Civita e o DNA da direita radical

 

DAVIS SENA FILHO   27 de Maio de 2013 às 17:19

 

O Portal Brasil 247 fez uma pergunta em forma de manchete: "Para onde vai a Abril?", evidentemente que depois da morte do magnata Roberto Civita. Eu respondo: "Para lugar algum"

 

O Portal Brasil 247 fez uma pergunta em forma de manchete: "Para onde vai a Abril?", evidentemente que depois da morte do magnata Roberto Civita, cujo nome verdadeiro é Robert, como seu irmão se chama Richard e não Ricardo, eu respondo: "Para lugar algum". Vai ficar tudo como dantes no quartel d'Abrantes, ou seja, no lugar de sempre: a extrema direita do espectro ideológico. A verdade é que a Abril e, particularmente, as revistas Veja e Exame sempre repercutiram o pensamento e os interesses da oligarquia nacional e da plutocracia em termos mundiais, e vai continuar na mesma "batida" extremamente conservadora, se não piorar sob a administração do herdeiro de Roberto Civita, o seu filho Giancarlo.

O ítalo-americano de Milão, Robert Civita, herdou a Abril de seu pai, o americano Victor Civita, falecido em 1990, em São Paulo, e nascido em Nova York, em 1907. Civita deixa a vida aos 76 anos, após transformar a revista Veja em um bunker ou casamata, que, de forma sistemática e panfletária, resolveu fazer uma oposição violenta contra os governos trabalhistas de Lula e Dilma, a utilizar termos chulos e acusações infundadas e não amparadas por provas e contraprovas. Os diretores e editores de Veja, com a aquiescência de Robert Civita, passaram, principalmente nos últimos dez anos, a editar e publicar um jornalismo meramente opinativo e baseado muitas vezes em declarações de pessoas que nem ao menos suas identidades eram conhecidas.

A efetivação do jornalismo declaratório em constante embate com os poderes constituídos e com as autoridades eleitas pelo povo brasileiro, que assumiram há 11 anos o poder central. O jornalismo adversário dos políticos que compõem o campo da esquerda, apesar de o Governo Dilma Rousseff ser um governo de coalizão, no qual participam alguns partidos conservadores, porque é impossível para qualquer presidente de qualquer partido e ideologia administrar um País continental como Brasil e ter maioria no Congresso e, consequentemente, colocar em prática o programa de governo apresentado à população, no decorrer da campanha eleitoral.

Robert Civita tal qual aos seus colegas magnatas proprietários do sistema midiático privado e de empresas jornalísticas menosprezava e desprezava o Brasil. Sempre combateu presidentes trabalhistas e governos populares, os quais ele chamava, equivocadamente e propositalmente, de populistas, como forma de diminuir, dar uma conotação de demagogia, e, por conseguinte, não reconhecer os avanços econômicos e sociais realizados pelos trabalhistas de todas as épocas, a exemplo de Getúlio, Jango, Lula e Dilma. Robert é estrangeiro que, a exemplo de seu pai, Victor, veio ganhar dinheiro no Brasil.

Anteriormente, os Civita foram expulsos da Itália por cometerem irregularidades. Depois tentaram se estabelecer na Argentina, de onde Cesare, irmão de Victor, foi também expulso. Banidos do país portenho foram parar nos Estados Unidos. Entre os yankees, continuaram a manchar seus nomes e se meteram em escândalos, mas, após um acordo com o governo estadunidense, vieram para o Brasil. Desde os tempos argentinos sempre controlaram as publicações de Walt Disney, uma forma de iniciar seus negócios e atividades de maneira independente. Era a época da Guerra Fria, do nacionalismo na América do Sul. Até hoje os Civita nunca explicaram como conseguiram os contratos com a Disney, que publicava histórias de Mickey, Pato Donald e Tio Patinhas, personagens muito populares até a década de 1980, no que concerne à publicação de revistinhas ou gibis e vendidos em todas as bancas do País.

Victor Civita, pai de Robert, veio diretamente de Washington para o Brasil. Seu passaporte recebeu visto na capital estadunidense, apesar de ele, na época, residir em Nova York. Victor se estabeleceu no Brasil, enquanto Cesare foi para a Argentina. Exerceram praticamente o mesmo trabalho, com o propósito de conquistar o mercado de revistas e controlar a publicidade. Fizeram fortunas e até os tempos de hoje a dúvida permanece: os Civita tiveram o apoio e a influência do Departamento de Estado dos EUA?

O tempo passou, e Victor Civita, em 1968, funda as revista Veja. A verdade é que o criador da Veja é o jornalista Mino Carta, que depois teve de sair da revista por não concordar com os rumos editoriais do semanário que se transformou em um libelo direitista, de cores fascistas e totalmente direcionado a boicotar e, se pudesse, derrubar governos e governantes que, politicamente e ideologicamente, não condizem com os seus interesses e as suas "verdades", que causam preocupação às instituições republicanas e às autoridades eleitas, que são atacadas, sistematicamente, por jornalistas das revistas da Abril.

