As cláusulas petreas e as cédulas misteriosas da crise em Honduras

Uma compilação de informações úteis para quem deseja entender a atual crise em Honduras, e não ficar limitado ao usual Fla-Flu das mentes bipolares.

1) CONSTITUIÇÕES E CLÁUSULAS PETREAS

A deposição do presidente hondurenho Manoel Zelaia foi justificada pela oposição a partir do fato de que ele teria tentado alterar ilegalmente claúsulas constitucionais que não passíveis de reforma. Na realidade, diversas constituições do mundo possuem as chamadas "cláusulas petreas" ou "entrenchment clauses", que seriam disposições por princípio "imutáveis" do texto constitucional. Elas aparecem com especial destaque na constituição alemã de 1949, na constituição portuguesa de 1976 e na constituição brasileira de 1988 – não por coincidência, textos produzidos ao final de traumáticas experiências totalitárias nos três países.

Todas as constituições prevêem a possibilidade de reforma no texto constitucional, normalmente por maioria qualificada de 2/3 ou 3/5 de todos os membros do legislativo, acrescidas de rigorosas exigências regimentais para aprovação. No entanto, na tentativa de blindar algumas garantias consideradas fundamentais de possíveis reformas ditadas por maiorias de ocasião nos Parlamentos, as constituições definem que determinados artigos não são passíveis desse tipo de reforma constitucional ordinária. São as chamadas cláusulas pétreas.

No Brasil, as cláusulas pétreas da de 1988 encontram-se dispostas em seu artigo 60, que no parágrafo 4º dispõe que:

"Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
- A forma federativa de Estado;
- O voto direto, secreto, universal e periódico;
- A separação dos Poderes;
- Os direitos e garantias individuais."


Há algumas polêmicas sobre a abrangência das restrições e sobre a imutabilidade das cláusulas. Alguns exemplos:

a) Muita gente acha perigosa essa questão de "cláusulas imutáveis", que dificultariam atualização institucional da Carta diante do passar do tempo e das evoluções políticas e sociais. Alguns citam a excessiva rigidez da constituição norte-americana como um dos fatores que teria dificultado a abolição da escravatura e, no fim, contribuido para a Guerra da Secessão.

b) Para pegarmos com exemplo um tema bastante sensível para a nata da direita sulista brasileira: a restrição a mudanças na "forma federativa de Estado" torna (ou não ?) imutável a íntegra do Artigo 1º da nossa Carta que diz:

"A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político."

Nesse caso, podemos considerar que as propostas de plebiscitos separatistas como a do movimento "O Sul é o Meu País", (reavivadas a cada vez que o Lula ganha uma eleição com ampla maioria no Norte-Nordeste), atentam diretamente contra cláusulas pétreas da nossa Carta Magna? São, portanto, ilegais? Se o Celso Deucher teimar em defendê-lo devemos colocá-lo à força em um avião com destino à Africa do Sul?

b) Seriam essas cláusulas pétreas realmente imutáveis? Aproveito para citar aqui a opinião do atual queridinho do conservadorismo nacional, Gilmar Ferreira Mendes que – no Parecer 77, de 1994, referente à revisão da Constituição Federal – defende que "as cláusulas pétreas podem ser alteradas desde que a reforma não as suprima nem inicie um processo de erosão da ordem constitucional". Aparentemente, existe um consenso de que as cláusulas pétreas podem ser objeto de emendas aditivas (incorporação de novos direitos ou ampliação de garantias) ou referentes à regulação de sua eficácia, mas não podem ser suprimidas por reforma constitucional.

2) ASSEMBLÉIAS CONSTITUINTES

Além das reformas ordinárias no Congresso, há duas outras maneiras de reformar uma constituição: pela quebra do Estado de Direito ou pela convocação de uma nova Assembléia Constituinte.

A quebra do Estado de Direito normalmente se dá pelo uso da força do próprio aparelho militar do estado (Golpe de Estado) ou por força externa ao aparelho de estado (invasão militar, guerra civil, insurreição popular, revolução, etc). Nesses casos, é comum a "outorga" pelo poder vencedor de uma carta constitucional inteiramente nova, construída sob medida para atender aos seus desígnios. No Brasil temos os exemplos da Constituição do Estado Novo, implantada por Vargas em 1937, e a Constituição dos "Três Patetas" de 1969, que consolidou a tomada do poder pela linha dura da ditadura militar.

