Nos finais de semana a literatura sempre é uma grande companheira, principalmente quando lemos aqueles livros que fertilizam a nossa imaginação e nos coloca em contato com a realidade de maneira mais acurada. Erico Veríssimo, em Incidente em Antares, nos dá mostra, através de um personagem “coronelesco”, do quanto a realidade daqueles tempos perdura em nossos dias. Quanto ao personagem citado, Tibério Vacariano, ligado à “advocacia”, não é difícil imaginar quem pode ser hoje, neste Brasil “moderno” do século XXI.

Eis o trecho do livro:

Além da advocacia administrativa, ganhava dinheiro em transações imobiliárias e ocasionalmente no câmbio negro. A Segunda Guerra Mundial proporcionou-lhe oportunidades para bons negócios, uns lícitos, outros ilícitos. Habituara-se a viver à sombra do Banco do Brasil, do qual conseguia empréstimos para amigos e sócios, e para si mesmo. E, como tantos de seus pares, já possuía, num banco de Zurique, uma conta corrente numerada, cada vez mais gorda em dólares.

Em 1931 entrara no que considerava um verdadeiro “negócio da China”. Estabeleceu uma “fábrica” de seda nos arredores de Antares. Constava ela apenas dum grande barracão de madeira às margens do Uruguai, sem nenhuma máquina, apenas com mesas e prateleiras, e uma porta que dava para o rio e três na fachada. À noite vinham da margem argentina barcas carregadas de peças de seda, de origem vária, e que eram levadas para a “fábrica”, onde uns cinco ou seis empregados as enrolavam em rótulos Seda Flor da Fronteira – Indústria Nacional e depois as expediam para muitas partes do Estado e para Santa Catarina e Paraná. Os guardas aduaneiros protegiam esse contrabando. Eram “gente do Tibé”, todos bem remunerados pelo caudilho.

Ano após ano, mal entrava o mês de novembro, Tibério punha-se a caminho do Rio Grande do Sul, de Antares e das suas terras, onde tornava a ser o estancieiro, o patrão, o homem que manda, desmanda e grita. Aliviava assim o peito e a cabeça de todos os impropérios e ímpetos agressivos reprimidos durante seus meses de “atividade civilizada” no Rio de Janeiro, no convívio com gente do asfalto e da areia da praia.

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