Recebi a pouco no blog AmbienteBrasil a seguinte notícia:

"O derretimento dos subsolos árticos congelados, o chamado permafrost, ameaça elevar consideravelmente o aquecimento global e deve ser levado em conta nos modelos climáticos, recomendou nesta terça-feira (27) o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) durante a COP 18, a cúpula do Clima em Doha, no Catar.
...... (segue)...  "

A notícia que vem logo após este breve introito, que eu nem estou interessado, deixa passar batido um ENORME DETALHE, inclusive pelos gestores do Fórum AmbienteBrasil, este detalhe é EXTREMAMENTE CRUEL e talvez revelador.

Os senhores Burocratas da ONU, foram fazer uma reunião sobre Meio Ambiente, exatamente NA MAIOR ABERRAÇÃO AMBIENTAL DO MUNDO, O QATAR, e provavelmente junto a estes teremos representantes da WWF e do GreenPeace.

O que acontece, o Qatar, mais especificamente na cidade de ABU DHABI foi construída artificialmente no meio de um deserto em que as temperaturas atingem 50°C e não tem água natural nem para 1% dos que lá habitam. A chamada pegada ecológica (gasto de produtos naturais não renováveis) no Qatar atingem o equivalente a 55,4 toneladas de dióxido de carbono por pessoa, ou seja quase 20 vezes a pegada ecológica brasileira e mais de 800 vezes as dos países mais pobres do mundo.

Vide

http://www.thenational.ae/news/uae-news/environment/regions-carbon-...

ou 

http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/infograficos/2012/06/15/en...

Tudo isto é para produzir uma imensa Disneylândia no meio do deserto para o deleite dos milionários do mundo

Isto é que se chama deboche, a pegada ecológica de países como o Qatar superam em muito qualquer espírito de preservação ambiental, se criou um ambiente totalmente artificial numa região quente, sem água e movida intensamente a petróleo, e é exatamente nos belos hotéis e restaurantes que serão discutidos o futuro da preservação ambiental. Parece o ditado: Façam o que digo, mas não façam o que faço.

Depois a Dona Maria que usa a vassoura hidráulica para limpar a sua calçada ou utiliza um saquinho de supermercado não reciclável que é a culpada de tudo.

Exibições: 415

Responder esta

Respostas a este tópico

Mário

Gostei da introdução, pois ela coloca exatamente como são feitas as simplificações sobre o assunto. Não só nos manuais para ensino fundamental é feita a dicotomia positivista (!!!) de aceitar uma ou outra posição aprioristicamente e adotá-la como verdade absoluta.

A maior parte dos cientistas (não vou adotar a denominação pesquisador para separar o joio do trigo) que começaram a levantar contra o mecanicismo, mais CO2, mais calor, não se rebelou contra o efeito estufa propriamente dito, se rebalou, isto sim, quanto à simplificação do modelo proposto.

Adotando conceito de ciência de Poper, que sei que tu és um admirador, a ideia de algo fechado, resolvido e consenso absoluto, irritou muitos que pensavam além dos manuais. Neste momento começou a indagação sobre o mecanicismo do CO2 como fator soberano no clima.

Na realidade todos que trabalham com clima sabem que o homem tem capacidade de alterá-lo, porém há um grupo, os céticos (e não os negacionistas) que relativizam esta capacidade em função de vários fatores e várias constatações. Poderíamos dizer que baseados principalmente na palioclimatologia se vê que houve na história muito recente da Terra, períodos em que a temperatura era igual ou maior do que é hoje em dia.

Na última Época que estamos vivendo, o chamado Holoceno que começa após o último período glacial (+- 11.500 anos) entre denominado holoceno médio e tardio entre 8000 BP a 4500 BP, houve diversos pulsos de temperatura que excederam em 2°C a 4°C a temperatura atual, este período se denomina Ótimo do Holoceno (ótimo, pois estas temperaturas altas trouxeram muita vitalidade ao meio ambiente), não se deve confundir com o Ótimo Medieval.