A convocação de uma nova Assembléia Constituinte normalmente se dá quando existe um amplo consenso nacional sobre a necessidade de uma nova Carta Magna, em especial após o término de um período ditatorial. Nesse caso, elege-se pelo voto popular o grupo de legisladores encarregados de discutir e redigir o novo texto. Foi o que ocorreu no Brasil em 1946 e 1988.

Há ainda situações hibridas, nas quais o grupo político que assume o poder pela força convoca (normalmente por processos não muito democráticos) uma Assembléia Constituinte com o claro intento de legitimar-se no governo. É o caso da nossa "constituinte" de 1967, quando o Congresso Nacional, já devidamente purgado dos parlamentares de oposição pelas cassações de mandato, ganhou poderes para aprovar a nova Constituição - que deu um breve verniz de legalidade ao regime militar.

Tanto no caso dos Golpes de Estado como nas Assembléias Constituintes, normalmente não há limites para a criação do novo texto constitucional. No primeiro caso pelo próprio carater impositivo da Carta. No segundo porque, como "poder constituinte originário", as Assembléias Constituintes têm plena autonomia de decisão e não estão presas às determinações da Carta anterior. Foi o que ocoreu no Brasil nas Constituintes de 1946 de 1988. Em determinados casos, as Assembléias podem ter o cuidado de submeter os temas mais polêmicos à vontade popular direta, solicitando plebiscito ou referendum às suas conclusões.

Em resumo: se algum grupo político deseja mudar uma cláusula pétrea da Constituição por via democrática (ou seja, sem romper com o Estado de Direito) só pode fazê-lo por meio da convocação de uma nova Assembléia Constituinte. Como são raras as Cartas no mundo que discorram sobre as possibilidades de convocacão de uma nova constituinte (a brasileira, por exemplo, não o faz) a aplicabilidade dessa hipótese dentro dos marcos legais será, muito provavelmente, objeto de profunda controvérsia jurídica. E o sucesso da proposta certamente dependerá de uma correlação de forças favorável dentro da sociedade.

3) O PLEBISCITO HONDURENHO

Na mídia brasileira, o frustrada consulta popular que o Presidente Zelaya tentou realizar está sendo descrita da seguinte forma.

No Estadão: "O plebiscito para mudar a Constituição, permitindo que ele se candidatasse à reeleição nas eleições gerais, em novembro, proposto por Zelaya, um aliado do presidente venezuelano, Hugo Chávez, foi considerado ilegal pela Justiça do país, pelo Congresso, incluindo membros do próprio partido de Zelaya, e enfrentava oposição também do Exército."
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,na-nicaragua-zelay...

No Correio Braziliense: "No sábado, o presidente Manuel Zelaya prosseguia decidido a não ouvir a oposição generalizada das instituições do país e de grande parte da população, insistindo em realizar neste domingo uma consulta popular que autorizasse uma reforma constitucional permitindo sua reeleição."
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2009/06/28/mund...

No G1: "O plebiscito proposto por Zelaya perguntaria à população se era favorável ou contrária à convocação de uma assembleia para reformar a Constituição Eleitoral e instituir o estatuto da reeleição - atualmente proibida no país."
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1211037-5602,00.html

Na Band: "Isso aconteceu horas antes da realização de um polêmico plebiscito que abriria caminho para que Zelaya fosse reeleito."
http://band.com.br/conteudo.asp?ID=153143

No Blog do Pedro Dória: "Ainda assim, não custa lembrar, Zelaya partiu para o confronto institucional. Queria o direito à reeleição, e mesmo contra o voto do Congresso e uma decisão da Suprema Corte, forçou para promover um plebiscito."
http://pedrodoria.com.br/

Diante disso, vamos a alguns fatos curiosos.

O Presidente Manuel Zelaya foi eleito em Novembro de 2005 e tomou posse em 27 de Janeiro de 2006 para um mandato de 4 anos, que termina em 26 de Janeiro de 2010. Haverá (ou ao menos haveria) eleições gerais em Honduras no final desse ano (provavelmente em Novembro), na qual se elegeria o sucessor de Zelaya. Quem lê as notícias acima supõe que o presidente estava forçando agora no final de junho a realização de um plebiscito ilegal para garantir o direito de se inscrever nas eleições para sua sucessão (direito de reeleição).

