Cabocla e Zezita, em pensamento a quatro mãos: A Democracia da Morte

Já não impressionam as imagens que nos chegam todos os anos, e atualmente durante o ano todo, das vítimas de eventos climáticos. O espetáculo, festim midiático, banaliza e incorpora à saturação cotidiana as tragédias de gente que perde pertences, casas e vidas, sob os efeitos devastadores de temporais e outros cataclismos. Imagens chegam à vontade, em vistas aéreas e closes invasivos dos rostos desfigurados pela dor, em estado de choque, forçados por ávidos repórteres e cinegrafistas a arrancarem da alma as expressões de desespero e os soluços que alimentam o compadecimento. Cenas de canibalismo de entretenimento que entorpecem as sensibilidades, motivando exclamações de indignação de praxe. Um gigantesco show da vida, big brother 24 horas no ar e 30 dias ao mês, com a vantagem de não ter que pagar prêmios nem atiçar estímulos artificiais. Tudo ao vivo, no cru, enquanto se promove consumo variado
em troca da miséria humana.

Quanto mais distantes de nós, geograficamente, e mais imputados à natureza incontrolável, menos trauma emocional. Tsunami nas Filipinas, soterramento na China, inundação na Espanha, congelamento na Rússia, seca em Serra Leoa, terremoto no Irã, devastação no Haiti, tudo ganha um pouco mais de força quando se aproxima de nós. Inundações em Blumenau, seca no Piaui, incêndios na Amazônia ou soterramentos em cidades brasileiras. Lamentamos a urbanização descontrolada, as condições de vida do povo pobre, o cinturão de moradias em locais de risco, a falta de infraestrutura, o descaso das “autoridades” (abstrata, impessoal, olímpica, que muda de rosto a cada nova administração), a responsabilidade do próprio povo, que produz resíduos agravando os efeitos da violência natural.

Quanto mais distantes de nós, socialmente, menos traumático. Enquanto lúmpens habitando morros e encostas ou miseráveis morando em baixadas sem drenagem natural, sem recursos de saneamento nem captação de águas pluviais, lamentamos, reclamamos das “autoridades”, sabendo no entanto que haverá mais do mesmo nas próximas chuvas. A consternação se acentua conforme chega perto de nós, socialmente; nós que deveríamos contar, em tese, com maiores (melhores) repertórios de prevenção e solução dos problemas causados pelas forças da natureza. A indignação cresce (é de natureza diferente) diante de imagens de automóveis boiando em avenidas, em estacionamentos, ruas e avenidas por onde transitamos, que nos são familiares. O impacto diante de um motorista que abandona o carro, em desespero, e é arrastado pela correnteza, é de grau diferente da imagem da montanha de lama cobrindo casas e pilhas de cadáveres. Não corremos o risco de termos nossas casas soterradas, mas podemos ser apanhados num congestionamento durante a enchente e perdermos carro e vida. É outra espécie de solidariedade, outro tipo de horror. Algo similar como quando a guerrilha suja do narcotráfico deixou os morros e as vítimas de sempre pra invadir avenidas e incendiar o nosso patrimônio. Só que não adianta chamar bope nem exército pra combater os caprichos da natureza.

O medo se agrava, porque avança e nos ultrapassa. Novaiorquinos morreram congelados da nevasca. A cidade símbolo do status sofisticado e da força da grana paralisada. Aeroportos e espaços públicos viraram abrigos caóticos de espécies novos de “clochards”, em antecipação realística de cinema catástrofe. Veranistas endinheirados (bem mais do que nós) entraram nas listas de vítimas de desbarrancamentos, em Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo; as listas
onde habitualmente aparecem os nomes de Edineides e Raimundos, serviçais e servidores que são vítimas preferenciais desse tipo de evento. A tragédia age cada vez menos seletivamente, desrespeitando posições e sobrenomes. O inesperado da ocorrência alerta para a necessidade de providências. Desta vez, as “autoridades” estão verdadeiramente com um abacaxi nas mãos, e desta vez cabeças administrativas vão rolar, e desta vez se estudarão e encaminharão propostas “sérias” de prevenção e solução. Pelo menos, em áreas onde a natureza resolveu exercer sua democracia da morte.

