Sobre o "tombamento" de João Gilberto...

Há certa inocência por parte de alguns comentaristas acreditar que Mouro não tenha informações mais fidedignas - provavelmente off- que qualquer matéria da grande mídia para repercutir o que está acontecendo com JG, ou seja, que o despejo seja por grana e não, como alegam, pela dita personalidade excêntrica e irascível dele. É também inocência achar que alguém que não soube fazer isso em 80 anos, e agora está doente e debilitado, possa pegar seu banquinho e violão e sair fazendo shows por aí. Nem sempre a genialidade - no caso musical - vem acompanhada de capacidade de administrar a grana ganha. Vide Vinícius, que a se acreditar nos depoimentos gravados nos DVDs de Chico, ganhava e gastava tudo pagando rodadas e rodadas de biritas aos amigos, quando tinha algum. Vide Tom Jobim, que segundo o mesmo Chico só não dançou porque a mulher passou a administrar a grana. O mesmo com Caetano e Paula Lavigne - segundo li hoje na Serafina da FSP.

Compreensível também que em um país de renda tão desigual, as pessoas respondam com o fígado e se apeguem ao fato de 8000 reais ser um absurdo de aluguel e que sustentaria nem sei quantas famílias brasileiras. Mas, a se pensar assim, todos nós daqui temos mais que precisamos se, parafraseando o Titãs, "a gente só quiser comida". A luta por um País mais justo, com melhor distribuição de renda, não é afetada pela luta de preservação de patrimônios culturais. São coisas distintas, que devem ocorrer em paralelo.

Porque o que queria escrever é que a cultura é sistematicamente destratada neste País, e isso precisa mudar. Um monte de artistas maravilhosos morreu na miséria, desconhecido do grande público e/ou mendigando um atendimento que lhe era de direito – como, recentemente, o poeta Piva e Massao Ohno. Nem sei quantas vezes, nas minhas boemias paulistanas quando cheguei por aqui, vi Plínio Marcos em persona vendendo seus livros de boteco em boteco.

Não acho que isso invalide qualquer ação por JG, do tipo, "se não fizeram por outros, não façamos por ninguém", "ele é famoso, teve a oportunidade" - porque se iniciar com alguém tão famoso e importante pode começar inclusive a ser um paradigma na questão de respeito à nossa cultura, dos famosos aos marginais. No caso dele, deixar à míngua quem mudou o jeito de se fazer música no Brasil e no mundo, abrindo um leque de possibilidades com a bossa nova que foi desaguar nos melhores produtos musicais que conheço, me deixa extremamente envergonhada.

Por isso, a questão sempre levantada de que "temos tanto a nos preocupar socialmente" não vale aqui. É vero, mas o País é desigual e temos que fazer tudo ao mesmo tempo, não podemos perder gerações inteiras de gênios nas mais diversas áreas porque ainda tem gente que não come. Fosse assim, o tão incensado Nicolelis não poderia estar criando um Instituto como o dele, non?

Não é possível que um IMS da vida ou qualquer milionário ou Instituto de Cultura do país ache que não tem nada a ver com isso. Senão, mais uma vez veremos o triste espetáculo: JG morre, se iniciam uma série de reproduções de sua obra, CDs, DVDs, programas televisivos, depoimentos emocionados, homenagens e xororôs Brasil e mundo afora, e finalmente a grana aparece, mas para ele já não vale mais nada. À la Van Gogh... A grana vai pros espertos de plantão, de sempre; então poderiam ter a decência de fazer com ele vivo, pra que possa se apropriar do resultado financeiro o próprio criador, não?

Outra coisa que me incomoda é o moralismo que grassa nessas situações: devia ter cuidado melhor do patrimônio, é irascível, é isso ou aquilo, porque a família não ajuda, etc, etc. Não sabemos. De verdade, não sabemos, fazemos ilações, mas ninguém sabe o que se vai pela alma de alguém.

Recentemente vi num espetáculo de soul Amy Winehouse, e não eram poucos os que sadicamente torciam pra que ela desse vexame, que contavam as quedas e possíveis efeitos da droga. Enfim, que torciam contra. Os moralistas de plantão apontavam o dedo - drogada, imprestável. Uma menina...Que fez um show muito bom, mas uma menina tímida que tem um talento enorme, mas sei eu o que vai na alma dela e o que tanto a transtorna, mas não acuso- só sei que não é para grandes espetáculos, e sim para mais intimistas.