Bem neste período não existiam indústrias de petróleo nem outras indústrias que emitissem CO2, e os nossos antepassados quando conseguiam fazer uma fogueirinha para se aquecer já achavam o máximo!

Mas o mais interessante disto tudo é que nesta época as concentrações de CO2 eram altas. Agora vem a pergunta, quem nasceu primeiro o Ovo ou a Galinha, de qualquer forma se foi o Ovo (no caso o CO2) as emissões desses gases não eram antropogênicas.

Se quiseres ter uma ideia do clima nos últimos 14 mil anos sugiro que leias “Mid- to Late Holocene climate change: an overview” é um trabalho de peso de mais de 18 autores de 12 institutos de climatologia, geologia e outros. Há muita informação técnica sobre isto, principalmente nos últimos 5 anos.

Também tem outro fator que mais me preocupa do que o aquecimento global antropogênico, é o resfriamento natural, explico por que.

Sabe-se que a Terra tem períodos frios, os chamados períodos glaciais, e períodos quentes, os interglaciais. Sabe-se também, que um período glacial dura, grosso modo, 100.000 anos e um interglacial em torno de 11.000 a 13.000 anos, estes períodos são associados a os ciclos de Milankovich (pode procurar na Internet que acharás milhares de links sobre isto) e como estamos já no fim de um período de 13.000 anos de interglacial, podemos estar à beira de uma glaciação!

Há algumas décadas atrás se achava que a transição entre um período e outro era algo lento e gradual, porém nos testemunhos indiretos (proxies) do clima do passado, quanto mais se apura a precisão das observações se verifica que pode haver oscilações súbitas de vários graus para menos (assim como para mais), tudo dentro do comportamento natural do clima na Terra, desta forma um cenário de em dez a trinta anos termos uma variação de -2°C a -4°C é completamente possível porque isto já ocorreu! Agora o que pode significar isto? Se uma variação positiva de dois graus pode causar problemas que são superáveis, uma variação no sentido contrário é o CAOS da nossa civilização, o Canadá, por exemplo, perde 50% de toda a sua área de agricultura. Outros países nórdicos podem chegar a 100% e os países eslavos um valor alto, ou seja, seria o pandemônio.

Deu no "Financial Post":

Carta aberta ao Secretário Geral da ONU - "O conhecimento científico atual não corrobora as afirmações do Sr. Ban Ki-Moon", dizem 125 cientistas...

Saudações

Psé. Há lados e lados....

http://www.sciencemag.org/content/315/5818/1529.abstract

Prev | Table of Contents | Next
Science 16 March 2007:
Vol. 315 no. 5818 pp. 1529-1532
DOI: 10.1126/science.1136776
  • Review

Recent Sea-Level Contributions of the Antarctic and Greenland Ice Sheets

After a century of polar exploration, the past decade of satellite measurements has painted an altogether new picture of how Earth's ice sheets are changing. As global temperatures have risen, so have rates of snowfall, ice melting, and glacier flow. Although the balance between these opposing processes has varied considerably on a regional scale, data show that Antarctica and Greenland are each losing mass overall. Our best estimate of their combined imbalance is about 125 gigatons per year of ice, enough to raise sea level by 0.35 millimeters per year. This is only a modest contribution to the present rate of sea-level rise of 3.0 millimeters per year. However, much of the loss from Antarctica and Greenland is the result of the flow of ice to the ocean from ice streams and glaciers, which has accelerated over the past decade. In both continents, there are suspected triggers for the accelerated ice discharge—surface and ocean warming, respectively—and, over the course of the 21st century, these processes could rapidly counteract the snowfall gains predicted by present coupled climate models.

