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A RENÚNCIA DE JÃNIO

Laerte Braga


Há quarenta e nove anos atrás Jânio Quadros renunciou a presidência da República. Sete meses após sua posse. Minutos depois da leitura da carta renúncia pelo presidente do Senado, Auro Soares de Moura Andrade (PSD/SP), já ex-presidente e ao volante de um DKW da Vemag, Jânio disse a jornalistas que nunca mais poria os pés em Brasília, “cidade maldita”. Afirmou que iria ser pedreiro em Cuba.

“Forças ocultas” foi a expressão usada por Jânio Quadros, um mato-grossense que fez carreira política em São Paulo, para justificar o ato. Em seus sete meses de governo proibiu brigas de galos, desfile de miss com biquíni e instituiu o slack como uniforme do funcionalismo público.

Deixou Douglas Dillon secretário do Tesouro dos EUA falando sozinho para encenar um show de Brasil independente e mandou que cada chefe de repartição conferisse o ponto de cada funcionário público, aumentando em meia hora o expediente.

Atribuir a renúncia de Jânio a umas doses a mais é simplificar demais o fato. As doses a mais faziam parte do dia a dia do presidente e começavam pela manhã, estendiam-se pela tarde e encerravam-se à noite, já em profunda embriaguez. Aí ia assistir a faroestes de trás para a frente.

Outro hábito de Jânio eram os famosos bilhetinhos. Enviava-os aos seus ministros com determinações curtas, tudo com cópia para a imprensa.

Jânio era marqueteiro de si próprio. Um dos grandes demagogos de nossa história. Construiu a fama de político honesto e deixou um patrimônio objeto de disputa judicial por seus herdeiros em torno de cem milhões de dólares. No exterior, lógico.

O ex-presidente acreditava que sua renúncia criaria um clima de comoção popular e voltaria ao poder nos braços do povo com amplos poderes. Poderes de ditador. Mas esqueceu de combinar o golpe com seus ministros militares e seus principais aliados. Pelo contrário, deixou alguns pelo caminho, caso de Carlos Lacerda.

Na antevéspera da renúncia chamou Lacerda a palácio, a conversa permanece mais ou menos sigilosa até hoje e ao final o ministro da Justiça, Pedroso Horta, mandou que as malas de Lacerda fossem postas à porta de saída do Planalto.

Na noite do dia seguinte Lacerda foi a tevê e em seus costumeiros e virulentos discursos usou de todo o arsenal de acusações que guardava desde os tempos de Getúlio Vargas, para ocasiões em que seus interesses eram contrariados.

No dia 24 de agosto Jânio recebeu em palácio o ministro da Indústria e Comércio de Cuba, nada mais e nada menos que Ernesto Chê Guevara para condecorá-lo com a Ordem do Cruzeiro do Sul. O fato indignou a direita brasileira.

O marechal Lott, adversário de Jânio nas eleições de 1960, passou a campanha inteira advertindo aos brasileiros que a eleição do ex-governador de São Paulo levaria o País ao caos, a uma crise institucional, cujas conseqüências seriam dias sombrios e tenebrosos.

Quase que simultaneamente à renúncia de Jânio, Lott divulgou um manifesto de apoio à legalidade, vale dizer, a posse do vice-presidente da República João Goulart.

O golpe que Jânio não combinou com ninguém, aí sim, a “mardita pinga” deve ter influenciado, começou quando sem maioria no Congresso tentou atrair uma das principais lideranças do PSD (maior bancada), o ex-presidente Tancredo Neves, oferecendo-lhe uma embaixada no exterior. A Bolívia foi a “oferta” de Jânio a Tancredo (o mineiro havia sido derrotado por Magalhães Pinto nas eleições para o governo de Minas e estava sem mandato). A surpresa veio por conta da recusa de Tancredo. Simples, respeitosa e direta. “sou de um dos partidos que fazem oposição ao seu governo, agradeço a lembrança, sinto-me honrado, mas declino do convite”. Mais ou menos assim.