Enfim, que se faça uma petition on line para o IMS ou outros Institutos de Cultura abarcarem a causa.


Em tempo:


1. DETESTO bossa nova e seus barquinhos que vão e vem, mas reconheço a genialidade de JG, seu jeito único de tocar violão e o que ele proporcionou de abertura a novas possibilidades musicais. A MPB é sem dúvida aJG/dJG.


2. Não escrevamos com o fígado, porque ganhe ele ou não a causa, fique com ou sem grana, o fato está dado: nós passaremos, JG veio pra ficar pra sempre.


3. Se o maldito dinheiro não fosse sempre o que mais importa, há alguns anos Portela teria caído para o segundo grupo das escolas de samba do Rio, com orgulho. Porque, para não estourar o tempo impediu JUSTO a velha guarda da escola de desfilar. Uma vergonha, aqueles senhores e senhoras chorando copiosamente, porque a escola é a vida deles - aliás, outros que deveriam ser tombados - porque a escola é o que é POR CAUSA deles....


4. Bem disse Rita Lee: Madame, você devia ir comer seu croissant...



Acrescenta Zezita...

Se fosse um teste de múltipla escolha, tipo enem ou fuvest, sobre o enigma da paixão segundo João Gilberto, uma dúvida joãoexistencial se colocaria, de acordo com o credo de cada crente-laico do evangelho-esquisito-segundo João:

Defina o indefinível João:


a) Gênio incontestável da música popular brasileira no aggiornamento cultural de um Brasil que alcança maioridade estética em consonância ao projeto de desenvolvimento nacional/popular iniciado por Getúlio Vargas e tendo continuidade na administração JK. Brasília, Bossa Nova, Ziembinski, João Gilberto e Nelson Pereira dos Santos irão, cada qual em seu repertório artístico-cultural, inserir Brasil na modernidade revolucionária de formas inéditas em traduzir a riqueza do imaginário popular, do ritmo popular, em forma de imagens, vozes, sons e organização espacial/urbana.

b) Expressão definitiva de falsa construção erudita-fake a concretizar culturalmente formas de subserviência ao colonialismo político-econômico, mimetizando estruturas melódicas e rítmicas fornecidas pela matriz estadunidense em tempos de imposição da estética industrial e enlatada como produto básico de exportação ao consumo em todos os recantos do planeta; estratégia de massificação/padronização artística-cultural a servir aos interesses da burguesia capitalista em plena política rockfelleriana de boa vizinhança como recurso necessário para a dominação política e para enfrentar a guerra-fria.

c) Exemplar paradigmático do “criador” puro alienado das exigências da materialidade concreta e necessidade de sobrevivência. Um “Mozart” segundo o figurino descrito por Milos Forman, em “Amadeus”, semiautista, egoísta, infantil, desligado e autocentrado, cujo interesse único é trabalhar com os demônios internos, as inquietações inconscientes, aforados em forma de imagens, vozes, sons, ritmos. Um ser a necessitar de permanentes guardiões, tutores, organizadores, compiladores, financiadores, mecenas, mulheres/homens fortes e determinados, ou fracos/arrivistas como “apoio vital” ou “distração sexual”.

d) Nenhuma das alternativas anteriores.

e) Todas as alternativas anteriores.



De modo bastante claro (com toda a obscuridade inerente à alma complicada de um artista), João ocupa e ao mesmo tempo não cabe em nenhum nicho moral de apreciação prática sobre uma arte que não domina: o da administração da realidade ligada a dinheiro, fama e sobrevivência. Um hippie de terno e gravata, um violeiro baiano celebrado em Nova Iorque, Paris e Montreaux, mas umbilicalmente ligado ao seu violão e a obsessão profunda em buscar a perfeição no imperfeito.

