Civita e o DNA da direita radical

 

DAVIS SENA FILHO   27 de Maio de 2013 às 17:19

 

O Portal Brasil 247 fez uma pergunta em forma de manchete: "Para onde vai a Abril?", evidentemente que depois da morte do magnata Roberto Civita. Eu respondo: "Para lugar algum"

 

O Portal Brasil 247 fez uma pergunta em forma de manchete: "Para onde vai a Abril?", evidentemente que depois da morte do magnata Roberto Civita, cujo nome verdadeiro é Robert, como seu irmão se chama Richard e não Ricardo, eu respondo: "Para lugar algum". Vai ficar tudo como dantes no quartel d'Abrantes, ou seja, no lugar de sempre: a extrema direita do espectro ideológico. A verdade é que a Abril e, particularmente, as revistas Veja e Exame sempre repercutiram o pensamento e os interesses da oligarquia nacional e da plutocracia em termos mundiais, e vai continuar na mesma "batida" extremamente conservadora, se não piorar sob a administração do herdeiro de Roberto Civita, o seu filho Giancarlo.

O ítalo-americano de Milão, Robert Civita, herdou a Abril de seu pai, o americano Victor Civita, falecido em 1990, em São Paulo, e nascido em Nova York, em 1907. Civita deixa a vida aos 76 anos, após transformar a revista Veja em um bunker ou casamata, que, de forma sistemática e panfletária, resolveu fazer uma oposição violenta contra os governos trabalhistas de Lula e Dilma, a utilizar termos chulos e acusações infundadas e não amparadas por provas e contraprovas. Os diretores e editores de Veja, com a aquiescência de Robert Civita, passaram, principalmente nos últimos dez anos, a editar e publicar um jornalismo meramente opinativo e baseado muitas vezes em declarações de pessoas que nem ao menos suas identidades eram conhecidas.

A efetivação do jornalismo declaratório em constante embate com os poderes constituídos e com as autoridades eleitas pelo povo brasileiro, que assumiram há 11 anos o poder central. O jornalismo adversário dos políticos que compõem o campo da esquerda, apesar de o Governo Dilma Rousseff ser um governo de coalizão, no qual participam alguns partidos conservadores, porque é impossível para qualquer presidente de qualquer partido e ideologia administrar um País continental como Brasil e ter maioria no Congresso e, consequentemente, colocar em prática o programa de governo apresentado à população, no decorrer da campanha eleitoral.

Robert Civita tal qual aos seus colegas magnatas proprietários do sistema midiático privado e de empresas jornalísticas menosprezava e desprezava o Brasil. Sempre combateu presidentes trabalhistas e governos populares, os quais ele chamava, equivocadamente e propositalmente, de populistas, como forma de diminuir, dar uma conotação de demagogia, e, por conseguinte, não reconhecer os avanços econômicos e sociais realizados pelos trabalhistas de todas as épocas, a exemplo de Getúlio, Jango, Lula e Dilma. Robert é estrangeiro que, a exemplo de seu pai, Victor, veio ganhar dinheiro no Brasil.

Anteriormente, os Civita foram expulsos da Itália por cometerem irregularidades. Depois tentaram se estabelecer na Argentina, de onde Cesare, irmão de Victor, foi também expulso. Banidos do país portenho foram parar nos Estados Unidos. Entre os yankees, continuaram a manchar seus nomes e se meteram em escândalos, mas, após um acordo com o governo estadunidense, vieram para o Brasil. Desde os tempos argentinos sempre controlaram as publicações de Walt Disney, uma forma de iniciar seus negócios e atividades de maneira independente. Era a época da Guerra Fria, do nacionalismo na América do Sul. Até hoje os Civita nunca explicaram como conseguiram os contratos com a Disney, que publicava histórias de Mickey, Pato Donald e Tio Patinhas, personagens muito populares até a década de 1980, no que concerne à publicação de revistinhas ou gibis e vendidos em todas as bancas do País.

Victor Civita, pai de Robert, veio diretamente de Washington para o Brasil. Seu passaporte recebeu visto na capital estadunidense, apesar de ele, na época, residir em Nova York. Victor se estabeleceu no Brasil, enquanto Cesare foi para a Argentina. Exerceram praticamente o mesmo trabalho, com o propósito de conquistar o mercado de revistas e controlar a publicidade. Fizeram fortunas e até os tempos de hoje a dúvida permanece: os Civita tiveram o apoio e a influência do Departamento de Estado dos EUA?