São profissionais escolhidos à dedo no mercado, porque Robert Civita contratou pessoas ideologicamente direitistas, que acreditassem ou fingissem acreditar em seus "ideais", a exemplo dos jornalistas e blogueiros Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, dois dos pitbulls do Civita recentemente morto, que atuam livres de "coleiras" para morderem à vontade, a quem o magnata bilionário combatia, e, autoritariamente, não queria no poder, apesar de o povo brasileiro eleger por três vezes seguidas os candidatos do PT, Lula e Dilma, que revolucionaram o Brasil, pois o colocaram em patamares em termos mundiais nunca antes acontecido na história do País.

A ousadia e a arrogância do barão da imprensa Civita era tão grande que, de forma gangsteriana, ficou comprovado pela CPMI do Cachoeira que a Veja, do editor Policarpo Jr., associou-se com o bicheiro Carlinhos Cachoeira para boicotar, ameaçar e chantagear empresários, políticos e servidores públicos que não compactuassem ou não aceitassem fazer "negócios" com o bicheiro, que se transformou em "editor" e "pauteiro da revista que optou pelo jornalismo simplesmente declaratório e com "entrevistados" geralmente ocultos, ou seja, preferiu realizar o verdadeiro jornalismo de esgoto e assim efetivar uma rede que atuava e agia no submundo, com o objetivo de "sujar" os nomes de autoridades eleitas e nomeadas, bem como implantar uma rede ilegal e, portanto, criminosa de escutas clandestinas e de "matérias" e "notas" plantadas na revista para desmoralizar aqueles que não aceitaram ou desconfiaram dos propósitos de Carlinhos Cachoeira e do jornalista Policarpo Jr., homem de confiança em Brasília de Robert Civita.

O objetivo dessa sujeira toda era atingir o ex-presidente Lula, o governo da presidenta Dilma, além de tentar derrubar o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, político do PT. Agnelo se saiu muito bem em seu depoimento na CPMI do Cachoeira, tanto é verdade que a imprensa de negócios privados, a exemplo da Veja, o "esqueceu". Contudo, ficou comprovado, apesar de esse político não ser punido, que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB) está envolvido com o esquema de Cachoeira, bem como o senador cassado, Demóstenes Torres, do DEM goiano. Até hoje Perillo continua a fazer política, a política dos coronéis, e ai de quem tentar enfrentá-lo nas terras de Goiás, como ele "bem" demonstrou na convenção do PSDB quando aproveitou para ofender, violentamente, o ex-presidente Lula.

Robert Civita conseguiu não ser chamado para depor na CPMI do Cachoeira. Antecipou-se e enviou a Brasília para negociar o seu testa-de-ferro, o banqueiro e ex-dirigente do Banco Santander, Fábio Barbosa, que assumiu, em 2011, a presidência da Abril, que publica 52 revistas. Contudo, torna-se imperativo salientar que a família Civita e seus dois principais dirigentes, Victor Civita e Robert Civita, nunca se comprometeram com os interesses do Brasil e os sonhos de melhorar de vida do povo brasileiro. Pelo contrário, apoiaram, sem vacilar, a ditadura militar e seus arbítrios terríveis e inomináveis, bem como foram aliados incontestes do tucano Fernando Henrique Cardoso — o Neoliberal I —, presidente que vendeu o Brasil e foi ao FMI três vezes, de joelhos e com o pires nas mãos, porque quebrou o Brasil três vezes.

Robert Civita continuou, a despeito da crise financeira da Abril, a viver de dinheiro do exterior, conforme deixou entre aspas no em entrevista para o Jô Soares, pois do exterior ele veio, assim como os seus familiares que no passado administraram o seu império gráfico e de publicações conservadoras, sempre a serviço dos interesses dos grande trustes internacionais, da oligarquia brasileira e da direita partidária herdeira da escravidão. Robert Civita nunca foi do Brasil, e não por ser estrangeiro. O Brasil é um País cujo tecido social é formado por estrangeiros e nativos.

Robert Civita era estrangeiro de ideologia e propósitos, crenças e cultura, e interesses contrários ao Brasil. E comprovou o que afirmo por intermédio de décadas a desprezar e a lutar contra a emancipação do povo brasileiro, bem como a se aliar à classe média tradicional e reacionária, pois ele captou os valores e o conservadorismo lacerdista de tal classe feroz e rancorosa e por isto leitora da Veja, que realiza um jornalismo de direita radical e panfletária. Robert se foi, mas o império da Abril vai continuar o seu destino, que é o de sempre apoiar os interesses das "elites" — aquelas que acham que podem mais. A Veja é uma revista politicamente golpista. E quem ocupar o lugar do Robert também o será. É o DNA. É isso aí.

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/103331/Civita-e-o-DNA-da-...

 

Charge do Bessinha: Alguns 'internos' do "ORFANATO ROBERTO CIVITA'

 

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@Webster, abaixo: é o que penso. Mino escorregou como gelatina no texto para se comprometer o mínimo; disse sem endossar. 

