É evidente que o cinema brasileiro deixa muito a desejar, não pela carência de bons cineastas, mas pela cultura da violência da qual exibimos as vísceras. Isso, no entanto, deve-se em parte à produção norte-americana, que desde os tempos do velho faroeste, pouca coisa soube apresentar, além de uma exacerbada violência. E como nos acostumamos com isso, não fácil emplacar um filme de qualidade, a não ser esses de apelos para mitos ou celebridades que culturalmente, ou mesmo em termos de lazer, pouco acrescentam. Temos um bom cinema europeu e muitas boas produções latino-americanas, que ficam relegadas a um público totalmente insignificante, exibidos quase que exclusivamente pelas TVs pagas.
Deixou aqui não uma solução, mas uma pergunta que, sinceramente, não sei responder: Como desamericanizar o cinema brasileiro?

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Regrando! Não vamos regrar a mídia? Regremos também o cinema. Cotas para filmes nacionais, cotas para filmes latino-americanos, para filmes europeus, para filmes asiáticos. Acabemos com este quase monopólio do cinema norte-americano sobre as nossas salas. Eis minha sugestão. Abraços.
Cairbar

Muito simples, da mesma forma que o cinema americano retirou das telas os cinema Europeu, através das distribuidoras de filmes.

Durante as décadas de sessenta e setenta as grandes companhias norte-americanas fizeram acordos com os proprietários de cinemas brasileiros ou estrangeiros, como o Grupo Severiano Ribeiro, e ficaram responsáveis pela escolha dos filmes que passariam nas salas brasileiras, ou também compraram salas de cinema.

O cinema nacional insistiu na obrigatoriedade de projeção de filmes nacionais, mas quem programa estes filmes são as grandes distribuidoras, como a Metro-Goldwyn-Mayer associada ao Grupo Severiano Ribeiro, a Paramount Pictures e a Universal Pictures, que opera diretamente no mercado brasileiro a partir de janeiro de 2007 através da UIP, e outras.

Em resumo, por eles dominarem a distribuição, eles impõem os filmes que querem que vejamos. Há somente a Lumière Brasil que distribui principalmente filmes franceses mais em salas alternativas do que no circuito normal.

O mecanismo de cotas é ineficiente, pois ou se diz o dia a hora e o período do ano para a exibição ou os filmes "cotistas" serão apresentados em sessões da meia noite, na segunda-feira. O centro de tudo está na distribuição e se quisermos assistir filmes do mundo inteiro sem que seja necessária a benção de Hollywood, teremos que estabelecer uma política antitruste na distribuição.

Talvez o segredo de tudo seja em acionar o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), pois há claramente uma política de abuso de poder econômico e uma "venda casada" entre a construção e reforma dos cinemas e exibição de filmes.

É extremamente interessante que todo este mecanismo de oligopólio exista claramente no Brasil e até hoje em dia nenhuma instituição da justiça tenha tomado alguma providência.
Não gostaria de ser uma voz distoante, mas o cinema brasileiro é um cinema do continente americano. Apesar das lonjuras da cultura anglo-saxã, protestante e branca para com a nossa, a juventude da sociedade e a "tabula rasa" cultural e institucional são poderosos elementos de afinidade. Esses elementos quase conpensam (se não compensam por inteiro) as afinidades com a europa ibérica. A razão é simples: a europa ibérica nunca teve volume de produção cinematográfica (mesmo antes do inicio do rolo compressor estadunidense, no periodo da segunda guerra).
Resultado: tanto tempo sob influência artificial, meio que ela virou "natural". Doi, mas é a realidade.
Não nos entusiasmamos com o cinema da américa latina não porque ele seja ruim, mas por sua "descontinuidade". Toma embalo, se profissionaliza, fica melhor produzido - até a próxima crise. Ninguém se vicia numa marca de chocolate que de repente some do mercado por dez, quinze anos e depois vem cobrar fidelidade.

O fato de a cultura do continente américano ter como um dos seus poucos denominadores comuns a instauração e institucionalização da nova sociedade e a submissão da cultura outra, tornou o faroeste e o filme de prisão/cangaceiro sua expressão natural. Ambos operam na faixa do conflito com o marginal, com aquele que não se encaixa no modelo que se institui. Somos, como continente, um eterno processo de criação em cima da destruição do outro, indigena, vietnamita, negro, etc. A diferença é que os estadunidenses torcem pelo mocinho e nós pelo "bandido". Natural, eles são os brancos, nós "os outros".

