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Araraquara pode ser referência na luta contra o fascismo

Jair Antonio Alves e equipe do Boca Negra

 

Há menos de dois anos, na contramão da maioria das eleições municipais que embarcaram na onda “golpista” massacrando possibilidades de resistência ao programa de desmonte do Brasil, em Araraquara aconteceu algo (muito) diferente: o PT ganhou com folga, contra tudo e contra todos.

Nesse final de semana, o ex-ministro e agora prefeito Edinho Silva publicou no caderno Debates da Folha um artigo convocando a Nação para que não abandonemos a Democracia. Ele bate constantemente na tecla, a respeito do papel grandioso que os artistas e a cultura podem exercer no momento histórico que vivemos. Enfatiza a representatividade de Zé Celso e Luis Antonio Martinez Correa, Lelia Abramo (foto), Ignácio de Loyola Brandão e outros. A pregação oportuna, no entanto, fica no ar, sem resposta que possa aprofundar o debate.

Por que parou? Parou por quê?

Apesar da perseverança e confiança do agora prefeito e ex-ministro de Dilma, não é bem isso o que acontece na prática, no dia a dia da cidade que governa. Claro, falamos do que poderia ser esse esforço como uma referência nacional. Enfatizamos que a cidade deveria estar fervendo, com manifestações sobre diversos temas culturais e artísticos do momento, abrindo espaço para que um grande número de artistas (de todo Brasil) que gostariam de participar desse levante contra o desmonte.  

As últimas semanas, com o evento Copa da Rússia, têm sido exemplares, mostrando novos caminhos e algumas descobertas, colocando no limbo a ladainha televisiva de produtos que encalharam nas prateleiras, fazendo com que a constelação de estrelas futebolísticas fossem literalmente colocadas no lixo. A trinca Neymar-Messi-Ronaldo passou a cheirar precocemente a liquidação de estoque. No lugar, figurinhas novas despontaram, contrariando a propaganda enganosa. Esse movimento não é gratuito, o Brasil, o mundo, cada recanto do planeta, precisam de novas referências, mesmo aquelas que um dia tiveram grande importância e foram destruídas ao longo do massacre midiático que se presenciou.

De nossa parte, não tememos convidar a todos quanto possam a engrossar a disposição de recomeçar tudo de novo, comparecendo nesta sexta-feira, dia 20, para celebrar com o elenco de BOCA NEGRA, ou, “Por que Luis Antonio morreu tal e qual Rosendo e Manuel?” É tempo, sim, de rever nossa história de algumas décadas, principalmente dos pilares dessa Democracia alardeada pelo artigo escrito por Edinho. Em cena, por exemplo, vai ser possível refletir sobre o que perdemos com o desaparecimento de Luis Antonio Martinez Correa e sua relação com o, ainda vivo, compositor, poeta, escritor e amante de futebol – Chico Buarque de Holanda. Vai ser possível entender com mais clareza por que Walace Valentin Leal Rodrigues foi um precursor da moderna dramaturgia nos idos da década de cinquenta e que durante esses anos todos tem sido uma incógnita, senão, como veremos, um equívoco de avaliação.

 

A receita do pudim de Boca Negra

 

De forma geral, podemos estabelecer seguramente a relação intrínseca entre a manutenção de um sub-capitalismo produto do desenvolvimento econômico interno desigual, originado de monoculturas para exportação, hegemonias regionais, escravagismo e industrialização tardia, e o estabelecimento de relações socioculturais baseados no compadrio e na desvaloração das atividades artísticos e culturais. Os polos mais “evoluídos”, desse ponto de vista, foram favorecidos pela riqueza agropecuária do interior paulista, que através das integradoras linhas ferroviárias, ligaram a abundância do interior à administração financeira da capital, de onde a produção alcançava o porto (exportador) e onde se firmou um arremedo de “burguesia” urbana com fortes raízes nos latifúndios do interior. Araraquara está neste caso, em que seus barões, portugueses agraciados pelos favores do império colonial, fixaram residência na cidade de São Paulo, de onde, durante a vigência da república velha, despachavam seus filhos e herdeiros a Europa para ilustrar-se e adquirir uma formação cosmopolita. Serão os autores das primeiras manifestações consistentes de produção artístico-cultural da classe dominante, fortemente calcada nos modelos portugueses e franceses, posteriormente agregados pelos imigrantes, que com a crise financeira mundial, apropriam-se de parte substancial da fortuna do país. É desta tendência que de início serão constituídos dois polos hegemônicos de criação cultural: São Paulo, pela “ilustração” lastreada na força do capital, e Rio de Janeiro, como sede da corte imperial e, mais tarde, como capital da federação. Ambos a desenvolver produções mais ou menos atreladas às academias, algumas menos tradicionalistas, e abertamente “transgressoras” a partir das vanguardas internacionais, quando a aceleração do processo industrial e a Guerra Fria causam (exigem) perspectivas de ruptura nos campos da estética e da política.

 

Luis Antonio Martinez é descendente direto da inquietude intelectual do artista confrontado com a tarefa de redefinir os caminhos da criação e da apresentação, da estética enquanto “vida” e inserido na luta por uma arte consciente de sua tarefa histórica. Partidário do teatro-verdade, da vertente Brecht/Weill, recusa no entanto o “realismo” doutrinário dos encaminhamentos dos CPC’s, ligados ao Partidão tradicional, e envereda por elaborações de caráter internacional-popular, operístico (de cabaré) e intensamente alegóricos, na tentativa de ir ao encontro de uma “democracia” dramatúrgica que dialogue em condições iguais com todas as plateias, independentemente de pré-repertórios acadêmicos e educacionais. É o tempo de aquisição e exposição de uma linguagem genuinamente popular e navegando dentro do contexto social da classe excluída pelos interesses da produção cultural dominante (cujo interesse fundamental estava baseado no mercado e no espetáculo – no sentido de Bakhtin). Evidentemente, um projeto cultural de cunho popular, que levasse o povo a “pensar”, era contrário aos interesses da classe dominante e dos promotores da política da Guerra Fria (o capitalismo monopolista desenvolvido), e foi devidamente (premeditadamente) arrasado pelo golpe militar patrocinado pela burguesia civil nacional e pelos formuladores da política da dependência. As diretrizes seriam, então, a partir de 1964, fortalecimento do capital financeiro, do capital privado, das periferias fornecedoras de matéria prima, do consumo, da alienação e destruição sistemática do equipamento público, levando à destruição do “sentimento” de Público, formando nichos de abundância, concentração de riquezas, oligarquias políticas, burocracia de favorecimentos e de corrupção política, das arbitrariedades dos “poderosos”, do abandono total do patrimônio educacional, cultural, de saúde e serviços públicos. Como se vê, muito “diferente” do que estamos vivendo hoje em dia. Daí a urgência de se retomar a história (e os sonhos) dos artistas da resistência, como Luis Antonio Martinez Correa.

 

Equipe de Boca Negra

 

 

 

 

 

 

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