Ameaçada por grilagem de terras, desmatamento, garimpo, obras de governos e minada pela discriminação, a cultura dos  povos indígenas brasileiros resiste (agora também) em forma de literatura e conquistando espaço no mercado editorial. Há uma boa safra de escritores indígenas dedicados à literatura infanto-juvenil e publicados por diversas editoras, inclusive grandes como Martins Fontes, Paulinas e FTD. O ano de 2011 deve  terminar com pelo menos 19 títulos novos no mercado, entre os quais A cura da terra, de Eliane Potiguara, pela Global Editora, e Mondagará, de Rony Wasiry Guará, pela Saraiva.

Esse interesse se deve, em parte,  à Lei  11.645, aprovada em 2008, que  criou a obrigatoriedade de se tratar a temática indígena  e afro-brasileira no currículo escolar brasileiro. Mas também é possível que nomes como Daniel Munduruku, Graça Graúna, Yaguarê Yamã e  Olívio Jekupé estejam  ganhando as prateleiras das livrarias do país graças a suas vendagens, turbinadas recentemente pelas compras governamentais, via PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).

A Global, com 11 livros de autores indígenas em seu catálogo, publicou o primeiro O Povo Pataxó e Suas Histórias em 1999 e depois não parou mais. Segundo seu editor, Luis Alves Junior, esses livros já vendiam bem antes da lei, tanto que alguns deles já haviam ganhado reimpressões – o livro Você se lembra, pai? de Daniel Munduruku, publicado em 2003, é um deles.

A lei chegou anos depois da  articulação de escritores indígenas em encontros nacionais, liderados pelo pioneiro Munduruku, e deflagrada há oito anos com grande apoio institucional da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. “Nós não endossamos o trabalho destes autores porque são indígenas, mas porque estão fazendo uma literatura de qualidade para as crianças”, diz Beth Serra, presidenta da Fundação.

Doutor em Educação e autor de 43 livros, a maioria dos quais infanto-juvenis, Munduruku, de 47 anos,  editou seu primeiro  livro, Histórias de Índio, em 1996, pela Companhia das Letrinhas, depois de bater em várias portas. Hoje já tem 20 edições.“Lançar livro para criança da cidade com ótica indígena era difícil. Na época, era sempre antropólogo, escritor, historiador que escrevia sobre o índio, que não tinha voz nem vez no mercado editorial”.

De lá para cá, Munduruku já abocanhou vários prêmios nacionais e internacionais, como o “Jabuti” de 2004  pela obra Coisas de índio, da Callis Editora.

Natural de Belém (PA) mas vivendo em Lorena (SP) há mais de 20 anos, Munduruku é formado em Filosofia, com Licenciatura em História e Psicologia. Ele chegou à literatura infanto-juvenil através de suas experiências como professor e educador social de rua da Pastoral do Menor em São Paulo, onde acabava contando as histórias que escutava quando vivia entre seus parentes aldeados.

Para ele, a literatura funciona como “maracá”, o chocalho que é utilizado como instrumento de cura pelos pajés. Acredita-se que dentro dos maracás há uma voz sagrada que é a que os pajés utilizam para conversar com os espíritos que fazem a cura das pessoas que os procuram. A literatura deles teria este componente. “É nosso maracá  para a sociedade brasileira”.  Para ele, esta  geração de escritores indígenas  escreve como uma forma de “curar o Brasil”, ajudando a sociedade “a conhecer sua história e não perder de vista a contribuição que os indígenas oferecem”.

Outro “parente” de Munduruku neste movimento que usa a literatura como “arma de defesa do povo indígena” é  Olívio Jekupé, de 45 anos,que teve que abandonar o curso de Filosofia por dificuldades econômicas. Publicando desde 2001, Jekupe é autor de um total de 11 livros, o mais recente “Tekoa – conhecendo uma aldeia indígena”, pela Editora Global. Jekupé, que vive na aldeia guarani  Krucutu, em São Paulo,  prefere denominar sua literatura de “nativa” e não de “indígena”  para diferenciá-la da literatura que os outros escrevem tendo o índio como objeto. “Ela sai de dentro da gente, do que conhecemos, pois escrever sobre índio não é só escrever, é preciso conhecer e viver essa cultura”.

Relatos orais das velhas gerações indígenas

Para Munduruku foi um acaso eles terem caído no gosto do público infantil. Acabou dando certo. “Não é que a gente escrevesse para crianças, é pelo teor das histórias que a gente conta. A gente recebia essas histórias de forma oral. Caía na nossa memória. E o nosso pessoal foi começando a aprender a escrever”.

Muito do que esta geração de autores indígenas faz é verter para o papel as lendas e histórias dos povos indígenas, repletas de conteúdos éticos e morais, que eram transmitidas oralmente para suas crianças há séculos, com clara função educativa.

Por outro lado, a literatura infanto-juvenil também é mais acessível a eles por serem livros menores e relativamente mais fáceis de escrever. Afinal, esta turma só recentemente está sendo escolarizada  com a preocupação em resguardar sua identidade étnica, ou seja, “sem desprezar sua identidade, desistir de sua história e desacreditar seus sábios”, observa Munduruku.

Debora Ierrer (Extraído do site da Carta Capital on line)

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Respostas a este tópico

Índio conta a história real do Saci

Lilian Amarante

Silvana Garzaro
Jekupê: “O Saci existe”

O Saci Pererê – personagem do folclore brasileiro imortalizado por Monteiro Lobato – não tem uma perna só, não é negro nem usa carapuça. Quem contradiz um dos maiores nomes da nossa literatura é Olívio Jekupé, índio guarani e autor do livro O Saci Verdadeiro (UEL, tel: 43 371 4674, 33 págs., R$ 10). Ex-aluno de Filosofia da Universidade de Londrina e da Universidade de São Paulo, Jekupê registrou a versão indígena da lenda. Casado e pai de dois filhos, ele mora numa aldeia, em São Paulo. Sem computador ou máquina de escrever, ele já escreveu três livros.

Como é o Saci verdadeiro?
É um personagem indígena que tem nomes diferentes. Em guarani ele se chama Kambaí; em tupi, Iaci Pererê e no Amazonas, Matinta Pereira.

Como ele é?
Tem duas pernas e não usa carapuça. O que lhe dá poderes é um colar chamado Baêta. É uma entidade da floresta que ajuda os homens e, ao contrário do que diz Monteiro Lobato – que ele morre de sete em sete anos para que um novo saci nasça do taquaral –, ele não morre nunca.

De onde vem o Saci de uma perna?
Na África existe um personagem negrinho de uma perna só que se chama Ossaim. Para se defender dos castigos dos brancos, os escravos misturaram a história de Ossaim com a do Iaci Pererê.

E Monteiro Lobato?
Ele criou uma ficção exagerada da história.

Por que você escreveu um livro?
É importante para a literatura brasileira ter a visão certa do personagem.

Seu livro é uma ficção?
O índio não tem costume de usar essa palavra. O Saci não é um mito, é uma história. E ele existe de fato.

Fonte : ISTO É GENTE -ON LINE de 30/07/11
Que legal. E que eu saiba, Matinta Pereira é tb um passarinho, que canta esquisito, acho, e as pessoas pensam que é o saci (estou citando de memória, pode nao ser exatamente isso; li há já algum tempo, num tópico do blog-mae).
É um mundo de histórias, com detalhes interessantes.  Em tudo vemos interação de povos e a natureza.
Esse é o lado interessante disso, a mistura das várias tradiçoes numa lenda só.

Passeando pelo Portal,

vendo este tópico,

já foi dito tanto..

mas acho esta foto genial...

bem original...

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