Há portanto afinidades necessárias entre o cinema estadunidense e latino americano? Para mim, isso é óbvio. Tarantino não nos ensinou nada que já não soubéssemos. A questão é outra: podemos produzir outros gêneros cinematográficos? Talvez sim, mas isso é uma luta. O cinema oriental comeu seu pão-que-o-diabo-amassou com os filmes "de caratê", antes de Kurosawa. A história do cinema espanhol, enquanto industria, se divide em faroeste espaguete e Almodovar. Eu acho fantastico Buñuel, mas cinema é primeiro industria, depois entretenimento e, quando dá, bálsamo para o espirito. Buñuel não é, nem nunca será (nem na europa) o feijão com farinha, a rapadura cotidiana.

E a dominação estadunidense em sí? A solução é retomar as distribuidoras? Nacionaliza-las? É óbvio que sim! Pessoalmente, são as duas nacionalizações que julgo cruciais: a das distribuidoras de cinema e a das faculdades privadas laicas. Mas para entrar numa briga é preciso saber onde ela vai dar e aguentar o tranco. Aprender com Bollywood seria muito útil, pois os gringos bem podem criar retaliações de modo a nosso cinema ficar trancado no Brasil e ponto final. Qualquer providência tem que ser pensada no ambito da américa do sul, sul da áfrica e, com sorte, Índia. Não podemos criar limitações para eles e esperarmos que eles não reajam. Na briga se bate e se apanha. E aí? Vamo pro pau?
Caro Francisco

Não é necessário "ir para o pau", os norte-americanos conhecem bem a legislação antitruste e código de defesa ao consumidor. Se forem utilizados no Brasil instrumentos legais existentes em nossa legislação e similar a legislações semelhantes nos USA, como a legislação antitruste e o código de defesa ao consumidor, não haverá possibilidade de chiadeiras ou retaliações em tribunais norte-americanos. Ou seja, com isto se cortaria qualquer possibilidade de retaliações em tribunais norte-americanos.

Bravatas servem simplesmente para criar problemas posteriores, é claro que há venda casada, é claro que há abuso do poder econômico e nacionalizações custam caro. Não seria melhor utilizar uma lei existente e chegar ao mesmo resultado sem custo nenhum.

O PT quando assumiu a Prefeitura de Porto Alegre fez uma intervenção no sistema de transportes urbano da cidade a partir de hipóteses legais inexistentes, como resultado disto nos 15 anos seguintes à prefeitura do PT ficou refém das empresas de ônibus que utilizaram a possibilidade de processar a prefeitura por danos, e a partir disto impuseram a legislação tarifária que quiseram.

Temos que pensar claro, ou estamos num sistema capitalista, e por mais socialistas que sejamos temos que respeitar as leis impostas por este sistema, ou partimos para uma sociedade socialista. No segundo caso a nacionalização de um ou outro setor será um detalhe, porém tenho quase certeza que não há conscientização popular para se partir para soluções deste tipo.

Não estamos num sistema em que haja condições de contrariar os contratos, e como tal tem que tirar proveito da legislação existente e utilizá-la no proveito da população brasileira, bravatas criarão passivos que com o tempo custará bem mais caro do que o uso inteligente da arcabouço institucional estabelecido.

Só uma última pergunta, caso fosse feita estas nacionalizações (ou melhor, no caso do ensino estas encampações, pois grandes partes dessas instituições já são nacionais), qual seria o resultado no Supremo da criação de leis deste tipo?
Cláudia

Não tendo procuração do Cairbar para responder por ele, mas dando mais minha opinião mais do que qualquer coisa, o que é preocupante é a simplesmente a imposição de uma estética Hollywoodiana com toda a ideologia que vêm atrás.

Talvez tu sejas um pouco jovem para saber como era no passado, mas até a década de sessenta víamos nos nossos cinemas comerciais, filmes Franceses, Italianos, Alemães e Ingleses (não Hollydianos) e Japoneses. Os filmes americanos eram maioria mas não eram totalmente preponderantes. Hoje em dia temos em alguns circuitos “cult” filmes não americanos, mas isto é feito para satisfazer uma pequena parcela da população que se acha intelectualizada e que não é contra nem a favor do predomínio avassalador do filme americano nos circuitos nacionais.

