Chefe de Polícia Encarregado da Investigação do Charlie Hebdo "Suicida-se" na França e a Grande Imprensa Varre a Notícia Para Debaixo do Tapete

Na quinta-feira, 8 de janeiro, o segundo maior canal de TV pública da França - France 3 - relatou a morte naquela manhã de um comissário de polícia que vinha investigando o ataque ocorrido na véspera contra o semanário satírico francês, Charlie Hebdo.

O comissário Helric Fredou, de 45 anos, foi encontrado morto em sua mesa por volta de uma da manhã em Limoges, capital da região centro-oeste do Limousin, e aparentemente suicidou-se fazendo uso da sua própria arma de serviço. Mais cedo, ele havia-se supostamente reunido com a família de uma das vítimas do ataque ao Charlie Hebdo, e morreu antes de completar um relatório que estivera redigindo.

Até aí, tudo muito interessante. Quase tão interessante é a falta de interesse manifestada pela mídia ocidental face a esse trágico complemento ao "caso Charlie Hebdo", uma falta de interesse que alguns já estão descrevendo como "uma operação-abafa da mídia corporativa" - e portanto o alvo imediato de mais uma teoria de conspiração.

O contraponto desses primeiros relatos que vieram à tona é de que ele vinha sendo acometido por uma depressão que levou-o a um colapso nervoso. A sua morte num tempo tão curto após assumir um papel na investigação naquilo que já convencionou-se chamar o "11 de setembro francês" foi, aparentemente, uma simples coincidência, em consequência da superposição de um pesado fardo que mostrou-se além da sua resistência. Ainda assim, o atraso, e mesmo a ausência, de cobertura da mídia são, na melhor das hipóteses, um tanto curiosos.

Então, um "abafa" da grande mídia? Ou simplesmente preguiça jornalística? E onde é o melhor lugar para obter-se notícias frescas - os principais órgãos do Ocidente (CNN, Fox, New York Times, the Guardian, etc., etc.), ou fontes obscuras em outros lugares, que estejam pelo menos acordadas, e ainda não foram para a cama - literal ou metaforicamente? Segue abaixo um cronograma para ajudá-lo a decidir-se:

Quinta-feira 8 de janeiro, 01:00: Fredou é encontrado morto.

Quinta-feira 8 de janeiro, 01:00: France 3, o segundo maior canal de TV pública da França, dá a notícia em primeira mão.

Domingo 11 de janeiro, 01:00: O site russo Sputnik é, aparentemente, o primeiro representante da "grande" mídia a refletir a história.

Poucos leitores, todavia, ouviram ao menos falar de outros órgãos da mídia que trazem o resto da história.

Na Sexta-feira 9 de janeiro: o Medha News na India deu a notícia.

Também na Sexta-feira 9 de janeiro: UprootedPalestinians deu a história.

Também na Sexta-feira 9 de janeiro: Free Radio Revolution nos Estados Unidos também parecia acordada.

No Sábado 10 de janeiro: a 21st Century Wire não chegou muito atrasada.

Em 11 de janeiro o Epoch Times, uma edição alemã de um site orientado em grande parte para a China, também deu a história.

A essa altura, perguntas estavam-se empilhando quanto à ausência de cobertura da grande mídia ocidental quanto ao que parecia ser uma importante história de grande interesse público - "ou mesmo pudesse não ser, mas sem nenhuma cobertura, como iremos saber?" a Global Research do Canadá estava indagando em 11 de janeiro.

Se alguns de vocês argumentarem que esses são sites nanicos que vez por outra publicam estórias questionáveis, neste caso há pouca razão para questionar-se a sua fonte - France 3 - ou os fatos principais.

Contudo, foi somente em 12 de janeiro que a imprensa britânica começou a acordar, o Mirror dando a notícia pouco depois do meio-dia, seguido três horas depois pelo Daily Mail.

Arrastando os chinelos, também na segunda-feira às 7:37 da noite, o Daily Telegraph do Reino Unido deu a sua versão de um evento já agora com quatro dias de idade, que ocorreu a uma distância de apenas algumas horas de trem da sede do Daily Telegraph em Londres, e consideravelmente menos do que a sucursal do jornal em Paris.

Os colegas jornalistas apreciarão a ambígua urgência do Telegraph dizendo "acaba de ser revelado..."

Acaba de ser revelado que "Um chefe de alto escalão da polícia judiciária em Limoges cometeu suicídio na última Quarta-feira, horas depois de receber a solicitação de redigir um relatório sobre os homicídios do Charlie Hebdo." Em outras palavras, estávamos dormindo (ou pior) - mas olá! estamos chegando lá.

Não foi senão na Terça-feira 13 de janeiro que a imprensa americana acordou, na pessoa do Washington Times - e agora ele já não tinha qualquer dúvida quanto à manchete que iria apor à sua primeira página - "Helric Fredou, chefe de polícia francês, mata-se em meio à pressão do terror em Paris."

Escrevendo isto em 15 de janeiro, há agora numerosas estórias na imprensa de língua não-inglesa, mas busquem no Google e vocês verão que não há absolutamente qualquer cobertura dessa morte - se não estranha, certamente digna de destaque: nada na CNN, nada no New York Times, nada no Washington Post, nada no Guardian, etc., etc. Se assim é nos Estados Unidos, não precisamos nem falar da imprensa brasileira... (Um artigo publicado pelo Ron Paul Institute em 14 de janeiro, que inclui uma referência à morte do comissário de polícia vem atraindo algum criticismo por levantar questões similares e mais amplas sobre o fato. O instituto ligado ao respeitado deputado Republicano, e ex-candidato à presidência dos EUA, levanta a suspeita de que os autores do massacre podem não ter sido muçulmanos.)

Nós não precisamos de uma teoria de conspiração (a confirmação de um relatório de autópsia seria todavia um bom começo). Mas uma cobertura mais profissional certamente ajudaria. Afinal de contas, grande parte da reação ao massacre do Charlie Hebdo abrigou-se sob a bandeira da liberdade de imprensa - e a liberdade de imprensa requer antes de tudo uma cobertura ampla e irrestrita dos fatos.

A ausência de cobertura da morte de um agente graduado da polícia, Helric Fredou, envolvido de alguma forma na investigação do massacre do Charlie Hebdo, que ocorreu meras 24 horas antes, pode muito bem significar uma ausência de liberdade de imprensa - ou neste caso, levanta a questão de quem está acordado para acompanhar os eventos importantes, e quem está dormindo. E àqueles que estiverem dormindo - resta a questão mais importante de todas - dormindo na cama de quem?

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