Do jornal A Tarde

Depoimento de Lúcia Murat à Comissão da Verdade do Rio

Da Redação
 
A cineasta Lúcia Murat prestou depoimento emocionado nesta terça-feira, 28, à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. Falou das torturas a que foi submetida durante a ditadura militar. O relato levou a cineasta por diversas vezes às lágrimas. O plenário lotado da Assembleia Legislativa do Rio também se emocionou.
A reportagem conseguiu o depoimento de Lúcia Murat:
"A minha primeira prisão foi no Congresso estudantil em Ibiúna em outubro de 1968. Eu era vice-presidente do diretório estudantil da faculdade de economia e estava no congresso representando a minha faculdade. Fiquei cerca de uma semana na prisão e não fui torturada. Antes do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, os estudantes de classe média não eram torturados, mas o mesmo não acontecia com os operários. Dois anos mais tarde encontrei e militei com Jose Barreto, assassinado junto com Carlos Lamarca, e ele me contou das torturas que sofreu em 1968, quando foi preso por ter estado no comando da Greve de Osasco.
Por ter sido presa no Congresso de Ibiúna, eu entrei na clandestinidade lodo depois do Ato Institucional numero 5, pois sabíamos que com o fim do habeas corpus e dos direitos que ainda existiam os militares iriam me perseguir em algum momento.
E, efetivamente, alguns meses mais tarde quando da chamada Operação Rockefeller, mais de 10 mil pessoas foram presas numa tentativa de preservar o país de qualquer manifestação contra a chegada de Nelson Rockefeller , então governador de Nova York.  Nessa ocasião, a casa dos meus pais foi invadida por militares armados. E, meu pai, Dr Miguel Vasconcellos, então diretor do Hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro, foi preso e levado para um quartel onde o interrogaram sobre a minha localização, a qual ele desconhecia. Com ele, foi levada minha irmã Regina Murat Vasconcellos. Eles foram soltos, depois de ameaçados.
A minha segunda prisão se dá então em 31 de março de 1971, depois de dois anos e meio de clandestinidade.
A tortura era uma prática da ditadura e nós sabíamos disso pelo relato dos que tinham sido presos antes. Mas nenhuma descrição seria comparável ao que eu vim a enfrentar. Não porque tenha sido mais torturada do que os outros. Mas porque o horror é indescritível.
Sabendo dessa impossibilidade, vou tentar descrevê-lo.
Em março de 1971, eu estava junto com Maria Luiza Garcia Rosa num quarto que alugávamos num apartamento no Jacarezinho. Eles chegaram de noite e nem houve condições de esboçar uma reação. Imediatamente fomos separadas, me jogaram num carro e me enfiaram um capuz.  Começaram a me bater dentro do carro.
Quando cheguei no Doi-Codi, não sabia onde estava, só fui descobrir mais tarde, que era o quartel do Exercito localizado na Rua Barão de Mesquita, que existe até hoje.  Rapidamente me levaram para a sala de tortura.  Fiquei nua, mas não lembro como a roupa foi tirada. A brutalidade do que se passa a partir daí confunde um pouco a minha memória. Lembro como se fossem flashs, sem continuidade. De um momento para outro, estava nua apanhando no chão. Logo em seguida me levantaram no pau de arara e começaram com os choques. Amarraram a ponta de um dos fios no dedo do meu pé enquanto  a outra ficava passeando . Nos seios, na vagina , na boca. Quando começaram a jogar água, estava desesperada e achei num primeiro momento que era para aliviar a dor. Logo em seguida os choques recomeçavam muito mais fortes . Percebi que a água era para aumentar a força dos choques.
Isso durou horas. Não sei quantas. Mas deve ter se passado mais de dez horas.
De tempos em tempos, me baixavam do pau de arara. Lembro que um médico entrou e me examinou. Aparentemente fui considerada capaz de resistir, pois a tortura continuou.
Logo que comecei a apanhar, achei que não ia resistir e inventei uma história que na minha cabeça me possibilitaria me suicidar. Nós tínhamos um sistema de ponto - de encontros - em que se não aparecêssemos em 48 horas, nós seriamos considerados presos e nossa família seria avisada. Eu queria proteger meus companheiros e a única coisa que me passava pela cabeça era agüentar um tempo até eu ter condições de me suicidar, pois assim todos estariam salvos. Então, disse que eu deveria estar na varanda do apartamento onde tinham me prendido, e que um companheiro passaria de carro embaixo do edifício. Eu faria um sinal de que tudo estava  bem, e ele iria me encontrar mais tarde em um determinado lugar. Eu achava que da varanda do apartamento eu poderia me jogar e tudo estaria terminado.
Mas quando eu saí do pau-de-arara , eu estava paralítica, a minha perna direita tinha inchado muito (depois foi diagnosticada uma flebite). Eu não conseguia mexer a perna, estava muito machucada, com febre muito alta e com os pulsos abertos por causa do pau de arara.  Sem poder subir as escadas do edifício, eles me levaram até o local, mas me deixaram dentro do carro e me substituíram na varanda por uma pessoa deles com uma peruca da cor dos meus cabelos. Quando eu percebi o que estava acontecendo, comecei a ficar desesperada. Sabia que eles não iam pegar ninguém e que quando voltasse eu não iria resistir. Eu não ia conseguir me suicidar. Essa foi talvez a pior sensação da minha vida, a sensação de não poder morrer.  Eu chorava igual uma louca dentro do carro e pedia por favor para eles me matarem.
Eles riam. E diziam que eu ia me fuder se não caísse ninguém.
