O PAI QUE TIVE

 

O Sítio do Gambá de onde vinha tudo que consumíamos ficava a dois quilômetros da casa onde morávamos em Rio Doce. Para que o trabalho de arrumar a casa rendesse mais, minha mãe preferia fazê-lo depois que todos já tivessem se recolhido ao leito para dormir. Em vista disto ela só se deitava mais tarde. Deixava pronto o café para papai ganhar tempo ao se levantar no dia seguinte. Este café era guardado em uma garrafa colocada num canto do fogão a lenha para não esfriar. Detalhe: não era uma garrafa térmica, era uma dessas garrafas comuns, pois garrafas apropriadas para conservar quente o café nós nem sabíamos que existia. A que usávamos era de vidro recolhida na sacristia da igreja. Ela trazia vinho que o padre recebia para usar ao  celebrar a missa. Deixar o café coado facilitava muito, pois se o papai tivesse de fazê-lo teria que se levantar muito mais cedo. Acender um fogão a lenha pela manhã levava pelo menos uma meia hora. Isso se tivesse casca de laranja seca, se não tivesse este material altamente inflamável, demoraria muito mais.

A primeira refeição do dia, chamada por lá tira torto, era broa de fubá, às vezes tinha um queijo de minas produzido artesanalmente e, raramente, pão com manteiga. A manteiga, quando tinha, era feita em casa. Ao receber o leite este era imediatamente fervido para não azedar, pois não tínhamos geladeira. A nata que surgia com este procedimento era recolhida. Quando atingia o volume adequado nós adicionávamos um pouco de água e agitávamos  a mistura numa garrafa de conhaque até virar uma massa pastosa separada da água. Jogávamos a água fora colocávamos sal e estava pronta a manteiga.  Depois de ser o motor biológico de um debulhador de milho, este foi o trabalho mais duro que fiz para ajudar em casa.  A manteiga era até gostosa, não sei se dava retorno do ponto de vista econômico devido ao consumo de energia humana do processo, mas a política era não jogar nada fora e só comprar o que não conseguíamos produzir. Já naquela época meu pai era um protetor da natureza e não permitia que se desperdiçasse nada. Depois de forrado o estômago como gostava de dizer ele descia rua abaixo, atravessando todo Rio Doce, porque morávamos  no final da rua principal. Esta travessia era feita fumando um cigarro de fumo de rolo que lhe fazia tossir e raspar a garganta muitas vezes durante o trajeto; o que beneficiava a população trabalhadora que com isso não precisava ter despertador em casa. Diga-se de passagem, que era uma economia brutal, pois despertador era um artigo de luxo que poucas pessoas tinham condições de adquirir.

Tínhamos seis famílias morando no Sítio do Gambá. Eram lavradores que plantavam roça e dividiam a colheita pela metade se a semente fosse fornecida por papai e fiçavam com dois terços se eles tivessem a semente. Quando não trabalhavam em suas roças prestavam serviço ao Sítio recebendo por dia trabalhado. Incentivadas por papai com fins de melhorarem sua qualidade de vida estas famílias tinham em volta de suas casas horta, galinhas, porcos, cachorros etc.  A maior parte do tempo que papai ficava no sítio era cuidando destas famílias. Orientando como trabalhar, como cuidar da saúde. Aplicava injeção e quando era necessário, fazia pequenas cirurgias, pois a população ali não tinha acesso a médicos. Era benzedor famoso na região, mas no sítio ele evitava  fazer isto porque mamãe não gostava e Orlando Patrício, homem muito inteligente, tinha entre suas habilidades a benzessão. Sempre que podia papai encaminhava seus clientes para ele, o que alegrava muito mamãe que era irônica e desprezava esta pratica de meu pai. Quando isso acontecia o benzedor se envaidecia, quando do contrário, uma certa insatisfação era notada no semblante desse feiticeiro. Tinha o corpo fechado, benzia mordedura de cobra, bicheira, erisipela, espinhela caída, quebrante, mau olhado. Sua oração preferida era “São Marcos da Orelha Parada” reza brava que desmanchava uniões, fazia voltar amores acabados, tinha o poder de matar dezafetos, fazia despachos etc.