Marumeno:
Depois de um século de exploração polar, a última década de medições por satélite pintou retrato totalmente nov0 de como lençóis de gelo da Terra estão mudando. Como as temperaturas globais, também as taxas de derretimento do gelo, queda de neve, e fluxo de geleira subiram. Embora o equilíbrio entre esses processos opostos variou consideravelmente em escala regional, os dados mostram que Antártica e da Groenlândia estão perdendo massa global. Nossa melhor estimativa de seu desequilíbrio combinado é de cerca de 125 gigatoneladas de gelo por ano, o suficiente para elevar o nível do mar em 0,35 milímetro por ano. Esta é apenas uma modesta contribuição para a taxa atual de aumento do nível do mar de 3,0 milímetros por ano. No entanto, grande parte da perda da Antártida e da Groenlândia é o resultado do fluxo de gelo para o oceano a partir de correntes de gelo e geleiras, que tem acelerado na última década. Em ambos os continentes existem suspeitas de gatilhos para a acerelação de descarga de gelo de superfície e aquecimento dos oceanos, respectivemente, e ao longo do século 21, e esses processo poderiam rapidamente contrabalançar os ganhos de queda de neve prevista por presentes modelos climáticos acoplados.

Mário.

Assim como o meu horei preferido, o Chaves (não o presidente, do Chaves mesmo da Chapolin Colorado), não querendo desqualificar o trabalho que estás colocando o sumário (que o tenho completo) mas desqualificando. O artigo de Shepherd e Wingham em termos de degelo da Groenlândia e Antártica, está totalmente desatualizado, por exemplo no artigo deles eles colocam os primeiros resultados dos satélites Grace (2002-2005 ou 2003-2005), pois bem isto que era novidade na época em que eles escreveram o artigo, hoje estes dados começam a ficar desatualizados perante os novos satélites que foram lançados.

Para falar a verdade, a medida do degelo tanto na Groenlândia como na Antártica está atrasada em seis anos. Em 2005 foi lançado pela agência espacial européia o CryoSat-1, que tinha por objetivo medir com precisão a espessura das calotas, esta medida seria feita com uma resolução de 1,3cm através de um radar embarcado e pontos fixos na Terra. O satélite deu problemas, e como a Europa ainda não estava em crise, imediatamente começou a construção do CryoSat-2, este satélite que foi colocado em órbita em abril de 2010 é o primeiro satélite com medida direta de altura do gelo e do mar, as avaliações até hoje em dia são feitas com o GRACE (Gravity Recovery And Climate Experiment). Este satélite (na verdade são dois), como diz o nome, trabalha por gravimetria, ou seja as suas medidas de perda ou ganho da massa de gelo, são feitas pela variação da gravidade, ou seja uma medida indireta pouco precisa. Para encurtar o assunto a precisão do satélite é praticamente a mesma da variação que se quer medir.

Em resumo, qualquer um que disser que a Groenlândia ou o Ártico estão aumentando ou diminuindo o gelo sem usar os dados que sairão do CryoSat-2, estão mentindo.

Maestri, Mayo,

 Coloquei esse trabalho de 2007 pq foi o q achei disponível do Shepherd na rede, mas já há um outro mais atual. Se é que dá pra confiar na editoria de ciência da FSP. Não sei se o Marcelo Leite continua por lá....

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/80910-derretimento-af...

É isso aí, Mario, há "vários" lados... E não discordo da tua insinuação não, a questão é mesmo financeira; TODOS esses "trabalhos" são pagos.

De todos modos, o "paper" que você traz é de 2007. Este gráfico é mais atualizado:

Saudações

Sobre a massa de gelo do continente antártico... Também há "vários" lados:

Maestri, um dos grandes cuidados que tivemos (estamos tendo) nessa questão é não reforçar o mecanicismo, o determinismo e o dogmatismo de posturas positivistas (ou, como diz Chalmers, de uma estratégia positivista de demarcação de ciência, o que inclui, entre outros, Popper e Lakatos; mas não acredito ser o melhor momento para aprofundar essas questões de Filosofia da Ciência).