O peso de Tancredo em setores do pessedismo não era maior, por exemplo, que o de José Maria de Alckmin, mas sua presença entre os petebistas, partido de Jango, era respeitada e acatada por setores expressivos daquele partido, o antigo PTB. A idéia de Jânio era neutralizar o ex-ministro da Justiça de Vargas, jogá-lo fora da arena política.

Mais à frente incumbiu o vice-presidente João Goulart, com quem vinha tendo atritos, de missão na China Comunista. O objetivo era o mesmo, afastar Jango do cenário político nacional, colocá-lo num país objeto de visceral ódio da maioria dos militares brasileiros, limpar o terreno para o golpe.

Sabia que a primeira conseqüência de sua renúncia seriam as reações de setores das forças armadas à posse de Jango, incluindo os seus três ministros militares (Odílio Dennys, Grum Moss e Sílvio Heck – Guerra, Aeronáutica e Marinha).

O problema Lacerda, na cabeça de Jânio era simples. A vocação golpista do antigo governador do extinto estado da Guanabara aflorava à sua pele em cada pronunciamento que fazia. Só não contava com a reação de Carlos Lacerda ao seu projeto de virar ditador, já que Lacerda alimentava o sonho de suceder a Jânio. Esse desejo era maior que o desvio golpista. E além do mais Lacerda enfrentava problemas nos negócios, particularmente o jornal TRIBUNA DA IMPRENSA, que pretendia transformar em algo semelhante ao que o GLOBO é hoje.

Porta voz da insensatez e da mentira. O que faz de forma bem sensata, aliás.

Jânio puxou a escada, deixou Lacerda seguro só na brocha.

Cumpriu os protocolos, digamos assim, do dia 25 de agosto, dia do Soldado, não deu na pinta que o gesto tresloucado viria uma ou duas horas depois, entregou a renúncia a Pedroso Horta, ministro da Justiça e esse ao presidente do Senado. A despeito dos apelos de Afonso Arinos, ministro das Relações Exteriores e que correu a assumir o mandato de senador para tentar evitar a renúncia, Auro Soares de Moura Andrade leu a carta e aceitou a renúncia.

Afonso Arinos queria colocar em votação e Auro foi direto depois de ouvir Tancredo. “A renúncia é um gesto de vontade unilateral, não cabe ser discutida”.

Na ausência do vice-presidente, João Goulart, em missão na China (o Brasil não tinha relações diplomáticas com o governo de Pequim e Jânio mandara Jango para iniciar um diálogo com o governo de Mao Tse Tung e Chou En Lai), o presidente da Câmara, Ranieri Mazili (PSD/SP) foi empossado no cargo.

Os três ministros militares, de pronto, se colocaram contra a posse de Jango tachando-o de comunista. Não encontraram apoio nem entre udenistas históricos caso de Adauto Lúcio Cardoso, nem em boa parte da caserna. Mas assumiram o controle do Brasil.

A reação veio do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Do antigo PTB, cunhado de Jango e que começava a despontar como liderança nacional a partir das ações de seu governo, principalmente na área da educação.

Brizola, com ele e uns poucos secretários e assessores transformou o Palácio do Piratini em centro da resistência democrática. Criou uma rede de emissoras de rádio a que chamou de CADEIA DA LEGALIDADE, usada para denunciar o golpe, defender a posse de Jango, a legalidade democrática.

Ao contrário dos ministros militares encontrou eco em todo o Brasil e em diferentes forças políticas. Teve o apoio da Brigada Militar do Rio Grande (PM), o Piratini foi pequeno para abrigar voluntários, muitos chegando de várias partes do Brasil e em meio a incertezas recebeu o apoio do comandante do III Exército, general Machado Lopes.

Lott que conclamara através de um manifesto a defesa da legalidade fora preso pelos golpistas, isso no Rio de Janeiro onde se encontrava. O marechal Nilo Sucupira foi o encarregado de prender o marechal.