Mas, afinal de contas, qual a pergunta feita aos eleitores nesse tal plebiscito ou "consulta"? Curiosamente, nenhum jornal brasileiro se dignou a reproduzir as famosas "cédulas impressas pelo Chavez" para que seus leitores tivessem essa informação. Procurando na internet em espanhol, consegui encontrar – ilustrando no caso uma matéria favorável à deposição de Zelaya – a reprodução anexa . O texto nas cédulas da consulta é o seguinte:

¿Está de acuerdo que en las elecciones generales de 2009 se instale una cuarta urna en la cual el pueblo decida la convocatoria a una asamblea nacional constituyente? Si / No"
http://foro.univision.com/univision/board/message?board.id=noticias...

Na minha modesta compreensão de castelhano, pelo que eu entendi o plebiscito pergunta ao eleitor o seguinte:

Você está de acordo que nas eleições gerais de 2009 se instale uma quarta urna na qual o povo decida pela convocação de uma assembléia naconal constituinte? Sim / Não

Ou seja: na hipótese de que o SIM fosse vitorioso nessa consulta, na eleição geral de Novembro de 2009 (aquela na qual os hondurenhos elegerão o sucessor de Zelaya) haveria uma urna adicional no qual (num novo plebiscito, suponho) o povo decidirá pela convocação ou não de uma Assembléia Nacional Constituinte.

Caso a maioria do povo eventualmente decida pela convocação dessa constituinte, me parece evidente que teriam de ser realizadas novas eleições para escolha dos membros da Assembléia.

Vamos partir do princípio de que Zelaya de fato pretenda mudar a constituição para inserir a possibilidade de reeleição para a presidência da república. A Assembléia Constituinte teria que se instalar e, como poder constituinte original, escrever uma nova Carta para Honduras sem a necessidade de manter as cláusulas petreas atuais. Nessa Assembléia, Zelaya e seus partidários poderiam propor o fim da proibição à reeleição do presidente e - se angariassem a maioria dos votos dos constituintes - conseguir aprovar essa proposta. Só que, nessa altura do campeonato, Zelaya já não estaria mais na presidência e esse direito à reeleição poderia valer para o presidente que o tivesse sucedido em Janeiro de 2010. Ou, dependendo do que for estabelecido na Carta, somente para o próximo mandatário - aquele que será eleito em Novembro de 2013.

Infelizmente, na minha matemática Newtoniana essa conta não fecha. Alguém pode me explicar qual distorção no equiíbrio tempo/espaço transformou essa consulta atual numa maneira do presidente Zelaya impor bolivarianamente a sua reeleição daqui a meros cinco meses? Provavelmente o diabólico Chavez iria emprestar-lhe uma máquina do tempo a fim de que Zelaya, de posse do texto de uma nova constituição promulgada em 2011, retornasse ao ano de 2009 a tempo de forçar sua inscrição no pleito de novembro.

4) POR QUE NÃO DERROTAR NO VOTO?

Um outro ponto a provocar reflexão: a oposição a Zelaya – que apregoa contar com o amplo apoio da maioria do povo hondurenho – tinha nada menos que sete oportunidades de impedir o "continuismo bolivariano" pelo instituto democrático do voto.

1ª - Poderia garantir a vitória do "Não" na consulta atual
2ª - Caso ganhasse o "Sim", ela poderia derrotar a proposta de convocação da constituinte no plebiscito de Novembro (a quarta urna) .
3ª - Nessa mesma eleição, teria grandes chances de colocar um dos seus na Presidência da República, já que o próprio Zelaya não poderia concorrer e o seu governo estava (a se acreditar na oposição e na mídia local) isolado e desmoralizado.
4ª - Se tudo desse errado (Zelaya elege o sucessor e aprova a convocação da Constituinte), a oposição ainda pode tentar eleger a maioria dos delegados constituintes.
5ª - Numa eventual Constituinte, ainda que em minoria, poderia tentar barrar o instituto da reeleição.
6ª - Aprovada a reeleição, pode ser possível que o próprio sucessor de Zelaya alimentasse pretensões de disputá-la (afastando Manuel Zelaya do pleito ou, no mínimo, dividindo sua base de apoio). Mesmo isso não aconteça, haveria sempre a possibilidade de derrotar Zelaya nas urnas no pleito de 2013.
7ª - Por fim, teria novamente chance de derotá-lo na sua eventual tentativa de reeleição em 2017 (quando ele já estará com 65 anos de idade).

