O aumento do consumo de Ritalina na rede municipal de saúde de São Paulo não é pontual. O Brasil é o segundo país que mais utiliza o Cloridrato de Metilfenidato (princípio ativo do medicamento), perdendo apenas para os Estados Unidos, destaca a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença. A substância é adotada no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Não são poucas as hipóteses levantadas para explicar esse crescimento. Na avaliação de Marilene Proença, a Ritalina, apelidada pelos críticos de "droga da obediência", tem sido adotada como subterfúgio para escamotear falhas no sistema educacional.

- Estamos tendo uma precarização da qualidade do ensino oferecido para alunos na fase de alfabetização. Se a criança não está atenta na escola, se não está escrevendo corretamente como deveria, isso é um problema educacional, pedagógico. Quer dizer que não estamos conseguindo dar conta de uma alfabetização adequada. Mas de repente, há uma epidemia de crianças que não prestam atenção? Não faz sentido. Nasceu uma geração que não presta atenção? A geração anterior prestava e a atual não presta? - indaga Marilene, que também é membro da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.

 

- Consideram que o fato de o aluno não aprender não tem a ver com a questão pedagógica, mas é um problema dele, como se fosse algo orgânico que tivesse dificultando a aprendizagem. A mudança de comportamento estaria sendo feita pela medicação, e não por uma pedagogia adequada - completa.

Já para a professora titular do Departamento de Pediatria da Unicamp, Maria Aparecida Moysés, há uma tentativa de "abafamento dos questionamentos".

- Ritalina e Concerta (também tem o Metilfenidato como príncipio ativo) estão sendo prescritos para crianças que incomodam. Existe uma pressão da indústria farmacêutica, mas creio que há também o ideário de um abafamento de questionamentos, de normalização das pessoas. Todos homogêneos. Pode ser que não seja esse o objetivo, mas é o que acaba acontecendo, porque toda criança que questiona tem TDAH. Você medica e aborta o questionamento. Estamos cada vez mais usando remédio para tudo. Não há mais gente triste. Há gente deprimida. A tristeza incomoda. Te mandam tomar um Prozac. A vida está sendo retirada de cena, porque é irregular, caótica, tem altos e baixos, diferenças. O que está acontecendo é que quem não se submete é quimicamente assujeitado.

Quadro nacional

De acordo com a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença, os conselhos regionais da categoria irão promover ações locais para "levantar a problemática em seus estados".

- Até novembro, esperamos ter um quadro nacional - afirma.

Dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos mostram que de 2000 a 2008, a venda de caixas de metilfenidato saltou de 71 mil para 1.147.000, um aumento de e 1.615%. Os números não consideram receitas de medicamentos manipulados ou comprados pelo poder público.

A comercialização da Ritalina é regulada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Embora o medicamento - classificado no anexo da Portaria 344/98, na lista das substâncias psicotrópicas -, só possa ser adquirido com receita especial, é fácil consegui-lo clandestinamente. Uma breve busca pela internet revela que não são esporádicas as ofertas da droga.

Relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa de 2009 - dado mais atualizado da entidade sobre o metilfenidato - destacou que há vários estudos e questionamentos quanto ao uso massivo e efeitos secundários da substância, "pois sua utilização já está ocorrendo entre empresários, estudantes, para emagrecimento e até em uso recreacional na forma triturada como pó ou diluído em água para ser injetado".

O relatório informa ainda que a maior preocupação em relação ao Cloridrato de Metilfenidato está, na verdade, relacionada ao seu "mau uso", e não à utilização da substância nos casos de TDAH. Mas pondera ao ressaltar que o medicamento não é indicado para todos os pacientes da doença. O documento acrescenta :

- Segundo estudo publicado em 2009, somente entre 2002 e 2006, a produção brasileira de metilfenidato cresceu 465 por cento. Sua vinculação ao diagnóstico de TDAH tem sido fator predominante de justificativa para tal crescimento. Mas os discursos que circulam em torno do tema e legitimam seu uso também contribuem para o avanço nas vendas.

A psicoterapeuta Cacilda Amorim, do Instituto Paulista de Déficit de Atenção (IPDA), ressalta que as exigências do mercado de trabalho têm provocado aumento na procura por estimulantes cognitivos.