Jango, estava em meio a um périplo para voltar da China ao sabor dos fatos que aconteciam no Brasil. Encarregou Tancredo Neves de negociar em seu nome. Um acordo feito com os golpistas em torno da emenda parlamentarista de Raul Pila (Partido Libertador, RS), pôs fim à crise.

Brizola aceitou a solução negociada, mas declarou-se contrário ao que chamou de “expediente golpista”. Tancredo Neves foi o primeiro-ministro indicado por Jango e Ernesto Geisel o porta-voz do vice-presidente, agora presidente, junto aos ministros militares do ex Jânio Quadros.

E se não me falha a memória, Jânio Quadros e suas esquisitices deliberadas, propositais, embarcou para a Europa num navio cargueiro, me parece que o Uruguai Star. Nos momentos seguintes à sua renúncia, na base aérea de Cumbica, em São Paulo, ao saber que o fato estava consumado, teve uma forte crise de choro.

O golpe falhara.

Um ano depois tentaria voltar ao governo de São Paulo. Foi derrotado por Ademar de Barros (a quem havia vencido em 1954). O governador Carvalho Pinto, oriundo do chamado janismo não absorvera a renúncia do seu antigo líder e um terceiro candidato, José Bonifácio, dividiu o eleitorado janista. Àquela época não havia segundo turno, uma eleição para governos estaduais ou presidente da República era decidida por maioria simples.

A renúncia de Jânio escancarou mais ainda as portas para o golpe real.

O outro golpe, o de 1964, começou em 1950, na segunda derrota do brigadeiro Eduardo Gomes (UDN). A primeira para o marechal Dutra e a segunda para Getúlio Vargas. Quase se materializou em 1954 no manifesto dos coronéis contra a presença de Jango no Ministério do Trabalho (Getúlio havia dobrado o valor do salário mínimo e nem as elites e nem militares subordinados a elas aceitaram a medida) e da crise provocada pelo assassinato do major Rubens Florentino Vaz, que na verdade foi um atentado contra Carlos Lacerda, deputado e principal líder da oposição a Getúlio.

Um inquérito que mostrou membros da guarda pessoal de Vargas envolvidos no crime deu ensejo a que militares da Aeronáutica, na chamada REPÚBLICA DO GALEÃO, pregassem abertamente o golpe. O suicídio de Vargas abortou o golpe, comoveu o país e o vice, o potiguar João Café Filho, ligado a Ademar de Barros, assumiu o governo. De cara deixou Ademar e migrou para o udenismo.

A eleição de JK por pouco não foi para o brejo na tentativa golpista abortada pelo marechal Lott, ministro da Guerra (hoje, Secretaria do Exército). Em 11 de novembro de 1955 e no governo de Juscelino, duas revoltas localizadas e levadas à frente por setores da Aeronáutica fracassaram.

Nada do que Lott dissera que aconteceria ao Brasil na hipótese da eleição de Jânio deixou de acontecer. Em 1º de abril de 1964 militares de extrema-direita, subordinados aos Estados Unidos e comandados pelo general norte-americano Vernon Walthers, derrubaram Goulart, assumiram o governo e até 1984 produziram o pior filme de terror de nossa história, real e sofrido.

A última cena ainda não foi protagonizada. A punição dos responsáveis pelo período de barbárie. Se auto anistiaram. É uma espécie de the end necessário para cicatrizar feridas abertas pela barbárie dos DOI/CODI e das OPERAÇÕES CONDOR.

Jânio conseguiu voltar à Prefeitura de São Paulo, em 1965, derrotando Fernando Henrique Cardoso.

No dia da sua posse pendurou um par de chuteiras à porta do seu gabinete anunciando que estava terminando sua carreira.

E ainda assim tentou “inovar” para melhorar o trânsito de veículos automotivos na capital paulista. Queria o patinete a motor.

Sua reputação por pouco não vai abaixo literalmente, quando sua filha quis denunciá-lo por corrupção, abusos, etc. Foi salvo por Ulisses Guimarães que preferiu não deixar a história vir a público e segurou Tutu Quadros, deputada e filha do ex.

Se a ditadura foi uma noite de horror, Jânio foi um drama lamentável com laivos de loucura consciente, se é que posso escrever assim, estudada, pensada.

Sanduíche de mortadela e um copo de pinga, os ingredientes preferidos em suas campanhas políticas, mas de público, de forma ostensiva e visível, para que todos pensassem que com o boné de motorneiro de bonde, de fato dirigia um bonde.

Descarrilou. Pior descarrilou o Brasil.

A versão atual de Jânio é também um ex-prefeito da capital de São Paulo e ex-governador do estado, José Arruda Serra.

A diferença está no fato de Arruda Serra ser abstêmio. O que conta a favor de Jânio. Como costumo sempre lembrar e como dizia o poeta Sílvio Machado, “não conheço nenhuma boa idéia surgida em leiteria”.

Um detalhe. O vice de Jânio era Milton Campos, anos luz à frente de Índio da Costa (nem deve saber quem foi Milton Campos). E antes de renunciar à presidência, Jânio renunciou à candidatura. É que a UDN havia indicado Leandro Maciel, um senador sergipano para vice. Jânio sabia que a despeito de ser um político honrado, não acrescentaria nada à sua chapa, pelo contrário, poderia complicar uma eleição fácil.

No período da ditadura militar tentou ensaiar algumas declarações contra o regime militar, acabou inovando, cumpriu a primeira pena de confinamento desde não sei quando em nossa história. Foi para Corumbá, onde ficou 45 dias por determinação do marechal Castelo Branco. Sossegou em seguida, foi cuidar de outro Sossego, esse com letra maiúscula. Uma das marcas mais famosas de pinga àquele tempo e escreveu uma gramática e uma coleção de história do Brasil, uma delas em parceria com Afonso Arinos.

Arinos recuperou-se e curou-se da doença, registre-se nos autos a bem da verdade.

E como dizia Jânio, “fi-lo porque qui-lo”.

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Respostas a este tópico

Caro
LAERTE,

Tomo a liberdade de,
para ilustrar ainda mais
seu valioso texto, enviar
aqui, para conhecimento
dos mais jovens, a

CARTA RENÚNCIA DE JÂNIO


"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo.
Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o
cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente,
sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se
os meus esforços para conduzir esta nação, que
pelo caminho de sua verdadeira libertação política
e econômica, a única que possibilitaria o progresso
efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu
generoso povo.
"Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando,
nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia
que subordinam os interesses gerais aos apetites
e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive
do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças
terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou
infamam, até com a desculpa de colaboração.
"Se permanecesse, não manteria a confiança e a
tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao
exercício da minha autoridade. Creio mesmo que
não manteria a própria paz pública.
"Encerro, assim, com o pensamento voltado para
a nossa gente, para os estudantes, para os operários,
para a grande família do Brasil, esta página da minha
vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.
"Saio com um agradecimento e um apelo.
O agradecimento é aos companheiros que comigo
lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo
e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta
exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta
oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do
congraçamento, do respeito e da estima de cada
um dos meus patrícios, para todos e de todos
para cada um.
"Somente assim seremos dignos deste país e
do mundo. Somente assim seremos dignos de
nossa herança e da nossa predestinação cristã.
Retorno agora ao meu trabalho de advogado
e professor. Trabalharemos todos.
Há muitas formas de servir nossa pátria."

Brasília, 25 de agosto de 1961.

Jânio Quadros"
Excelente contribuição Marco, acrescenta muito ao artigo, ilustra-o e traz a público um documento importante. Um abraço,

Laerte
Ah! Laerte, que boa leitura e ainda com a contribuição do Marco.

tb concordo"“não conheço nenhuma boa idéia surgida em leiteria”.


p.s. fui na tua pagina e vi que tem mais leitura.. é que andava muito ocupada, mas vou tratar de me atualizar
( atualizar é preciso! rsrsrsrrs )
sds.
LAERTE
e
STELLA MARIS,

Você bem lembrou do
poeta Sílvio Machado,
“Não conheço nenhuma
boa idéia surgida em leiteria”.

