Flavio Lyra. Brasília, 14 de Janeiro de 2012

Os últimos trinta anos, especialmente depois do derretimento do socialismo real na antiga União Soviética, em 1989, assistiram a vergonhosa rendição dos partidos de orientação socialista ao pensamento neoliberal em todo o mundo.
A vingança, talvez não-intencional, da classe trabalhadora não se fez esperar e as forças conservadoras voltaram ao comando dos governos. França, Grã Bretanha, Espanha e Portugal são os casos de maior destaque. Talvez, o mais grave de tudo é que movimentos de extrema direita, que andavam adormecidos, passaram a atrair cada vez mais adeptos junto aos trabalhadores lançados ao desemprego e à falta de assistência dos governos em razão da busca frenética das empresas por redução de custos, exigida pela globalização dos mercados. Na Áustria, a direita tomou conta do poder, já há algum tempo.
Em vários países da América Latina, o longo ciclo das ditaduras militares patrocinadas pelos Estados Unidos, no bojo da Guerra-Fria, agravou de maneira intensa os problemas sociais gerados pelo desenvolvimento capitalista, criando um ambiente propício ao aparecimento de amplos movimentos sociais que acabaram por derrotar as ditaduras e reinstalar governos democráticos.
A criação do Partido dos Trabalhadores é resultado da rebelião das organizações de trabalhadores e dos movimentos sociais contra o citado estado de coisas num quadro de forte opressão da ditadura militar. Constitui, certamente, um dos fatos mais importantes da vida política do país.
Ao PT, porém, tem faltado consistência ideológica. As concessões programáticas que suas lideranças fizeram ao pensamento conservador para chegarem ao poder em 2003, já eram uma clara demonstração de incapacidade para conduzir mudanças políticas importantes no país. Essa incapacidade foi justificada pela conjuntura econômica desfavorável, que supostamente criava a necessidade de fazer concessões transitórias para assegurar a chegada ao poder.
Na prática, não foi bem assim, pois durante todo o primeiro período governamental, sob a batuta do Ministro Palocci e do Presidente Enrique Meirelles do Banco Central, a política econômica de cunho neoliberal, vinda do governo anterior, não sofreu maior alteração.
No segundo governo, depois da queda de Palocci e da substituição de sua equipe no Ministério da Fazenda, instalou-se no governo uma visão menos liberal de política econômica que possibilitou maior atuação do estado no estímulo a investimentos privados, na execução de investimentos públicos e na promoção de exportações. Para tanto, contribuiu significativamente a abertura de novos mercados para nossas matérias primas em função da expansão da demanda asiática e do surgimento de novos parceiros comerciais.
Por outro lado, foram intensificadas elogiáveis ações na área social (bolsa-família e aumentos reais do salário mínimo) e expandida e facilitada a concessão de crédito às famílias de menor renda e às pequenas empresas. Estas medidas, juntamente com as mudanças inicialmente citadas, criaram as condições para a aceleração do crescimento, acumulação de reservas em moeda estrangeira e aumento do emprego.
Na área política, o carisma do Presidente Lula, se por um lado cumpriu o papel de energizar as populações mais pobres, com um discurso populista, por outro lado, serviu para retirar do PT a capacidade de tomar iniciativas na área política, convertendo-o num apêndice mudo do governo.
Na corrida pela cadeira presidencial em 2010, os trunfos que levaram à vitória de Dilma e do PT, foram o capital político acumulado durante a gestão de Lula no segundo governo, especialmente junto aos seguimentos mais pobres da população, ao lado das lutas internas do maior partido de oposição, o PSDB, e da desagregação do DEM, partido da direita fisiológica que, ao ficar mais distante dos cofres públicos, definhou fortemente.
Foi essa, possivelmente, a campanha política mais débil em matéria de propostas, que assistimos nos últimos tempos, com a oposição temendo criticar a política social do governo e os partidos do governo temerosos de desagradar a classe dominante com propostas de mudança nas áreas econômica e política.
O quadro atual é o de um governo sem propostas, concentrado na gestão de uma política econômica ultrapassada que vem acarretando a desindustrialização do país, apoiado numa coalizão política frouxa e essencialmente fisiológica, na qual o PT não exerce papel hegemônico, sendo apenas mais um sócio do condomínio da coisa pública.