Mas os democratas da oposição hondurenha preferem garantir a manutenção da constituição atual recorrendo a métodos que dispensam esses procedimentos chatos, burocráticos, imprevisíveis e que obrigam os políticos a depender dos votos e humores da população. Primeiro, fizeram todo o possível para evitar que os cidadãos fossem consultados. Diante de iminência da consulta, acharam mais garantido mandar os milicos arrancar o Presidente da cama no meio da madrugada e colocá-lo de pijama num vôo só de ida para o exílio. E ainda tentam vender isso ao mundo como uma vitória da democracia hondurenha sobre o totalitarismo bolivariano. Então tá.

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Matou a pau, André.
Essa canalha direitista estava preparando o golpe há muito tempo, desde que Zelaya abandonou a "elite" e começou a governar para a população.
Como diz Noam Chomski, sempre que algum presidente começa a governar para a massa da população é derrubado pela direita e com o apoio dos USA. Felizmente agora os USA estão em melhores mãos. Se Mccainn houvesse ganho de Obama, os USA estariam agora dando todo apoio ao golpe.
A canalha hondurenha é burríssima, nem sequer pensou que os tempos mudaram. Os porcos ainda pensam que estamos nos anos 60, 70, 80.....
Acabou-se o que era doce.
Ditaduras na América Latina nem a pau.
Abraços
Eu não consegui ler o texto todo, mas, pelo que eu entendi o articulista está achando que o preseidente insistiu no plebiscito, ignorando uma ordem judicial (ignorando sua constituição, conforme interpretada pelo judiciário, a quem cabe interpretá-la) e recorrendo a ajuda de uma nação extrangeira e que fez tudo isso apenas pensando no seu sucessor. Ah, entendi, o cara só desobedeu a lei uma vezinha só para fazer o plebiscito. Depois de conhecido o resultado, qualquer que fosse, ele se submeteria à lei. Não usaria o resultado da consulta ilegal para novamente desobeder as regras e se perpetuar no poder. Não, ele nunca faria isso. Tudo o que fez foi pensando no sucessor.
Caro André, achei o artigo muito bem fundamentado e completo, no entanto, tem alguns aspectos deste episódio que não fecham:
(1) Zelaya jogou a toalha na luta contra o narcotrafico que impõe uma taxa de homicidios de 23 pessoas ao dia num país com 7 milhões de habitantes: "Zelaya se declaró impotente de enfrentar a la maquinaria que mueve el negocio de las drogas", se colocando como vítima de um comércio, entre produtores do sul e consumidores no norte do país, aconselhou ao Bush a legalização de uso de drogas nos estados Unidos!
(Fonte: La Prensa http://archivo.laprensa.hn/ez/index.php/laprensa_user/ediciones/200...). Lavando as mãos deve ter enfraquecido as atuações de departamento de narcóticos do FBI.

(2) The Economist, revista respeitada, avalia a atuação da Zelaya na presidência da Honduras assim: "Mr Zelaya's presidency has been marked by a rise in crime, corruption scandals and economic populism", que convenhamos é a mesma receita de Chaves.

(3) O próprio partido de Zelaya, PLH, o depôs - o presidente interino é deste partido. Não é estranho isto?

(4) Da mesma forma que não está previsto reeleição na constituição, nem tampouco há figura de 'impeachment". O que torna situações como tentativas bolivarianas de se perpetuar no poder se transformar em crise institucional. Os meios não justificam os fins. A constituição atual de Honduras no seu artigo 102 prohibe entrega de cidadãos hondrenhos aos países estrangeiros, no entanto, o Zelaya foi tirado da cama de pijama e embracado a força para Costa Rica. Mais uma curiosidade!

A pergunta que se faz é por que os opositores agiram de maneira tão estabanada?
Prezado Farhad.

(1) "Jogar a toalha" na luta contra o narcotráfico tem sido uma política muito adotada em boa parte dos países da América Latina, embora isso ocorra com diferentes graus de hipocrisia. Se a gente analisar friamente o crescimento do consumo de drogas no Brasil nos últimos 20 anos, não é difícil intuir que as polícias brasileiras de certa forma também "jogaram a toalha" na luta contra o narcotráfico, apesar de algumas ações localizadas e apreensões mais ou menos espetaculares conforme os interesses de momento.