Nesse sentido, uma preocupação fundamental foi de "descriminalizar" o efeito estufa. Como é mais ou menos óbvio, embora nem sempre, infelizmente, para alguns professores do Ensino Fundamental de Ciências, se não existisse o efeito estufa dificilmente a vida (tal como a conhecemos) poderia ter se desenvolvido. Como você mesmo aponta, um período em que a concentração de CO2 era bem mais alta e as temperaturas também, foi um período de intensa vitalidade. Vitalidade que fez com que organismos fotossintéticos produzissem mais e mais oxigênio livre, até chegar nos níveis atuais. Evidentemente, Terra e Natureza são capazes de reagir adequadamente a desequilíbrios nessa composição atmosférica. Já a raça humana.... bem, talvez seja mesmo a hora da gente ser substituído por algo melhor.

O que tou querendo dizer é que a atitude preservacionista estilo "salvem a sagatiba" é tão utópica como deter a precessão dos equinócios (que, se ainda me lembro, é um dos fatores fundamentais dos ciclos de Milankovich). É possível que estejamos entrando em uma nova era glacial? Sim. É possível que a atividade industrial mais desmatamento mais uma série de outros fatores esteja contribuindo para um aquecimento (mesmo que episódico) global? Também sim. E achar que uma coisa vai contrabalançar a outra....

Mas como eu disse, não importa que lado vai "vencer". Importa como conseguir produzir energia pra conseguir bem-estar pra mais gente, com recursos cada vez menores. Em outras palavras, a resposta é geopolítica, não científica.

(continuo depois, tá claro q esse final foi feito nas coxas)

Mário.

Não achei o teu fim tão ruim assim, principalmente porque ele trás uma conclusão sobre a tese que foi descrita desde o início.

Se criminalizamos a variabilidade climática estamos mais próximo do criacionismo do que a evolução. Pensar numa natureza imutável, que foi criada no passado exatamente da forma que está, sem levar em conta a variabilidade natural é simplesmente ignorar a evolução.

Li a pouco que alguns pesquisadores estavam indignados, pois chegaram à conclusão que o aumento da temperatura da Terra estava ou estará criando (não me lembro bem à colocação temporal) uma série de novas espécies, e que a maioria dessas espécies não tinha uma mutação adaptativa às novas condições. A conclusão sobre aumentar ou não o número de espécies não sei se é válida ou não, mas a indignação dos mesmos é que me pareceu errada em termos biológicos, pois me pareceu que os mesmos são mais adeptos do “Design Inteligente” do que a evolução propriamente dita e não aceitam que a maior parte das mutações são não adaptativas, acham que isto é uma praga do Senhor.

Vejo com preocupação estas posturas que para min são mais anticientíficas do que qualquer coisa. Acham que a natureza é perfeita e equilibrada, conceito que não existe na biologia, os sistemas são dinâmicos e imperfeitos, a imagem de natureza perfeita e acabada tem mais a haver com o “Jardim do Éden” do que com observação científica.

Acho que inclusive que a visão do “pseudo-ecologistas” é mais um produto de conceitos científicos mau digeridos associado a visões místicas e religiosas do passado.

Voltando ao assunto de outra forma, já escrevi um pequeno texto em que comparava a angústia de violar a natureza pela simples existência do homem sobre a Terra, e não por mau uso da mesma, como um resquício da concepção do “Pecado Original”. Veja, o homem é expulso do “Édem”, primeiro por não obedecer a voz que o obrigava deixar tudo como estava e procurar o conhecimento, e depois fica condenado a ganhar o pão com o suor do seu rosto, ou seja, abandona a postura de caçador-coletor para numa agressão a natureza, ter como uma praga, rasgar o solo e modificá-lo para conseguir seu sustento.

(pelo visto esta discussão vai longe).

Ups, ainda bem, pq acho q a gente tá caminhando pra um entendimento.  A duras penas, ficórse.

