O nº de março de 2008 da revista inglesa Prospect traz um interessante artigo de Mark Leonard sobre "A nova intelligentsia chinesa": http://www.prospect-magazine.co.uk/article_details.php?id=10078.
Tento resumir.


Somente em Pequim há uma dúzia de think tanks. Um só deles, a Academia Chinesa de Ciências Sociais conta 50 centros e 4.000 pesquisadores em cerca de 260 disciplinas. Leonard faz uma comparação: na Inglaterra, toda a
comunidade de think-tankers é de algumas centenas, em toda a Europa mil e
pouco, e os próprios EUA não teriam muito mais de 10.000.


Enfim, uma enormidade de “intelectuais, think-tankers e ativistas, todos eles envolvidos num intenso debate sobre o futuro do seu país”. Alguns são membros do partido, outros não “mas todos são, de certo modo,
insiders." É intenso o debate "nos fóruns do partido, mas também nas
universidades, em think tanks semi-independentes, na imprensa e na
internet". Certos temas são tabus, claro: o unipartidarismo, o Tibete, o
massacre da praça Tianmen, mas o debate sobre o modelo econômico, a luta contra
a corrupção e questões internacionais (Coréia, Japão) é relativamente aberto na
grande imprensa e na imprensa acadêmica. Esse debate faz parte da vida
política, havendo um intercâmbio ativo entre a intelligentsia e os tomadores de
decisão: os think-tankers são convidados a participar das “`sessões de estudo´
do politburo” e se pronunciar sobre documentos do governo. Cerca de 20% da
população de 18-30 anos cursam a universidade.


 


A "nova direita", como são chamados os economistas liberais, foi a alma das reformas dos 80 e 90. Mas a China agora “voltou-se contra a nova direita. As pesquisas de opinião mostram que são o grupo menos popular
[...] As idéias mercadistas são afrontadas por uma nova esquerda, que advoga
uma forma mais amena [gentler form] de capitalismo." Jornais como o Dushu
dão guarida às idéias dessa “nova esquerda”. Ela questiona a "justiça dos
mercados livres não regulados" e considera que o “Estado deve desempenhar
um papel na prevenção da desigualdade”, mas sem descartar o mercado (daí ser
chamada de "nova" esquerda). Segundo Wang Hui, um representante
desta, que depois de participar de Tianmen esteve exilado nos EUA e hoje é
professor da univ. Qinghua: "A China está presa entre dois extremos, o
socialismo mal conduzido e o capitalismo de igrejinhas, sofrendo o pior de
ambos. Sou a favor de orientar o país no sentido de reformas mercadistas, mas o
desenvolvimento da China tem de ser mais equilibrado. Não devemos dar
prioridade total ao cresc. do PIB, em detrimento dos direitos trabalhistas e do
meio ambiente." "O equilíbrio do poder", diz Leonard, "está
deslizando sutilmente para a esquerda."


Leonard fala da presença crescente da China na África, para onde "está transplantando seu modelo de crescimento, construindo uma série de centros industriais ligados por ferrovias, rodovias e corredores de
exportação ao resto do mundo."


 


A CHINA E A DEMOCRACIA


Muitos intelectuais chineses consideram que o modelo da democracia ocidental está em crise. As eleições mantêm seu papel central, mas são complementadas
por outras "técnicas" (referendos, pesquisas, etc.). Sugerem o
inverso na China: "usar as eleições marginalmente e fazer das consultas
públicas, reuniões de especialistas e pesquisas o centro da tomada de
decisões." Os chineses costumam proceder por experiências-piloto. Assim
fizeram na economia, agora fazem na política, levando o povo a participar das
decisões em  municípios escolhidos ad
hoc. Num, “todas as decisões significativas [foram submetidas] a audiências
públicas -- em pessoa, pela tevê ou pela internet". Outras cidades aplicam
uma espécie de "orçamento participativo", com os munícipes
selecionados por sorteio.


Comenta Leonard: "No futuro [o modelo chinês] de ditadura deliberativa pode vir a provar que o Estado unipartidário também é capaz de proporcionar certo grau de legitimidade popular."


"A China não é uma sociedade intelectualmente aberta”, conclui. “Mas a emergência do livre debate político, a torrente de estudantes voltando do Ocidente" e outros fatores internacionais (Olimpíadas...)
contribuem para abri-la. "Seus líderes estão sempre experimentando novas
maneiras de fazer as coisas... Desse laboratório de experimentos sociais emerge
uma nova visão de mundo que pode vir a se cristalizar num modelo chinês próprio
-- uma via alternativa, não-ocidental para o resto do mundo seguir."

Exibições: 85

Responder esta

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço