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Si le monde social m’est sopportable,

c’est parce que je peu m’indigner”[1]

(Pierre Bourdieu)

 

Quando estudante de Direito, na virada dos anos 70 para os 80, diziam alguns de meus "velhos" professores ser tradicional falar-se em "para os amigos tudo, para os inimigos o direito" – então, já eu, ingenuamente, suspeitava disso indicar interpretação ampla, inteligente versus, a literal, rasa.

Pois bem, o tempo passou, e tudo mudou, hoje, poderíamos, sem temer incorrer em absurdo, imaginar que o dito se refez: "para aos amigos tudo, para os inimigos, nem o direito" – quando comecei a suspeitar de inda mais para os primeiros, e menos que a letra da lei, método mais pobre de sua interpretação, para os inimigos.

E, numa sociedade fundada na fixação da impotência em face da alteridade, assim, histericamente – como a crítica deste que vos escreve alcança –, tal qual pelas nobiliarquias-clericais, os outros são os não integrantes dos seus, estranhos à “classe” do interprete. Para eles, os outros têm existência subalterna, utilitária, reificada, sendo indignos de voz ativa, não passando de número posto à espoliação, naturalmente, consequente dessa mentalidade, desde a escravidão clássica à escravidão classista, da servidão moderna, explicando-se e, aos olhos dessas elites, mesmo, justificando-se a diferença de estatuto jurídico (Jacques Rancière, O Desentendimento).

Assim, o ordenamento jurídico pode ser interpretado de modo a propiciar à mega-corporação que é o Estado, como às demais corporações, privilégios negados aos cidadãos em geral, esse demo demoníaco, hoje, tão-só, feito e sustentado por alteridade cifrônica dos de sangue verde.

Em face do sucumbimento da Justiça ao peso do arremate da colonização neoliberal, com sua analítica, sua equivalência generalizada, seu calculismo, sua massificação do povo, seu produtivismo e tanto mais, é visível a olhos nus que o baixar a biblioteca para lavrar sentença ou voto em defesa, digamos, daquele que sensibilizou o julgador, pelo que não se podia dizer mais que “grandíssimo conservador ou progressista”; com os anos noventa nenhuma biblioteca era baixada, se existia, é verdade às vezes há esgrima de pós-doc, e em dez linhas é-se capaz de rasgar a Constituição, que se dirá a lei ordinária.

Isso é o que se vislumbra, especialmente pelos inimagináveis abusos das cortes de todos os naipes, ordinariamente contra a cidadania a todos, desde o Patriot Act, até a glosa pelo Congresso do decreto sobre os conselhos populares (note-se que decreto e o decretado, em absoluto, teriam condão de arranhar previsão legal, porquanto, prerrogativa do Congresso).

Comece-se pelos favores ao grande capital, especialmente financeiro, mas não só; a delonga de anos a fio para o julgamento de causas de repercussão nacional e relevantes à economia popular.

Importa notar, neste tocante, que populares seriam, assim, no imaginário dessa gente histérica, narcisista e kratomaníaca (furor de dominação), ao fim e ao cabo, fascista por delírio de superioridade egóica congênita, reflexamente eugenista, enfim, que populares seriam outros, todos os não-hiper-super-megaricos, seus asseclas, sabujos ou agregados.

Todos eles, deste modo, ordinariamente, cultores de demofobia, demofobia neoliberal, isto é, cultores de sentimentos de antipatia, que vai do desprezo à aversão pelos economicamente(!) não aquinhoados[2], como se se tratasse realmente de essência, perene e deficiente, quiçá, contagiosa, tal qual equiparam os de down, de anencefalia, de daltonismo, os leprosos, etc..., ou seja, como se inexistissem fatores determinantes de ordem econômico-social às limitações, por eles mesmos, demófobos, impostas (educação, saúde, etc...).

O desafio passa, também, por pérolas como a da teoria do domínio do fato, ou pela delação premiada obtida por coerção (Stº D’us!!)[3], pior e teratologicamente, através das Guantánamos pátrias, melhor seria impátridas, especialmente, de S.Exª o Inquisidor Mor do dia, simulacro e misto de Torquemada tupiniquim pós-moderno, justificando os meios pelos fins, com pose autoritária de salvador da pátria, todavia, sem a menor visão, menos ainda, responsabilidade econômico-social, haja vista a repercussão sobre o país dos (des)caminhos apuratórios, leia-se, o povo brasileiro (emprego, tecnologia, memória organizacional e empresarial, independência e segurança nacional), absolutamente ao arrepio da finalidade social da lei, com reflexos, diga-se, inda imprevisíveis.