-Hoje, existe uma pressão muito grande para o desempenho de qualidade, principalmente em adultos, em situações de trabalho que não garantem as condições mínimas para que isso seja possível. Em qualquer área, a quantidade de coisas que se espera que a pessoa faça, aprenda, desenvolva. Se não desenvolver, ela se sente inadequada.

"zombie like"

Crítica implacável do traramento com Ritalina, a professora da Unicamp, Maria Aparecida Moysés afirma que a aparente calma promovida pela droga em crianças não é efeito terapêutico, mas "sinal de toxicidade".

- Tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e a cocaína. Ele é um derivado de anfetamina. É essa a complicação. Ele age aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A dopamina é um neurotransmissor associado às sensações de prazer.Não é todo mundo que fica mais concentrado. Em torno de 40, 50% ficam mais focado, que é o efeito da anfetamina e da cocaína. Mas foca a atenção no que passar na frente, não necessariamente nos estudos.

Segundo ela, as reações adversas acontecem em todo os órgãos.

- No sistema nervoso central, você tem psicose, alucinação, suicídio, que não é desprezível, cefáleia, sonolência, insônia. Um dos mais importante é um efeito que, em farmacologia, é chamado de "zombie like". A pessoa fica contida em si mesma. Passa a agir como se estivesse amarrada. No sistema cardiovascular, por exemplo, os efeitos são hipertensão, arritmia, taquicardia, parada cardíaca. É uma droga perigosa. Eu não daria para um filho meu.

 

Por Ana Cláudia Barros, extraído de Terra Magazine

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Respostas a este tópico

Não é de agora que existe o alerta de que os professores estão "rotulando" alunos indisciplinados como hiperativos e com déficit de atenção porque não conseguem dominar a sala; mas por outro lado, como sou professora e já passei pela Educação Básica e desisti, porque como não tenho filhos não vejo porque me estressar com a falta de educação, de valores dos filhos dos outros, porque essa é a realidade dos "hiperativos". Por outro lado, a questão da depressão não envolve somente crianças e sim adultos, e os médicos que estão receitando ritalina sem nenhum diagnóstico, também estão receitando anti depressivo de qualquer jeito. Por exemplo, outro dia, uma amiga que passou num concurso e teve que assumir o cargo em uma outra cidade, deixou a filha com o ex-marido, acontece que a menina adora o pai, e quando a mãe vem nos finas de semana, ela observou que a filha não vê a hora de voltar para a casa do pai. Logo, ela está chateada e triste com isso - e ela é uma ótima mãe; bom,  em junho ela foi num cardiologista e me contou que tava tudo normal, e aí aproveitou a ocasião e pediu um anti depressivo, o médico perguntou se ela estava tendo insônia, ela confirmou e ele deu. Prá mim, acendeu uma "luzinha vermelha" e eu perguntei se um outro médico havia mandado ela pra o cardiologista, ela respondeu que não, que simplesmente reslveu checar se estava tudo bem, então eu respondi que ela havia esquecido de ler o Manual de depressão, porque quem está depressivo a última coisa que quer é cuidar da saúde, ainda mais por livre e espontânea vontade, ouvindo isso, tirou de uma sacola agasalhos e roupas de academia pois ía começar a fazer hidroginástica e pilates. Até hoje rimos da situação quando lembramos. Entendeu? Só por causa de insônia, o médico receitou anti depressivo - que jogamos na patente. Esses comportamentos de indisciplina e tristeza vão acabar transformando crianças em adultos viciados em remédios, assim como os adultos tristes ou estressados.

 

Gostei Elisabeth,

Conheço inúmeros relatos como o seu,

 

É isso que chamo de "medicalizaçao da vida". Você leu os outros tópicos que já pus aqui a esse respeito, que recomendei a Stella? Todos dizem isso de um modo ou outro.

analú,

neste caso,

Ritalina, não cura..

 

Cura casos autênticos de TDHA (se é que isso realmente existe). Mas lembre do mapa do vídeo daquele americano do TED talks. A "epidemia" é mais uma moda que qualquer outra coisa.

Temos que ter o cuidado para não jogar fora anos de ciência por preconceito. Qualquer droga pode ser usada de forma errada por desonestidade ou desconhecimento.

Soube por meus filhos que estudaram muito para Concurso que tinham candidatos que comumente usavam Ritalina para conseguir concentração. Não é qualquer pessoa que consegue passar de 06 a 10hs de estudo sem nenhuma medicação.  