Só para dar o exemplo mais grosseiro e evidente da doutrinação ideológica que as produções norte-americanas, se reparares em qualquer filme norte americano, aparece no mínimo duas vezes a bandeira norte-americana no filme, isto não é um acaso é uma imposição.
Cláudia

Algo está se perdendo nesta em todas estas intervenções que procurarei resgatar um pouco do passado. Esta visão de um a filmatografia Europeia Cult e afastada das massas é mais produto de tudo que se montou nos últimos anos em questão de distribuição do que da realidade do passado.

Pensar que o Neo-realismo italiano ortodoxo de Roberto Rossellini, Luchino Visconti e Vitório De Sica e já não tão ortodoxo de Frederico Fellini e Antonioni não cativaram grande parte do público alfabetizado das décadas de 50 e 60 (quem não era alfabetizado, não assistia filme legendado, assistia filmes nacionais) ficando no que se chama hoje em dia de mercado Cult, não é bem assim.

Os filmes italianos bem como os Franceses fizeram escola e abriram mercado para diversos filmes menos densos de uma Europa que já se recuperava da guerra, mas não perdia sua identidade.

Os próprios Spaghetti Westerns , que eram extremamente populares no Brasil, apesar do nome depreciativo eles tiveram o mérito de mudar toda a estética dos Westerns Norte-Americanos e após filmes como “Por dólar a mais”, “O dólar furado”, “O bom o mau e o feio” e mais 600 filmes do gênero a imagem do cowboy norte americano, branco, limpo e pertencente a aristocracia rural norte-americana foi desconstruída. Assistir John Wayne em Álamo, um épico glorificando o colonialismo norte-americano, após um bom Spaghetti Westerns ficou anacrônico. Estes filmes começaram a aparecer em 1961 e dominaram muitas telas por mais de cinco anos. Era algo popular e atraía o povão.

Os filmes franceses, além de parte dos filmes de Godard e de outros que pretendiam uma estética mais hermética, havia uma cinematografia mais popular que concorria com Hollywood através de suas estrelas como Alain Delon, Jean Paul Belmondo, Romy Schneider e outros.

A imagem de um cinema Hermético, fechado a salas pequenas para um pequeno público intelectualizado é resultado da dominação econômica do cinema norte-americano, que numa ação global investiu contra o cinema europeu tomando inclusive parte da estética desses filmes e incorporando nos filmes da década de sessenta e setenta.

Esta idéia de filmes europeus como filmes alternativos, é algo forjada nas últimas décadas, o filme europeu tinha diversos níveis e muitos desses atingiam grande parte do "povão", como falas, a dominação de corações e mentes montada pelos norte-americanos passou por diversos níveis, inclusive impedindo que filmes mais populares e de fácil leitura chegassem as massas brasileiras e mundiais.
Concordo Cláudia, não acho que haja influência excessiva do estilo americano de fazer cinema no Brasil. Filmes como Tropa de Elite, e um ou outro mais, não formam o todo da produção brasileira, ao menos nisso somos um pouco mais originais.
O que vejo é uma pasteurização com estilo rede Globo nos filmes feitos para o "sucesso de público". Usam a força da propaganda e distribuição da Globo, usam atores globais para trazer público, em produções parecidas com as mini-séries globais, e normalmente a problemática exibida é a que aflige os "pensadores" da rede Globo, quais sejam, ou exibem o mundo cão da violencia nas favelas cariocas, ou aquela problemática babaca "estilo Jabor", quando querem retratar a classe média. O resto do Brasil fica com um filminho aqui outro ali, até mesmo as produções de época andam diminuindo, provavelmente porque são caras, e a lógica de tudo o que faz a Globo, é óbviamente a do mercado.
Não há como reinventar esse negócio, pois passa por uma mudança de paradigmas impiedosa. O cinema começou, em sua história, como expressão de arte e virou indústria, que os americanos souberam profissionalizar de maneia avassaladora.
Começou como expressão documental do cotidiano, como se fazia com a fotografia, para depois registrar peças de ficção. Foi nesse momento que cinegrafistas, ou fotógrafos, americanos tomaram gosto pela coisa e a foram transformando, ao longo dos anos, no que é hoje.
Fazendo uma alusão distante, pode-se dizer que os ingleses inventaram o futebol e os brasileiros o aperfeiçoaram, assim como os franceses Lumiére inventaram o cinema e os americanos deram cabo final.
Querer fazer cinema diferente do que é feito pelos EUA, daquele formato apresentado, requer uma reinvenção disso tudo.
Caro Alexandre. Estou respondendo a você porque você foi o último da lista de discussão referente a minhas colocações sobre nosso cinema. Poderia começar dirigindo-me a qualquer um de vocês, pois a congruência de opiniões é notória, embora haja algumas vertentes que não chegam a ser conflitantes com o tema central da proposta. Devo dizer que aprendi muito com o que foi colocado até aqui, inclusive despertando-me para realidades que eu não cheguei a conhecer. como as que Rogério Maestri dirigiu à companheira Claudia sobre o cinema até a década de 1960.
Concordo com Claudia em suas referências ao fato de que o problema do nosso cinema pode ter muito mais orígem interna do que de Hollyood. Aliás, qualquer pessoa que se atenha de maneira um pouco inteligente a essa temática vai logo perceber que poderíamos ter um cinema muito melhor, desde que somos o maior consumidor latino-americano de porcarias hollyoodianas, sem que façamos qualquer coisa para evitar.
Conmtinuem enriquecendo o assunto. Ele é interessante e importante.

