Durante os anos  universitário na UFPE  eu participava de um grupo    que  aproveitava os feriados para  andar pelo litoral  do nordeste oriental .  iniciamos  por   Cabedelo na Paraiba  e  em 4 anos  chegamos a divisa de Sergipe com a Bahia . Neste grupo  tinha  os mais diversos futuros profissionais (arquitetura, antropologia, sociologia,  engenharias , geologia, biologia , etc) . Em cada pernoite aproveitavamos para conversar  com os pescadores , com os  moradores   e viamos  as mais diversas variantes da cultura popular  e  sua mitologia  -  folclore  existente não era  "arremedo para turista " era a incorporação plena  da cultura  ao cotidiano , era indissociavel  !
Recentemente  refiz  esta viagem litorânea  e o que encontrei me deixou com uma tristeza profunda : as cirandas ,  os guerreiros , os cocos de roda ,   enfim  quase todas as expressões populares  foram suprimidas pelas  igrejas neopentecostais  . os pescadores se tornaram fanáticos   que  esqueceram a "poesia mitologica do mar " ( lembrar de Dorival  é doce morrer no mar ) , renegaram seu passado  duro  e   alegre  em nome   da propagação  de um  deus triste  e profundamente vingativo  .
      Conhecemos todos os erros   que a igreja católica perpetrou ao longo dos séculos   mas devemos  que reconhecer  que ela foi e é muito mais tolerante  com as expressões do nosso povo  .O que temos hoje nestas regiões  é um verdadeiro genocídio cultural  com apoio da mediocridade política local  que vende a alma em troca  de votos   evangélicos . É O PODER POLITICO-RELIGIOSO  ASSASSINANDO  O LEGADO  SECULAR  DO NOSSO POVO ! É A TRANSFORMAÇÃO  DE UM HOMEM  INTEGRADO  AO  SEU MUNDO  NATURAL EM UM FANÁTICO !

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Respostas a este tópico

Cláudio, tomara que mais gente o escute. Você devia pôr algo sobre isso tb no Fora de Pauta do Blog-mãe, talvez o Nassif destacasse.
Cláudio,
Embora concorde que as igrejas neo-pentecostais sejam mais agressivas em sua intolerância, existem outros fatores que contribuem de forma significativa por essa degradação das culturas populares.
Se nós, que fomos "criados" na tolerância de João XXIII e Paulo VI, hoje vemos com horror as posições intransigentes de João Paulo II e do dobb... ops, Bento não sei das quantas, sabemos também que a imposição do "Padrão Global de Qualidade" também tem a mesma função. Mata falares regionais, destrói a relação entre a população e seu ambiente, impõe estilos e consumismos estranhos a comunidades.
Grande abraço.
Mário

Vou contrair completamente a tua interpretação. Segundo a teologia de João XXIII e Paulo VI a manutenção da fé era mais responsabilidade deo fiel do que da Igreja, retornando aos padrões tradicionais a Igreja toma a si a defesa do dogma e da religião, afastando do fiel a necessidade de refletir e tomar a si o caminho correto. É mais ou menos como na justiça, tudo que não é expressamente proibido é permitido, se o Cura não diz que a dançar numa solenidade de origem pagã ou solenidades religiosas de origem popular é pecado, o fiel pode ir em frente, quando tu deixas ao próprio a definição do pecado a coisa engrossa.
Nao entendi muito em que isso que você diz vai contra o que o Mário diz. Agora, que deixar para as próprias pessoas a definição do que é ou nao moral, em vez de lhes fornecer um "catálogo pronto" do que se pode ou nao fazer, é superegóico, com isso concordo em gênero, número e grau. A pessoa tem que interiorizar a responsabilidade por ser moral, e tende a ser mais auto-observador e mais exigente do que se tivesse apenas que cumprir alguns rituais estabelecidos, sem muito sentido.
Claudio,

Será porque os políticos não consegue fazer com o povo o que faz as religiões? Estas dizem que ser pobre é ótimo e ainda toma a grana dos miseráveis. Pior, eles ainda ficam satisfeitos. Será porque o ente utilizado pelos dirigentes religiosos é inalcançável ou será que as promessas dos políticos nunca chegam como eles prometem?

Conforme a teoria de Thomas Hobbes no seu livro, Leviatã, parece que nossa sociedade ainda se encontra no estado teológico. ainda devemos passar pelo metafísico e chegarmos ao positivismo. Claro que estou exagerendo, mas em algumas regiões do Brasil as pessoas ainda estão neste estado.

