Portal Luis Nassif

Há poucos dias, o jornalista Luis Nassif foi surpreendido com uma assombrosa constatação: um vídeo elaborado por ele foi bloqueado no site de compartilhamento de vídeos Youtube. Tratava-se de um documentário sobre futebol a ser exibido na TV Cultura. O bloqueio foi feito a pedido da Federação Internacional de Futebol – FIFA – porque a gravação incluía 15 segundos de uma cena considerada um marco do futebol: na final Copa de 1958, após a seleção brasileira tomar um gol da Suécia, o jogador Didi pega a bola no fundo da rede e a carrega até o meio do campo com uma altivez tamanha que contagiou positivamente os companheiros até a vitória (clique AQUI). Sabemos agora que tal cena não pertence aos brasileiros ou à história do futebol, mas sim à FIFA. (link 1)

É assombroso, pois, constatar que após a lufada de democracia que a internet trouxe para o bem da informação e da diversidade cultural, agora vivemos um período de retrocesso por conta do poderoso lobby das grandes e tradicionais corporações, incluindo aí a grande mídia e a as grandes gravadoras. Pois que a cultura e informação não são bens a serem compartilhados, mas produtos que devem ser controlados e servir de lucro para os poucos milionários que, aliás, atingiram tal condição graças à ditadura cultural que sempre prevaleceu antes da popularização da internet. E o que a popularização da grande rede trouxe foi a queda nas audiências das grandes rádios e tevês comerciais; e queda nas tiragens dos grandes periódicos, ou seja, os únicos veículos pelos quais você ficava sabendo da existência, por exemplo, de determinado artista.

 

SOPA e PIPA

Se o caso do vídeo de Luis Nassif foi assombroso, digo que o caso de Knorr foi ainda pior. Bom, cabe agora explicar o estranho título deste texto. Para quem não conhece a sigla S.O.P.A. – Stop Online Piracy Act –, traduzível para “Lei de Combate à Pirataria Online”, é importante dizer que se trata da maior ameaça contra a liberdade de expressão dos últimos tempos e que foi institucionalizada pelo Congresso norte-americano e obedecido à risca pelo FBI, a polícia federal dos EUA – que recentemente fechou sites de compartilhamento de arquivos como o Megaupload e Megavideo. Juntamente com outra sigla nada amigável denominada PIPA – “Protect Intellectual Property Act –, ou, Lei de Proteção da Propriedade Intelectual, a coisa ameaça ganhar o mundo com o ACTA – Anti-Counterfeiting Trade Agreement –, traduzível para Acordo Comercial Anticontrafação. Para simplificar o significado desta complicada expressão, grosso modo o ACTA é um acordo internacional que tende a levar o SOPA-PIPA para todos os países signatários. (link 2)

E completando a explicação do título: se você não mora em Juiz de Fora, ‘Knorr’ provavelmente pode não ser aquilo que você pensou. Pois trata-se de um músico (e poeta e artista gráfico) de boa fama local e que recentemente teve seu nome envolvido numa polêmica com a cantora Ana Carolina.

 

O caso Knorr

Knorr é codinome de Luiz Augusto Knop. O apelido nasceu numa sala de aula, quando um professor, brincando, fez trocadilho associando o sobrenome do aluno com a famosa marca de produtos alimentícios. Levando na esportiva a inevitável gozação dos colegas, Knorr, mais gozador ainda, cuidou de assumir o apelido – com o qual, aliás, passou a incendiar, no melhor sentido, o jornal do colégio em que estudávamos ainda no período da ditadura. Deu certo. Knorr virou “marca” da cultura de Juiz de Fora com seus poemas; com sua arte. Criativo, chegou a brincar com a hipocondria dos brasileiros ao tentar “equilibrar” o alto consumo de remédios com o baixo consumo de literatura. Então criou as “cápsulas poéticas”; as “inspirinas” recheadas com seus poemas. (link 3)

Knorr, engajado também na música, em meados dos anos noventa passou a participar como percussionista nos primeiros passos profissionais de Ana Carolina em Juiz de Fora, quando a talentosa cantora tinha fama limitada às pessoas que, aos sábados, lotavam a praça da alimentação do Santa Cruz Shopping para beber cerveja e ouvir boa música. O mundo deu muitas voltas até Ana Carolina, com muito chão e trabalho, ganhar seu merecido reconhecimento no âmbito nacional. Mas, no vácuo da fama, veio um certo “esquecimento” que não cabe aqui discutir. O que podemos – e devemos –, sim, discutir é o que considero uma violência (para dizer o mínimo) não apenas contra o músico Knorr, mas contra todos os artistas brasileiros que não chegaram ao chamado “lugar ao sol”. Knorr publicou no Youtube alguns vídeos das suas participações com a cantora Ana Carolina. Mas, por reclamação de alguém, o famoso site de compartilhamento de vídeos acusou a “pirataria” de Knorr e ordenou a retirada dos mesmos. Estamos, pois, diante do limite do surrealismo em que a chamada indústria do copyright pode chegar, ou seja, um artista ser considerado pirata por publicar um vídeo que ele próprio integra.