Concordo inteiramente com a crítica ao Design Inteligente. O DI pressupõe uma "finalidade", uma tendência de "progresso". Numa linha shakesperiana de "What a piece of work is man".  Bem, não existe nada que justifique isso. Ao contrário, se a conservação de energia for algo a ser considerado, não existe mecanismo para reverter a entropia. Claro, sempre podemos considerar quasares, pulsares e buracos negros como "dutos" de tranferência de energia entre Universos paralelos, mas isso é especulação de ficção científica (muito bem explorada por Asimov, by the way. Aliás, lembrando dele, eu me lembro do Schiller: "Contra a estupidez, os próprios deuses se debatem em vão", em tradução meia boca livre minha).

Se existe alguma tendência na Natureza, é aquela ditada por "quem tem competência se estabelece". E o único diferencial adaptativo da raça humana é a tecnologia (mesmo correndo o risco de praga de hemorróida da Madrasta do Texto Ruim, uso sem medo "diferencial").  Por meio dela, pudemos ocupar habitats hostis e suplantar várias outras espécies. E, por outro lado, estabelecemos uma ruptura com a evolução "natural". Não há nenhuma evidência que os Cro-Magnon suplantaram os Neandertais por alguma superioridade genética, por exemplo. Se a tecnologia foi uma maldição divina após comer o fruto do conhecimento, ou veio com o monolito de 2001, não me importa nem me interessa. Ela veio, e o "mal" está feito. A raça humana sempre "violou" a Natureza, e vai continuar fazendo-o até se extinguir. E não adianta chorar sobre o leite derramado...

Evidentemente, as agressões à Natureza podem ser reduzidas. Mas não às custas do progresso tecnológico. Ao contrário, apenas o progresso tecnológico pode conseguir "consertar" alguns dos danos. Como no caso de Balbinas, por exemplo. Foi proposto uma espécie de cobertura que, além de impedir o metano de escapulir pra atmosfera, poderia ser empregado para gerar mais energia. Não sei se esse projeto foi em frente, li a respeito faz um bocado de tempo.... uns dez anos, talvez. O mesmo pode-se dizer dos defensivos agrícolas e transgênicos. Mesmo com o estímulo às culturas orgânicas, a rentabilidade é várias ordens de grandeza menor. Sem uma pesquisa de ponta continuada na área, as fronteiras agrícolas vão invadir cada vez mais as florestas. E ai, danou-se o ciclo de dióxido de carbono e oxigênio (nos níveis atuais, claro).  Não é só aqui na Amazônia, também está ocorrendo isso na ìndia, em Madagascar, e provavelmente em todas as florestas tropicais.

Por isso eu falei contra o preservacionismo absolutista. E contra também o DI, que é simplesmente uma forma de dizer q tudo está bem, por que é uma determinação divina, e no final vai dar tudo certo. Certo pra quem mesmo, cara-pálida?

Quando você fala no Canada perdendo 50% das terras agriculturáveis, minha preocupação não é com os canadenses. É com o que o resto do mundo vai sofrer pra repor isso.

marumeno isso:

Planeta probido
Nós não podemos impedir as mudanças climáticas sem uma luta política contra a plutocracia.
George Monbiot - The Guardian - 4 de dezembro 2012

A maior crise da humanidade coincide com a ascensão de uma ideologia que a torna impossível resolver. Ao final dos anos 1980, quando se tornou claro que as mudanças climáticas provocadas pelo homem colocavam em perigo a vida no planeta e a humanidade, o mundo estava sob o domínio de uma doutrina política extrema, cujos princípios proibiam o tipo de intervenção necessária para enfrentá-las.

O neoliberalismo, também conhecido como o fundamentalismo de mercado ou economia laissez-faire, pretende libertar o mercado de interferência política. O estado, afirma, deve fazer pouco, mas defender o status-quo, proteger a propriedade privada e eliminar os obstáculos aos negócios. O que os teóricos neoliberais chamam encolher o estado mais parece com o encolhimento da democracia: a redução dos meios pelos quais os cidadãos podem restringir o poder da elite. O que eles chamam de "mercado" parece mais com os interesses das empresas e dos ultraricos (1). O neoliberalismo parece ser pouco mais do que uma justificativa para a plutocracia.