Perdoe-me por tergiversar,
mas vale aqui lembrar
daquela folclórica frase
alemã:

"Im Himmel gibts kein Bier,
drum trinken wir es hier!"
(No céu não há cerveja,
por isso é que nós
bebemos aqui!)

E aquela italiana?

"Chi beve birra campa cent'anni ...
chi beve vini non muore mai!
(Quem bebe cerveja vive cem anos ...
quem bebe vinho não morre jamais!)

Abraço,

Marco Nogueira
Xiiiii, Marco.
Então serei imortal!
Adoro um vinho e uma cerveja geladinha( risos)
beijos e um bom dia.
CARO LAERTE BRAGA
Sabe, no dia 24 de agosto, atendendo uma cliente no escritório, peguntei a ela a data e me disse: hoje são 24 de agosto doutora. Então comentei com ela a respeito dos acontecimentos deste dia ocorridos em 1954 e ela me respondeu não ter conhecimento; nem tampouco sabia quem fora GETULIO VARGAS, o homem que instituira as leis sociais- CLT, fonte donde emergiam seus direitos, já que pretendia ajuizar uma reclamatória trabalhista. Então falei a ela rapidamente sobre Getulio, como nascera a CLT e contei-lhe sobre o suicidio de Vargas e que ele era gaúcho e que por longo tempo fora Presidente do Brasil e de saída, brinquei, que havia saído de lá mais culta. Tão logo ela saiu voltei no tempo...lembrando do meu pai a falar de Getúlio com aquela "adoração" que todo gaúcho tinha por ele, mormente meu pai uma vez que a avó dele era prima irmã do falecido presidente: os pais eram irmãos entre si. Por consequência, o pai também gostava muito do Dr. Jango como ele chamava, costumava visita-lo na fazenda Rancho Grande e depois, quando no exílio, na fazenda Taquarembó. O pai trabalhou para a eleição de Jânio por causa de Jango, porque não simpatizava muito com Jânio Quadros, que se não me engano era Udenista, e da UDN era Carlos Lacerda acerbo crítico de Getúlio. Jânio se elegeu e me lembro dos comícios que frequentei... tinha uns treze para quartorze anos na época. Muito bem, Jânio assumiu e para desespero de todos renunciou pouco tempo de depois. E isto todos já sabem, que já foi dito acima. Mas por aqui pelos pampas a notícia da renúncia se espalhou que nem rastilho de pólvora. E Jango assume, Jango não assume... Nesses meios tempos a gauchada ia insarilhando as armas. Como sabemos Jango assumiu, não por muito tempo, mas assumiu. Mais tarde ocorreu o golpe e a implantação da ditadura. Quando Jango foi deposto veio para o sul e todos os seus amigos foram até ele, entre estes estava o meu pai, todos dispostos a enfrentar a luta, ira às últimas consequências para reverter o processo. Jango foi categórico e disse a todos que "queria derramar sangue", estas foram suas palavras. Por longos anos, até a morte de Jango, um grupo de amigos se reunia na fazenda Taquarembó para encontrar com seu líder. Sem dúvida o período da ditadura militar foi o mais negro da história da República e Jânio teve participação direta nisto, concordo com Laerte que o projeto de Jânio era colocar-se como ditador e foi um péssimo estrategista, esquecendo-se de acertar o golpe com que tinha condições para mantê-lo no poder,que vem a ser as forças armadas. Entendo que este assunto, nos aspectos que foram retratados neste tópico, podem ser desdobrados em vários comentários, como por exemplo, uma análise mais acurada sobre a personalidade e a participação política de Carlos Lacerda nos Governos de Vargas e, postiormente, no governo de Jânio. Lembro de ver meu pai falar em Lacerda de forma exacerbada, ele simplesmente detestava Lacerda. Ele era uma figura polêmica, que me parece que gostava de estar evidência, talvez porque pretendesse ser o Presidente da República como fala o Laerte e já se utilizava de todos os meios possíveis para estar "na crista da onda" sempre, do tipo: falem de mim, falem mal, falem bem, mas falem de mim. E Lacerda era ardiloso, ele sabia "tirar do sério" uma pessoa. Naquele caso do atentado ao Major Vaz, como você disse, o alvo era Lacerda. Mas não acredito que o Dr. Getúlio tenha participado disto, ele era muito inteligente e não embacaria nessa, pois é óbvio que o primeiro a ser apontado como mandante seria Getúlio. Lacerda mexeu com os brios dos que amavam Getúlio e estes nem sempre tão bem aquinhoados do ponto de vista intelectual, pouco dotados em assuntos de estratégia política, cometeram um desatino que desencadeou uma crise que resultou no suicidio de Vargas. De minha parte estou muito feliz de encontrar vocês todos aqui e assim poder falar destes assuntos, de tudo isto que faz a história do Brasil e que não pode ser esquecido. Conheci algumas destas pessoas, como é o caso de Jango, que ia na minha casa, eu também ia na Fazenda Rancho Grande, conheci Dona Maria Teresa, afinal todos éramos de São Borja. Jango era uma pessoa simples, lá nos pampas andava de bombacha e alpargatas, ah! eu me lembro bem disso. Um dia ele foi na minha casa, lá em Boa-Vista de São Domingos, distrito de São Borja, bem assim, nesses trajes e... de avião. Boa tarde amigos, espero não ter sido cansativa .
Elizabete,
bem vinda ao clube.
abçs.
Elizabete, boa tarde. Que precisas e corretas lembranças de uma parte, um tempo, de nossa História. Não foi cansativa não. Como disse a Stella, "bem vinda ao clube". O Jango, acho que foi isso que você quis dizer, não queria derramamento de sangue. Existiam condições sim para a resistência, mas muito sangue seria derramado. Sobre isso se pode até travar uma discussão, se válida ou não a resistência, tal o preço que o país pagou.