Um certo dia um conhecido procurou o Sô Orlando pedindo socorro para um colega de pescaria que ao largar o barro atrás de uma moita foi mordido por uma cobra. Como a pessoa que buscava socorro não tinha sugado o veneno com a boca o Sô Orlando orientou-o a fazer isso. O rapaz ficou pensativo, coçou a cabeça e num rompante disse: “é melhor o senhor ir lá que eu não vou dar conta de fazer isso.” Nosso benzedor não se fez de rogado e se pôs  a caminho. Alcançando o paciente o Sô Orlando não gostou nada do que viu. A situação era mesmo muito difícil, talvez a mais difícil que ele já encontrara. Depois de olhar para a parte do corpo onde a vítima foi mordida o benzedor dirigiu um olhar de reprovação para o amigo da vítima que foi buscar socorro e disse: “vou rezar para a sua alma porque você vai é morrer. A mordida tinha sido na cabeça do pinto do cara.

Poucos dias depois um filho dele de doze anos foi mordido por um escorpião. Ao chegar no Sítio Sr. Orlando relatou o fato ao papai. Disse que já tinha benzido o filho e se mostrava confiante de que nada iria acontecer de pior. Papai sempre que benzia casos graves recomendava que se levasse a vítima a um médico ou pelo menos na Farmácia. Depois de ouvir toda estória papai ofereceu para levar o menino no hospital em Ponte Nova devido a ser o escorpião muito grande e de cor escura. Este escorpião é o mais venenoso da região e a pessoa atacada não era adulta o que fazia ela correr risco de vida. O pai da criança não concordou de jeito nenhum e ainda disse: “ Admiro muito o senhor sendo um benzedor duvidar da minha benzeção isto é falta de fé.” Quatro horas depois desta conversa o adolescente morreu.

Não sei dizer se foi por este fato, mas pouco tempo depois a família se mudou para o Paraná e nunca mais tivemos notícias dela. Isto deve ter ocorrido em 1950, época em que na nossa região muitas pessoas estavam emigrando para o Paraná, pois o governo resolveu facilitar a vida de quem fosse pra lá trabalhar na terra. Sr. Orlando tinha muitos filhos umas moças bonitas e todos muito trabalhadores. Papai respeitava muito a cultura de qualquer pessoa, fez o que pode, mas ficou triste por muito tempo por não ter conseguido salvar o adolescente. Acho que nunca se perdoou por isso. Eu entendo muito bem a situação dele, pois muitos anos depois, passei pelo mesmo problema, inspirado neste fato tive o mesmo procedimento dele, mas as pessoas envolvidas arrependeram de ter se negado a prestar socorro médico e me chamaram em casa para levar a criança no hospital que felizmente foi salva de última hora. Todos consolaram meu pai, aumentou-se a confiança nele e a sociedade ficou mais atenta e unida.

Apesar da jornada de trabalho terminar antes do sol se por papai só chegava ao anoitecer, muitas vezes bastante tarde. O anoitecer na roça é melancólico e muito triste, somos tomados por uma sensação de desamparo e o coração fica apertado. Nestas circunstancias minha mãe se esvaia em lágrimas. Ficávamos sem entender nada e a sensação era de mau presságio. Até hoje, quando estou no campo, sou invadido pela mesma sensação desagradável que tinha naquela época. O atraso do meu pai para chegar em casa se dava porque as pessoas o interceptavam ao passar na rua. Queriam consolo, uma palavra amiga, uma benção, ou ajudas de outra natureza como aplicar uma injeção, fazer um curativo, avaliação de um enfermo etc. Ele não deixava de atender ninguém que o procurava.

Depois de jantar ia sempre para o terreiro verificar se os porcos estavam bem tratados, conferir as galinhas e cuidar da horta. Retornando, dava banho nas crianças e as colocava para dormir.