A doutrina foi aplicada pela primeira vez no Chile, em 1973, onde ex-alunos da Universidade de Chicago, treinados nas receitas extremas de Milton Friedman e financiados pela CIA, trabalharam ao lado de Pinochet para impor um programa que seria impossível em um estado democrático. O resultado foi uma catástrofe econômica, mas na qual os ricos - que assumiram as indústrias chilenas privatizadas e os recursos naturais desprotegidos daquele país - prosperaram muito (2).

O credo foi adotado por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Foi imposto ao mundo pobre pelo FMI e pelo Banco Mundial. No momento em que James Hansen apresentou a primeira tentativa detalhada para modelar temperatura futura para o Senado dos EUA, em 1988 (3), a doutrina estava sendo implantada em toda parte.

Como vimos em 2007 e 2008 (quando os governos neoliberais foram forçados a abandonar seus princípios para salvar os bancos), dificilmente poderia haver pior conjunto de circunstâncias para enfrentar uma crise de qualquer tipo. Até que não tenha mais escolha, o estado neoliberal, que carrega o ódio de si mesmo, não vai intervir, mesmo que a crise se agudize a as consequências se agravem. O neoliberalismo protege os interesses da elite contra todos.

Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) - implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas - para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? - e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis.

Mas o estado que se auto-odeia não pode agir. Capturado por interesses que à democracia espera-se que contenha, só pode sentar na estrada, de orelhas em pé e bigodes eriçados, esperando ser atropelado pelo caminhão que se aproxima. O confronto é proibido, a ação é um pecado mortal. Talvez se possa dispersar algum dinheiro para energia renovável, mas não legislar contra o velho.

Assim, Barack Obama persegue o que chama de politica de "todos os itens acima": promoção da energia eólica, petróleo, energia solar e gás (8). Ed Davey, o secretário britânico de mudança climática, na semana passada lançou um projeto de lei que dispõe sobre energia no parlamento britânico cuja finalidade era descarbonizar o fornecimento de energia. Mas no mesmo debate prometeu "maximizar o potencial" de produção de petróleo e gás no Mar do Norte e de outros campos offshore (9).

Lord Stern descreveu a mudança climática como "a maior e mais abrangente falha de mercado jamais vista" (10). A inútil Cúpula da Terra (Rio+20) de junho; as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia (11) e o estudo sobre redução demanda de eletricidade (12) lançado na Grã-Bretanha na semana passada (melhor do que poderiam ter sido, mas incomensurável à escala do problema) expõe o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da espécie.

O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana (13). Sociedades complexas, por vezes, sobreviveram à ascensão e queda de impérios, pragas, guerras e fome. Mas não sobreviverão a seis graus de mudança climática sustentada por um milênio (14). Em troca de 150 anos de consumo explosivo, muito do qual nada contribuiu para o avanço do bem estar humano, estamos destruindo o mundo natural e os sistemas humanos que dele dependem.

A Cúpula do Clima (ou sopé), em Doha, e o som e a fúria das novas medidas do governo britânico sondam os limites atuais de ação política. Ir mais longe é quebrar a aliança com o poder, uma aliança tanto disfarçada quanto validada pelo credo neoliberal.

O neoliberalismo não é a raiz do problema: é a ideologia usada, muitas vezes retrospectivamente, para justificar a tomada global de poder, bens públicos e recursos naturais por uma elite desenfreada. Mas o problema não pode ser resolvido até que a doutrina seja desafiada por alternativas politicas eficazes.

Em outras palavras, a luta contra as alterações climáticas - e todas as crises que agora afligem os seres humanos e o mundo natural - não pode ser vencida sem uma ampla luta política: a mobilização democrática contra a plutocracia. Eu acredito que esta deve começar com um esforço de reforma do financiamento de campanha: o meio pelo qual as corporações e os muito ricos compram politicas e políticos. Alguns de nós lançaremos uma petição no Reino Unido nas próximas semanas, e eu espero que você a assine.