Foram precisas suas considerações, ótimas suas lembranças. Eu acho que a História se faz da soma de detalhes, fatos, situações, que acabam moldando o todo e dando contornos reais aos acontecimentos. Foi o que você fez, pegou uma situação determinada de um momento histórico e trouxe até nós com ganho para todos nós.

Uma boa noite e um abraço,

Laerte Braga
O doutor Jango, como falava o meu pai, sabia que haviam condições para resistência, sabia também que podia contar com aquele pessoal que estava ali para ofercer solidariedade e enfrentar o que viesse, mas como ele disse: não queria derramar sangue. Você sabe que não foi fácil convencer aquela gente de desistir de uma revolução, houve muita resistência, e a pessoa que mais se levantou contra isto foi Leonel Brizola, todos sabem. Mas para o meu pai, quando Jango falou, estava falado, ele faria o que Jango queria que fizesse. Tem mais uns pormenores nesta história que não me sinto em condições de comentar aqui, são os bastidores desta pré-revolução. Quem sabe uma hora destas, aproveitando uma deixa eu escrevo.
Agora, uma coisa que não consigo engolir é a morte do Jango daquela forma, com certeza as coisas não estão bem contadas, uma pena que não foi investigado a fundo. Vocês não concordam?
ELISABETE MARIA,

Também eu dou-lhe
as boas-vindas à
nossa turma.
Bonito e rico seu
texto.
Mas, com sua premissão
faço duas correções,
pelo que desde jovem
eu soube dessa história.
1)
Você (pois ainda era criança)
confundiu-se em dizer que
seu pai teria votado em Jânio,
mas por JANGO.
Não poderia ter sido assim
porque o JANGO foi candidato
a Vice-presidente na chapa
do General Henrique Teixeira Lott.
O vice da chapa de Jânio foi
o Jurista mineiro Milton Campos.
Estranho, não?! Acontece que
naquela época o candidato a
Vice-presidente não era vinculado
ao cabeça de chapa, podendo
ser votado com o candidato
a Presidente da chapa adversária.