Difícil condenar as mídias que ora deitam e rolam no banquete macabro de imagens e
contagem de mortos. Afinal, é informação, com direito a análises de especialistas, alertas de urbanistas e clamores indignados de âncoras. É interesse público, por mais que pensemos na espetacularização banalizadora de tragédias humanas, no sadismo indisfarçado de repórteres e narradores do caos. O horror é a desconfiança de que aos poucos a natureza está realizando sua velha seleção natural, sem pruridos quanto a paises desenvolvidos ou atrasados, bairros seletos ou periferias, qualidade de vida ou pobreza, capacidade de consumo ou carências, nata social e grana no banco ou miséria e ignorância.

A questão, sempre evitada, é o debate sobre as razões elementares dessa súbita igualitarização das desgraças; debater se a causa não seria justamente a desigualdade nas relações sociais perversas, produzidas por uma sociedade concentradora de capital e pulverizadora das integrações no campo das relações políticas, sociais e culturais, refletindo os malefícios no modo de organização de sua geografia social e urbana.

A natureza começa a mandar faturas, e não há como pensar soluções técnicas pra distorções sociais. O catalão Antonio Gaudi defendeu até morrer (atropelado por bonde, ironia urbana...) a horizontalidade urbana, a desconcentração dos serviços básicos e dos locais de produção, os cuidados com a manutenção de áreas livres, como parques e bosques, nos projetos urbanos (a serem planejados integrando as necessidades do homem e as necessidades da natureza), e principalmente, a democracia igualitária nas relações sociais, que significa democratização do equipamento público urbano para toda a população, indiscriminadamente e fartamente.

Se o ser humano não democratizar conceitualmente (e revolucionariamente) sua própria geografia, a natureza democratizará ao seu modo peculiar, e brutal.

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Respostas a este tópico

Nosotros passaremos!
Grande Paulão Godard, lone ranger. Sumiço, non?
Assunto puxa outro e zz inaugurando a série Senhoras Porretas, que engata num filme Ken Loach que você botou um trecho e comentário de Carlos Eduardo Carvalho, da FPA, sobre o filme e a narrativa de Hugh Thomas, nada britânico e totalmente parcial (felizmente, quaquá!).
Tiempos calientes, de pasionaria. O tempo é 1936.
Tu vai gostar disso (ou parte disso...).


"A heróica defesa de Madri fortaleceu o prestígio e a influência dos comunistas. Organizadores competentes e incansáveis, apareciam como os únicos que sabiam exatamente o que fazer e capacitados a fazê-lo. Sua política era simples: submeter tudo ao esforço de guerra. Para eles a revolução social era um equívoco naquele momento. Coletivizar terras ou aplicar medidas socialistas seria um apoio efetivo aos fascistas, pois desuniria a frente popular e isolaria a república do possível apoio externo da França e da Inglaterra, abrindo caminho para uma intervenção aberta da Alemanha nazista e da Itália fascista. Conselheiros soviéticos auxiliavam as tropas mal preparadas a defender Madri. Nas brigadas internacionais os comunistas de muitos países se destacavam pela abnegação e pela disciplina. O material bélico que chegava da URSS era pouco, mas era o único que a república conseguia obter.

Junto com o prestígio dos comunistas crescia sua hostilidade aberta às outras forças de esquerda, em especial os anarquistas e o POUM. Para agravar o quadro, a coluna anarquista formada em Barcelona para defender Madri não se saía bem naquele tipo de luta, na qual não tinha qualquer experiência ou preparação. Era uma luta de trincheiras, casa por casa, prédio por prédio, diante de tropas bem preparadas, as melhores que os generais sublevados conseguiram reunir. Os anarquistas eram bravos e heróicos, mais da metade deles morreu, mas não conseguiam deter o avanço dos mouros nos trechos a eles confiados. A falta de disciplina e de organização aparecia cada vez mais como um problema decisivo diante da ameaça mortal representada pelas tropas de Franco. Se os mouros tomassem Madri, não haveria revolução nem frente popular.