Falou...
"bellum omnium contra omnes - guerra de todos contra todos"
"o homem é o lobo do homem" - h*** homini lupus" . thomas Hobbes

engraçado , estava ajudando a minha esposa a criar uma estrutura didática para trabalhar em pedagogia e história o filme "lord of flies \senhor das moscas " baseado no livro de william golding e que tem tudo a ver com thomas hobbes . Neste obra é possivel identificar através da postura de alguns personagens chave : [democracia , governo , ordem , responsabilidade , razão] X [ ausência de normas e regras , barbarie , fascismo , lei do mais forte , olho por olho] .
em Hobbes para se construir uma sociedade, o homem tem que renunciar a parte de seus direitos e estabelecer um "contrato social"! creio eu este contrato está sendo rasgado e estamos nos dirigindo perigosamente para um estado fundamentalista evangélico , um estado árido onde o colorido atual do nosso povo será trocado pelo cinza dos gritos e testemunhos !
em Pernambuco a classe média liberal assumiu a cultura popular como sua (por mais que digam o contrário !) após o advento do movimento mangue e isto tem fortalecido os movimentos
culturais populares e creio que este é o único caminho possível , ou seja , valorizar e reconhecer os mestres de cada representação para que eles não caiam na tentação das falsas propostas e consiga "arrebanhar " as novas gerações




para quem nunca leu o livro ou assistiu as duas versões do filme aqui vai uma sinopse interessante colhida no site\\http://educacao.aaldeia.net/filme-senhor-moscas/


Lord of the flies

Realizador: Harry Hook

Actores: Chris Furrh; Paul Getty

Música: Philippe Sarde

Duração: 91 min.

Ano: 1990

Um filme inspirado no livro ” O senhor das moscas”, com o qual o seu autor, William Golding, ganhou o prémio Nobel da literatura.

Um grupo de estudantes entre os 9 e os 15 anos de idade sofre um desastre de avião e cai numa ilha deserta. Pertenciam a uma academia militar, pelo que o comandante do grupo assume a liderança. No início a alegria é a nota dominante. Não há aulas, não há adultos… só há férias! Como se trata de uma ilha tropical, sentem-se no paraíso. No entanto, é preciso lutar pela sobrevivência para conseguir alimentos, para se protegerem das condições climatéricas e para avisar os possíveis socorristas de que estão vivos… Dividem-se tarefas, estabelecem-se objectivos, mas nem todos os elementos do grupo possuem a mesma motivação. Alguns não estão dispostos a aceitar as regras do jogo, mesmo que o que esteja em causa seja a sobrevivência… Um dos rapazes propõe que se dediquem apenas à caça e às brincadeiras, apresentando aos seus companheiros soluções facéis e de satisfação imediata. Recusa participar nos trabalhos rotineiros que caberiam a todos os estudantes. Desfaz-se a união entre os colegas e alguns seguem o rebelde. Com o desenrolar da história, o comandante do grupo cada vez se vai sentindo mais isolado, mas não cede nas suas convicções e no que ele considera mais adequado para o bem de todos. Mantém a sua estratégia, a única correcta a longo prazo. Mas a sua firmeza é insuportável para os insubmissos que, numa explosão de ódio, tentam matá-lo, depois de já terem morto um dos poucos colegas que o apoiava. É um homem só, o único que não se juntou aos do “outro grupo”. No momento em que está quase a ser apanhado, chegam uns helicópteros salvadores, colocando um ponto final à história, que fica em aberto… a conclusão tem de ser tirada por todos os espectadores do filme ou leitores do livro.

Estamos perante um filme cru e forte sobre a natureza humana, marcado por uma extraordinária banda sonora, que cria e dissolve estados de alma e envolve emocionalmente toda a realidade que nos é dada observar.

Tópicos de análise:

1. A capacidade de liderança.

2. Como motivar as pessoas.

3. As relações humanas dentro de um grupo.

4. Um conjunto mínimo de regras torna mais eficaz o trabalho de todos.

5. A cobardia em aceitar falsas propostas, só para não se ficar isolado.

6. A importância de manter a estratégia correcta, apesar de impopular.

7. Ceder no essencial uma vez, é ceder para sempre.

Encontra aqui uma curta apresentação de algumas dezenas de filmes, contendo os dados principais de cada um deles, um resumo e alguns tópicos de análise. Não se trata de filmes aconselhados por nós, mas apenas de algumas ideias que podem ajudar a escolher um filme ou a tirar partido dele do ponto de vista educativo.

Colaboração de Paulo Martins, Mestre em História e doutorando em Cinema.
Claudio,

Creio que devemos enxergar as manifestações religiosas sob seu aspecto sociológico.
Elas são igualmente manifestações culturais (e políticas) das comunidades.
O catolicismo foi mais "tolerante" com as culturas populares por ter uma estrutura feudalista e monárquica, numa relação desvinculada dessas manifestações, exercendo seu poder de forma ideológica, centralizada e acima das regras seculares.
As manifestações religiosas afro-brasileiras se incluem nesse exercício, ainda que de forma lateral, através do sincretismo, ficando portanto refém do poder monárquico católico, permissivo porque desinteressado.
Ao contrário, os evangélicos são segmentados em várias seitas, sem um poder central (ainda que sua fonte cultural sejam os países desenvolvidos onde dominam o campo religioso).
Essas seitas buscam seus líderes no meio mesmo de seus fiéis e esses líderes não possuem a característica teológica dos sacerdotes católicos, o que os aproxima dos crentes, exercendo um poder mais sociológico.
Seria o caso de analisar profundamente a dinâmica que tem levado os evangélicos a se tornarem cerca de 20% da população brasileira, a começar pelo que apontou o Mario Abramo: a mudança cultural vem originalmente de outras fontes e carrega consigo as manifestações religiosas a ela associadas...
Para o bem o para o mal?