O tempo passou, e Victor Civita, em 1968, funda as revista Veja. A verdade é que o criador da Veja é o jornalista Mino Carta, que depois teve de sair da revista por não concordar com os rumos editoriais do semanário que se transformou em um libelo direitista, de cores fascistas e totalmente direcionado a boicotar e, se pudesse, derrubar governos e governantes que, politicamente e ideologicamente, não condizem com os seus interesses e as suas "verdades", que causam preocupação às instituições republicanas e às autoridades eleitas, que são atacadas, sistematicamente, por jornalistas das revistas da Abril.

São profissionais escolhidos à dedo no mercado, porque Robert Civita contratou pessoas ideologicamente direitistas, que acreditassem ou fingissem acreditar em seus "ideais", a exemplo dos jornalistas e blogueiros Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, dois dos pitbulls do Civita recentemente morto, que atuam livres de "coleiras" para morderem à vontade, a quem o magnata bilionário combatia, e, autoritariamente, não queria no poder, apesar de o povo brasileiro eleger por três vezes seguidas os candidatos do PT, Lula e Dilma, que revolucionaram o Brasil, pois o colocaram em patamares em termos mundiais nunca antes acontecido na história do País.

A ousadia e a arrogância do barão da imprensa Civita era tão grande que, de forma gangsteriana, ficou comprovado pela CPMI do Cachoeira que a Veja, do editor Policarpo Jr., associou-se com o bicheiro Carlinhos Cachoeira para boicotar, ameaçar e chantagear empresários, políticos e servidores públicos que não compactuassem ou não aceitassem fazer "negócios" com o bicheiro, que se transformou em "editor" e "pauteiro da revista que optou pelo jornalismo simplesmente declaratório e com "entrevistados" geralmente ocultos, ou seja, preferiu realizar o verdadeiro jornalismo de esgoto e assim efetivar uma rede que atuava e agia no submundo, com o objetivo de "sujar" os nomes de autoridades eleitas e nomeadas, bem como implantar uma rede ilegal e, portanto, criminosa de escutas clandestinas e de "matérias" e "notas" plantadas na revista para desmoralizar aqueles que não aceitaram ou desconfiaram dos propósitos de Carlinhos Cachoeira e do jornalista Policarpo Jr., homem de confiança em Brasília de Robert Civita.

O objetivo dessa sujeira toda era atingir o ex-presidente Lula, o governo da presidenta Dilma, além de tentar derrubar o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, político do PT. Agnelo se saiu muito bem em seu depoimento na CPMI do Cachoeira, tanto é verdade que a imprensa de negócios privados, a exemplo da Veja, o "esqueceu". Contudo, ficou comprovado, apesar de esse político não ser punido, que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB) está envolvido com o esquema de Cachoeira, bem como o senador cassado, Demóstenes Torres, do DEM goiano. Até hoje Perillo continua a fazer política, a política dos coronéis, e ai de quem tentar enfrentá-lo nas terras de Goiás, como ele "bem" demonstrou na convenção do PSDB quando aproveitou para ofender, violentamente, o ex-presidente Lula.

Robert Civita conseguiu não ser chamado para depor na CPMI do Cachoeira. Antecipou-se e enviou a Brasília para negociar o seu testa-de-ferro, o banqueiro e ex-dirigente do Banco Santander, Fábio Barbosa, que assumiu, em 2011, a presidência da Abril, que publica 52 revistas. Contudo, torna-se imperativo salientar que a família Civita e seus dois principais dirigentes, Victor Civita e Robert Civita, nunca se comprometeram com os interesses do Brasil e os sonhos de melhorar de vida do povo brasileiro. Pelo contrário, apoiaram, sem vacilar, a ditadura militar e seus arbítrios terríveis e inomináveis, bem como foram aliados incontestes do tucano Fernando Henrique Cardoso — o Neoliberal I —, presidente que vendeu o Brasil e foi ao FMI três vezes, de joelhos e com o pires nas mãos, porque quebrou o Brasil três vezes.