O que tem que ser feito é separar o que é indicação médica real e picaretagem como o caso da receita desse medicamento para os estudantes de concursos.

Na Bahia tem uma mocinha que está com 19 anos, ela tem graves problemas neurológicos e psiquiátricos desde que nasceu, essa medicação foi fundamental para que hoje tenha o primeiro grau. Era esse remédio que conseguia mantê-la sentada em uma cadeira por algum tempo para leitura e escrita.

Essa menina tem psicopedagogos, terapias com grupos de crianças. A família participa de grupos com as famílias de crianças com problemas similares e uma mãe totalmente dedicada. Tem ainda assistência de psiquiatra e uma neurologista das mais competentes e cuidadosas com os pacientes. A jovem é cuidada por essa médica desde que era residente e hoje é uma conceituada neuropediatra na Bahia.

Conheço profundamente a dedicação da mãe dessa criança. Se houvesse qualquer outra forma dela conseguir que sua filha pudesse ter alguma concentração para estudar sem medicação, sei que ela buscaria esse método.

O fato de muita gente usar uma droga de forma irresponsável não é justificativa para descartar as qualidades dela quando aplicada nos casos corretos.

 

Olá, Neide, concordo com suas colocações e também conheço mães com esse perfil; vejo como problema o fato de que, as escolas deveriam ter equipes multifuncionais formadas por pedagogos, psicopedagogos, psicólogos...para dar suporte aos professores que tenham em suas salas alunos com dificuldades e/ou distúrbios de aprendizagem, assim como os superdotados, distúrbios de comportamento dentre outros, e como essa não é a realidade da maioria das escolas públicas, com as salas superlotadas, é impossível dar um tratamento individualizado a esses alunos, daí o caminho mais fácil é a medicação.

Estávamos em minha casa, num grupo de professores - públicos e particulares - discutindo sobre esse assunto - a ritalina é conhecida no meio como "sossega leão" - e uma das professoras (particular) fez-nos rir dizendo que, o aluno toma o remédio na hora de ir para a escola, mas mesmo assim os professores ainda tinham que suportar o pestinha por uma hora, pois o efeito terminava antes do término das aulas, não me lembro se era coisa de uma hora antes...

Puxa, Elisabete, isso te fez rir? Me faria chorar... E essa moça nao diria isso duas vezes na minha frente... Fazer isso conscientemente para ter menos trabalho é criminoso!

Neide, desculpe, mas você não entendeu o espírito da coisa, a discussão estava séria, eu estava fazendo as colocações sobre como diferenciar alunos hiperativos dos indisciplinados, todos estavam prestando bastante atenção, quando ela soltou essa "pérola", não teve como não rir da situação. Falamos sobre a possibilidade dessas crianças se tornarem viciadas e às vezes sem que os próprios pais se dêem conta. Para você ter uma idéia, uma colega da educação infantil (particular) estava sismada que tinha um aluninho hiperativo, apesar da mãe já afirmar que não era, então ela veio conversar comigo; apenas sugeri que ela colocasse um desenho animado bem legal para ele assistir, se consequisse se interessar não era hiperativo, e para a decepção dela, não era; não passava de uma questão de comportamento próprio da idade.

Professoras nao têm que saber isso. Professoras NAO TÊM QUE DAR DIAGNÓSTICOS!!!
Concordo que professores não tem que dar diagnóstico, mas tem que ter conhecimentos sobre o assunto para encaminhar para os diagnósticos, porque aqui na minha cidade, tanto em nível de rede escolar municipal como estadual, temos Centros de atendimento com psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, oftalmologista, neuropediatras e não raro os profesosres encaminham alunos que não são hiperativos enquanto outros que realmente necessitam ficam aguardando a vez. Uma vez diagnosticados, são encaminhados para as Salas de Recursos ou Apoio, com professores especialistas, sob a orientação da equipe multifuncional dos Centros, em contraturno. Se, antigamente, os professores tivessem um mínimo de conhecimento nessa área, não haveria tantas reprovações e até mesmo evasões, porque o aluno que não aprendia, não tinha nenhum tipo de apoio.
Nao era por serem hiperativos que os alunos deixavam de aprender (fora um ou outro caso). Os motivos de reprovaçao na escola pública de antigamente sao de outra ordem.

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