Pessoalmente, acho que esse modelo de combate ao uso e ao comércio de drogas baseado unicamente na repressão policial está, no longo prazo, fadado ao mesmo insucesso que derrotaram a Lei Seca norte-americana (1919 - 1933) e o banimento da Vodka na Russia Imperial e na União Soviética (1914-1925). Como efeito colateral, esse tipo de política estimula a violência e serve para fazer a fortuna de traficantes, policiais corruptos e políticos desonestos.

Desde o início da dos anos Reagan, entretanto, a política norte-americana sobre o tema concentrou-se na idéia fixa do "War on Drugs", um permanente combate policial e militar contra o narcotráfico. O FBI e a DEA já injetaram alguns bilhões de dólares nessa luta encarniçada - que se trava principalmente nas regiões mais pobres da América Latina - e hoje os EUA parecem estar bem longe da vitória. Basta ver a situação atual na fronteira norte do México, um país no qual o governo Calderon em tese não "jogou a toalha" nessa luta.

Há alguns relatórios que alegam que essa política teria efetivamente reduzido o consumo de drogas nos EUA e tornado mais custosa e arriscada a produção dos entorpecentes. Mas na própria América Latina - e nós brasileiros somos testemunhas - os resultados são desalentadores, já que o narcotráfico vai apenas mudando de região e de estratégia conforme os humores da repressão. No meu modesto entender, solucionar o milenar problema do vício, dos prejuizos à saúde e do desmantelamento familiar produzido pelas drogas (pelas ilícitas mas também pelas lícitas, é bom que se diga) está longe de ser uma questão de fácil solução em sociedades complexas como essa em que vivemos.

Eu também não acho que a pura e simples legalização do consumo vá resolver esse impasse. Mas, por outro lado, não considero que o fato de um político ou governante manifestar publicamente sua descrença na efetividade do combate militar ao narcotráfico em países miseráveis o transforme automaticamente em "aliado de traficantes" ou "contrabandista de drogas". Basta ver que, nos últimos anos, boa parte das autoridades acusadas, processadas ou presas na AL por seu envolvimento direto com o narconegócio ostentavam em público um discurso anti-drogas (Manuel Antonio Noriega, Carlos Salinas de Gortari) ou ocupavam, com grande frequência, cargos que os colocavam como responsáveis diretos pelo combate policial e militar ao tráfico – como os casos do coronel norte-americano James C. Hiett e do chefe da polícia colombiana Roso José Serrano.

Politicamente, no entanto, acusar algum político de "cúmplice do tráfico" transformou-se hoje numa estratégia muito eficaz para afastar adversários ou meros desafetos do poder. Assim como as pechas de "aliado de Chaves" e "populista bolivariano" substituiram as hoje desgastadas acusações de "pomba de Moscou" e "agente de Havana", muito comuns nos idos tempos da Guerra Fria.

(2) A The Economist é, sem dúvida, uma revista bem conceituada. É também uma revista assumidamente conservadora, o que é infinitamente melhor do fazer como alguns jornalões brasileiros - que posam de moderninhos e progressistas mas são tacanhamente reacionários quando comparados com a Economist. Por outro lado, quem assistiu ao último programa político do PSDB ou se informa apenas lendo a revista Veja pode achar que a avaliação "has been marked by a rise in crime, corruption scandals and economic populism" se refere ao governo Lula.

Eu sou levado a crer que um governo que de fato se caracterize por essa avaliação medonha (independente de ser essa ou não a "receita de Chaves") caminharia decididamente para uma retumbante derrota nas urnas na próxima eleição. Ao menos é o que costuma acontecer nas democracias. Mas a oposição a Zelaya achou melhor não pagar para ver: cassou a cidadania do presidente, despachou o infeliz de pijamas para o exílio, censurou a imprensa local e baixa o sarrafo em quem não está gostando dessa versão Hondurenha de "salvação da democracia". E agora acusa o resto do mundo de conspirar unanimemente contra o legalismo da sua peculiar Constituição democrática.

Sinceramente, isso me lembra (com o sinal invertido "ma non troppo") a velha Albânia do Enver Hoxa, incompreendido farol dos povos a apontar o verdadeiro caminho do socialismo.