Eu não tinha muita noção das horas, mas sabia que, naquele momento, tinha que aguentar pelo menos mais 12 horas para impedir a prisão dos meus companheiros,. E não sabia como. Aos 22 anos, eu vi que tinha que inventar outra história que justificasse para mim mesmo o novo horror que se aproximava. Desde o carro, antes de ir para um encontro onde ninguém foi preso, eu comecei a dizer que a culpa era deles, que ninguém era idiota de ir num ponto porque não era eu que estava na varanda. Eu precisava me agarrar a uma história, mesmo que eles não acreditassem.
Não sei bem o que se passou quando eu voltei. As lembranças são confusas. Não sei como era possível, mas tudo ficou pior. Eles estavam histéricos. Sabiam que precisavam extrair alguma coisa em 48 horas senão perderiam meu contato. Gritavam, me xingavam e me puseram de novo no pau de arara. Mais espancamento, mais choque, mais água. E dessa vez entraram as baratas. Puseram baratas passeando pelo meu corpo. Colocaram uma barata na minha vagina.
Hoje, parece loucura. Mas um dos torturadores de nome de guerra Gugu, tinha uma caixa onde ele guardava as baratas amarradas por barbantes. E através do barbante ele conseguia manipular as baratas no meu corpo.
Eu queria morrer e não conseguia morrer. Mas nisso praticamente eu já tinha ganho o tempo necessário para liberar os pontos com a organização. E a Marilena Vilas Boas, que mais tarde foi barbaramente  assassinada, que era com quem eu tinha os encontros, conseguiu avisar minha família de que eu tinha sido presa.
Passados esses primeiros dias, eu fui largada no corredor, de capuz. Eu ficava meio desmaiada, meio dormindo.
Até que fui levada para a enfermaria.  Na enfermaria, depois de algum tempo, comecei a tomar antibióticos. Não podia andar, minha perna direita estava muito inchada e não mexia, meus pulsos estavam feridos, assim como os seios e os pés. Não podia comer porque tinha levado muito choque na língua e se engolia alguma coisa, vomitava.
Médicos mais tarde calcularam que se eu não tivesse começado a ser medicada, eu teria morrido em poucos dias.  Isso é uma questão importante. As circunstâncias. Com certeza eu fui salva por circunstâncias, não pela vontade deles. Podíamos morrer a qualquer momento e por isso nos mantinham incomunicáveis em todo esse período e negavam nossa prisão. Para eles, que eram donos de nossas vidas e de nossas mortes, seria apenas mais um  "acidente", como tantos que aconteceram.
Na enfermaria, os médicos que me trataram  eram os mesmos que nos "assistiam " na sala de tortura: Amilcar Lobo e Ricardo Fayal. No dia seguinte, comecei a ser interrogada por dois representantes da Bahia -  eu tinha vivido clandestina durante um ano em Salvador -  o Major Cinelli, do CIEX e um representante da Aeronáutica. Eles resolveram me levar para a Bahia. Disseram que iam me tratar lá.
Fui de avião da FAB para Salvador e levada para o quartel de Barbalho,  onde o medico se apavorou achando que eu ia morrer em suas mãos e fez um relatório descrevendo em detalhes minha situação e pedindo um especialista. Lembro que esse médico disse: "Eu vou fazer isso porque senão você vai morrer nas minhas mãos e eu não tenho nada a ver com isso". Trouxeram então um médico neurologista da Aeronáutica que me tratou. Minha perna começou a desinchar. Continuava de cama e sendo interrogada todos os dias pelo major Cinelli. Mas nesse momento sem tortura física.
Melhorei, a perna desinchou e fui transferida para Base Aérea em Salvador. Eu estava com a perna muito fina, sem controle no pé, a cintura torta, como se eu tivesse tido paralisia infantil. Achei que as torturas tinham terminado, quando me avisaram que eu voltaria para o Rio. Quando eles entraram na cela já me puseram o capuz. Fui levada aos trancos para o avião, e durante todo o trajeto era ameaçada de ser jogada para fora. Me levantavam da cadeira, me levavam até um lugar onde deveria ser a porta de emergência do avião e diziam que iam abrir. Voltavam a me sentar para recomeçar tudo. Em algum momento, me perguntaram pelo "Paulo" , nome de guerra do Stuart Angel Jones, e eu percebi que ele tinha caído. Depois, no Rio nunca mais perguntaram por ele.  Stuart tinha sido assassinado. Só soube depois.
Eles se comportavam o tempo todo como se estivessem disputando um campeonato. E o que estava em jogo podia ser uma prisão, a morte de alguém da oposição considerado importante, o fato de alguém ter falado. Assim, o pessoal do Dói-Codi disputava com a Aeronáutica, que disputava com a polícia...  O pessoal do Rio disputava com a Bahia, etc.... Eles nos disputavam como se fossemos troféus, verdadeiros animais de caça.
Quando voltei ao DOi-Codi, de Salvador,  a tortura seria um pouco diferente. Em 1971, eles já conheciam bem o funcionamento das organizações clandestinas E a tortura era dirigida para o seu aniquilamento. Assim, eles sabiam do esquema de pontos que tínhamos e a tortura quando éramos presos, era violenta e brutal para que entregássemos os encontros com nossos companheiros o mais rápido possível.  Depois, eles sabiam que podiam usar o tempo a favor deles para conseguir informações mais estruturais. Um dos torturadores, de nome de guerra Nagib, me disse um dia que para eles nós éramos como cachorrinhos de Pavlov. O choque no início tinha de ser de alta voltagem. Mas depois, eles podiam dar choques pequenos que a nossa memória era do choque de alta voltagem. Nos já estaríamos nas mãos deles.
Acho isso muito importante porque demonstra também que essa equipe de torturadores estudava os métodos que eles eufemisticamente chamavam de "técnica de interrogatório". Não era simplesmente uma explosão de um sádico de plantão. Num segundo momento então, a tortura era progressiva, feita de idas e vindas, de ameaças e da nossa certeza, permanentemente alimentada por eles, que tudo poderia recomeçar a qualquer momento. O objetivo era, pouco a pouco, nos anular, como pessoas e como militantes.
