Conferência Internacional sobre Felicidade Interna Bruta inciou-se ontem e vai até terça em Foz do Iguaçu, Paraná, Brasil

FIB - uma meta sócio-econômica coletiva

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DASHO KARMA URA EXPLICA O FIB

Dasho Karma Ura, Mestre em Pólítica, Filosofia e Economia pela Universidade de Oxford, Inglaterra, e vice-presidente do Conselho Nacional do Butão. Presidente do Centro para os Estudos do Butão fundado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) para formular as análises estatísticas do FIB.

ORIGEM do FIB

O atual rei do Butão, 5º na história do país, proclamou que a materialização da visão do FIB será uma das quatro principais responsabilidades do seu reinado. A meta última que norteará as mudanças sociais, econômicas e políticas no Butão será o FIB –Felicidade Interna Bruta. Sua Majestade o Rei disse que uma sociedade baseada no FIB significa a criação de uma sociedade iluminada, na qual a felicidade e o bem estar de todas as pessoas e de todos os seres sencientes é o propósito último da governança. Em abril de 1986, a frase, com estas exatas palavras: “Felicidade Interna Bruta é mais importante do que Produto Interno Bruto” foi cunhada por Sua Majestade o 4º Rei do Butão, que é o autor do conceito do FIB. O que ele disse, nos anos 1970 e 1980, quanto ao PIB ser canalizado na direção da felicidade, foi algo bastante inédito, senão revolucionário. Agora, 20 a 30 anos depois, as opiniões ao redor do mundo estão começando a convergir no sentido de tornar a felicidade uma meta sócio-econômica coletiva.


POR QUÊ O PIB É INADEQUADO PARA MEDIR O BEM-ESTAR?
Em primeiro lugar, vamos assinalar que o PIB é parte integrante do FIB, uma vez que o crescimento econômico de fato promove o bem-estar e a felicidade dos mais pobres. Todavia, diversas deficiências do PIB também precisam ser reconhecidas.

Falta de distinções de natureza qualitativa
Existem muitos modos de se atingir o mesmo nível de PIB, que por si só não se importa, ou registra, se a riqueza foi gerada através de prostituição ou de meditação, ou mesmo se foi obtida se maneira estressante ou prazerosa.

Propensão ao Consumo
O PIB é uma acurada métrica para se determinar tudo aquilo que é produzido e consumido através de transações monetárias. Entretanto, se algum bem for deliberadamente conservado e não consumido, então esse bem deixa de ser registrado como um valor. Como resultado disso, existe uma tremenda inclinação voltada ao consumo na adoção do PIB. Um trator que está simplesmente largado numa fazenda é contabilizado como uma riqueza, e certamente que um tigre numa floresta deve ter mais valor do que um trator, porém, sob a ótica do PIB, não é isso que ocorre. Este mede muito bem o capital produzido, mas não mede outras formas de capital e serviços, tais como aqueles providos pelo meio ambiente, humanos e sociais.

Sub-valoriza tempo livre e trabalho não remunerado
O PIB não mede o tempo livre e nem tampouco o trabalho voluntário, não remunerado, revelando um sério preconceito contra trabalho voluntário e lazer. Todavia, o trabalho não remunerado e voluntário contribui para a felicidade e o bem-estar. Cuidar de crianças e idosos, bem como o trabalho doméstico, são serviços não remunerados que se dão à margem das transações do mercado. Essas atividades não estão precificadas, e são executadas por aqueles cuja motivação está acima do ganho financeiro.

Justiça Econômica
Embora a desigualdade possa ser medida separadamente por um índice específico para esse fim, o PIB em si é cego para a injustiça econômica. Durante o nosso consumo de bens e serviços, a métrica daquilo que nos proporciona felicidade é relativa, em comparação àquilo que os outros estão consumindo. Se a comparação afeta o nosso bem-estar subjetivo, a desigualdade continuará a ter um poderoso efeito negativo na felicidade enquanto uma desigual distribuição da riqueza persistir. Sempre haverá alguém acima na escada, e um modo de se neutralizar esse efeito negativo é de se atingir um alto grau de igualdade.


Importância dos serviços pós-materiais.
Uma vez que um certo nível de riqueza foi alçanda, como por exemplo, na Europa e no Japão, o objetivo das pessoas não são bens, mas em vez disso aquilo que está se chamando de “serviços pós-materiais que transcendem os bens”. Um aumento desses serviços está mais provavelmente influenciado pelo imaterial, que vem de fatores como família, amigos, segurança, redes sociais, liberdade, criatividade, significado para a vida e assim por diante. Esses benefícios das sociedades pós-industriais não necessariamente aumentam com a renda.

O QUE É FELICIDADE?

Bem público, porém subjetivamente sentido
A felicidade é, e deve ser, um bem público, já que todos os seres humanos almejam-na. Ela não pode ser deixada exclusivamente a cargo de dispositivos e esforços privados. Se o planejamento governamental, e portanto as condições macro-econômicas da nação, forem adversos à felicidade, esse planejamento fracassará enquanto uma meta coletiva. Os governos precisam criar condições conducentes à felicidade, na qual os esforços individuais possam ser bem sucedidos.