Obrigado
por meio de iniciativas como essa: Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte, o Forum Doc - 145 filmes em 18 dias: o forumdoc.bh.2010 chega a sua 14ª edição consecutiva com uma programação extensa e importante para sua trajetória. A começar com o Direto.doc, a maior mostra sobre o cinema-direto norte-americano já realizada no Brasil, que, a partir de um recorte histórico, compreenderá filmes de uma série de cineastas, em sua maioria produzidos nos anos 1960 nos EUA e Canadá, tais como Fredrick Wiseman, Ed Pincus, Pierre Perrault, Michel Brault, Robert Drew, Richard Leacock, D.A Pennebaker, e irmãos Maysles. A mostra contou com a curadoria de Paulo Maia, confere no http://www.forumdoc.org.br/2010/ um abraço
Não sei se todos já tiveram a oportunidade de conhecer a Argentina; Buenos aires mais especificamente e puderam ver a quantidade de filmes europeus que o circuito de lá oferece ao público. Apesar de também preponderar por lá o cinema norte-americano, não é a aberração que há aqui. Por que, sendo vizinhos, e num continente que, infelizmente, permanece sob o tacão do poderio econômico dos EUA em diversas áreas, o nosso cinema se submeteu mais que o de lá? Sabemos que o Estado argentino, apesar das mazelas que sofreu nas últimas décadas, em matéria cultural é mais atuante que o brasileiro.

Há, vindas de todos aqui, diversas observações muito pertinentes. Mas, penso que, analisando-as mais profundamente, hierarquizando-as e definindo-se uma linha de ação para "democratizar" o nosso cinema, para que o público brasileiro deixe de ser um quase exclusivo consumidor do cinema norte-americano, há que o Estado Brasileiro atuar fortemente. Contra a imposição dos produtos norte-americanos, seja de qual for a área, tal é a desproporção de forças econômicas em jogo, demandam-se ações e investimentos do Estado. Observando que não excluivamente do Estado, enfatizo. Vontade política, legislações, cotas, propaganda, centros culturais estatais com cinematecas, etc...
É, meu caro Ivan, você tem toda a razão quanto a Argentina. Ocorre que nossos hermanos, muito ao contrário de nós, sempre foram muito mais eurpeizados. Não que isso seja uma grqande virtude, mas em termos de cinema é. Além de tudo, culturalmente os argentinos estão várias décadas à nossa frente.
Sobre as medidas que você propõe para o cinema brasileiro, somente um governo apaixonado pela questão as implementaria. E, salvo um grande engano de minha parte, mesmo eu sendo admirador do atual governo e de Dilma Roussef, não creio que haverá uma vontade política suficiente para o caso. Creio que só mesmo a força da sociedade, de ONGS e de empresas que possam perceber o quanto um bom cinema podera promover o país, levará a bom termo essa questão.

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