Foi nesse quadro, na volta, que o próprio Nagib, fez o que ele chamava de tortura sexual cientifica. Eu ficava nua, com um capuz na cabeça, uma corda enrolada do pescoço passando pelas costas até as mãos, que estavam amarradas atrás da cintura. Enquanto o torturador ficava mexendo nos meios seios, na minha vagina, penetrando com o dedo na vagina, eu ficava impossibilitada de me defender, pois se eu movimentasse meus braços para me proteger eu me enforcava e instintivamente voltava atrás. Ou seja, eles inventaram um método tão perverso em que aparentemente nós não reagíamos, como se fôssemos cumplices de nossa dor.  Isso durava horas ou noites, não sei bem.
Era considerado um método de aniquilamento progressivo. E foi realmente o período em que eu mais me senti desestruturada, mais do que em toda a loucura dos primeiros dias Porque você já sabe o que é a tortura, e ela parece que nunca terá fim. Nessa época, a rotina estava implantada. Eu ficava numa cela - num período fiquei com uma menina do Paraná chamada Ruth -  e era levada repetidamente para a sala de tortura, para novos interrogatórios.  Acho que a essas alturas eu já estava ha dois meses na prisão, quando meu advogado, Dr Tecio Lins e Silva, conseguiu que eu fosse apresentada na Auditoria da Marinha, onde corria um processo contra mim.
Desde o primeiro dia, quando Marilena avisou minha mãe, minha família e meu advogado, tentavam desesperadamente me encontrar. Eles sabiam que se eu fosse levada na auditoria, eu estaria salva pois teria sido apresentada e seria muito difícil eles me matarem. Por isso, usaram de todos os subterfúgios e procedimentos legais para conseguirem que eu fosse apresentada. O meu advogado entrou com um pedido na Auditoria afirmando que eu tinha sido presa.  A auditoria mandou uma ordem para o Quartel da PE.
Essas contradições existiam porque em meio ao horror a ditadura brasileira sempre tentou manter justificativas legais. E nós não estávamos sendo torturadas numa casa clandestina, mas num quartel do exército.
E assim um dia mandaram eu me vestir - nós usávamos um macacão na prisão - e eu fui levada por um grupo de  soldados da PE para a Auditoria da Marinha.
Quando eu cheguei na auditoria eu não andava, a minha perna continuava atrofiada e eu tinha hematomas e ferimentos pelo corpo.  Me levaram para uma sala onde estavam meus pais e meu advogado. Sempre rodeada pelos soldados da PE,  eu pedi por favor para que eles tentassem me tirar do Doi-Codi e me levassem para o Hospital Militar. Eu sabia também que aquele momento era a única chance que eu teria de denunciar as torturas com uma prova real. Eu era a prova real da tortura. E apesar do medo imenso que sentia eu denunciei que estava naquele estado por causa das torturas, num depoimento extremamente emocionado.  Lembro- e eu tinha apenas 22 anos -  que quando entrei na sala todos os juízes militares baixaram a cabeça. Não tiveram a coragem de me encarar. Como também não tiveram a coragem - apesar de todos os esforços do meu advogado - de me mandarem para o Hospital Militar e, mais uma vez, eu fui levada  para o Doi-Codi. Eu tremia muito pois imaginava o que me esperava depois de ter denunciado tortura. Eu disse para o meu advogado: Eles vão me matar'. A impotência estampada nos olhos dele era o retrato desse país.
Mas eles não podiam mais me matar porque eu já estava oficialmente presa, o que no entanto não tinha a menor importância para mim. O importante era que eu sabia que ia voltar a ser torturada e que eles deveriam estar furiosos com o meu depoimento. E é impressionante a capacidade deles de inventarem sempre alguma coisa diferente. Alguma coisa que vai te deixar pior ainda.
Quando cheguei na sala de tortura, estavam todos juntos e enlouquecidos. (Releio esse depoimento e vejo que a todo momento eu digo que foi a pior coisa que vivi na vida.) Bom, esse momento foi de novo o pior momento que já vivi na vida.  Eles me fizeram representar o que eu tinha feito na auditoria, como se tivesse sido uma representação, uma mentira, uma palhaçada.
"Ah, agora faz mais cara de choro, não está suficiente, você fez mais cara de choro do que essa lá', '- Manca mais, você mancou mais lá filha da puta'.  E eu fiz tudo o que eles mandaram, eu fiz tudo que eles mandaram. A sensação era que eu tinha perdido inteiramente minha identidade. Quando a sua dor é transformada em piada com a sua ajuda é como se nada mais tivesse sentido.
Depois disso, eu fiquei mais algum tempo no Doi-Codi, não sei precisar quanto. Sei que fui presa em 31 de março e que quase três meses depois fui finalmente mandada para a Vila Militar, onde passei a ser legalmente presa, com visita de família e advogado. De todo esse período, de todo esse horror, eu vivi também alguns momentos de esperança. No quartel da Barão de Mesquita,  além das equipes de torturadores, encontrávamos soldados da Polícia do Exército em serviço militar. Era um quartel, com um funcionamento normal de quartel. E a maior parte dos soldados para mostrar serviço diante dos oficiais participavam da brutalidade. Ou nos empurrando, ou, por exemplo, dizendo que tinha um degrau a mais quando subíamos uma escada de capuz fazendo com que caíssemos. Pequenos poderes, muitos abusos. Mas nem todos se comportaram assim. Dois soldados são inesquecíveis por terem conseguido manter sua humanidade. E eu queria lembrá-los hoje.