2)
Tenho informações contrárias
às que disse sobre JANGO
querer "derramar sangue".
A versão, que desde jovem
ouvi, é que JANGO, uma
pessoa de coração magnânimo,
definitivamente não queria
que houvesse derramento
de sangue. Se ele o quisesse,
acho que o povo, de Norte
a Sul, botaria a milicada
golpista pra correr. Sem
contar que o III Exército
lhe era fiel e poderia repetir
o que fez quando lhe garantiu
a posse com aquela Campanha
da Legalidade levantada
por Brizolla.

3)
Jânio não era udenista.
Foi candidato pela UDN,
mas seu partido mesmo
era o PDC
- Partido Democrata Cristão.
Naquela época a Lei Eleitoral
era um grande "balaio de gatos".

Nossos parabéns
pelo interessante texto.
E mais ainda
por ser parente do grande
estadista GETÚLIO VARGAS.

Continue marcando
presença entre nós.

Abraço,

Marco Antônio Nogueira
Oi Marco Antonio
É um prazer falar contigo e gostei das correções, assim que tem de ser, sem falar que vc tem razão.
Mas antes de adentrar ao assunto, quero te dizer que tens um nome lindo, meu irmão tinha esse nome: MARCO ANTONIO.
Bem eu era mesmo pequena quando tudo aconteceu, tinha 14 anos quando o Jânio foi candidato e ia nos comicios e tal. Tenho de admitir que não sei por quais razães ó pai votou e fez campanha para o Jânio Quadros, não lembrava quais eram os candidatos da época. Mas agora está mais claro, exceto por eu não lembrar pq meu pai apoiou o Jânio. Mas acho que foi porque o pai sempre teve uma implicância com "os milicos" como ele falava, então ele fez campanha para o Jânio que na época era o homem da vassoura e para Jango e assim, ele fez a "chapa dele".
Quanto ao "derramamento de sangue" creio que estamos de acordo Marco Antonio, realmente o Jango era uma pessoa magnânima, altruista, bom... isto que ele era, e por isso não queria derramamento de sangue. Também sei que o III exército era fiel e os gaúchos ajudariam, mas mesmo assim Jango não quis a revolução. Quando Jango foi deposto em março, dia 30/31, meu pai estava em viagem de férias com a família, voltou de madrugada para Santiago e lembro que chegamos e ele saiu, para ir ao encontro das pessoas que já estavam reunidas a fim de dar apoio a Jango, para o que desse e viesse. Lindo isso não é?
Quanto a Getulio o meu pai era apaixonado por ele, eu tenho uma foto de Getulio montado num cavalo branco, foto esta que o pai deixava na parede. Parente não somos mais, só de longe. Também admiro muito a Getúlio Vargas e sempre conto para os meus clientes quem criou as leis sociais- CLT; ele foi um ditador sim, muitos o acusam disto, mas ele fez muito pelos brasileiros, com certeza foi um Estadista.
Laerte eu vi muito de perto os acontecimentos da renuncia do Jango por não querer derramamento de sangue entre irmãos. O comandante do III exército morava na minha rua e na madrugada vimos os tanques chegando e soubemos que estavam trazendo o Jango. O Brizola queria que ele continuasse presidente,pois o III exército estava lhe dando apoio e ele governaria a partir de Pôrto Alegre. Um pouco depois ouvimos pelo rádio que estavam se deslocando de SP navios para atacar os rebeldes de Pôrto Alegre. Foi quando recebemos a noticia de que Jango não iria se entregar e iria embora. Meus filhos estavam na frente da casa do comandante pela manhã e viram quando o Jango foi embora. Foram momentos que não esqueço.

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