Brasil: Nunca Mais - Aulas de Tortura

 

Ditadura militar - Aula de tortura - Brasil: Nunca mais

 

O texto que reproduzo hoje é do livro Brasil: Nunca Mais da Arquidiocese de São Paulo. O livro foi feito usando os arquivos corajosamente roubados do Superior Tribunal Militar em plena ditadura do general Figueiredo. Esse arriscado empreendimento foi possível graças ao apoio financeiro de dois religiosos: o Cardeal Arcebispo de São Paulo Don Paulo Evaristo Arns e o Secretário-Geral do CMI Conselho Mundial de Igrejas que congregava diversas igrejas pentecostais, ortodoxas e protestantes. Saiba mais sobre isso no post: Para o Exército, PT seria incubadora de terroristasEste livro é um resumo do resumo dosarquivos da ditadura que ficaram guardados na ONU e foram recentemente devolvidos ao Brasil.

 

CASTIGO CRUEL, DESUMANO E DEGRADANTE

As experiências que desejo relatar no frontispício desta obra pretendem reforçar a idéia subjacente em todos os capítulos, a saber, que a tortura, além de desumana, é o meio mais inadequado para levar-nos a descobrir a verdade e chegar a paz.

Não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu. O “desaparecido” transforma-se numa sombra que ao escurecer-se vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena.

O que mais me impressionou, ao longo dos anos de vigília contra a tortura, foi porém o seguinte: como se degradam os torturadores mesmos. Esse livro, por sua própria natureza, não pode dar resposta plena à questão.

Advertia um general, aliás contrário a toda a tortura: quem uma vez pratica a ação, se transforma diante do efeito da desmoralização infringida. Quem repete a tortura quatro ou mais vezes se bestializa, sente prazer físico e psíquico tamanho que é capaz de torturar até as pessoas mais delicadas da própria família.

A imagem de Deus, estampada na pessoa humana, é sempre única. Só ela pode salvar e preservar a imagem do Brasil e do mundo.

Paulo Evaristo, CARDEAL ARNS

Arcebispo Metropolitano

de São Paulo

 

A tortura é o crime mais cruel e bárbaro contra a pessoa humana. Tradicionalmente se argumentou que a tortura era um meio de forçar as pessoas a falarem a verdade. A realidade de hoje, porém, mostra que, com os sofisticadíssimos instrumentos de tortura, não somente física mas mental também, é possível dobrar o espírito das pessoas e faze-las admitir tudo quanto for sugerido pelo torturador. Essa é a própria negação da identidade humana legada por Deus, e contraria a vontade do nosso Criador. O que é especialmente intolerável nos dias de hoje é que, justamente quando a maioria dos povos subscreve o reconhecimento e defesa dos direitos humanos e a dignidade do ser humano, esses direitos estão sendo mais flagrantemente suprimidos e violados no mundo inteiro.

Cremos, como cristãos, que a única e verdadeira segurança nacional reside em facilitar a plena participação das pessoas na vida do seu país. Somente quando houver diálogo e uma vida de confiança e respeito mútuo entre as pessoas em todos os níveis da sociedade, somente então poderá existir a verdadeira segurança nacional.

Livro não pretende ser meramente uma acusação, mas sim um convite para que todos nós reconheçamos nossa verdadeira identidade através das faces desfiguradas dos torturados e dos torturadores. Fazemos isso em nome de Cristo que foi torturado e crucificado para que tivéssemos vida em toda sua plenitude. Na cruz, Jesus intercedeu pelos seus torturadores. Foi este Jesus que falou aos seus discípulos, assim como a nós: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. E aquela verdade é conhecida e praticada quando se é justo e se afirma a dignidade de cada ser humano.

Philip Potter

Secretário Geral do Conselho

Mundial de Igrejas

 

 

AULAS DE TORTURA: OS PRESOS-COBAIA

 

O estudante Angelo Pezzuti da Silva, 23 anos, preso em Belo Horizonte e torturado no Rio, narrou ao Conselho de Justiça Militar de Juiz de Fora, em 1970:

(...); que, na PE (Polícia do Exército) da GB, verificaram o interrogado e seus companheiros que as torturas são uma instituição, vez que, o interrogado foi o instrumento de demonstrações práticas desse sistema, em uma aula de que participaram mais de 100 (cem) sargentos e cujo professor era um Oficial da PE, chamado Tnt. Ayton que, nessa sala, ao tempo em que se projetavam “slides” sobre tortura, mostrava-se na prática para a qual serviram o interrogado, MAURICIO PAIVA, AFONSO CELSO, MURILO PINTO, P. PAULO BRETAS, e, outros presos que estavam na PE-GB, de cobaias; (...)

 

A denúncia é confirmada no mesmo Processo, por depoentes acima citados, como o estudante, de 25 anos, Maurício Vieira de Paiva:

(...) que o método de torturas foi institucionalizado em nosso País e, que a prova deste fato não está na aplicação das torturas pura e simplesmente, mas, no fato de se ministrarem aulas a este respeito, sendo que, em uma delas o Interrogado e alguns dos seus companheiros, serviram de cobaias, aula esta que se realizou na PE da GB, foi ministrada para cem (100) militares das Forças Armadas, sendo seu instrutor um ten. HAYTON, daquela U.M.; que, à concomitância da projeção dos “slides” sobre torturas elas eram demonstradas na prática, nos acusados, como o interrogado e seus companheiros, para toda a platéia; (...)


Continue lendo no link:

http://www.comunistas.spruz.com/pt/Ditadura-Militar---Aulas-de-tortura/blog.htm

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