Amizade, justiça e verdade

* Railton Souza





A convivência social parece, realmente, não ser tão fácil. Quantas vezes o outro é inconveniente, não respeita os limites existenciais e nem mesmo os físicos que nos separaram. Quantas vezes ele é injusto, nos lesando e nos causando danos. No calor da irritação, a idéia do outro como o inferno, parece fazer sentido. O outro como um intruso que nos quer limitar e controlar. Nesses tempos de intolerância e desrespeito às alteridades, o diálogo está dando lugar, cada vez mais, à guerra. A qualquer hora e por qualquer motivo, estamos prontos para o conflito. Restringimos nosso contato em nível das relações de troca de prazeres e de utilidade. A amizade seria ainda um ideal a ser perseguido nesses tempos tão áridos e sequiosos?

O que seria amizade? Como relacioná-la com a justiça e a equidade? O fundador da primeira Academia¹, em tempos idos, já refutava a idéia de justiça, resumido na prática de fazer bem aos amigos e prejudicar os inimigos. A prática política de nosso país, ao que me parece, está fundada nesse mesmo princípio por ele combatido: Aos meus amigos, parentes e consortes tudo, aos outros, os estranhos, a lei e a danação. Platão também não aceitou que a justiça fosse resumida apenas no interesse do mais forte. Refutou também os argumentos daqueles que louvavam a prosperidade e a boa vida dos injustos e que maldiziam os infortúnios pelos quais passava o homem justo. O estagirita² afirmou que a mais genuína forma de justiça é uma espécie de amizade.

Tempos depois, outro que para muitos foi maior que esses, nos fez pensar que não há mérito algum em amar os que nos amam. Grande seria aquele que conseguisse fazer bem aos que o odeiam. Meritoso seria o que amasse os próprios inimigos - ideal, a olhos vistos, distante da história e da realidade humana. Sabemos que a sociedade capitalista funciona como panóptico da vigilância e da punição, com todos os seus mecanismos de disciplina, de controle e de exploração do homem pelo homem, inerentes ao compulsório e coercitivo processo de socialização. Pode ela fundar suas relações numa tal amizade?

Compreendendo a infinita multiplicidade das historicidades humanas, constatação que me faz respeitar aqueles que se estruturam como ilhas, entendo a amizade (phylia) como elemento de imprescindível importância para a autêntica reciprocidade inerente ao convívio social, para o qual o homem está predisposto, ao que me parece, a partir de sua natural politicidade. A amizade deveria constituir-se na realização daqueles contatos humanos que nos unem a todos enquanto membros de um corpo social que se quer saudável.

Com a maior parte das pessoas, é verdade para mim, estabelecemos relações assemelhadas à amizade. Relações que se fundamentam na utilidade recíproca que uma pessoa representa para a outra pessoa ou no prazer que uma é capaz de dar a outra. É preciso dizer que tanto a primeira quanto a segunda não correspondem ao conceito de amizade que pretendo dele me aproximar. São a ele apenas comparadas.

As relações, denominadas amizade, que estabelecemos na esfera mais privada com uma meia dúzia de pessoas, com as quais procuramos ser os mais justos e cuidadosos não poderiam representar, nessa perspectiva, uma tão excelente forma de relação – como entendemos a phylia - quando, com as demais pessoas, os estranhos, somos desonestos, maus e injustos. Aqueles que detêm poder devem entender que a amizade, não pode jamais se restringir ao grupinho de consortes seus. Sua arte deveria, acima de qualquer outra, expressar a essência da sociabilidade e politicidade numa espécie de amizade universal.

Seria possível pensar uma phylia universal intrínseca ao ser humano? Pressupondo que um amigo não lesaria o outro, e, que não praticaria contra ele uma injustiça; afirmo ser a amizade, tal como pensou Aristóteles, uma espécie de justiça que se manifesta na relação entre pessoas virtuosas. Mesmo na ausência de contratos ou de leis escritas, a relação de amizade deveria ser regulada pela equidade, o respeito ao direito natural. Um amigo seria aquele que, em algum momento, até mesmo de forma deliberada, poderia vir a prejudicar-se para evitar o prejuízo do outro com quem mantém a relação amistosa. A amizade, assim, constituir-se-ía na mais desinteressada, excelente e perfeita manifestação das relações humanas que se possa imaginar e almejar. Estaria além da mera utilidade. Seria, de fato, a mais completa e duradoura daquelas que conhecemos.

Muitos podem afirmar ser a idéia de uma phylia universal nada mais que utopia. E quem disse que não precisamos de utopia? Quem disse que não devemos nos imbuir dos mais excelentes e grandiosos objetivos? Quem disse que não devemos lutar contra a mediocridade que nos ronda e carcome ad sepulcro?

Comentário: O texto “Amizade, justiça e verdade” traz de forma evidente a determinância de tópicos da Estrutura de Pensamento tais como: pré-juízos, termos agendados no intelecto, como o mundo me parece, inversão e recíproca de inversão, princípios de verdade, interseções e busca. Fica evidente que o filósofo não é, nem de longe, detentor de verdades universais. O que faz quando escreve nada mais é que demonstrar como fenomenologicamente percebe e pensa subjetivamente o mundo. Suas pretensas verdades gerais nada mais são que verdades construídas a partir da sua história, enquanto ente localizado no tempo, no espaço, circunstanciado e em relação.

Notas

1. Por volta do ano 387 a.C ao retornar a Atenas de uma viagem, Platão edificou sua própria escola filosófica, a Academia, nos jardins de seu amigo Academus.
2. Aristóteles nasceu em 384 a.C em Estagira, cidade localizada na Macedônia. Ficou conhecido, por isso, como o estagirita.


BIBLIOGRAFIA

MORRIS, Clarence (org.) Os grandes filósofos do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Coleção Os pensadores).
ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Coleção Os pensadores).
BITTAR, Eduardo C. B - ALMEIDA, Guilherme Assis. Curso de filosofia do direito. São Paulo: Atlas, 2002.
PLATÃO. A República. São Paulo: Nova Cultural, 1999(Coleção Os pensadores). FILOSOFIA CLÍNICA?Exames categoriais e estrutura de pensamento.

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Respostas a este tópico

Lógica perfeita é ineficaz perante os desejos humanos...
Belo texto Raílton! Quem sabe um dia a humanidade construa essa utopia perfeitamente possível? Gostei,um abraço Sérgio.
Sérgio é isso mesmo. Para além do imediatismo, pragmatismo, utilitarismo e objetividade das relações comerciais e interpessoais, vamos tentar construir amizades verdadeiras. Sem idealismos, mas com nortes, com escolhas valorativas e deontológicas que consideramos dignas de nós, como somos mesmo, ainda que cheios de contradições.
Abração,

Railton
Márcia, o ser humano é contraditório, não se ajusta a modelos ideais. Esses modelos são nortes para construirmos melhores relações (éticas) no dia a dia. A dialética é a forma de pensamento que, talvez, melhor dê conta dessa realidade mútipla e em devir contínuo que somos nós.

abração,

Railton

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