Mas este é apenas um começo. Temos de começar a articular uma nova política: uma que veja a intervenção como legítima, que contenha um propósito maior do que a emancipação corporativa disfarçada de liberdade de mercado, que coloque a sobrevivência das pessoas e do mundo vivo acima da sobrevivência de algumas indústrias favorecidas. Em outras palavras, uma política que nos pertença, e não apenas aos superricos.
Referências:
1. See Colin Crouch, 2011. The Strange Non-Death of Neoliberalism. Polity Press, Cambridge.
2. Naomi Klein, 2007. The Shock Doctrine: the rise of disaster capitalism. Allen Lane, London.
3. http://www.nytimes.com/1988/06/24/us/global-warming-has-begun-exper...
4. Potsdam Institute for Climate Impact Research and Climate Analytics, November 2012. Turn Down the Heat: why a 4C warmer World Must be Avoided. Report for the World Bank. http://climatechange.worldbank.org/sites/default/files/Turn_Down_th...
5. http://thinkprogress.org/climate/2011/11/09/364895/iea-global-warmi...
6. PriceWaterhouseCoopers, November 2012. Too late for two degrees? Low carbon economy index 2012. http://www.pwc.co.uk/sustainability-climate-change/publications/low...
7. http://www.monbiot.com/2011/07/19/an-underground-national-park/
8. http://www.barackobama.com/energy-info/
9. http://www.publications.parliament.uk/pa/cm201213/cmhansrd/cm121129...
10. http://www.publications.parliament.uk/pa/bills/cbill/2012-2013/0100...
11. Nicholas Stern, 2006. The Economics of Climate Change.
http://www.hm-treasury.gov.uk/d/Executive_Summary.pdf
12. http://www.decc.gov.uk/assets/decc/11/consultation/electricity-dema...
13. Susan Solomon, Gian-Kasper Plattner, Reto Knutti, and Pierre Friedlingstein, 10th February 2009. Irreversible climate change due to carbon dioxide emissions. PNAS, vol. 106, no. 6, pp1704–1709. doi: 10.1073/pnas.0812721106. http://www.pnas.org/content/early/2009/01/28/0812721106.full.pdf+html
14. Estou falando vagamente aqui, como Salomão et al propuseram que não 100%, mas cerca de 40% do CO2 produzido neste século permanecerá na atmosfera até pelo menos o ano 3000. Por outro lado, as emissões desenfreadas e o aquecimento global não vão parar por conta própria em 2100: as temperaturas poderão subir muito além de 6 oC no próximo século: sem mitigação afiada agora, estamos criando 1.000 anos de caos absoluto.

De novo (estava com 50% respondido e deu um bug).

Mário

Os teus dois textos são dois textos! Parece estúpida a observação mas verás porque os trato assim.

No primeiro texto fazes uma pergunta que tem resposta técnica (não política) simples e equacionável. A pergunta é: Podemos resolver o problema da sustentabilidade do meio ambiente sem excluir o crescimento econômico e social ao mesmo tempo?

Tu já trazes as respostas em teu texto, porém procurarei respondê-las de novo com pequenas nuances, que para mim são extremamente importantes. Poderíamos dizer nós dois (não estou usando o nós como estilo de texto) que certamente sim. Porém eu acho importante destacar que um sério handicap para a solução deste problema, está em que o apresentou publicamente com larga divulgação, o pessoal do Clube de Roma. Qual seria este problema do simpático e reacionário Clube de Roma ter equacioando o problema pela primeira vez? É que provavelmente eles equacionaram o problema (largamente divulgado) e vislumbraram também a solução, mas esta aí ninguém divulga!

Ora se eles equacionaram a solução a onde estaria o problema?

Simples, esta solução passa por uma revolução no modo de produção, uma revolução que simplesmente transfira as decisões executivas par os produtos a serem produzidos, o design dos mesmos, para a forma de satisfazer as necessidades, para quem satisfazer e a para quem DEIXAR DE SATISFAZER.