O banho era por atacado. Colocava todos na banheira, só separando menino de menina. O sabão, muitas vezes era feito em casa, mas o mais comum era o sabão de coco. A toalha era de saco de açúcar. Uma para as mulheres outra para homens. As coisas eram muito difíceis. A água da banheira só era trocada quando mudava de homem para mulher e a toalha ficava pendurada para no outro dia ser usada quando se usava o vaso sanitário. Depois disso era colocada no chão para quando saíssemos da banheira pisássemos nela para secar os pés.   Era muito difícil ver nossos pais descansando. Tínhamos um rádio em casa, mas era muito raro ver meu pai se distraindo com ele. O rádio era o único lazer que ele tinha. Era ligado raramente o prazer dele era mesmo trabalhar.

O terreiro era muito grande. No fundo do lote passava um córrego. Brincávamos muito nele o que preocupava muito mamãe. A esquistossomose era o que mais preocupava, mas tinha outros riscos como cobra, aranhas, poluição etc. Tínhamos uma grande moita de bananeira, um pé de manga, um pé de jaboticaba, uns três pés de goiaba  uma horta muito boa e algumas flores que papai gostava muito. Tudo isso era para consumo nosso. Não comprávamos quase nada, mais precisamente, só comprávamos medicamentos e tecidos. Na colheita papai reservava tudo que iríamos consumir durante o ano. Tínhamos sempre três porcos na cerva. Sempre que a gordura guardada em dois panelões de pedra acabava já tinha na serva um porco no ponto de matar. Nada se vendia deste porco. Fritava a carne e guardava dentro da gordura para ir comendo aos poucos.

Durante muitos anos papai exerceu a função de Juiz de Paz. Foi quase que um cargo vitalício. Era muito procurado, principalmente, pelos mais simples, que o tinham na conta de pai. Seus objetivos visavam preservar a família e fortalecer a moral da sociedade. Em arraiais como Rio Doce muitas vezes funcionava como um Juiz de Direito, como tal, só não podia julgar. Em todos os casos que atuava colocava a sociedade acima dos contendores, pois entendia que a maioria das contendas acontecia pelo fato das pessoas sempre olharem para o próprio umbigo esquecendo-se de olhar a questão do ponto de vista do outro. Este princípio filosófico não protegia ninguém e beneficiava a sociedade o que ninguém teria  nada contra e, assim, agilizava a justiça. Simplesmente mostrava para as pessoas envolvidas que se preferirmos ser combinados ganhamos mais que estarmos com a razão.

Exercendo esta função, muitas vezes tinha-se que registrar os acordos em cartório. O tabelião era Antônio Batista, pessoa muito elegante, de traços finos e com filhas lindas. Quando tinha este expediente eu gostava de ir lá só para ficar olhando para filha dele que era escrivã. Ela se chamava Neide, morena clara, cabelos negros muito longos, olhos pretos que nem jabuticaba.  Eram pessoas das mais cultas da cidade, mas, pela falta de recurso deixavam muito a desejar sobre redação. Isto criava muitos transtornos e alguns fatos hilários. Quando papai foi registrar o sétimo filho descobriu que o sobrenome Cenachi de cada um deles estava escrito de forma diferente. Um caso que me lembro muito bem foi de um senhor que seu sobrenome era “Só”. Foi registrar o filho o qual deu o nome de Francisco Moreira Só. Já esperando percebeu que o escrivão tinha escrito Francisco Moreira então ele repetiu o Só com muita ênfase e o escrivão insistindo com impaciência que já tinha entendido que o nome do menino era só Francisco Moreira. Quase que os dois saíram na porrada. Isto só não aconteceu porque a menina linda estava por ali e ninguém queria levar mal estar a ela. Todo mundo quer ficar bem diante de tanta beleza.

Outro fato interessante que presenciei foi de uma pessoa que testemunhava uma briga de marido e mulher que queria ajudar o amigo que deu um tiro em sua mulher.