Os fascistas foram afinal detidos nos arredores da cidade, depois de combates sangrentos. No início de 1937 os comunistas apresentaram a fatura. Exigiram a integração das milícias no exército regular, o fim das coletivizações e a devolução das propriedades a seus donos. Mais grave ainda, a máquina policial soviética operava com crescente desenvoltura em território espanhol. Forjaram acusações de que o POUM conspirava com Franco e de que os anarquistas preferiam a vitória dos fascistas a uma política de colaboração com os demais partidos da Frente Popular. Os socialistas de esquerda se opuseram às intrigas, mas os comunistas conseguiram a demissão de Largo Caballero. Formou-se um governo bem mais à direita e que deixou os comunistas à vontade para liquidar seus adversários na esquerda e acabar com as milícias e as coletivizações".
Putz, a fonte!


Carlos Eduardo Carvalho
Página Teoria & Debate
Fundação Perseu Abramo - da patota do nosso mano Marião Bros!

http://www.fpa.org.br/o-que-fazemos/editora/teoria-e-debate/edicoes...

" Se os mouros tomassem Madri, não haveria revolução nem frente popular."

Quem errou foi Stalin e os PC's ( dirigentes) com o "seguidismo". Os comunistas estavam nas trincheiras comendo lama e lutando.

A divisão também reinava entre os Anarquistas ( Durruti não foi morto por uma bala fascista, e tampouco pela comida do mouro Mohamed) e na militância do POUM ( o "entrismo" de 1935 deixou sequelas graves).

Quanto as "coletivizações" estou com o Gene de Terra e Liberdade. Tem que coletivizar as terras dos latifundiários , e não de quem possui 2 hectares de terra.

 



Paulo!

No..No..No..Passaremos!!

resistiremos até a ultima das ultimas...

resistir  sempre foi a ordem de Stellita ( ela propria se determinou a isto!! frutos..não muitos.. mas  temos que resistir!!)

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Sim, Paulão K & Stellita, que afora os chiaro-oscuros de praxe e os rachas que fizeram mais (ou pior) que a concorrência droite, o que se ressalta é a misteriosa força que vem da paixão humana, do momento supremo de foda-se-o-mundo. Não pasarán, porque de repente se não houver a esperança do amanhã, que hoje aqui agora se faça história. Gente espelho da vida doce mistério...

Dois trechos, que zezé tá em fase chupão.

Ainda sobre a guerra espanhola e a criminosa omissão da oportunista diplomacia ocidental:
... A intervenção externa e a chamada “não-intervenção” determinaram, em grande parte, o curso e o resultado da guerra. Mesmo no início, em julho de 1936, somente a oportuna ponte aérea ítalo-alemã do Exército da África de Franco transformou um golpe fracassado em marcha bemsucedida em direção a Madri. Do mesmo modo, a chegada da ajuda soviética e a mobilização, pelo Comintern, de milhares de voluntários
no outono de 1936 salvaram a capital espanhola e contribuíram para prolongar a guerra.
Nunca se deve esquecer de que uma guerra é travada com tanques, aviões e balas. Para a Espanha, país sem indústria de armamentos significativa, a aquisição regular de armas no exterior foi crucial. É portanto absurdo insistir no antigo clichê de que a perfídia de Stálin foi responsável pela derrota da República. Certamente a intervenção da União Soviética na Espanha não teve razões altruístas. A URSS foi bem
paga por seus serviços e tentou impor um projeto político favorável a seus próprios interesses no interior do campo republicano. Todavia, era a única grande potência que, durante todo o confl ito, estava preparada para vender armas à República e enviar-lhe conselheiros militares. Sem as armas e o apoio soviéticos para mobilizar os recursos financeiros da República, a guerra teria terminado bem mais cedo.
As bombas e as tropas fascistas, associadas à hipocrisia ocidental, ditaram o resultado defi nitivo da tragédia espanhola. Além disso, a terrível conclusão que surge a partir da análise de fontes italianas e alemãs é que nenhuma das ditaduras fascistas estava disposta a arriscar um confronto maior com relação à Espanha. Se as potências ocidentais agissem com uma autêntica imparcialidade, o confronto poderia
ter terminado de modo muito diferente, não certamente com a vitória total de Franco.
É revelador que tanto Azaña como Negrín tenham culpado a Grã-Bretanha, e não o Eixo, pela derrota republicana. O governo Baldwin ignorou a princípio a fl agrante intervenção italiana na Espanha e mais
tarde autorizou a monstruosa farsa do Pacto de Não-Intervenção, que colocava o governo legítimo da Espanha em pé de igualdade com os rebeldes do Exército e também impunha de vez um embargo unilateral de armas. Em seguida, na gestão de Chamberlain, o governo britânico torceu pela vitória de Franco.
Mas o sacrifício da Espanha “comunista” pelo bem do apaziguamento dos ditadores se mostrou inútil, porque não preservou a paz no continente. Pelo contrário, o apaziguamento pode ter acelerado a marcha
em direção aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Durante sua aventura espanhola comum, a Alemanha e a Itália selaram o pacto do Eixo e aperfeiçoaram suas técnicas militares, enquanto suas ambições
territoriais só se viram fortalecidas pela impunidade com a qual seus tanques, aviões e tropas agiram, apesar da existência de um acordo de não-intervenção. A opinião ocidental certamente garantiu que os espanhóis
“desfrutassem” de um futuro franquista.