Robert Civita continuou, a despeito da crise financeira da Abril, a viver de dinheiro do exterior, conforme deixou entre aspas no em entrevista para o Jô Soares, pois do exterior ele veio, assim como os seus familiares que no passado administraram o seu império gráfico e de publicações conservadoras, sempre a serviço dos interesses dos grande trustes internacionais, da oligarquia brasileira e da direita partidária herdeira da escravidão. Robert Civita nunca foi do Brasil, e não por ser estrangeiro. O Brasil é um País cujo tecido social é formado por estrangeiros e nativos.

Robert Civita era estrangeiro de ideologia e propósitos, crenças e cultura, e interesses contrários ao Brasil. E comprovou o que afirmo por intermédio de décadas a desprezar e a lutar contra a emancipação do povo brasileiro, bem como a se aliar à classe média tradicional e reacionária, pois ele captou os valores e o conservadorismo lacerdista de tal classe feroz e rancorosa e por isto leitora da Veja, que realiza um jornalismo de direita radical e panfletária. Robert se foi, mas o império da Abril vai continuar o seu destino, que é o de sempre apoiar os interesses das "elites" — aquelas que acham que podem mais. A Veja é uma revista politicamente golpista. E quem ocupar o lugar do Robert também o será. É o DNA. É isso aí.

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/103331/Civita-e-o-DNA-da-...

 

Charge do Bessinha: Alguns 'internos' do "ORFANATO ROBERTO CIVITA'

 

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Pelo que se lê por aí, a Comissão da Verdade deveria ter poderes do Grande Inquisidor. A comisão serve de pretexto em qualquer matéria de jornal para dar mais um sopro de vida à VEJA e aos seus vermes, incluindo os leitores. 

Se os ingleses tiveram coragem de ir às ruas comemorar a morte de Tatcher, aqui não podemos celebrar a morte de Civita, comemorar a sua entrada no inferno e impedir que entre na história como um exemplo de dignidade do  jornalismo brasileiro.  

Na Argentina e na Guatemala (daquele maldito) os velhinhos foram julgados e condenados, outros irão em cana enquanto existir uma avó na Plaza de Mayo e um garoto de 21 anos filmando sobre o passado recente do país, para não ser esquecido, ocultado pela histeria indignada, o que deve ser compreendido. Dá para entender porque a lei da mídia foi aprovada no congresso com 4 votos contrários ao projeto da presidenta Cristina.    

Somos tão bonzinhos, ou lerdos, ou indiferente, que admitimos, lutamos nas ruas pela porcaria da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Talvez movidos pela saudade, pela emoção, e no passo dos equilibristas.
Acreditamos na negociação, gritando por um direito que não deve ser confundido como gesto de boa vontade de ditadores. Era um caminho em direção à democracia, mas transformadoem lei que precisa ser devidamente interpretada à luz da CF. A única exceção da qual me recordo contra o projeto de lei foi a cara amarrada do sábio Chico Buarque.


Em qualquer regime de exceção, que suspende provisoriamente as leis vigentes, seus adversários podem ser até fuzilados quando entram em confronto armado. Marighella morreu numa tocaia e entrou para história como um resistente. Todavia, presos não são torturados, até na guerra há tratados com protocolos de garantia da integridade física e da dignidade dos prisioneiros. A investigação é para colocar ustras no seus devidos lugares, depois de julgados, na cadeia. 

Ainda se deve ao país, os nomes dos empresários que financiaram o golpe e continuam silentes tentando destruir governos democráticos, associados a bandidos. Por vingança? Não. É para que não se repita o  acontecido, para que se entenda quais os dispositivos o permitiram e se estão ativos hoje, além do PIG. 


Não sei se o título da dita comissão leva a esses descalabros, profundamente anti-éticos, em nome da Verdade, para atacar Mino Carta. Qual jornalista, com a exceção de Samuel Weiner (1964) e dos corajosos debochados do Pasquim (lançado em 1970) escapariam da devassa dos vermes da VEJA à procura da Verdade, com um gozo de juízes farsantes no chiqueiro que pensam ser tribunal. A luta pela democracia continua árdua por causa deles, os cabos anselmos de sempre travestidos em defensores da liberdade de expressão.

Pois é, Simone, não existe anistia para crimes de tortura ou crimes de guerra, só no imaginário de alguns ministros do STF.