O assunto rendeu tamanha repercussão na Internet (blogues, sites de relacionamento etc.) que chegou até a mídia local (link 4).
Com a repercussão, Knorr viu-se diante de uma confortante solidariedade de internautas e artistas locais, mas também foi alvo de alguns desaforos, mais notadamente de alguns fãs (felizmente a minoria) da cantora Ana Carolina que certamente confundiram o espírito da coisa, ou seja, acharam que a briga de Knorr era contra Ana Carolina. Combinemos então que o problema de Knorr não é com a artista juizforana, mas sim com as grandes corporações que, sob o pretexto de “proteger” o artista, no fundo ambicionam tão-somente os lucros que o mesmo proporciona. O que se lamenta é a hipocrisia; a aspereza exatamente no meio profissional – o artístico - que inspira a sensibilidade; lamenta-se também que o desejo de alguém de expor com orgulho a sua história possa ser sobrepujado pelo desejo do outro de esquecer o próprio passado.


Paulo Coelho é prova viva da estupidez do SOPA

Na contramão da gula mercantilista em cima da cultura, faça-se justiça ao escritor Paulo Coelho – quando o próprio lançou a campanha “Pirateie Paulo Coelho” para que todos pudessem baixar de graça os seus livros na Internet. Foi o próprio quem decidiu que, em cada lançamento de um livro seu, simultaneamente o mesmo deverá ser disponibilizado na internet para que seja baixado gratuitamente por qualquer pessoa. Será que o escritor brasileiro, de tão rico, resolveu fazer caridade e escrever de graça? Pelo contrário: o fato é que Paulo Coelho continua adorando a faturar com seus livros. Arguto, ele percebeu há alguns anos que seus livros vendiam na proporção em que eram “pirateados” na internet, ou seja, baixados de graça. Foi assim, sendo “pirateado”, que Paulo Coelho conseguiu fama em alguns países até se tornar campeão de vendas nos mesmos. E quando surgiu a polêmica do SOPA-PIPA, o escritor brasileiro mais famoso não titubeou em atacar esta violência ao mesmo tempo em que passou a defender o que a mídia chama pejorativamente de “pirataria”. (link 5 e link 6)

 

Ameaça do SOPA-PIPA no Brasil é real

No Brasil, projetos de lei afins com a dupla SOPA-PIPA acenderam a luz amarela da volta da apropriação privada da liberdade e da diversidade cultural. O perigo é real e o lobby é fortíssimo, principalmente com a chamada “Lei Azeredo” (link 7) – chamada de “AI-5 digital” –, de autoria do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e mais recentemente com o Projeto de Lei (apelidado de “SOPA Brasileira”) do deputado Walter Feldman (PSDB-SP), que visa bloquear domínios na Internet que tragam qualquer ameaça ao “copyright” (link 8).

Menos mal que, com a forte reação de críticos e da vasta legião de internautas, o deputado teve que voltar atrás e se viu obrigado a retirar o seu Projeto de Lei. (link 9)

Caso a lei fosse aprovada, isto significaria o seguinte: se você publicar uma foto, música, vídeo, texto, poema etc em qualquer espaço na Internet e qualquer pessoa reclamar o tal copyright, seu IP poderia até ser bloqueado e os sites de busca teriam que excluir as referências ao seu endereço (no blog, Facebook etc) onde foi publicada a “infração”. Mas fiquemos atentos porque a retirada do tal Projeto de Lei não tem um cunho de “nunca mais”, mas um “até breve” com outra roupagem. Pois o lobby é vivo, poderoso e muito endinheirado.

Vivemos dias de extrema violência causada pela intolerância; pelo cerceamento à liberdade como um todo. E dói saber que a própria cultura – então o caminho mais digno para a paz e aproximação entre os diferentes – esteja sendo capada para atender à ganância de poucos.

 

FONTES

1- Luis Nassif e o vídeo do Didi:
http://www.advivo.com.br/emvideo/modal/92750/425/350/field_video/yo...

 

2- Matéria sobre o SOPA & PIPA em que a própria Globo diz que as emissoras de TV são a favor: 

http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/01/entenda-o-projeto-de...

 

3- Reportagem com Knorr e suas “inspirinas”:
http://www.youtube.com/watch?v=7joP98XjDQk

 

4- Matéria com a polêmica entre Ana Carolina e Knorr:
http://megaminas.globo.com/video/2012/01/25/caso-envolvendo-artista...

 

5- Artigo de Paulo Coelho condenando o SOPA e com links para você "piraterar" os livros dele (artigo original em inglês):

http://paulocoelhoblog.com/2012/01/20/welcome-to-pirate-my-books/

 

6- O mesmo artigo de Paulo Coelho, traduzido para o português:

http://www.puabase.com/forum/paulo-coelho-sopa-e-pipa-t49611.html

 

7- A “Lei Azeredo”, ou, “AI-5 digital”:
http://www.cartacapital.com.br/politica/o-ai-5-digital/

 

8- O Projeto de Lei (PL) que ameaça trazer a “SOPA” ao Brasil:
http://telesintese.com.br/index.php/plantao/18705-pl-de-walter-feld...

 

9- A retirada da PL após pressão popular:
http://telesintese.com.br/index.php/indice-geral-plantao-em-destaqu...

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Respostas a este tópico

Caro Michel,

 Parece que o AI-5 digital foi barrado, mas ainda não consegui link confirmando.

Sim, foi. Mas não foi a primeira vez que foi barrado. O trâmite é sempre este: o projeto é barrado e logo ressurge c/ outra roupagem. Vai acontecer o mesmo c/ o "SOPA" do Feldman, ou seja, ele retirou a PL e já apontou que "poderá" apresentar um "novo" projeto no mesmo sentido. 

Que bom, Michel, mais um na luta contra esses desmandos. 

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