Do ponto de vista das expectativas do país em relação a seu futuro econômico e político, nuvens negras já começam a tomar forma no horizonte: são crescentes os desequilíbrios nas transações correntes do balanço de pagamentos; aprofundam-se os processos de desindustrialização e desnacionalização de empresas; e já acontece estagnação da atividade industrial e aumento na taxa de desemprego. Resta ainda a ilusão de que o grande afluxo de capital estrangeiro em fuga dos mercados internacionais em crise, estimulados pelas altas taxas de juros internas, seja indicador de pujança econômica do país.
As esperanças de reativação econômica da estagnação que já bate à porta acham-se na expansão do mercado interno em função do forte aumento do salário mínimo a partir de janeiro, do efeito de algumas medidas protecionistas que vêm sendo adotadas em relação às importações e da possibilidade de que as economias asiáticas, especialmente a China, continuem expandindo suas importações de produtos básicos. A mais longo prazo, a exploração do Pre-sal, é vista como um dinamizador da atividade industrial, da geração de divisas e de recursos fiscais.
Se essas expectativas positivas não se materializarem a contento, a insatisfação popular seguramente vai crescer. Será, então, chegada a hora da verdade para o PT e seus aliados da esquerda. Grande parte do eleitorado vai começar a dar-se conta de que o PT é somente mais um partido que disputa as regalias do poder e, facilmente, poderá migrar para partidos mais conservadores como tem ocorrido na Europa.
Que estariam fazendo os dirigentes do PT que, certamente conhecem o conceito gramisciano de hegemonia, se mantêm o partido sem propostas e distante da população? Onde está o discurso capaz de mobilizar os demais partidos progressistas e a população para transformar o país e se manter no poder na hora das vacas magras? O PT já conseguiu a façanha de perder o apoio da maioria dos intelectuais que acompanharam sua criação e simpáticos a suas propostas iniciais. Agora, também, passa a desprezar os movimentos sociais.
Espero sinceramente, que os bem-remunerados serviços de consultoria ao setor privado e a participação de dirigentes do governo em conselhos de empresas pública e privadas que lhes propiciam polpudos jetons, não os tenha capturado definitivamente, nem os faça perder de vista que a população não tem razões para ver neles nenhuma distinção natural em relação aos membros da elite empresarial e do mercado financeiro que os explora através do mercado.
Deve gerar perplexidade entre os militantes do PT, o atual governo tomar a decisão de privatizar os aeroportos e de estar propondo um projeto para entregar ao setor privado os fundos de aposentadoria do funcionalismo público. Será que a experiência predatória do patrimônio público, nas privatizações nos governos Collor e FHC, nada nos ensinaram, ou há deliberadamente a intenção de repetir o processo de fabricação de capitalistas com financiamentos do BNDES e com altas tarifas dos serviços públicos?
Tenho sido até agora eleitor do PT, mas começo a temer sinceramente que, se seus dirigentes insistirem em permanecer deitados no “berço esplêndido” dos cargos públicos e das benesses que lhes chegam das corporações privadas, a população, num futuro breve, não mais lhes dará seus votos.
Os segmentos mais desinformados da população, quando afetados pela crise, certamente irão em busca de alternativas. Só que neste caso, o pior pode acontecer, com o deslocamento de sua preferência para organizações de direita e para o apoio de partidos e movimentos anti-democráticos. Assim tem sido na Europa, por que não se repetiria aqui?
O PT precisa, urgentemente, afirmar-se como um partido de vanguarda na defesa dos interesses populares. Precisa também, obviamente, dar sustentação ao governo que elegeu, mas não deve confundir-se inteiramente com o governo, pois este, por razões de governabilidade, tem de fazer concessões aos aliados. Ao PT cabe desempenhar o papel de propulsor das mudanças que o país precisa realizar e impulsionar o governo nessa direção e nunca transformar-se em mero agente do governo. O PT deveria ser um partido no governo e não um partido do governo.

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Marco: Ainda bem que nos entemos. Ufa!

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