Francisco J. R. Salvadó
Trecho final do prefácio: “A Guerra Civil Espanhola” – Ed. Zahar

Outra sobre a guerra sino-japonesa e a criminosa omissão da oportunista diplomacia ocidental - o tempo é 1937:
E, quando se esperava que os mais de 300.000 soldados responsáveis pela guarda de Nanquim promovessem sua derradeira, mas exemplar, resistência sem quartel em nome da nação ameaçada, a exemplo da guarnição e da população de Shangai, estes sentiram de súbito o roçar frio e duvidoso do medo. Imputar-lhes açodadamente o estigma da covardia, seria, além de cruel, duvidoso. Outras eram as circunstâncias e distinto o estado de espírito que na certa animava os infortunados defensores de Nanquim. Shangai havia sido surpreendida por uma ofensiva relâmpago tão habilmente (alguns diriam traiçoeiramente) engendrada quanto executada, não havendo tempo nem condições a decisão nenhuma senão lutar para não perecer. E nenhum ser, nessas circunstâncias, oferece docilmente o pescoço à lâmina. É ilustrativo o exemplo dos animais que, por frágeis que sejam, ao se verem encurralados, lutam pela vida. Movido por raiva, instinto ou terror em estado puro, lutam com todas as forças e podem tornar-se letais a um agressor superior em força. Em Shangai, foi precisamente o que se passou. Confrontada à escolha limite entre combater ou deixar-se massacrar, a cidade combateu. Ardendo ao sol do verão que se iniciava, mergulhados nas trevas da noite, ensopados de chuva ou confundidos na penumbra do entardecer; em cais, praias, ruas, praças, escolas, hospitais, teatros, igrejas, bordéis; aos gritos e com o sangue em ebulição, o ódio faiscando nos olhos, o ressentimento pelas crônicas humilhações na mente, talvez armados do terror supremo que traz o desvairio, chineses lutaram como possessos; armados de morteiros, fuzis, pistolas, punhais, facas de cozinha, pedaços de móveis, paus e pedras, punhos e dentes; com as paredes de suas casas às costas e as baionetas nipônicas contra o peito, os chineses de Shangai, oficiais, soldados, homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, inválidos e párias, cobraram caro a sua vida, o seu lar e a sua cidade, irrigando com sangue o chão de sua terra, boa parte arrancado dos divinizados corpos samurais bafejados pelo vento kamikaze, filhos diletos do deus-em-terra Hiroíto, o omisso.
...
Fiel ao planejamento logístico do estado-maior japonês, todas as tropas já alojadas de longa data – desde a primeira guerra sino-japonesa de 1894 e depois com os ocupações territoriais na guerra de 1914 – iniciaram nos locais sob o seu controle hostilidades contra forças chinesas, abrindo frentes de combate nas regiões de Hankow, Cantão, Shantung, Manchúria, Mongólia Interior e províncias do norte, dispersando a resistência, tanto a nacionalista, empreendida pelo exército kuomintang de Chiang Kai Shek, quanto a do Exército Vermelho comunista sob o comando de Mao Tsé Tung e Chu Teh, forçadas a lutar em várias frentes e adotando táticas igualmente diversas. Entre 1937 até 1939, o exército nacional chinês, que tinha contingente inicial de cerca de 1.400.000 homens ampliou-se para mais de 12.000.000, entre recrutados e voluntários. O Exército Vermelho contava, à época, com cerca de 1.000.000 de militantes – arregimentados entre camponeses, intelectuais oriundos da classe média e pequena nobreza rural, além de pouquíssimos operários do meio urbano – massivamente concentrados no setor noroeste do país, nos arredores de Yenan (e inflitrando-se para o leste), de onde desfechavam ações guerrilheiras contra colunas japonesas. O plano de dominação completa em três meses, que viria a ser definitivamente desmoralizado, estava em pleno vigor por ocasião do ataque a Nanquim. O exército japonês tinha pressa, sabendo que sua desvantagem numérica só seria anulada pela rapidez e a precisão dos ataques às cidades-chave. Para tanto, deu carta-branca aos militares, no sentido de validar qualquer ação, por brutal ou arbitrária que fosse, desde que resultasse no alcance das metas no menor tempo possível.
ZZ&ZZ - Encrencas Entre Amarelinhos

