eufórica, que tinha colocado uma prótese dentária. Naquela época não tinha esse nome, chamavam-na de “ponte”. A menina estava radiante, pois conseguira completar as falhas de dentes na carreira da frente.   Isso equivalia a  dizer hoje, a uma menina que não tivesse seios e colocasse silicone. A auto estima da mina estava lá no alto, já que ela não se cansava de falar sobre esse assunto.  Mas, por ser uma novidade, a menina não sabia fazer a higiene da boca com tal peça e o cheiro era horrível! Eh! Cheiro daquilo que você está pensando mesmo... Na hora em que a menina acabou de contar a novidade dela, deixando bem claro que o quê ela tinha colocado era uma ponte, o Zeca virou-se para ela e disse: - acho bom você voltar ao dentista para ele dar uma olhadinha, porque estou achando que alguém cagou debaixo dessa sua ponte!

Nem é preciso dizer mais nada, né?

 

JGeraldo

Oi Ze Geraldo,

 

Estive aí na sua casa e a Efigênia me mostrou esse seu conto.

Ele me fez lembrar a história de uma carta que a “Tia” Maria, minha irmã, recebeu com um pedido de casamento quando já namorava o Luiz. Pena que ela tenha rasgado a tal carta cujo texto era uma pérola.

 

O autor da carta ficou conhecido lá em casa por Paladão e teve direito até a um gingle (Paladão, dig dão, dão, dão, dolim, dolê to that night...), em virtude do sorriso de sua dentadura de dentes curtos e longo paladão que mostrava, além de todo o rosado, até a curvinha de encaixe no freio dos lábios. O sujeito, cujo nome nem me lembro mais, que abusando do direito de ser  feio, cismou de dar aulas de violão para o João, que nem as queria, só para estar perto de sua amada que nem de longe desconfiava do turbilhão que provocava naquele pobre coração.

 

Desinteressado e para se ver livre da sarna em que se transformou o oferecido professor que não lhe saía do pé, João dispensou-lhe as aulas. Ou seja, atirou no que viu e acertou no que não viu, pondo fim à estratégia de aproximação.

 

Paladão, ao se ver perdendo terreno para conquistar a bela e comprometida Maria, resolveu fazer se sua vizinha de fundos que conhecia Maria, seu pombo correio para sondagens junto à amada. Conceição era uma lavadeira muito conhecida em Santa Efigênia por sua boemia, seus porres homéricos e por ser a única mulher entre os bebuns do bairro.

 

Como quem não quer nada, Conceição começou a tecer sua teia junto à Maria, dizendo-lhe que conhecia um bonito rapaz (para seus padrões) que estava prá lá de apaixonado, mas sem coragem para se aproximar dela.

 

Envaidecida e curiosa, sem a maldade de imaginar como seria interpretada, Maria logo tratou de pedir-lhe mais informações sobre o tal. Espertamente, Conceição toda reticente e sagaz começou a alimentar diariamente o mistério e a curiosidade da incauta Maria, ficando naquele leva e traz.

O não tão jovem mancebo, encorajado e pensando ser correspondido, gastava o passeio de frente à casa dela que continuava em não perceber sua corte.

Até que, certo dia, munido de coragem e incentivado pela bebum, resolveu  abordá-la na porta de sua casa e lhe entregou a tal carta cujos termos eram semelhantes ao mal fadado pedido de casamento, narrado pelo Zeca seu parente.

A carta, escrita numa folha de caderno, começava mais ou menos assim, deixando transparecer seu complexo de inferioridade: ...Estou gostando de você e tenho condições de “cazar” (casar com Z) em um ano e quero saber se quer ‘cazar’ comigo.  Se você está pensando que é muita coisa ou melhor que eu, eu lhe digo que você não passa da filha de um mero guarda-civil...

Não me lembro do que mais falava a carta, mas lembro-me da letra engarranchada e dos muitos erros de português que durante muito tempo viraram motivo dos cruéis deboches de toda família, minha mãe e meus dez irmãos, já que a gente deixava papai à margem desse tipo de acontecimento e por saber que ele não iria permitir as nossas nada caridosas gozações.

 

Ultrajada pelo atrevimento e pela feiúra do pretendente, a carta correu de mão em mão até chegar às de seu namorado, que quis saber quem era o famigerado concorrente.  Como Paladão ainda não tivesse obtido sua resposta, continuou a rondar a casa e acabou sendo visto por Luiz Fernando.

Só ficamos sabendo depois pela Conceição que este, uma certa noite, sem que ninguém desconfiasse, abordou Paladão, segurou-o pelos colarinhos e o levantou do chão sob ameaças. Proibiu-o até de passar na rua onde morava Maria.

 

Paladão sumiu e nunca mais se teve notícia que ele voltara a passar na rua Santa Luzia. Aliás, acho que se mudou de Santa Efigênia enquanto Maria está casada com seu herói, Luiz Fernando, há mais de 42 anos. 

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