A PRÁTICA DO LINCHAMENTO MIDIÁTICO E A URGENTE NECESSIDADE DE REGULAMENTAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Escola de Base

 

A PRÁTICA DO LINCHAMENTO MIDIÁTICO

E A URGENTE NECESSIDADE DE REGULAMENTAÇÃO

DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Hideraldo Montenegro

 

Este ensaio tem a pretensão de analisar a conduta ética da imprensa brasileira e a necessária regulamentação que limite o uso dos meios de comunicação.

LINCHAMENTO MIDIÁTICO

 

O caso da Escola de Educação Infantil de Base em 1994, que a imprensa fez um linchamento público e provocou a ira da população, induzindo-a a depredação da escola, estigmatizando os donos e causando desemprego e perseguições aos funcionários e que, posteriormente ficou provado que todos os supostos envolvidos eram inocentes, ainda força os meios de comunicação a reverem suas posturas éticas, pois, pouco ou nada mudou na forma em que certas notícias ainda são divulgadas de forma sensacionalista e manipuladas.

Como pode existir um poder sem existir um controle sobre ele? Se é fato de que há um quarto poder, representado pela mídia, através da capacidade de induzir, manipular, estimular, dissimular e incutir ideias na população, como ele pode atuar sem nenhuma regra que regulamente sua atuação para a proteção da sociedade no qual atua e exerce esse poder?

A mídia tem uma clara função social e, consequentemente, e em virtude desse fato, ela não pode estar sobre o controle absoluto de suas ações sem que não exista um órgão regulador que normatize sua atuação já que seu exercício interfere diretamente sobre a opinião pública, levando-a para esse ou aquele posicionamento. O risco social, portanto, da atuação livre da mídia é um absurdo institucional, pois contamina o exercício da democracia já que as escolhas podem ser induzidas sutilmente pelas informações (ou a falta delas) intencionalmente manipuladas.

Muito já se falou sobre o processo de massificação, ou seja, do controle e imposição de ideias da mídia, capaz de provocar reações e ações nas pessoas. Contudo, a discussão sobre a regulamentação do exercício desse poder permanece na obscuridade ou é colocada, por essa mesma mídia, como forma de censura, no claro intuito de confundir a opinião pública e permanecer exercendo, sem controle, sua ditadura ideológica.

Assim, os chamados formadores de opinião continuam no controle absoluto sobre o conteúdo do que vinculam de acordo com seus próprios interesses, a despeito da manipulada aparência de “neutralidade” vendida às pessoas, para garantirem seus direitos de manobrarem, ao bel prazer, as informações que são sempre manipuladas e mascaradas.

Poderíamos colher milhares de exemplos que justifiquem a urgente necessidade de regulamentar o exercício da mídia no Brasil. De fato, podemos considerar que a ausência desta regulamentação representa um atraso absurdo, equivalente à prática do coronelismo. A forma de como a imprensa exerce seu poder, sem nenhuma restrição, pode ser chamada de coronelismo cultural ou coronelismo das comunicações, aonde as massas são usadas para favorecer interesses que não representam, de fato, os interesses da população, mas de grupos economicamente dominantes. Mas, basta recordarmos um fato noticiado amplamente pela mídia para percebermos o quanto a falta de regulamentação pode provocar e tem provocado de nocivo à sociedade.

 

“A Rede Globo foi condenada a pagar R$ 1,35 milhão para reparar os danos morais sofridos pelos donos e pelo motorista da Escola Base de São Paulo. Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada e Maurício Monteiro de Alvarenga devem receber, cada um, o equivalente a 1,5 mil salários mínimos (R$ 450 mil)”. (Redação Pragmatismo).

 

"Escola Base, a condenação que não veio pelo judiciário”. (Diego Bayer e Bel Aquino* – Blog Justificando).