Eu queria lembrá-los aqui, mesmo sem saber seus nomes, porque o que estamos fazendo é um exercício de humanidade. Um soldado se ofereceu para levar um bilhete para minha família. E levou. O outro foi o  enfermeiro que na minha primeira noite na enfermaria passou todo o tempo acordado colocando panos quentes para tentar amenizar a dor da minha perna, Lembro que ele só repetia. "Quando eu terminar o serviço militar, quero esquecer tudo isso."
Mas nós não podemos esquecer. E por isso estamos aqui hoje.
Estava já há cerca de dois meses na Vila Militar, quando em final de agosto, fui levada de novo para o Doi-Codi. Essa possibilidade não passava pela minha cabeça. Tinha me convencido que tudo aquilo acabara. Mas com o assassinato da Yara Yalvberg e a perseguição ao Lamarca e ao Zequinha, resolveram que eu deveria ser interrogada de novo sobre a Bahia. Quando um sargento me disse, na Vila Militar, que eu iria ser levada para o Doi-Codi entrei em desespero, e de novo tentei suicídio. Era inadmissível voltar a viver tudo aquilo. Mas fui impedida pela minha companheira de cela, minha querida Abigail Paranhos, que perdemos para o câncer alguns anos atrás.  Estava tão desesperada que me deram uma injeção e fui levada quase desmaiada para a Barão de Mesquita.
Lá tudo estava mudado. As celas tinham cama e lençol e os aparelhos de tortura foram substituídos por celas com controle de som e de temperatura, as chamadas geladeiras. Os presos eram colocados sem poder dormir, sem comer e em temperaturas baixíssimas. Fui de novo interrogada pelo Major Cinelli. Eu não estava entendendo nada do que acontecia.
Hoje, me parece que o Doi-Codi da Barão de Mesquita, a partir desse momento, foi reservado para presos que passariam por esse "interrogatório cientifico". Ao mesmo tempo, os militantes das organizações armadas considerados chave foram sumariamente condenados a morte.
Não iam mais para o Doi-Codi. Iam ser torturados e assassinados em outros lugares, como a Casa da Morte de Petrópolis, cuja única sobrevivente foi Ines Etiene Romeu.
Foi assim com Sérgio Furtado, com Paulo Ribeiro Bastos, com Fernando Santa Cruz e muitos outros companheiros que constam da lista de "desaparecidos".  A pena de morte foi decretada também para os combatentes urbanos nesse período, assim como foi para os militantes da Guerrilha do Araguaia.
Não posso provar que houve uma decisão de matar os poucos sobreviventes das organizações armadas, mas é o que deduzo do que vivi nessa época.
O Nagib, que gostava de discursar, de me explicar as técnicas e os objetivos deles, me disse uma vez que depois de acabarem conosco, que no fundo éramos apenas garotos impertinentes, eles iam terminar com quem efetivamente importava, com aqueles que tinham feito nossas cabeças. E que depois de aniquilar as organizações armadas, iriam aniquilar o Partido Comunista Brasileiro. Efetivamente, alguns anos depois a direção do PCB foi assassinada.
É terrível você olhar para trás e descobrir que no seu país utilizou-se de métodos cruéis e criminosos na luta política. Não se tratava apenas de aniquilar quem estava se defendendo de armas na mão, mas de aniquilar toda e qualquer visão contrária à deles. Era um método de manutenção de um poder autoritário.
Uma vez na enfermaria, quando questionei o Amilcar Lobo de como   um médico e psicanalista se permitia àquele papel, ele me disse que se não fosse ele seria outro, que ele era apenas um membro de uma engrenagem. Eu me lembro que respondi: muitos disseram isso em Nuremberg.
Não estamos em Nuremberg. 43 anos se passaram desses acontecimentos.
Restaram pequenas cicatrizes no meu corpo, um problema de sensibilidade na minha perna direta e essa história. Uma história que compartilho com vocês não por desejo de vingança ou masoquismo, mas porque acredito que a única maneira de fortalecemos a democracia nesse país e conhecendo nosso passado. A única maneira de combater aqueles que ainda torturam por esse país afora, é mostrar que esse é - e sempre foi - um crime de lesa-humanidade.
Depois de 3 anos e meio de prisão, fui solta. É verdade que depois de tudo isso, reconstruí minha vida. Com a ajuda de mina família, de meus amigos e de um processo de análise que durou 25 anos, Mas reconstruir não significa esquecer. Reconstruir significa saber conviver com esses fatos lutando para que não se repitam jamais. O horror à violência e ao autoritarismo passou a fazer parte de mim.
Há dois anos, pedi licença ao Exército para filmar as celas onde estive presa. O pedido foi negado. Sem explicações. Como se pode avançar em direção ao futuro se não se pode reconstruir o passado? Até quando vão esconder nossa história?
Milhares de pessoas foram presas e torturadas no Rio de Janeiro Queria pedir à Comissão que comece uma campanha para que todos aqueles que foram presos mandem um depoimento. Precisamos saber o que aconteceu. Nome, data , que torturas sofreu e quem foram os responsáveis.
Na minha época do Doi-Codi, os torturadores  usavam nome de guerra e tinham seus nomes verdadeiros tampados por um esparadrapo na camisa. Mas posteriormente, consegui identificar alguns deles, que são: Major Demiurgo - então chefe do Doi-Codi e que mantinha contato com nossas famílias; Tenente Armando Avolio Filho - de nome de guerra Apolo; e Riscala Corbage, o Nagib.
Os outros não consegui localizar. E creio que passados 43 anos será quase impossível o reconhecimento. Mas outros torturados, e foram milhares,  com certeza terão outras informações a dar.
Espero que a Comissão possa ouvir os que ainda estão vivos  e a todos aqueles que foram reconhecidos para que possamos revelar por inteiro esse período."