(3) Seria estranho se não fosse o fato de que Zelaya se elegeu por um partido conservador e depois "bandeou" para uma prática política mais à esquerda (que na América Latina sempre acabam taxadas de "populistas"). Quando isso acontece no sentido contrário - o que é extremamente comum no nosso sub-continente - o vira-casaca dá motivos para piadinhas sobre a arte de tocar violino, a causar contida espécie nos salões da aristocracia. Já o incomum movimento de Zelaya é visto como crime de lesa-pátria.

(4) Realizado o plebiscito, Zelaya estaria (na melhor das hipóteses, já que não era certa a vitória do SIM) munido de um resultado de uma pesquisa de opinião que revelaria o desejo da população em ser consultada, nas eleições de novembro, sobre a proposta de convocação de uma Assembléia Constituinte. Permanece um mistério para mim como essa pesquisa tinha o poder de, apenas ao ser realizada, "entregar o país nas mãos de Hugo Chaves", "forçar a reeleição de Zelaya" exatamente no mesmo pleito em que a consulta sobre a constituinte estaria ainda sendo feita, "instaurar o totalitarismo bolivariano" entre outros quetais.

Deve ser devido à minha limitada percepção da força dos poderes negros de "Darth Zelaya" e "Palpatine Chaves". Poderes estes que tornam verossímeis declarações como essa do Octavio Sanchez, ex-assessor do governo que antecedeu o de Zelaya (publicadas no Estadão de domingo):
"Foi preso e levado para a Costa Rica. Por quê? O Congresso precisava de tempo para reunir-se e tirá-lo da presidência. Com ele no país, isto teria sido impossível. A decisão foi tomada por 123 (dos 128) membros do Congresso presentes naquele dia."

Já imaginou se esse "ritual democrático de impeachment" vira moda? Primeiro tira-se o presidente da cama de madrugada sob mira de fuzis, depois coloca-se o presidente incomunicável num avião militar voando para um país vizinho, onde ele é deixado de pijamas no aeroporto. Aí sim, com as tropas do exército já ocupando as ruas e a imprensa sob censura, o Congresso tem o tempo e a serenidade essenciais para se reunir e destituir o presidente do cargo para o qual foi eleito.

Com analistas desse quilate apoiando o golpe, é quase desnecessário ter gente falando contra.
Caro André,
Meus parabéns, li tanta bobagem nos últimos dias que estava começando a achar que na verdade, juro, Honduras havia sido invadida por alíeniginas que tomaram o corpo dos integrantes do governo e da populaçao.Que coisa nao?
Brincadeiras a parte é bom poder ler um texto coerente.

Abraço.

Obs: se estiver querendo fazer um bico, fala com o pessoal do El País, estao perdidinhos.
André Borges,
Muito boa sua ponderação.
faltou apenas uma coisa: esse método de agarrar um presidente e desová-lo em outro país foi inventado pela CIA, com Aristides. Os gringos foram mais competentes, deixaram Aristides no outro lado do oceano, na África. Vejamos a descrição do sequestro, parece um pouquinho com o de Zelaya:

"Um grupo de militares entrou em minha residência e me obrigou a assinar um papel onde aceitava renunciar.
Segundo Jean Bertrand Aristides, foi isso que aconteceu na madrugada do dia 29 de fevereiro em Porto Príncipe.
Luis Moreno, agente da CIA no Haiti, acompanhado por 20 fuzileiros americanos e representantes dos grupos paramilitares foram até a residência presidencial dizer que Aristides seria retirado do país para salvar a sua vida e para evitar um banho de sangue.

Isto foi em 2004. Cinco anos depois o Haiti continua sendo o país mais miserável da América e tutelado pelo exército brasileiro, não mais pelos Marines.

No golpe contra o Chávez, levaram-no para uma ilha no Caribe, La Orcilla, onde já estava um jato de matrícula gringa (americanos somos todos nós) esperando para levá-lo para bem longe (ou para Guantánamo?).

Da mesma forma a guerra midiática foi criada pela CIA no Chile de Allende e até hoje, em todos os países onde existe um presidente que não é fascista, os meios de comunicação incentivam os golpes. Absorveram legal a metodologia do golpe anunciado.

Será que a CIA trabalhou à revelia de Obama? Será que Obama é democrata como Kennedy, bonitinho, bonzinho mas que planejou as ditaduras militares em toda a América Latina?

Espero que os gorilas fascistas de Honduras só tenham aproveitado a metodologia da CIA e que Obama seja realmente um político e uma pessoa decente.

Abraços

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