Testemunha:

- A mulher do meu amigo, muito neurastênica, deu um tapão na cara do seu marido que a chamara de puta pobre. Ele que não leva desafora pra casa sacou da garrucha Laporte calibre quarenta e quatro e deu um tirinho nela, que veio a falecer.

Escrivão:

- E onde foi o tiro.

Ele olhou, sala cheia, a menina linda presente, se negou a falar. O escrivão foi severo com ele e disse: - O senhor tem que falar para todos ouvirem. É regra da casa.

Ele deu uma pensada e disse:

- O tirinho pegou três dedos acima da perseguida.

Não foi em minha terra, mas lembro-me que o Expedito Marni Siqueira, meu colega de CEMIG, procedente de Boa Esperança contou para nossa turma que em sua terra, em circunstancias semelhante, o Juiz obrigou o oficial de Justiça a ler o nome do réu que considerou desrespeitoso. Obedecendo ele resolveu a ler o nome que lá estava. “Quinhentos Réis de Bosta.” Nome do réu: “Quintino dos Reis Bastos.” Relembrando este fato com o Expedito ele me disse que este caso já está até contado em um livro de memórias que alguém escreveu em sua terra.

Uma vez papai foi chamado para formalizar um contrato inédito. Uma pessoa, depois de sair de casa para viajar, teve que voltar porque havia esquecido os documentos. Ao chegar em casa encontrou sua mulher com seu melhor amigo copulando. Ao contrario do que normalmente acontecia ele não atirou no amigo. Muito calmamente ele disse: “agora você vai ter que ficar com ela.” Vamos fazer o contrato e levar no cartório. Ele deixava tudo para o casal apenas iria levar uma bicicleta quebrada uma lanterna enguiçada e o Toto, cão de estimação. O amigo virou para ele e disse: “aí eu vou ficar no prejuízo a dona Maria é larga, aguada e fria, deixa ao menos a bicicleta.

Bom! vou parar por aqui, pois são muitos os casos e estou fugindo do propósito deste texto se for contá-los.

Papai também foi Prefeito na Suíça da Zona da Mata como gostava de se referir a Rio Doce o Mário meu ilustre primo cuja mãe  nasceu lá. Ele não pertencia a nenhum partido, mas resolveu atender ao pedido de Dr. Oscar, amigo de infância, então deputado e se candidatou, apesar de nunca ter se envolvido em política. O fato era que o movimento liderado por Brizola que se chamava grupo dos onze tinha espalhado um boato que ganhando a revolução, a exemplo de Cuba, iria fazer execução sumária de quem constava de uma lista dos inimigos do comunismo. Papai então resolveu o problema dele aceitando se candidatar e ganhou as eleições. Foi o período mais difícil da vida dele. Chegou a ter um enfarte, mas recuperou bem e não ficou com sequela aparente. Fez uma boa administração. Acabou com o clientelismo, todos empregados da prefeitura tinham que trabalhar e tudo que fazia era para o bem da cidade. Resolveu problemas crônicos que não eram resolvidos porque não dava voto.   Acabou com a insalubridade, problemas de erosão, calçou ruas, consertou e fez estradas que eram de interesse da população. Envelheceu vinte anos em quatro, mas deixou saudade. A família teve sorte, pois ele nunca mais se envolveu com política.                

Júlio, um dos meus irmãos mais novos nunca falou mentira, nunca brigou com os irmãos, nunca apanhou dos meus pais. Tinha uma saúde perfeita, uma inteligência brilhante e fez carreira rápida se destacando em tudo que fazia. Suicidou no auge da juventude. Morava com os irmãos e estava preparando-se para casar. Foi um grande golpe para papai do qual ele nunca recuperou. Nunca mais sorriu, desinteressou-se por criança e acabou tendo um câncer. Devido sua nobreza de espírito manteve a serenidade, nunca se revoltou e não perdeu a fé, apesar de não merecer este sofrimento.

QUE DEUS O TENHA. “SAUDADES”  

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