Cadê a União Nacional dos Estudantes (UNE) no movimentos contra a corrupção e o mensalão.

Estudantes trocam protesto por regalias
Cooptada, entidade abandona as ruas e passar a defender as causas do governo do PT
Eduardo de Oliveira Silva, do Conselho Estadual da Juventude: “UNE não levanta sequer uma bandeira contra a corrupção”

Na esteira dos mo­vi­mentos sociais que fo­ram cooptados pelos go­vernos petistas está a União Nacional dos Estu­dantes (UNE). A entidade, que em 1992 liderou a manifestação dos caras-pintadas para pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, e que, antes disso, participou ativamente do Diretas-já, desde que Lula da Silva (PT) assumiu a Presidência da República, abandonou os protestos contra o governo federal. “Desafio a me mostrarem uma manifestação organizada pela UNE nos últimos dez anos. As últimas foram o Fora FHC”, lembra Eduardo de Oliveira Silva, presidente do Conselho Es­tadual da Ju­ventude e que presidiu o Dire­tório Central dos Es­tudantes (DCE) da PUC de Goiás.

A UNE, em tempos de governo petista, optou, por exemplo, por não engrossar a Marcha contra Corrupção, de 7 de setembro último, assim como a Central Única dos Trabalhadores, que também foi cooptada pelo governo. Na época, o presidente nacional da UNE, Daniel Iliescu, estudante de Ciências Sociais da UFRJ, disse que a entidade apoiava todas as manifestações, mas não havia nenhuma recomendação especial para as mobilizações em torno do tema da corrupção. Tema que havia derrubado nos meses anteriores à marcha quatro ministros do governo Dilma Rousseff: da Casa Civil, An­tônio Palocci, em junho; do Transportes, Alfredo Nasci­men­to, em julho; e da Agri­cul­tura, Wagner Rossi, em agosto. Após a manifestação, caíram Pedro Novais, do Tu­rismo, em setembro; Or­lando Silva, do Esporte, em outubro; e do Trabalho, Car­los Lupi. “A UNE não levantou sequer uma bandeira contra a corrupção”, afirma Eduardo Silva, lembrando que Orlando Silva, um dos ministros a cair devido à denúncia de corrupção, é do PCdoB, partido que historicamente comanda a UNE, presidiu a União da Ju­ventude Socialista (UJS), organização estudantil ligada ao PCdoB, e a própria UNE.

A não participação dos movimentos sociais na passeata levou Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol “El País”, a questionar no artigo Por qué Brasil no tiene indignados?:  “por que estudantes e trabalhadores não vão às ruas contra a corrupção? Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção? Será que não cabe aos jovens exigirem um país menos corrupto?”

Aí vem à tona a face mais perversa desse processo de cooptação adotado pelo governo e que teve início na gestão Lula e se mantém com Dilma Rousseff: a própria UNE está sendo investigada por corrupção pelo Mi­nistério Público Federal junto ao Tribunal de Contas da União. A UNE não só se omite em relação à corrupção no governo como pode ter sido contaminada por ela. Há indícios de irregularidades em convênios do governo federal com a UNE e a União Municipal dos Estudantes Se­cundaristas (UMES) de São Paulo entre 2006 e 2010. Segun­do a denúncia, essas entidades receberam cerca de R$ 12 mi­lhões do governo federal para capacitar estudantes e promover eventos culturais e esportivos. Estão sendo investigados 11 convênios, 6 da UNE e 5 da UMES, celebrados com os Ministérios da Cultura, da Saúde, do Esporte e do Turismo. A UNE teria apresentado notas fiscais frias para comprovar os gastos e usado parte dos recursos para comprar bebidas alcoólicas — cerveja, vinho, cachaça, uísque e vodca — além de búzios, velas, celular, freezer, ventilador e tanquinho. Com recursos federais a entidade teria pago faturas de energia elétrica, dedetização da sede da entidade, limpeza de cisterna e impressão do jornal da UNE. Para comprovar os gastos, a entidade apresentou também notas emitidas por bares em que há apenas a expressão “despesas” na descrição do gasto. Por não prestar contas dos convênios firmados com a União, a UNE foi, no ano passado, considerada inadimplente pela Pro­curadoria-Geral do Minis­tério da Fazenda no Ca­dastro In­formativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin). E, se condenada pelo TCU, poderá ser obrigada a devolver os recursos que recebeu.