Ou seja, para caminharmos rapidamente para uma sociedade de abundância e progresso, o caminho técnico é conhecido e é possível de ser realizado em curto prazo. Porém, o que impulsiona a produção, o que motiva a quem produz e quem dirige deve mudar.

Uma sociedade baseada no consumo de produtos que rapidamente se tornam obsoletos e/ou maximização dos lucros conforme a ideologia vigente, são incompatíveis com uma nova forma de produção. Poderia até supor, que talvez dentro de uma sociedade capitalista, altamente regulamentada, fosse possível esta solução, porém esta solução dentro de um modelo social-democrata dificilmente seria sustentável em longo prazo, por as forças sociais perderiam com o tempo o espírito da auto-regulação, caindo de novo na fantasia do liberalismo. Por outro lado, os exemplos de socialismo real, como o que até hoje tivemos também não trás a solução, principalmente modelos de partido único. Favor não me citar exemplos de países em que o grande comandante levou o país a basear a sua economia numa monocultura, que é um exemplo máximo da insustentabilidade.

Ou seja, o problema para a solução passa de longe pelo problema técnico, mas o problema político, este sim, para mim até hoje não está clara a solução. Podemos como uma solução de emergência, dentro do sistema existente, diminuir o consumo e o desperdício da maioria e conservar a abastança e a farra consumista de poucos! Ou podemos adotar uma solução socializante, que se não for bem equacionada (como geralmente não o é) levar ou a substituição dos personagens da peça (capitalistas por burocratas e povo por povo), ou levar a uma paralisia no desenvolvimento, deixando todos do jeito que estão.

Realmente, o problema não é técnico em nível de produção, o problema é político, porém se esta solução política não discutir também a solução técnica, ela simplesmente substitui os patrões, talvez este seja um dos problemas que levaram os países que experimentaram algum tipo de socialismo real a derrocada.

O que quero dizer que haja uma revolução profunda e real, deve ser conduzida de tal forma que modifique desde a gestão até o design, em outras palavras tudo deve ser discutido.

Vou tentar exemplificar a minha preocupação com o exemplo da montagem dos Fiats 147 na União Soviética. Como a concepção dos dirigentes da época era a de fornecer ao operário da época um carro que lhe satisfizesse, sem a necessidade de trocar por um modelo novo a cada três ou quatro anos, os burocratas da época não trabalharam em cima da modernização que trouxesse mais conforto, mais segurança ao condutor, mais economia de material, menor dispêndio de combustível e daí por diante. Em última instância não criaram um conceito de um verdadeiro automóvel socialista. Aquele que não seria atualizado em superficialidades mas sim em melhoria pura e simples do produto em todas as instâncias.

Mário, poderia me alongar mais nesta resposta, mas acho que ficaria chata.

Já a segunda questão eu diria o seguinte, nada melhor para gerar falsas respostas do que falsas perguntas. Estes quatro, cinco ou até seis graus de aquecimento, realmente não tem solução, porque um problema mal posto não tem solução. Não há base científica para um aquecimento (natural ou natural-antropogênico) mais de 1,0ºC a 1,5ºC até o fim do século, a progressão geométrica que os modeladores alarmistas do clima não tem base observacional nenhuma, a 16 anos que as temperaturas continuam altas mas não aumentam (mesmo o CO2 aumentando na mesma taxa ano a ano). Além disto à alteração da temperatura acima de 2ºC provavelmente desenvolveriam fenômenos de feed-back negativos (como ocorreu a milhares de anos) que mudariam por completo esta tendência. Agora aquecer até mais 1,5ºC voltaríamos as condições de 8.000 anos atrás, no chamado Ótimo do Holoceno, algo que já escrevi, e naquela época foi o auge da natureza, e não o terror dos infernos.

Só digo agrupando os teus dois textos, talvez os senhores do nosso Clube de Roma, para evitar o enfrentamento do problema real que levantaste no primeiro texto, inventaram uma solução imobilizadora e reacionária da sociedade gerada pos um falso problema.

RSS

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço