"Commodity". A palavra inglesa para mercadoria. Na tradução literal. Hoje o termo é usado de forma mais abrangente. Commodity tornou-se também uma "mercadoria perfeitamente descrita". Por exemplo: Arroz Agulhinha Longo Fino Tipo 1. Em qualquer que seja a embalagem que se apresenta - Tio Pedro, Alencar ou Vó Maria dos Coquinhos - é exatamente o mesmo produto. É uma mercadoria perfeitamente descrita e classificada conforme normas estabelecidas. Quem compra não deverá ter surpresas. E isso vem acontencendo com praticamente tudo. Se escolhermos entre duas marcas diversas de automóveis, dentro da mesma faixa de preços, teremos direrenças apenas em um ou outro detalhe "coadjuvante". O ator principal, o veículo, varia muito pouco. Inclusive em termos de funcionamento e qualidade. Todos, salvo raras excessões, funcionam bem.
Durante muitos anos um diploma era uma - como dizem os marqueteiros - "vantagem competitiva". Poucos o possuiam e os que o possuiam eram valorizados, respeitados com uma deferência toda especial. Ampliação de Universidades, pelo mundo afora, começou a reduzir essa vantagem. Criam-se as "especializações". Depois, os "mestrados". Vantagem mantida por mais um pouco de tempo. Dura muito não. Vamos aos "doutorados". Mais uma sobrevida na tal "vantagem competitiva". Mas, se já estou no mestrado, passei pela especialização, embalo um pouco mais, aproveito grande parte do trabalho, e lá vou eu ser doutor. Só que a máquina não para. E chegamos (não sei se tem algo além, mas sei que se não tem já está em gestação) aos pós-doutorados. Pós-doc, para os íntimos da matéria. Ouvi falar, não tenho bem certeza da hierarquia, que chegou a Livre Docência. E virá algo depois, podem ter certeza.
Havia, até o início desse III milênio, o diferencial da Universidade. Formado onde? Fundação Getúlio Vargas (FGV) era uma "garantia" aos Administradores. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ)? Referência na área agrícola. E outras tantas, infelizmente nem tantas, conforme a área de conhecimento.
Por que? Porque nessas instituições o alunado estava exposto ao que havia de melhor, ao "estado da arte", em termos de bibliotecas e docentes, em intercâmbios com os mais longínquos "centros de saber".
Uma era que acabou, essa era do "só eu tenho acesso". Aqui, numa manhã de domingo, acesso ao Instituto Smithsoniano, a biblioteca central da Grécia. Ou do Burundi, conforme o que eu procuro. Por "mail", troco palavras com um laureado pelo Nobel. Ou com o Chief Executive Officer (CEO) de alguma das maiores empresas do planeta. Se médico sou, procuro a maior referência viva na minha especialidade. E tenho acesso a seu trabalho em tempo real. Aliás, pela "vídeo-cam", posso vê-lo em ação. E ouví-lo!
Como então construir uma Universidade hoje, que possa fazer a diferença? Até porque talvez as profissões da "moda" em 2010 simplesmente nem existiam em 2000. Na minha humilde opinião, o caminho é a especialização. Não como título acadêmico, mas sim como o DNA da instituição. O curso de Administração tem foco, por exemplo, em "branding" (Gestão de Marcas). Graduação, pesquisa e extensão voltados para o branding. Os docentes tem interesse nisso. E se doutoraram nisso. E respiram essa especialização no dia-a-dia. Docente que entra ali já sabe qual é o espaço que existe. Se minha vocação é para a produção, nem entro ali. Não serei sequer considerado na hora da seleção. O alunado sabe o que vai receber. O "contrato educacional" claro para ambas as partes. Claro que o curso de Administração não vai se fixar apenas essa área do conhecimento. Vai eleger duas ou três, não mais que isso. E todas vão ser da mesma forma. Docentes sabendo qual sua parte no contrato, alunado recebendo o que espera. A Faculdade de Pedagogia. Educação no Campo. Ou em Marte. Mas o contrato claro. Faculdade de Letras. Tradutor e interprete. Foco fixo. Faculdade de Mineração. Extração de metais raros. Tório e hádnio. Quem quer metais ferrosos, docente ou discente, que procure outra instituição. E assim sucessivamente, nas diversas faculdades que compõe a Universidade.
E então vamos alcançar uma eficiente gestão de marca. Criar a "Universidade dos sonhos".
Afinal, o Arroz Tio João, agulhinha longo fino tipo 1, é o mais vendido e respeitado do Oiapoque ao Chuí!


P.S.: Agradeço ao Prof. Clemente Nóbrega, pela idéia do artigo e por exemplos vívidos. Não pedi autorização e qualquer erro deve-se exclusivamente a mim.

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Caro,
Sei não. Vou suspender temporáriamente meu julgamento, mas vc não tá indo um pouco na contramão? Quer dizer, hoje em dia o mercado de trabalho vem valorizando cada vez mais os profissionais flexíveis, capazes de se adaptar rapidamente a novas condições, que tenham uma perspectiva multidisciplinar...
[]s
Mario
Flexíveis dentro de uma área de conhecimento, de modo geral. Não se pode esperar que o engenheiro desempenhe atividades médicas, por exemplo. Não proponho uma reinvenção, proponho uma adequação à novas realidades. O Cirque do Soleil deu um novo significado - ou ampliou - à palavra circo, mas continua sendo um circo. Especializado, mas circo. Esse tipo de quebra de paradigma, de tecnologia de ruptura é a que me refiro.
Obrigado pela visita, uma boa semana.

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