Em nota, a UNE afirma que “não cometeu irregularidades e não é alvo de investigações de nenhum tribunal de contas”. Antecipa que, “se, o pedido de investigação feito pelo procurador do ministério público junto ao TCU apontar qualquer equívoco em nossa prestação de contas, — não há provas de que tenha ocorrido — será fruto de imperícia técnica, mas nunca de má fé”. Esclarece que “o processo de contratação foi feito via pregão eletrônico, por meio da empresa Terceiro Pregão, especializada em licitações para o terceiro setor” e que se comprovada “qualquer tipo de imperícia técnica em qualquer prestação de contas, compromete-se a saná-las de acordo com o que lei determina, in­clusive, se for o caso, com a devolução de recursos”.

A investigação foi divulgada pelo jornal “O Globo” e o tema já havia sido assunto de reportagem da revista “Veja” no ano passado. Segundo Lucas Marques, de 23 anos, estudante de Ciências Sociais da UFG e vice-presidente da União Estadual dos Estu­dan­tes (UEE), as críticas feitas a UNE são uma resposta da Abril e das Organizações Glo­bo à campanha que a entidade faz em defesa da democratização da mídia. Ele nega a ligação umbilical da UNE com o governo petista e diz que dentro da entidade há diversas vertentes ideológicas que fazem oposição ao PT, como PSDB e PSol.

Realmente tem. A estudante de Direito da PUC Sabrina Gar­cez Henrique, de 23 anos, se elegeu segunda secretária da UNE. Mas observa: “Não é fácil en­trar”. Sabrina é filiada ao PSDB e diz que só foi eleita devido a um intenso trabalho nas bases estudantis. Afirma também que os filiados a partidos que fazem oposição ao governo petista não se elegem para nenhum cargo executivo, apenas para os periféricos. Ser suprapartidária não faz da UNE um espaço democrático, “uma vez que a entidade é dominada pelo PCdoB”, afirma Sa­brina. Ela tem graves críticas à entidade. “Quando o PSDB era governo, a UNE era um braço do PT fazendo oposição a governo. Quanto o PT chega ao poder, passa a funcionar como apoio ao governo e se cala.” Ela conta que dentro da UNE não se ouviu nenhuma crítica a Enem e ao ex-ministro da Educação Fernando Haddad, apesar dos diversos problemas que o exame apresentou, não se discute o sucateamento das universidades, não há um posicionamento em relação à corrupção. “A UNE foi cooptada pelo governo e perdeu seu pa­pel”, sentencia a estudante.

Evidentemente a visão de quem é filiado ao PCdoB é diferente. Jéssica Wuiner, de 18, estudante de Circo da Escola Veiga Vale e presidente da União Goiana dos Estudantes Secun­darista (UGES) diz que a entidade está se “reorganizando” e que o trabalho da UNE em Goiás é bom. A atuação da entidade em Goiás é comandada pelo estudante de História da UEG Caio Barbalho, de 18 anos. Ele tem vínculo com a UJS e é diretor da UNE em Goiás. Segundo ele, a entidade mantém sua atitude de protesto em relação às causas nacionais e cita como exemplo a manifestação Verde e Amarela, em agosto do ano passado, que reivindicou, em frente ao Banco Central, a queda dos juros. Se­gundo ele, o protesto reuniu 25 mil estudantes. “De 2002 para cá a UNE se posicionou em manifestação com milhares de estudantes.” De acordo com Lucas Marques, adepto da teoria da conspiração, o que a UNE faz não sai na imprensa. Lucas conta que em 2002, 2 mil estudante pediram nas ruas, a saída de Henrique Meireles do Banco Central. A indicação de Mei­relles foi o estopim da criação do PSol. Na época, quem não concordou com a política econômica implementada por Lula abandonou o governo. A UNE pode ter reclamado, mas decidiu manter o apoio ao govenro, assim como o PCdoB.

As atuais bandeiras do movimento são: destinação de 10% do PIB para a Educação (aprovada preliminarmente no Con­gresso) e de 50% do pré-sal — “que Lula vetou depois de ter sido aprovado no Se­nado”, lamenta Caio —, e redução da carga de trabalho para 40 horas semanais, além das históricas causas do movimento estudantil, passe-livre e meia-entrada. Quanto ao com­bate à corrupção, Caio diz que a entidade levou 3 mil estudantes às ruas para protestar contra o governador Marconi Perillo, que é do PSDB. Ele não quis comentar, no entanto, porque não levou nenhum para protestar contra a corrupção no governo Dil­ma. Para Lucas, “corrupção é genérica, todo mundo é contra, e o que vale é a opinião sobre corrupção”.