 

Apesar do linchamento público e da condenação antecipada dos acusados de pedofilia na Escola de Educação Infantil Base, na zona sul de São Paulo, pela imprensa (neste caso particular, iniciada pela Rede Globo), a mídia parece não ter aprendido a lição e continua a estimular reações no público contra pessoas que são acusadas, visando, através do sensacionalismo, apenas uma audiência que venha cooptar os patrocinadores dos seus programas, sem levar em conta questões legais e, mesmo, a finalização das apurações dos fatos. Neste caso, em especial, a condenação pública dos donos da escola, que tiveram seus bens depredados e que, após, tanto tempo ainda repercute negativamente na vida dos envolvidos, tanto socialmente quanto psicologicamente e que, apesar de que tenha sido provada a inocência dos acusados neste caso, a imprensa continua com a mesma postura irresponsável, comprometida apenas com o que a audiência possa lhe dar.

O caso aconteceu em 1992, quando uma mãe de um aluno procurou um repórter do Fantástico. A partir daí, embora sem provas, toda a imprensa brasileira começou a execrar o casal donos da escola. A reação popular foi imediata. A escola foi depredada e professores e demais funcionários ficaram sem empregos e foram estigmatizados.

 

“Na esfera jurídica, entretanto, a história tomou outros rumos. As acusações logo ruíram e todos os indícios foram apontados como inverídicos e infundados. Mas era tarde demais para os quatros inocentados. A escola, que já havia sido depredada pela população revoltada, teve que fechar as portas”. (Redação Pragmatismo).

 

Embora, o Observatório da Imprensa noticie que a ombudsman da Folha, Suzana Singer, tenha afirmado que “a imprensa amadureceu após Escola de Base”, o que ainda assistimos confirma justamente o contrário. A imprensa, de uma forma geral, ainda continua com a mesma postura com se esse fato (entre tantos outros) não tivesse ocorrido e se transformado num linchamento, causando graves problemas a pessoas inocentes. O que lemos e assistimos todos os dias ainda continua provocando-nos indignação. Somos tratados, como leitores, ouvintes e telespectadores, como meras massas de manobras. Nenhuma reflexão é estimulada, mas apenas reações.

Os chamados formadores de opinião, com seu poder para incutir ideias, formatam sua comunicação para fazer a audiência “acreditar” em suas notícias como verdades absolutas. Usa-se os meios de comunicação para conduzir as pessoas para este ou aquele lado ideológico. Manipular opiniões é algo muito sério e grave, pois, as consequências são também graves e sérias. Afinal, os mais desavisados e despreparados intelectualmente tendem a “comprar” essas ideias vendidas pela mídia como “uma verdade” e a reproduzem em suas conversas e argumentações diárias como se fossem uma fonte de conhecimento impassível e, portanto, verdadeiras.

Lemos no Blog do Diario de Ourinhos:

Do indício e pré-julgamento ao linchamento

- O caso da Escola de Educação Infantil Base em São Paulo - O episódio, ocorrido há 17 anos, é até hoje citado em cursos de direito e jornalismo como exemplo de como erros cometidos durante investigações podem resultar em problemas para acusados inocentes. Nesse caso, os proprietários da Escola de Base foram presos e investigados após serem acusados injustamente de praticar pedofilia com os alunos e, mais tarde, inocentados. Porém a repercussão em âmbito nacional causou traumas que se estendem até hoje”. (Diario de Ourinhos).

E, apesar de tanta repercussão e tanta reflexão a respeito desse caso, ainda nos surpreende a postura da imprensa brasileira em relação a forma que a notícia é dada e, como é dito no blog da Fenaj: “Apontado como um dos mais célebres desvios éticos da imprensa, o caso já rendeu condenações judiciais à Rede Globo, os jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e a revista IstoÉ”, a imprensa brasileira continua com sua postura ética muito questionável, basta ligarmos a TV, por exemplo, e teremos provas suficientes de como a conduta ética dos profissionais ainda continua sendo um risco à integridade moral daqueles que são seus alvos.

