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Vivo no pontal do fio, no desalinho da teia, na fina linha da navalha posto,

Na febre que o meu corpo incendeia, nas ruas (rugas) de um pálido rosto.

Argamassa em busca da forma que flutua sob a fluente espiral do parafuso

Sou planura, distância, relva, peça de artilharia em campo minado profuso,

Os recomeços, as erosões, o câncer em fase terminal que corroeu o eu e o tu,

Sou a torção do nó górdio, nos revoltos pentelhos espalhados ao redor do cu.

Velejo a nau, sobre o mar imenso da insensatez que segue muito além de mim,

Na alça de mira, sob a implacável pontaria, de um desafio sem nota e sem fim,

O que restou da esperança, merda escura que repousa no urinol em desalinho,

Cabeça pra baixo, enfurnada na imundície, na direção do revolto redemoinho.

 

Sob a tênue luz dos pirilampos, observo as ruinas abertas e as bocas das covas,

O que me restou do vetusto compêndio manejado em useiras e vezeiras provas.

Escritas a zelo e fugaz sapiência, alinhavadas no pergaminho dos medievos feitos,

Projetados por aduladores que se fizeram arautos em seus recônditos proveitos.

 

Moscas varejeiras gotejam o pus liquefeito dos textos, das noticias dos pregoeiros

Do ódio de classe, vociferando o vômito fecal da intolerância, em seus vespeiros,  

Codificados em alianças, sinais, rabiscos, em senhas e em algarismos aritméticos,

Em posturas, em jurisprudência, gizadas em códigos, em tons pseudo proféticos...

 

Caminheiro da floresta petrificada durmo ao relento, na cidade luxuriante, nua...

(Di) vago por ruas e avenidas, sem fortuna, sem lar, sem leito, em situação de rua.

A cidade, o grande big brother, me exibe o olho imenso, o grande cu senhorial,

A camisa-de-vênus prende-me o caralho agônico, o instinto primitivo e bestial,

A besta apocalíptica que dorme me escapa em berros, por entre os sombrios dedos,

Da mão, do meu pouco-a-pouco, do meio século, do somatório de medos e segredos

Das pernas bamboleantes, das palavras retesadas, presas, no claustro da garganta.

A luz agora bruxuleia, e o verbo dos pregadores geram larvas sobre a tenra planta

Onde germina o conhecimento, e depositam larvas novas em novo elo de podridão,

Acordo da lenta decomposição: “que pode restar da humanidade subtraída a razão?”

E o Cáucaso se me apresenta na sede do abutre que se nutre do eterno Prometeu,

Como me é incômodo a altiva consciência e todo esse pesadelo que não é só meu...

Autor: FERNANDO ENÉAS DE SOUZA

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