Não é um roqueiro bilionário vivendo em mansões na Califórnia ou Costa Brava, não se dá conta da potencialidade que seus acordes imperfeitos têm de endoidecer máquinas registradoras mundo afora, não sabe o valor de um patrimônio imóvel, de investimentos na bolsa, de trocar de automóvel a cada ano pra não desvalorizar. Seu padrão de valor, seu valor em si, é a desvaloração concreta do mundo real, monetário, a se derreter num oceano de abstrações sensíveis, em que um bemol de repente vale mais que o Fort Knox e um silêncio repentino em meio aos acordes recompensa mais que todos os minaretes de todos os sheiks sauditas. Como para Van Gogh um tom de amarelo obtido da espatifação de ovos misturados a repolho apodrecido nem se comparava a todas as composições ordenadas e “perfeitas” de um Pisarro, portanto com alto valor de troca, de mercado. O de Van Gogh não tinha valor nem pra comprar uma taça de vinho, e hoje é inestimável.

Não existe mercado pra João, como não existia pra Van Gogh ou Bukowski ou Genet. O mercado é feito por marchands, agentes, galeristas, gravadoras. Não por esse espécime peculiar de artista que não atenta se é abuso viver num apê de 8 mil reais. Podia ser 80 mil, como 800, como nada, na faixa. Se um de 8 mil especificamente lhe serve e dá condições luminosas e acústicas de se sentar e se embrenhar em seu mundo sensorial, com seus caprichos, suas esquisitices, suas “frescuras”, sua invencível solidão, então que sejam 8 mil. Que deve equivaler ao que gasta Keith Richards com a birita diária ou Mr. Sinatra gastava com as gorjetas pro maitre.

É um apanhado esquemático. Pode ser confirmado ou desmentido pela realidade. É o começo de uma discussão que diz respeito a arte, cultura, comportamento e ética pública. Com a extinção dos mecenas, dos Médicis, Fioranos, Theos e papas Urbanos, quem banca os sui generis, os inaptos à seleção natural das espécies estéticas?

O Estado remunera ex-governadores, ex-juizes, ex-sumidades e herdeiros, que sabem muito bem os valores de mercado. O Estado não remunera artistas, criadores, doidos de pedra que constarão em futuras enciclopédias de arte e cultura. Nenhuma conclusão de nossa parte; só indagações...

 

 

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Respostas a este tópico

são 40 músicas compiladas...

enjoy...

Reforço de peso. Isso de banquinho e violão dá em maravilhas, non?

e por falar em paulinho e portela...

 

mas....

caboclinha não é vira casaca...

velha guarda da portela, maravilha...

mas....

mangueira com seu improvável verde e rosa, impagável.....

 

mangueira até parece um céu no chão, é música vestida de emoção...

DEMAIS....

:) Obrigada meninas

 

Adoro Paulinho da Viola, Mangueira, Portela :))

 

Zezita querida, :)

Dá prá deixar meu "Sto. Mozartzinho" fora desta história ? ;)

Tô trocando "girassóis" por "Maja", aceito também "Ginevra di Benci" e nem peço troco... ;P

 

Cabocla querida, :)

Clara Nunes é covardia :)

 

Beijos

 

Dulce.

 

Estive semana passada entrevistando Paulo Vanzolini, autor de Ronda, Volta por Cima,Capoeira do Arnaldo e uma montao de musicas da maior importancia nesse repertorio desta MPB. Além de sambista, é um cientista reconhecido e premiado internacionalmetne por suas descobertas e experimentos na Zoologia. Médico pela USP, doutorado por Harvard. Sua familia era classe media alta, o pai dava aulas na POli nos anos 30. Ele està com seus 85 para 86 anos.

Mora em uma vila simples no Cambuci.Quando cheguei Ana Bernardo, a cantora, sua mulher, comentava sobre o corrimao da casa, meio caidaço.

EntÃo, como não é superstar baiano, como Veloso e Gil, o Vanzolini não casou com mulher administradora de $$$$$$$$$$$$$$$$.Mas não reclama não, eu que lembrei de comparar aqui com o caso do seu colega Joao Gilberto.

Ele me disse que tem pouca musica " para um sambista de rua", cerca de 60. Nao tinha tempo, a Ciencia exigia, e samba tambem exige. Daí­ perguntei se sambista tem reconhecimento. Ele disse: "Conhece o Geraldo Filme? Ele dizia "sambista de rua morre sem gloria".

Não estou  acompanhando o affaire JG, se é por falta de grana ou pelo genio. Por outro lado, concordo que artista nesse pais é maltratado, especialmente os melhores e mais importantes, os que nao tem rabo preso com a midia.

 

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