No caso da Escola de Base, para recordar o fato jornalístico, vamos relembrar os absurdos da imprensa:

“O Jornal Nacional chegou até mesmo a sugerir o consumo de drogas e a contaminação pelo vírus da Aids, enquanto a Folha da Tarde noticiava: “Perua carregava crianças para orgia”; o tablóide Notícias Populares, por sua vez, estampou a capa com o título: “Kombi era motel na escolinha do sexo”.

Isso foi o suficiente para que Lemos advogasse a culpa dos acusados e iniciasse uma série de declarações equivocadas à mídia. Pelo fato de diversos veículos midiáticos estarem mostrando a figura das crianças e seus pais como vítimas, a opinião pública já tinha Aparecida, Ayres, Paula, Maurício, Saulo e Mara como os verdadeiros vilões do ocorrido”. (Blog Casa dos Focas: Alice Andrade).

E, completa o blog:

“Já não havia mais retorno, a história dos seis pedófilos que abusavam sexualmente de criancinhas em pleno horário de aula já tinha um veredicto popular”. (Blog Casa dos Focas: Alice Andrade).

Para termos um pequeno vislumbre do que um caso deste pode causar, podemos citar o filme premiado em Cannes do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg e com o ator Mads Mikkelsen:

 

“A Caça”, onde um professor é acusado de abuso sexual contra uma aluna. A opção clara dos roteiristas e do diretor foi enveredar pela exploração dos rumos que a histeria coletiva pode tomar - e não raro toma, como vimos no Brasil, em casos tristemente famosos, como a Escola Base”. (Neusa Barbosa).

Esse cuidado em pensar nas reações coletivas histéricas não parece estar na pauta daqueles que estão fazendo jornalismo no Brasil, porque, afinal, ainda continuamos assistindo programas televisivos, por exemplo, induzindo pessoas ao ódio, à vingança, ao revanchismo como isso fosse apenas uma simples diversão para o apresentador. Alguma regra, alguma lei precisa se impor para esses profissionais e os meios de comunicação em geral. Não se pode confundir liberdade (de imprensa) com irresponsabilidade civil.

O fato é que nos colocamos impassivelmente diante desses meios de comunicação; pegamos a pipoca ou abrimos uma cerveja ou um refrigerante e nos tornamos cúmplice desses absurdos midiáticos diários em que todos nós somos submetidos porque simplesmente somos apenas leitores, ouvintes ou telespectadores passivos. A indignação e a denúncia podem retirar-nos dessa postura coadjuvante desse mal social.

Por enquanto permanecemos reféns dessa situação e quando sempre a discussão a respeito do assunto vem à tona, assistimos os desvios maliciosos que a mídia faz em relação à questão, sugerindo tratar-se de censura e que “elas” estão em defesa da liberdade de expressão e, assim, não abrirão mão da condição em que se encontram atualmente.

Ou seja, ou existirá uma pressão intelectual sobre o assunto, pois, este segmento é o único consciente desse processo e já que a maioria da população é sua escrava ideológica, ou jamais sairemos dessa situação em que estamos colocados.

A questão é: ou se faz alguma coisa ou continuaremos assistindo passivamente este crime social ser praticado diariamente. E, podemos qualificar de crime pelo fato de que há uma evidente transgressão aos direitos do cidadão sendo constantemente perpetrado pela mídia no Brasil sem que haja nenhum tipo de punição e regulação para impedi-la de continuar.

Portanto, somos, todos nós, responsáveis pela continuação, fixação dos desrespeitos e transgressões sociais que a mídia brasileira vem perpetuando todos esses longos anos de sua existência.

 

4. REFERÊNCIAS:

•     http://www.casadosfocas.com.br/o-caso-escola-base-1a-parte/

•      http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=4050

http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2013/03/estreia-ator-vi...

http://justificando.com/2014/12/10/da-serie-julgamentos-historicos-...

http://www.diariodeourinhos.com.br/blog_post.asp?codblog=9&CodA...

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/caso-escola-base-rede...

1 -Da série "Julgamentos Históricos

 

 

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