A campanha para o julgamento não é o único modo para envolver a sociedade. A nova geração, que não é tão nova assim, educada no programa que a ditadura nos legou, entende a questão apenas como um ponto de vista ideológico e não a necessidade humanista.

Acho muito eficaz a produção de filmes, peças, qualquer obra cultural de massa, como o filme de Mariguella, elogiadíssimo pela crítica. Contar a história afirmando o protoganismo das vítimas retira o papel principal dos torturadores com "astros", como faz a mídia constantemente.  

Aos pesquisadores interessados na atuação de Mino Carta - jornalista que do meu ponto de vista não deve explicações a ninguém -, informo que o portal da VEJA colocou à disposição o acervo digital da revista.

http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx

Vale lembrar que ainda assim as matérias estão fora do contexto. Análises de textos, especialmente da imprensa, devem levar em conta o peso do anacronismo, procurando fontes diversas de conhecimento da época dos acontecidos. Imaginem o juízo de um leitor sobre Lula daqui a 30 anos, tendo VEJA ou "O Globo" como fontes exclusivas de pesquisa, isto é, sem recorrer por exemplo à Carta Capital, de Mino Carta.

Concordo com sua afirmação, Simone, o Mino Carta não deve explicações a ninguém.

Quem deveriam explicações seriam os senhores Vitor e Roberto Civita.., como já morreram...

Muitos dos entraves para um julgamento que faça justiça, encontra-se no STF. Muito antes, o STF concedeu extradição de Olga Benario, mesmo grávida a encaminhou para a morte. Crimes como o assassinato de Aída Curi, Dana de Tefé e tantos outros, continuam impunes e caíram no esquecimento.

A propósito de Aída Curi(crime ocorrido em 1958), li recentemente que o STJ fundamentava sua decisão no "direito ao esquecimento" por parte de sua família e por ter transcorrido muitos anos. Confesso que desconheço essa doutrina, porém, penso que crimes de assassinato é dever do estado (judiciário) julgar e punir os culpados, independentemente da vontade dos familiares da vítima.

Quanto aos crimes de assassinato por tortura durante o período ditatorial, o STF vem se posicionando contrário a julgamentos, interpretando que estão contemplados na lei da anistia.

Por outro lado, o Brasil vem sendo cobrado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos que tem competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e aplicação das disposições da Convenção Americana sobre Direitos humanos, desde que os Estados-Partes no caso tenham reconhecido a sua competência. Somente a Comissão Interamericana e os Estados Partes da Convenção Americana sobre Direitos Humanos podem submeter um caso à decisão desse Tribunal. O Brasil assinou o tratado.

Até quando o STF vai continuar postergando todos esses casos não resolvidos?

Acho necessário lembrar das normas sobre crimes constitucionalizados.

Artigo 5º

XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;

XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;

XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.

Todos os crimes previstos outipificados, nos incisos referidos do artigo 5º são inafiançáveis.

Os imprescritíveis: racismo (os definidos na lei 7716/89) e grupos armados, civis e militares;

Os insuscetíveis de graça ou anistia: prática de tortura, terrorismo, tráfico de entorpecentes ou drogas e os crimes hediondos.

A imprescritibilidade do crime de  prática de tortura também está prevista em tratos internacionais, dos quais o Brasil é país signatário.

tratados internacionais.

Sabemos que o crime de tortura não prescreve. No entanto, muitos dos criminosos já faleceram e o restante encontra-se em idade avançada e mais alguns anos não existirão réus para responderem por seus crimes. Videla, Pinochet e outros, foram julgados e condenados. Aqui, torturadores mequetrefes como Ustra, demonstrou toda sua ignorância audaciosa em depoimento prestado a comissão da verdade.

Tenho por princípio respeitar os mortos quaisquer que sejam, mas a morte do CIVITA representa a morte de uma das células cancerosas do entreguismo brasileiro

Juristas atacam posição do governo brasileiro em relação a sentença no caso Araguaia

 

País 'descumpre flagrantemente' decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirma o jurista Fábio Konder Comparato. Procurador Marlon Weichert vê pouco empenho do governo

   por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 10/06/2013 19:59, última modificação 10/06/2013 20:55

País 'descumpre flagrantemente' decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirma o jurista Fábio Konder Comparato. Procurador Marlon Weichert vê pouco empenho do governo.