Analú,

Concordo contigo. A revista tinha sido criada a pouco tempo menos de 2,5 anos e a caça as bruxas estava violenta. Nessa época concluía o segundo ano na escola de engenharia, qdo foi invadida pelo exército aqui em Recife.

Descobrimos depois que existiam dois alunos bem mais velho que a maioria da turma e que eram oriundos da escola militar, tinham entrado na escola sem prestar vestibular. Gerou um clima de desconfiança terrível, foram presos dois membros do diretório. Um conseguiu se libertar fugindo para o México, onde vive até hoje e o outro permaneceu preso sendo transferido para o Doi-Codi no RJ e só tivemos notícia 9 anos depois, após a lei da anistia qdo foi libertado.

Qualquer um que se atrevesse a enfrentar abertamente os gorilas da ditadura seriam sequestrados e se não tivessem alguém com influência para interceder a seu favor, seriam torturados até a morte.  

Eduardo Collier Filho, estudante pernambucano, foi sequestrado, torturado até a morte e o corpo incinerado nos fornos de uma usina de açúcar no RJ.    

Eu nem acho que seria caso de tortura, etc. Apenas a revista seria fechada se ele nao celebrasse o "aniversário da Revoluçao" (sic). Ele fez um texto em que nao se podia dizer que ele nao tivesse celebrado, mas ao mesmo tempo nao afirmou nada em nome próprio, relatou do ponto de vista de um "observador" de Marte. 

Também não acho que seria caso de tortura, apenas tento mostrar o clima de terror da época, sem nenhuma garantia aos direitos fundamentais do cidadão. Qualquer análise hoje sem levar em consideração as circunstâncias em que os fatos ocorreram à época é passível de graves erros e injustiças na formação de juízo de valor.

 

É muito difícil a gente se colocar nos sapatos de outras pessoas enfrentando conflitos graves. Um pouco de humildade é recomendável nessas horas. Mas humildade é uma característica que muita gente simplesmente nao tem. 

Mais um caso de uma pernambucana de triste relato na comissão da verdade.

