Chico Buarque: ao mestre, um carinho. rumo à formatação 6.6!

Chico, o nosso Chico Buarque, o Chico de tantos sonhos embalados, invade os 65 anos.

Muito se teria para contar, mas quero lembrar de um Chico que nós, mulheres ainda meninas, de repente, nos sentimos capturadas. Não só por um homem bonito, mas de um homem que nos convidava ir à janela para apreciar uma banda, romântica, harmoniosa, com gosto de infância. Por ela cativadas, acabamos sendo conduzidas por caminhos muito menos seguros, mas fundamentais para o estabelecimento de nossa condição de cidadãs: mulheres e guerreiras.

Era o ano de 1966. E este cara, com sua música, jamais cessou de rodear nossos sonhos e nossa luta. Somos de uma geração que teve o privilégio de sempre ter um Chico para tudo. Para o amor, para a luta, para a dor, para o ninar, para a saudade, para a alegria e para entender o mundo...

Estas meninas quase mulheres que tinham ouvido os sussurros, ainda mal-compreendidos, do funeral de um lavrador, estavam mais atentas a uma tal Rita que levara tudo do poeta que já estávamos nos acostumando a gostar. Nossa, que raiva dela.

Mas, a nossa volta, os tempos já eram de chumbo e, ainda que embaladas por um samba de roda que cantava olé-olá, começávamos a compreender as lutas de um tal pedro-pedreiro enquanto teimávamos em viver o sonho de um, dois carnavais, das rodas-gigantes, de mascarados noturnos.

Chega um ano novo e perplexas entre a novidade da televisão, o romantismo do realejo, a roda viva que se anunciava começamos a nos despir das ilusões, quase já sem fantasias. Sem saber se Cristina voltara, ora um chorinho, ora o anúncio de benvindas notícias, para nós se descortinavam também eventos onde o desatino da política começa a verter dores, muitas dores.

A coisa estava preta e o retrato era mesmo em branco e preto, manchado de sangue. Os tempos não eram bons. E as moças começavam a ficar diferentes. Nossos olhos começaram a ser despertados, cada vez mais, para a gente humilde e a enxergar que havia uma luta que precisava ser enfrentada, contra os homens no poder. Aqueles que haviam deixado a caserna e que nos amedrontavam contra os miseráveis: todos comunistas que teimavam em querer de volta a terra que não fora repartida, a comida que não fora dividida, a saúde que lhe fora roubada na estafante vida de quem muito fazia e recebia apenas o quinhão para a sobrevida.

E Chico no exílio. No exílio?! E somos definitivamente despertadas para o mundo por aquela que foi a música mais marcante de toda uma geração: apesar de você. Apesar de vocês, homens no poder, um dia, um dia, a casa cai. Mas o que caía mesmo sobre nossas cabeças era o período mais funesto da nossa história recente e ele foi de uma eternidade suficiente para calar tantas vozes discordantes, para abafar tantas vontades de fazer deste um país justo, para matar. E mataram. E emudeceram vozes. E expulsaram nossos intelectuais. Aqueles que nos faziam pensar um Brasil grande e generoso.

Os anos eram mesmo de chumbo. Os do poder não estavam para brincadeira. Já de volta do exílio, foi aquele show de 1973 que ao tentar emudecer a voz do poeta, que a metáfora do Cálice, do cale-se, explodiu e nos fortaleceu. Samba (em Orly), valsinha, acalanto, nada disso nos permitia mais desviar os olhos dos outros movimentos do mundo.

A construção precisava de mãos e a indignação crescia: deus lhe pague! Deus lhe pague o quê?! Queríamos de volta o que nos havia sido tomado. E aí foi um caminho sem volta. Sempre com Chico, partimos para o enfrentamento: a gente sonhava, amava e lutava. Recepcionamos um Julinho da Adelaide e compreendíamos a luta de outros povos, ainda que tanto mar nos dividisse. Nos vimos latinos. Nos fizemos cosmopolitas. E reconquistamos o Brasil.

Ah, muito teria para ser dito do orgulho de ter pertencido a uma geração onde a gente se fez mulher embaladas pelas músicas do Chico e se fez cidadã enredadas pelos versos mais comoventes deste cara. Disse outro dia que dominar a nossa língua para ler Guimarães Rosa no original é um privilégio.Agora digo que ter sido feita mulher e cidadã sob o amparo e a lição da bela música de Chico Buarque dá um baita orgulho.

Obrigada, Chico. Obrigada Chico Buarque. Obrigada Chico Buarque de Holanda, extensivo ao Julinho da Adelaide.


Vejam também a bela homenagem da Helô, com muita música e retrato, aqui


E Apesar de Você, seguindo a receitinha da Helô

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Respostas a este tópico

nossa, cafu, vc agora deu um tiro certeiro!
tão quietinha e tão danadinha!
este chico faz coisa, viu!
Luzete parabéns pelo excelente texto. Assino embaixo.
Chico Buarque é um dos meus artistas preferidos. Suas canções perpassam todas as etapas da minha vida... "O que será" (À Flor da Terra) é a cara da minha lua de mel :))))))))
Beijos carinhosos.
Bonito seu texto. Eu nunca esqueço o aniversário dela, todos os anos falo nele, hj tb fiz um post lá no meu blogspot. Mas nada que se compare ao seu- o meu é apenas para lembrar o meu amor maior na nossa música.
Bj Laura-Elianne
às laurinhas,
chico é redundância em nossas vidas.
um cara que junto com o cara, contribuem para fazer a diferença!
claro, tem milton, tem elis, tem jobim, tem vinicius, tem tantas outras gentes bonitas, mas aí é outra história.
pois é, foi esta música que me inspirou aquele finalzinho onde falo que nos fez enxergar latinos americanos e a sentir orgulho desta condição.
ah, este cara tem nos consumido!
Pois é, e ai nós vamos catando aqui e ali, enviesadamente, pedaços de memória. Outro dia eu fui numa pizzaria que tinha um pianista. Logo que cheguei saquei que o cara não era um qualquer, pois ele tocava Burt Bacharach. Tinha um olhar distante como qualquer ser decente que aguenta tocar numa pizzaria paulistana. E tocava bonito. Tocou, tocou vários temas e o pau comendo entre talagadas de chopp e mordidas adiposas em zilhoes de calorias. A música sobrive. Num dado momento ele mandouOlha, Maria, que bonito! Juntando ali Chico Buarque (65 anos), Tom e Vinicius que já foram. Não resisti e em meio a toda aquela gente, fui lá e o cumprimentei. Ele sorriu singelo e agradeceu, mas continuou com olhar triste e voltou a tocar outro belo tema. A música sobreviveu como sempre. Da pizza já nem lembro mais. E achei essa versão com o Zimbo:

Ricardo, uma das coisas que mais me entristecem é exatamente ver o artista se expondo para gente que mal percebe a sua presença, o seu valor.
a música fica, né?
ela é companheira.
sempre.

(brigada por ver vc aqui!)
Cecito acabou se assumindo diante da grandeza do Chico...kkkkkkk

Ele faz parte do meu imaginário mesmo- vivo sonhando com ele- é um presente do meu inconsciente
Are baba!
:)
um presente do inconsciente com um empurrão do consciente!
menina ixperta, você!
Chico é maravilhoso em tudo, mas funeral de um lavrador é das mais lindas.

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