Abraço
Cara Luiza

Não concordaria em muito com a tua análise, a origem da repressão das manifestações populares é mais teológica do que outra coisa. Poderíamos simplificar diazendo que a salvação segundo a Igreja Católica é quase que terceirizada para o clero, a idéia da confissão repassa o perdão dos pecados a palavra do Cura, é um tal de peca e confessa que dá gosto. Já nas igrejas pentecostais não há este tipo de transferência de responsabilidade, o crente se comunica diretamente com o senhor, coisa que é execrada na liturgia tradicional católica, ou seja, pecou o Senhor pune e se o Senhor não manifestar a sua aprovação melhorando as condições do crente ele está danado.

Posso dizer por experiência própria, fui educado em colégio confessional católico, e a preocupação de todos não era não pecar, era morrer antes de se confessar, logo se o indivíduo conseguia sobreviver até o Domingo, com uma boa confissão estava salvo do coisa ruim.
Então, Rogério, sua explanação apenas confirma o que eu disse em relação à "tolerância" em relação às manifestações culturais...
Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa, até o próximo "pecado", contanto que se submeta ao padre...
Luiza

Tem outro fator, a distância do fiel católico a hierarquia superior é espantosa, só aparece um bispo ou até um cardeal numa determinada comunidade quando esta tem algo a oferecer ($$$$$) se não o pessoal fica com o Cura da região. Se esta região é pobre e isolada quem vai de Pastor religioso geralmente é um padre sem muito acesso ao alto clero (não quero dizer que é mais religioso ou não, digo politicamente mais afastado), como este padre está longe do centro ele "adapta" a religião a religiosidade (isto é algo fantástico, há padres em comunidades distantes que são verdadeiros anátemas).

As comunidades evangélicas têm muito mais comunicação entre si do que as católicas e logo a religiosidade é muito mais cobrada.

Luiza, quanto a submissão ao padre, lembro-me que no tempo de colégio (década de 60) quando íamos confessar tinha duas filas, uma imensa e outra muito curta. A imensa correspondia a de um padre velhinho que além de meio surdo ele tinha trabalhado como confessor do presídio central de Porto Alegre, logo quando os alunos iam confessar que tinham praticado o pecado solitário umas doze vezes na semana, mas estavam arrependidos, ele devia lembrar das confissões de quem tinha matado doze, aí era um Pai Nosso e uma Ave Maria e mais nada. Se fosse com o outro se ouviria uma enorme preleção sobre os malefícios físicos deste pecado e ainda ganhava-se um terço de penitência. Era moleza, escolhia-se o confessor certo, confessavam-se os pecados e saia-se com a alma leve.
Eu tenho 2 ordens de explicações muito diferentes para isso, Luiza (mas nao acho que elas esgotem a questao).

A primeira tem a ver com a ajuda mútua que algumas dessas religioes -- nao todas... -- promovem entre os fiéis; e isso nao tem só a ver com o valor objetivo da ajuda, mas tb com a "sensação de pertencimento", ter um lugar na organização da Igreja, se sentir alguém. Há muitos anos atrás assisti uma palestra da Monique Augras, uma cientista social francesa que estudou o candomblé, falando sobre isso (em relação ao candomblé); e já vi isso pessoalmente numa ordem religiosa alternativa que uma amiga minha frequentava. É um lugar onde alguém sem influência e poder na sociedade maior pode se sentir útil e respeitado.

A outra me veio de uma reflexao sobre o caso de Dorinha Durval (que se tornou evangélica) e acho que explica parcialmente o sucesso que eles obtêm nas prisoes, e com bêbados, etc. O caso de Dorinha sempre me causou muito impacto emocional. Fico pensando em você amar alguém a ponto de suportar as humilhações que ela suportava, um belo dia ser mais humilhada ainda e ameaçada de abandono, depois de tudo, perder a calma, e matar o agressor -- que você amava! Nessas horas, é preciso que haja um Deus para que ele possa te perdoar, nenhuma instância humana bastaria para isso.

Acho que com bandidos que mataram mil pessoas e fizeram mil barbaridades, e nao tem nenhuma condição de se sentirem pessoas dignas, de novo, o perdao divino pode fazer maravilhas...
Uma coisa que fico pensando me remete prá anterioridade deste acontecimento:
por que a religião assume este lugar tão precisoso na vida das pessoas, a ponto de substituir a própria vida cultural com a qual mantinham tantas ligações, herdadas da tradição?

e onde entra o Estado nisto tudo? ele tem algo a fazer, a dizer? está fazendo? está dizendo?

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