 

 

 josé antonio teixeira/assembleia legislativacomparato

 

Comparato lembrou que, em Direito internacional, crimes contra a humanidade não são anistiados

São Paulo – No lançamento de um livro contendo a condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Estado voltou a ser criticado por não acatar a sentença de 2010 sobre apuração de crimes praticados durante a chamada Guerrilha do Araguaia, na primeira metade dos anos 1970. Mais uma vez, organizações e militantes defenderam a revisão da Lei da Anistia, de 1979, por considerá-la um entrave ao pleno cumprimento da sentença. “Nosso país é o único na América Latina que não processou, nem mesmo abriu inquéritos, contra agentes públicos que cometeram crimes durante o período de exceção”, afirmou o professor Fábio Konder Comparato, durante audiência pública da Comissão da Verdade paulista, na Assembleia Legislativa. A coordenadora da comissão nacional, Rosa Cardoso, participou do encontro e ouviu elogios e ressalvas.

A principal partiu do próprio jurista, ao falar da necessidade de abolir todos os “resquícios” de ditadura. “Precisamos exigir que a Comissão Nacional da Verdade enfrente esse problema. Mas enfrente não com a venda nos olhos, capote na cabeça e pedindo que todo mundo fale baixinho, para ninguém ouvir. A CNV deve falar ao povo o que está acontecendo depois que tudo o que nós sofremos com o regime militar”, afirmou Comparato. Ele afirmou que o Brasil está "descumprindo flagrantemente" a sentença da Corte Interamericana. "Essa sentença declarou que a Lei da Anistia, de 1979, é nula."

Comparato lembrou que, em Direito internacional, crimes contra a humanidade não são anistiados. "É óbvio que nenhum Estado pode tornar prescritos os crimes ou então considerá-los anistiados." Ele afirmou ainda que a Lei da Anistia foi "votada pelo Congresso sob controle direto da Presidência da República". Citou ainda o Artigo 68 da Convenção Interamericana de Direitos Humanos, pela qual os Estados partes – o que inclui o Brasil – comprometem-se a cumprir a decisão da Corte em todo caso do qual participarem. E o artigo 4º da Constituição de 1988, segundo o qual o país se rege em suas relações internacionais pelo princípio, entre outros, da prevalência dos direitos humanos.

Comparato defendeu os "esculachos", manifestações feitas sobretudo por jovens para denunciar publicamente ex-agentes da ditadura. "Eles (jovens) que nos ensinem e mostrem a todos que temos uma dignidade a respeitar." Ao lembrar que países vizinhos processaram e condenaram autoridades envolvidas em violações de direitos humanos, inclusive governantes, o jurista fez uma ironia citando conhecido verso de Manuel Bandeira: "Seria o caso de tocar um tango argentino".

O procurador da República Marlon Weichert criticou o que considera pouco empenho do Estado brasileiro no sentido de apurar violações de direitos humanos durante a ditadura. “É uma mentira quando o governo brasileiro diz que é uma atribuição da Justiça. Não é verdade que é um problema do Judiciário. É do Judiciário, do Executivo, do Legislativo e do Ministério Público.” Segundo ele, o MP tem aproximadamente 200 investigações criminais em curso. Destas, foram oferecidas seis denúncias, duas relativas ao Araguaia. Uma, contra o coronel da reserva Sebastião Curió, tem uma liminar “trancando” a ação, e outra contra o tenente-coronel também da reserva Lício Maciel, não foi iniciada porque ainda não se conseguiu citar o militar.

De acordo com Weichert, a Corte Interamericana tem resistido a gestões por uma audiência de acompanhamento, a respeito do descumprimento da sentença pelo Brasil, por avaliar que a atuação do próprio MP é vista como um andamento desse processo. Ele também criticou o papel do Judiciário. “Os juízes brasileiros estão se sentindo na autoridade de decidir sobre a competência da Corte Interamericana”, afirmou. Ele também fez uma avaliação “nada auspiciosa” sobre a busca de restos mortais pelas autoridades. “A matéria esbarra em todo tipo de justificativas burocráticas e administrativas. Existe a barreira dos enclaves e dos resquícios autoritários. O Estado brasileiro faz pouco pelo cumprimento da sentença da Corte.”