Inevitável, enfim, com vistas a esses dispositivos de coerção, pensar nos guetos varsóvicos aprimorados pelos israelenses, ou, frise-se, nas masmorras inquisitoriais onde o acusado tinha de confessar seus pecados, como o palestino (mouro!) sua ignomínia em face do povo eleito, ou o muçulmano suspeito de terrorismo, sem tribunal, acusação, defesa, enfim, nada de devido processo legal, senão, mercê da histeria paranoica, cega, insensata, absurda, gratuita e de bestial truculência.

Assim, dramatizando este pathos, em conformidade com o melhor estilo do Malleus Maleficarum e do Directorium Inquisitorium, manuais do Stº Ofício, pouco modificados pelos protestantes em suas habituais caças às bruxas e congêneres:

 

- “confessa!”, dizia o algoz;

- “mas o que?”, respondia a vítima dilacerada;

- “sabes bem o que fizeste”, rematava incisivo o inquisidor por si ou seu sabujo, “confessa teus pecados, ó pústula demoníaca!”.

(se não isso, coisa que o valha)

Beccaria, autor de “Dos Delitos e das Penas”, obra prima da modernidade libertária, humanista e traída pelos novos cânones do racionalismo, teria convulsões na tumba![4]

Ora, diante de tal e tão dantesco quadro de inversão, subversão e distorção de valores, mais que sociais (anomia durkheimiana), valores mais que jurídicos, oficiais, numa palavra, civilizatórios, assim, expressão mesmo de guerra civil dissimulada, travestida; pior, diante da inanição das lideranças do Poder Executivo, que já reiniciou muitíssimo mal com seu ministério, de desmedimento agravado em número e qualidade.

E seu destramelamento? desde a comunicação social, às (des)ordens diplomáticas, sem falar no desastre, desastrosérrimo[5] e radicalíssimo ajuste neoliberal pelo sabujo dos banqueiros, fez-se, assim, Poder sucumbido a que forças sabe lá D’us (seriam as famosas forças ocultas do Jânio Quadros?)...

Deveras, o poder púbico silenciar diante dos mandos e desmandos, por exemplo, da Rede Globo, mantendo-lhe a concessão sem pio oficial contra seus abusos, aceitando-lhe débitos fiscais imensos, nada dizendo sobre apuração de contas bancárias escusas no exterior, fatos que vasados ao público exigem explicação, afinal, teoricamente, está-se numa república, e coisa pública é coisa de todos, cumprindo mostrar-se transparente aos olhos até da escumalha, conta em que a nobiliarquia-clerical tem o Zé Ninguém, senão digna de piedade... ah! isso fede!

Entretanto, inescamoteável e impressionante, para mais que democratismo formal, há a bipolaridade, a tibieza do governo PT. Mais que acanhamento a realizar seus fins originários e traídos, mesmo (política com ética), curiosamente, pois, nem reforma agrária, como paradoxalmente, manteve-nos de fronteiras esgarçadas ao fluxo de capitais, assim, à mercê de um clique de mouse, continuou a ajudar a encher as burras das elites hiper-super-megaricas, tudo com a apropriação através do Estado do fruto do trabalho do povo (veja-se: as injustificáveis taxas de juros[6], verdadeiro pedágio à nossa subsistência), conquanto ligeiramente mitigadas – e isso, a mitigação do rentismo pelo PT[7] é imperdoável pela desmedidamente gananciosa aristocracia, que, hoje, lembra tanto as investidas udenistas, seja contra Getúlio, seja contra Jango, de cujo golpismo foram, eles mesmos udenistas, vítimas, tal qual demostra a frustração de Lacerda, Magalhães Pinto, entre outros[8]).

Os amos do mundo são os inimigos do mundo, mas estão, hoje, no comando dos acontecimentos.