Já peço perdão não sei para quem ao comentar o tópico de Ze e Za , porque estava ausente de qualquer notícia, cultivando abóboras e cerejas no meio do mato, em companhia dos meus enciclopédicos autores em extinção. As besteiras by del Rio vão rolar.

Trata-se novamente da mamy natureza assassina e a consequente imagerie da pedagogia do abjeto para levar a reflexão aos nossos lares opacos? Muita água rolando do céu e dos nossos olhos desenhando a geografia urbana para o papa abençoar e a globo tutelar a assistência humanitária e os relatos fantásticos.

Lembro de um inglês que no finzinho do século XVIII  queria derrubar o Pão de Acúcar porque aquele pedregulho no meio da Guanabara dificultava  a proteção necessária (a dos negócios, ora, ora) à mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com seus morros e montanhas perigosos. Haja flecha tumpinambá, Tião.

Espero que não queiram derrubar a Serra do Mar.

Nonada. "Natureza não existe". Não e não.

A insólita solidariedade entre ricos e pobres tem um um terceiro elo que dá a sustentação borromeu. Os pobres em geral constroem barracos leves e com uma competência acumulada pela tradição. Ricos compram terrenos de pobres, legalizando o que era clandestino; os pobres dão uma banana para a "competência arquitetônica" e arriscam mais um tanto, mais abaixo e ao lado dos lixões. 

Quem autorizou, quem fiscalizou? Quem detonou a gentil Nova Friburgo da minha infância e juventude?

Ah...isso aqui tem mais um pouquinho de Rio de Janeiro, ai, ai... Casas construídas numa área de risco para desabrigados de enchentes passadas estão sendo vendidas e a galera agradecida volta para o lixão antigo.   