O procurador fez menção à eleição do ex-ministro Paulo Vannuchi à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), na semana passada. “Esperamos que tenham condições de cobrar uma posição mais ativa (do governo brasileiro).”

Ele também rebate o argumento de que a sentença representaria uma mera recomendação. “O que salta aos olhos é a facilidade com que brincam com argumentos teóricos. Participar da Corte Interamericana não era uma opção. Era uma decisão da Constituição (de 1988). Longe de ser um ato que viole a soberania, participar do Sistema Interamericano de Direitos Humanos é cumprir uma obrigação determinada pela Constituição. Não temos nenhuma notícia de que haja um vício de procedimento. E eu não conheço nenhuma alegação de que o presidente da República ou o Congresso Nacional tenha resolvido participar (do sistema interamericano) sob pressão de uma potência estrangeira.”

Sobre o caso de 2010, em resumo, diz Weichert, o Brasil foi parte de um processo e perdeu. E teria de cumprir a sentença determinada pela Corte Interamericana. A outra opção, no limite, seria deixar o sistema, “o que seria o maior retrocesso possível, que nenhum país do continente experimentou”.

Perversão

“A Lei da Anistia traz uma série de conceitos e definições que não podem ser aceitas pela Constituição de 1988”, acrescenta o professor José Carlos Moreira da Silva Filho, membro da Comissão de Anistia. “As ações daqueles que se insurgiram contra a ditadura não foram criminosas, foram legítimo direito de resistência”, sustenta. A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), também de 2010, ratificando a lei de 1979, representou para Moreira “a grande perversão da bandeira da anistia”. Ele manifestou expectativa com a ida do advogado Luís Barroso para o STF. “Espero que o novo ministro tenha condições de entender que o jurista brasileiro pare de achar que o Direito internacional é uma perfumaria jurídica.”

Para o advogado Belisário dos Santos Júnior, da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, o caso julgado pela Corte, embora trate primordialmente do Araguaia, é de interesse amplo em termos de cidadania. Ele também questionou as circunstâncias em que foi aprovada a Lei da Anistia em 1979, ainda sob a ditadura,  com o Congresso tendo sido fechado pouco tempo antes e parlamentares da situação cassados pelo governo.

A coordenadora da CNV disse participar da audiência pública como "militante dos direitos humanos". Ressaltou a publicação da sentença em livro, por seu "caráter pedagógico", e manifestou posição semelhante em relação à necessidade de cumprimento da sentença pelo Brasil – em respeito da norma que estabelece primazia dos direitos humanos em relação ao Estado. "Os Estados civilizados querem que se crie um paradigma a partir do Direito internacional", afirmou Rosa Cardoso.

Ela observa que para o cumprimento da sentença na íntegra, seria necessária em algum momento a revisão da Lei de Anistia. A advogada lembrou que falava em nome pessoal, assim como outros integrantes da CNV. "Não existe essa discussão (sobre revisão da lei de 1979) no colegiado. Pessoas do colegiado se manifestaram." Uma avaliação nesse sentido, se houver, será incluída nas recomendações que constarão do relatório final da comissão, no ano que vem. Da plateia, outra integrante da comissão nacional, Maria Rita Kehl, assistiu à audiência pública, a 70ª da comissão paulista. No final do encontro, a coordenadora do colegiado, Maria Amélia Teles, leu moção por uma campanha nacional a favor da revisão da Lei da Anistia.

A publicação em livro da sentença da Corte Interamericana, de 24 de novembro de 2010, foi iniciativa da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, que leva o nome do ex-deputado Rubens Paiva. Embora registrem avanços na agenda dos direitos humanos, seus integrantes afirmam que "a persistência do desaparecimento forçado ainda é um bloqueio da transição política brasileira". O chamado caso Gomes Lund, relativo ao Araguaia, teve início ainda no regime autoritário, em 1982, com uma ação civil de natureza declaratória, pleiteando que a União fosse obrigada a localizar os corpos dos desaparecidos, esclarecer as circunstâncias das mortes e permitir acesso a informações sigilosas. Percorreu vários caminhos internos até chegar à Corte Interamericana, que em 2010 condenou o Brasil.

http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2013/06/juristas-atacam...

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