Relatos de tortura levam Comissão da Verdade às lágrimas

Ter, 28/05/2013 - 23:31
 
 
Relatos de tortura levam Comissão da Verdade do Rio às lágrimas 
 
 dulce pandolfi 
 
A historiadora Dulce Pandolfi e a cineasta Lúcia Murat prestaram depoimentos emocionados nesta terça-feira (28), quando relataram à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro as torturas a que foram submetidas durante a ditadura militar. Os relatos de agressões, afogamento, choques elétricos e abusos sexuais levaram as duas - e parte dos que lotaram o plenário da Assembleia Legislativa do Rio - por diversas vezes às lágrimas.
Dulce era estudante de Ciências Sociais e secretária geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) na Universidade Federal de Pernambuco quando foi decretado o Ato Institucional nº 5. Naquele mesmo ano de 1968, ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN), organização de esquerda armada. "A radicalização do regime justificava a continuidade da nossa luta". Dois anos depois, perseguida pelos órgão de repressão, fugiu de Recife para o Rio, onde foi presa no dia 20 de agosto de 1970. Ela se recorda da frase dita por um militar no momento em que entrou no quartel da Polícia do Exército: "aqui não existe Deus, nem Pátria, nem Família. Só nós e você".
Aula de tortura
Durante os cerca de três meses em que ficou no DOI-CODI, ela foi agredida com socos e pontapés, sofreu afogamentos, recebeu choques elétricos enquanto ficava pendurada num pau de arara, e ainda teve um jacaré andando sobre o seu corpo nu. Ela também relatou ter sido pisoteada nas costas pelo major Riscala Corbaje, conhecido como doutor Nagib, depois que ele percebeu que o "soro da verdade" injetado na veia de Dulce não surtira o efeito desejado. Além dos hematomas, Dulce também ficou por um período com o corpo parcialmente paralisado. "Não sei quanto tempo durou a minha primeira sessão. Só sei que ela acabou quando eu cheguei no meu limite".
Dulce chegou a servir de cobaia para uma aula de tortura. "O professor, diante de seus alunos, fazia demonstrações com o meu corpo. Era uma aula prática, com algumas dicas teóricas. Enquanto eu levava choques elétricos, pendurada no pau de arara, ouvi ele dizer: `essa é a técnica mais eficaz'." Quando Dulce começou a passar mal, o médico Amilcar Lobo foi chamado. Ele a examinou e disse: "ela ainda aguenta". A sessão continuou. No final da "aula", disseram que ela era irrecuperável e iriam matá-la. Simularam o seu fuzilamento: "levantaram rapidamente o capuz, me mostraram um revólver, apenas com uma bala, e ficaram brincando de roleta russa".
Depois de passar três meses no DOI-CODI e um mês no DOPS, Dulce foi transferida para um presídio em Bangu e depois para outro em Recife. No total, ficou presa por um ano e quatro meses. "É muito duro lembrar toda essa situação, mas é fundamental para que possamos construir um país mais justo e humano."
A cineasta Lucia Murat, que permaneceu três anos e meio na prisão, também relatou momentos de horror no DOI-CODI. Ela também teve parte do corpo temporariamente paralisado. Lúcia tentou o suicídio duas vezes enquanto esteve presa. "Sofri a pior sensação da minha vida. A sensação de não poder morrer." Além das agressões e dos choques elétricos no pau de arara, Lucia também teve baratas espalhadas sobre seu corpo nu. Os torturadores chegaram a colocar uma delas em sua vagina.
Política de Estado
Lúcia disse que eles se comportavam como se estivessem disputando um campeonato. "Eu chorava e pedia pra eles me matarem. Eles riam. Eram donos das nossas vidas e das nossas mortes". Ela relatou que sofreu abusos sexuais de Nagib, algo que ele próprio chamava de tortura sexual científica. "Eu ficava nua, com um capuz na cabeça, uma corda enrolada no pescoço passando pelas costas até as mãos, que estavam amarradas atrás da cintura". Enquanto o torturador abusava de Lúcia, ela não conseguia se defender. "Se eu movimentasse meus braços para me proteger, eu me enforcava, e instintivamente voltava para trás". As duas relataram também abusos cometidos com suas companheiras de cela. "Não aceitei dar esse depoimento nem por vingança nem por masoquismo, mas porque acho fundamental contar essa história e revelar que foram, sim, praticados crimes de lesa humanidade", disse Lúcia.
O presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, o advogado Wadih Damous, disse que a importância da comissão é lembrar às gerações, especialmente aos mais jovens, que a tortura já foi considerada uma política de Estado. Para o diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, Átila Roque, as comissões da verdade que estão sendo instauradas têm o importante papel de chamar a atenção para os crimes de lesa humanidade cometidos durante a ditadura. "Tudo isso é parte desse exercício de olhar pro passado sem medo, e de saber qual foi o papel do Estado brasileiro como instaurador do terror. Os trabalhos da comissão e os desdobramentos que ela provoca vão colocar a sociedade brasileira, o Estado e as instituições diante do imperativo da justiça".

Lúcia foi minha colega de escola. Era uma moça de classe média, completamente indistinguível de qualquer outra. A prova viva de que a gente nunca é capaz de prever o que alguém é capaz de ser/fazer em circunstâncias extremas. Soube que ela teria assaltado um banco! Aquela mocinha vaidosa, viva, uma menina. 

Pois é, Analú. A Dulce Pandolfi foi minha contemporânea na UFPE e seu irmão trabalhou comigo na RFFSA.

dar um nojo na gente, tudo isto.

Bota nojo nisso. E mais nojo ainda dá dos que defendem isso. Arre! 

Repugnante tb foi assistir o depoimento do torturador Ustra na comissão da verdade.

 

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