O diretor da UNE, Caio Barbalho, afirma que a UNE não foi cooptada pelo governo petista, mas repete o mesmo discurso do governo quanto o assunto é julgamento do mensalão: “Que­remos um julgamento sem pressão externa e totalmente técnico”. Ele diz que sem a interferência da direita nem do governo, esquece de citar o PT e o ex-presidente Lula, que é quem mais articula para protelar o julgamento do mensalão, esquema de pagamento a parlamentares de­nunciado em 2005.

Sobre a denúncia de corrupção dentro da UNE, Caio diz que a entidade, na nota divulgada em se site, já se explicou para o movimento estudantil, para o governo e para a sociedade de que forma trabalha. Lucas defende a apuração da denúncia, mas está convencido da inocência dos colegas. “A cachaça foi adquirida para Bienal de Cul­tura, que tratava dos elementos do candomblé.”

Todos os entrevistados lem­braram a última grande atuação da UNE no Fora Collor. Lucas tem uma explicação para esse sentimento saudosista que há em relação à entidade. Segundo ele, o movimento estudantil de hoje é diferente do de 15, 20 anos atrás. Ele disputa os jovens com a igreja e as torcidas organizadas. Além dis­so, observa, a maioria dos estudantes estuda em escolas particulares e não têm di­nheiro nem tempo para participar de mobilização. “Nos­sas causas são pontuais, co­mo a instalação elétrica de uma sala ou um ventilador que não funciona.”

A avaliação da engenheira ambiental Sara Ferreira Mo­raes Lima, de 26 anos, que presidiu o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da PUC, é diferente. Ela tem vergonha da inércia da entidade. “Na UNE só há ação partidária hoje, ela apoia o governo federal, que é do PT, e bate no governo estadual, que é do PSDB.” A ligação dos líderes do movimento estudantil com os partidos políticos tem segmentado as entidades, observa a engenheira. E tem como resultado o alheamento dos jovens, que não veem na luta do movimento as próprias demandas. “O movimento estudantil não deve ser contra ou a favor de governos, tem que ser independente.” Essa também é a visão de Eduardo de Oliveira Silva. Segundo ele, a direção atual da UNE su­bordinou a história de 75 anos da entidade às verbas do governo. “O governo comprou o silêncio da UNE.”

A estudante de Direito da PUC Thaís Moraes, conselheira no Centro Acadêmico de Direito e presidente da Co­missão Eleitoral do DCE, é cautelosa em analisar a atuação da UNE. “Não concordo em denegrir a entidade, que construiu uma rica história ao longo de todos os anos, simplesmente por ser oposição ou entender que a atual gestão seja completamente inerte.” Segundo explica, a inércia se dá porque a UNE não atua em nada de relevante em prol dos estudantes nem em movimentos nacionais. “Como, por exemplo, as crescentes ondas de basta à corrupção que têm ocorrido em todo nosso País.”

A explicação para essa apatia da entidade, na opinião da estudante, está no fato de as últimas gestões se preocuparam mais em defender bandeiras partidárias e interesses individuais, “e não fazerem nem o dever de casa, que é pensar no coletivo estudantil”. Ela afirma que os estudantes não se sentem representados pelos atuais dirigentes da UNE, “mas mesmo assim ainda respeitam a entidade”. Para mudar essa realidade, Thaís Moraes de­fende uma ação política pela mudança, preservando a entidade. “Cons­­truindo uma militância renovadora, munida de bons propósitos e não apenas com pedras nas mãos. Que se fale da UJS, do PC­doB, de qualquer partido que seja, mas imputar à U­NE as mazelas de suas gestões é um desastre na representatividade do movimento estudantil brasileiro.”

A descrença na NE é tão grande que a estudante não recebe com surpresa a de­núncia de corrupção na entidade. “Na atualidade, vivenciamos indícios de corrupção nos quatro cantos do nosso País.” Todavia, manifesta sua decepção. “Se nós, jovens estudantes, somos o futuro de nosso País e já pre­­senciamos isso em nossa representatividade, sinceramente, não vejo como ter esperança numa melhora no futuro político.”

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