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Como a Veja tentou blindar Temer na matéria “contra” Temer

No contexto do furacão de denúncias disponíveis na mídia e na internet, vamos a um pequeno resumo em dois pontos para entender especificamente a matéria (1) da revista Veja publicada no dia 23 de fevereiro.

1-      Num jantar com Marcelo Odebrecht dentro do Palácio do Jaburu (residência oficial da vice-presidência) em 28/05/2014, Michel Temer teria pedido doações. Estavam presentes Eliseu Padilha e Cláudio Melo, diretor da Odebrecht. Foram acertadas doações na ordem de R$ 10 milhões (2);

2-      Em delação premiada (3), Cláudio Melo disse que em setembro de 2014 entregou um dos “pacotes” (das doações) no escritório de advocacia de José Yunes, amigo de longa data de Michel Temer. A longa amizade entre Yunes e Temer se estende também ao mundo dos negócios – como esmiuçou o jornalista Luis Nassif (4).

 

Na matéria da revista Veja – em que José Yunes, “primeiro amigo” de Temer, diz que foi “mula de Padilha” – chama a atenção a capa da revista com o título em letras garrafais “Como a Odebrecht comprava o poder”, ou seja, algo genérico; sem mencionar quem efetivamente é o ‘poder’. A senha para esta lógica encontramos no corpo da matéria, quando a Veja diz [grifo meu]: “Delação do fim do mundo porque atinge os maiores partidos do país — do PT ao PSDB, passando pelo atual inquilino do poder, o PMDB”. Ou seja: Temer é mero “inquilino”  – e não o titular. Logo adiante, a revista “esclarece” que a única ameaça ao mandato de Temer vem do TSE, “que decidiu usar parte de seu conteúdo no processo que pode resultar na cassação da chapa Dilma­Temer”. Ou seja: o que compromete Temer é sua “contaminação” por ter sido mera sombra de Dilma – e não o sol das arrecadações ora delatadas na Lava Jato.  Ainda, dentro da matéria, a Veja dá o seguinte detalhe sobre a entrega de um “pacote” no escritório de Yunes:

“De acordo com a delação de Claudio Melo, um dos pagamentos destinados a Padilha ‘ocorreu entre 10 de agosto e o fim de setembro de 2014 na Rua Capitão Francisco Padilha, 90, Jardim Europa’. O endereço é a sede do escritório de advocacia José Yunes e Associados. A sala de Yunes fica localizada no 2º andar, que pode ser acessado por meio de escada ou elevador”.

Por que o detalhe da última frase: “A sala de Yunes fica localizada no 2º andar, que pode ser acessado por meio de escada ou elevador”? Se dissesse “O prédio de dois andares de fachada envidraçada é sede do escritório de advocacia José Yunes e Associados”, a revista iria explicar mais com menos palavras. Enfim, por que o desperdício de palavras no detalhe inútil de uma revista – com o perdão da ironia – tão severa e comprometida no seu jornalismo investigativo? Seria para tentar dizer que Yunes tem uma sala – e não um robusto prédio em que trabalham outros advogados associados– para dar asas à versão do “humilde personagem que foi usado como mula”?  Ou seria (também) para dizer que a sala de Yunes é tão acessível que lá pode chegar qualquer pessoa por meio de escada ou elevador? Desconsideremos, pois, o fato de que o prédio em questão, como qualquer construção luxuosa na cidade de São Paulo, tem portaria e sistema monitorado por câmeras de segurança.

Ademais, foquemos novamente neste trecho: “um dos pagamentos destinados (sic) a Padilha”. Ora, nem a mídia (Globo, Folha etc) afim com a revista da Abril comprou tão barato a versão de que Eliseu Padilha seria o único destinatário – e não o portador, ou, meio-de-campo – das doações da Odebrecht. A impressão que fica é que o tempo todo Yunes – e por conseguinte seu amigo Temer, então vice-presidente da República – foi sendo involuntariamente usado; envolvido pela trama que ora é desnudada na Operação Lava Jato. 

Quanto à matéria em si da Veja, a revista tão-somente cuida de chancelar a versão de Yunes para obviamente blindar Michel Temer. Por outro lado, joga aos tubarões o ministro licenciado Eliseu Padilha. E isto o resto da mídia está cuidando de fazer (5). Mas, como se diz por aí, a “conta não fecha” se seguirmos o seguinte raciocínio na história juntada aqui e ali no contexto da referida delação na Lava Jato:

- O vice-presidente Michel Temer pede, no Palácio Jaburu, doações diretamente aos diretores da Odebrecht com a presença de Eliseu Padilha. Aqui já temos, no mínimo, um grave desvio ético: pedido de doação feito pelo vice-presidente a um empresário dentro da residência oficial;

- Eliseu Padilha é identificado pelo delator Cláudio Melo como “preposto” de Temer e é o responsável por arrecadar dinheiro de campanha e distribuir internamente para o PMDB;

- Lúcio Funaro, doleiro, é identificado como operador de Eduardo Cunha. Em sua delação, Cláudio Melo não citou Lúcio Funaro;

- Segundo Yunes, Padilha telefonou para ele pedindo para que seu escritório fosse intermediário da entrega de um “pacote”. O portador do “pacote” seria o doleiro Lúcio Funaro, operador de Cunha. Funaro nega com veemência que tenha levado o “pacote” a Yunes. Tanto que Funaro, além de processar (6) Yunes, tomou a iniciativa de pedir uma acareação com Padilha e Yunes (7); 

- Yunes disse que recebeu o “pacote” das mãos do até então (para ele) desconhecido Lúcio Funaro, que – segundo Yunes, frise-se – deixa entender que o “pacote” era parte de uma ação para ajudar a eleger 140 deputados para, por fim, eleger Cunha presidente da Câmara;

- Alguém (que Yunes diz “não se lembrar”, pois “tinha saído para almoço”) vai até o escritório e leva o “pacote”. Yunes pode ser qualquer coisa, menos um advogado ingênuo e inexperiente.

Resumo da conta que não fecha:

Temer e Padilha pedem doações à Odebrecht. Padilha liga para Yunes e pede para este receber um “pacote” (vindo da Odebrecht, segundo delação de Cláudio Mello) cujo portador é um operador de Cunha. Uma pessoa desconhecida leva embora o pacote para “favorecer Cunha” mas que, pela lógica deste estranho relato, seria levado para Padilha. Pois seria estranho um operador de Cunha levar um pacote para um intermediário para que, por fim, o “pacote” fosse destinado ao próprio Cunha. Se o destinatário do “pacote” (que Yunes declarou nem ter aberto) foi Padilha, Michel Temer, que pediu doações à Odebrecht no Palácio do Jaburu, ficou sem nenhum tostão, coitado. Porque também seria estranho imaginar que o “pacote” foi entregue no escritório do amigo de Temer, depois foi até Padilha para, por fim, este destinar alguma contribuição para o então vice-presidente.

 

Fontes: 

 

1- http://veja.abril.com.br/politica/fui-mula-do-padilha-diz-yunes-ami...

2- http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/temer-pediu...

 

3- http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/wp-content/uploa...

4- http://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-elo-desconhecido-entre-te...

5- http://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/02/passo-passo-do-caso...

 

6- http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/02/1862240-funaro-afirma-qu...

 

7- http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/funaro-pede...l

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