 

 

 

 

 


DARWINISMO SOCIAL
 
Frei Betto



     A catástrofe na região serrana do Rio de Janeiro é noticiada com todo alarde, comove corações e mentes, mobiliza governo e solidariedade. No entanto, cala uma pergunta: de quem é a culpa? Quem o responsável pela eliminação de tantas vidas?
     Do jeito que o noticiário mostra os efeitos, sem abordar as causas, a impressão que se tem é de que a culpa é do acaso. Ou se quiser, de São Pedro. A cidade de São Paulo transbordou e o prefeito em nenhum momento fez autocrítica de sua administração. Apenas culpou o excesso de água caída do céu. O mesmo cinismo se repetiu em vários municípios brasileiros que ficaram sob as águas.
     Ora, nada é por acaso. Em 2008, o furacão Ike atravessou Cuba de Sul a Norte, derrubou 400 mil casas, deu um prejuízo de US$ 4 bilhões. Morreram 7 pessoas. Por que o número de mortos não foi maior? Porque em Cuba funciona o sistema de prevenção de catástrofes naturais. No Brasil, o governo promete instalar um sistema de alerta... em 2015!
     O ecocídio da região serrana fluminense tem culpados. O principal deles é o poder público, que jamais promoveu reforma agrária no Brasil. Nossas vastas extensões de terra estão tomadas pelo latifúndio ou pela especulação fundiária. Assim, o desenvolvimento brasileiro se deu pelo modelo saci, de uma perna só, a urbana.
     Na zona rural faltam estradas, energia (o Luz para Todos chegou com Lula!), escolas de qualidade e, sobretudo, empregos. Para escapar da miséria e do atraso, o brasileiro migra do campo para a cidade. Assim, hoje mais de 80% de nossa população entope as cidades.
Nos países desenvolvidos, como a França e a Itália, morar fora das metrópoles é desfrutar de melhor qualidade de vida. Aqui, basta deixar o perímetro urbano para se deparar com ruas sem asfalto, casebres em ruínas, pessoas que estampam no rosto a pobreza a que estão condenadas.
     Nossos municípios não têm plano diretor, planejamento urbano, controle sobre a especulação imobiliária. Matas ciliares são invadidas, rios e lagoas contaminados, morros desmatados, áreas de preservação ambiental ocupadas. E ainda há quem insista em flexibilizar o Código Florestal!
     Darwin ensinou que, na natureza, sobrevivem os mais aptos. E o sistema capitalista criou estruturas para promover a seleção social, de modo que os miseráveis encontrem a morte o quanto antes.
     Nas guerras são os pobres e os filhos dos pobres os destacados para as frentes de combate. Ingressar nos EUA e obter documentos legais para ali viver é uma epopeia que exige truques e riscos. Mas qualquer jovem latino-americano disposto a alistar-se em suas Forças Armadas encontrará as portas escancaradas.
     Os pobres não sofrem morte súbita (aliás, na Bélgica se fabrica uma cerveja com este nome, Mort Subite). A seleção social não se dá com a rapidez com que as câmaras de gás de Hitler matavam judeus, comunistas, ciganos e homossexuais. É mais atroz, mais lenta, como uma tortura que se prolonga dia a dia, através da falta de dinheiro, de emprego, de escola, de atendimento médico etc.
     Expulsos do campo pelo gado que invade até a Amazônia, pelos canaviais colhidos por trabalho semiescravo, pelo cultivo da soja ou pelas imensas extensões de terras ociosas à espera de maior valorização, famílias brasileiras tomam o rumo da cidade na esperança de uma vida melhor.
     Não há quem as receba, quem procure orientá-las, quem tome ciência das suas condições de saúde, aptidão profissional e escolaridade das crianças. Recebida por um parente ou amigo, a família se instala como pode: ocupa o morro, ergue um barraco na periferia, amplia a favela.
E tudo é muito difícil para ela: alistar-se no Bolsa Família, conseguir escola para os filhos, merecer atendimento de saúde. Premida pela sobrevivência, busca a economia informal, uma ocupação qualquer e, por vezes, a contravenção, a criminalidade, o tráfico de drogas.
     É esse darwinismo social, que tanto favorece a acumulação de muita riqueza em poucas mãos (65% da riqueza do Brasil estão em mãos de apenas 20% da população), que faz dos pobres vítimas do descaso do governo, da falta de planejamento e do rigor da lei sobre aqueles que, ansiosos por multiplicar seu capital, ignoram os marcos regulatórios e anabolizam a especulação imobiliária. E ainda querem flexibilizar o Código Florestal, repito!
 
Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.
www.freibetto.org>     -  twitter:@freibetto

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