Destarte, se a Presidente e/ou o Congresso Nacional não refrearem o “contratador” pós-neocolonial e sua camarilha, agente do financismo intramuros, e reflexamente além deles, enxertado pela força oculta, cumpre ousar avanço: não nos esperará mais que lastimarmos não sermos uma Grécia, uma Espanha, ou um Portugal, pós-2008, todavia, temperados com uma “Faixa de Gaza” que vai do Oiapoque ao Chuí, de nossa tradicional guerra civil de 40 anos, todavia, político-partidário-ideologicamente desorganizada, senão, no mesquinho e imediatista objetivo pluto-cleptocrático, em culto às próprias opulência, ostentação e dominação.

Saudações de estilo e, ainda como de hábito, indignadas, mas incondicionalmente libertárias, vitalistas e democráticas, afinal, não há motivo para temer viver amalgamaticamente – torcendo pela eutanásia do rentismo e pela fundação da República, real e efetivamente, ordenada em Estado de Direito, de viés democrático, sob a égide dos princípios da dignificação da pessoa humana, da formação de sociedade livre, justa e solitária, e da igualdade, sem tergiversação.



[1] Se o mundo me é suportável, é porque posso indignar-me.

[2] Essa é a característica cambiante à "etnofobia” do “fascismo clássico”, abstraído o fanatismo religioso e o racismo ianque, esse é o elemento essencial do fascismo de todas as épocas, demófobo, feito de excludência aristocrática (eugenismo, povo eleito, e congêneres), com ou sem suporte em estamento sacerdotal.

[3] De pronto, exsurge que a simples prisão fora da legalidade, desde seu decreto, até sua concretização, as condições do aprisionamento(*), desafiam a lei, vez que consubstanciam violência incompatível com o Estado de Direito, devendo, portanto, as delações obtidas e seus desdobramentos ser repudiados a qualquer custo, sob pena de importarmos o que a matriz, a metrópole está à beira de abandonar, jamais, entretanto, espetacularizar como se faz irresponsavelmente.

Por outra, uma experiência pessoal, também, ilustrativa desse quadro geral:

Certa feita, dei-me a fazer um curso de negociação com um sujeito que se dizia da FGV, no meio do curso tratou das maneiras de se obter um “acordo” entre as quais estava a “coerção”, da qual pediu exemplo, a o que indiquei a do terrorismo comercial, tipo: “é o último do estoque”, “os preços aumentarão amanhã”, etc., e ele aprovou; a o que retorqui que se tratava de prática ilegal, pois ofendia ao principio da boa-fé negocial e à vedação legal à coerção – nem falei do estelionato, em que pese a vantagem, a venda, ser obtida mediante ardil –, pois bem, desconsertou-se, fez pausa para o café, e eu não voltei mais, preferindo realizar o prejuízo do “investimento” no curso, que me deixar intoxicar com aquela lavagem cerebral canalha empreendida contra os jovens, os demais da turma, estimulados a estrategismo sem limites, a vale-tudo por dinheiro.

Certo ficou, mais uma vez, que tudo atinente às técnicas de gestão, propaganda e marketing são, muito mais que excepcionalmente, feitas de fraude à verdade e ao bem-estar, conquanto, ordinariamente, humanissimamente devidos, como fins próprios (verdade e bem-estar), pelos agentes púbicos, tudo, no embalo da dialética erística, isto é, vencer per fas, per nefas, por meios lícitos ou ilícitos.

(*) veja-se em https://www.youtube.com/watch?v=uyz-W645oGQ&feature=share, não bastasse saber que nossas cadeias são masmorras medievais, leia-se, aí, também, inquisitoriais, servindo, rigorosamente considerado, de instrumento de tortura pelas simples condições do aprisionamento nelas, para muito além da simples restrição do direito de ir e vir, que é a medida da lei.

[5] Não precisamos passar por nada disso.

[6] Ver “Os estranhos caminhos do nosso dinheiro” do Prof. Ladislau Dowbor,  por ele disponibilizado em http://dowbor.org/principais-livros/

[7] No período FHC/PSDB/PMDB de oito anos, a dívida pública foi  mais que decuplicada, em contrapartida nos quatorze anos de governo PTista foi “apenas” quintuplicada, espelhando um expressivo freio em seu crescimento – agora, porém...

[8] Cunha não lembraria Lacerda, claro, só na combatividade, na agressividade a Vargas e a Jango, pois na cultura, na oratória... bem eram outros tempos.

A história se repete, principalmente, quando a ignoramos.

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