A política pública é necessária para educar os cidadãos sobre a felicidade coletiva. As pessoas podem fazer escolhas erradas, que por sua vez podem desviá-las da felicidade. Planejamentos de política pública corretos podem lidar com tais problemas, e reduzi-los, impedindo assim que ocorram em larga escala.

Felicidade baseada em estímulos externos
Nossa compreensão de como a mente obtém felicidade afeta a nossa experiência com a mesma, ao influir nos meios que escolhemos para a sua busca. Em alguns ramos das ciências comportamentais, a mente é concebida como um aparato de entrada-saída, que responde apenas aos estímulos externos. Uma conseqüência deste modelo é que as sensações prazerosas e de felicidade são vistas como dependentes somente em estímulos externos. Felicidade é percebida como uma conseqüência direta dos prazeres sensoriais. Com tal excessiva ênfase nos estímulos externos como a fonte de felicidade, não é de se surpreender que os indivíduos sejam levados a acreditar que, ao serem materialistas, serão mais felizes.

Métodos de contemplação interior
Mas existe uma tradição que aponta um caminho oposto à busca da felicidade baseada em estímulos externos, e que mostra que sensações prazerosas serão geradas ao se bloquear a entrada dos estímulos sensoriais externos e calando-se o palavrório mental. Isso requer a prática regular de técnicas de meditação, através das quais o indivíduo experiencia o sujeito em si, em vez do sujeito experienciar os estímulos externos.

Ao se utilizar um método contemplativo, não há nada externo que possa se constituir num insumo para felicidade. Desde que seja praticada de forma disciplinada e regular, a meditação pode levar à mudanças na estrutura mental (nas redes neurais), fazendo com que a calma e o contentamento sejam traços perenes da personalidade. Em outras palavras, as faculdades mentais podem ser treinadas em direção à felicidade.

Quando essa visão é aplicada, economias atualmente consideradas estacionárias, estáveis e sustentáveis, podem ser consideradas bem sucedidas. Uma economia cujo PIB cresce continuamente, a uma taxa ambientalmente insustentável, pode ser vista como um fracasso, devido à sua incapacidade de promover o desapego da proliferação de desejos. Em função disso, as pessoas são levadas de roldão no processo. Uma economia estacionária pode sinalizar que estabilidade psicológica quanto aos desejos foi alcançada entre os consumidores.


INDICADORES E MENSURAÇÃO DO FIB

O Governo Real do Butão está formulando índices para o FIB, que irão avaliar, rastrear e guiar o planejamento do desenvolvimento do nosso país. Os índices FIB de nível macro podem ser sub-divididos em numerosos sub-indicadores que são úteis em diversos fatores.

Além disso, o Butão desenvolveu uma estrutura qualitativa conhecida como “lentes de FIB” para políticas e programas que têm por finalidade filtrar atividades segundo o ponto de vista do FIB.

Para se considerar um indicador como sendo válido segundo o FIB, ele deve demonstravelmente ter influência positiva ou negativa na felicidade. E os indicadores de FIB devem cobrir tanto as esferas objetivas quanto as subjetivas das dimensões do FIB, conferindo pesos idênticos tanto para os aspectos funcionais da sociedade humana como para o lado emocional da existência da mesma. A voz subjetiva, que tem sido relativamente sufocada nas ciências sociais como um todo, e nos indicadores em particular, está sendo restaurada nos indicadores do FIB, e isso está produzindo uma equilibrada representação de dados entre o objetivo e o subjetivo. Obviamente que a distinção entre o subjetivo e o objetivo não representa, em qualquer sentido fundamental, aquilo que é básico para natureza da realidade, que é na verdade o inter-relacionamento de ambos.

De uma forma mais geral, a descrição dos indicadores para o FIB pode ser expressa usando um ícone tradicional, a roda. No centro da roda se situa o cubo da mesma. Similarmente, a meta última do FIB é o bem-estar, a felicidade e a satisfação com a vida, aquilo que é o verdadeiro potencial na sociedade humana que buscamos atingir.

Os meios para se atingir essa meta são os raios da roda. No caso do FIB, esses raios representam os domínios, tais como o raio da educação, o raio da boa saúde, o raio do uso equilibrado do tempo, o raio da cultura, o raio da boa governança, o raio da vitalidade comunitária, o raio da resiliência ecológica, e o raio do componente material da existência – o padrão de vida.


PSICOLÓGICO
O domínio do bem estar psicológico abrange o contentamento, a satisfação com todos os elementos da vida, e a saúde mental. Uma vez que felicidade coletiva é a meta principal sob uma sociedade baseada no FIB, o bem estar psicológico é de primordial importância para medir o sucesso do estado em prover as políticas e os serviços apropriados. Entre inúmeros indicadores, a prevalência de taxas de emoções tanto positivas quanto negativas, o estresse, as atividades espirituais, o desfrute da vida, a satisfação com a vida, a auto-avaliação da saúde – seja física quanto mental – são calculados na população.

USO DO TEMPO
Tem se demonstrado que o domínio do uso do tempo é uma das mais eficazes janelas para qualidade de vida, uma vez que ele analisa a natureza do tempo que é despendido num período de 24 horas, bem como as atividades que tomam períodos de tempo mais longos. Uma importante função do uso do tempo é reconhecer o valor do lazer. Os laços sociais criados e compartilhados na socialização com a família e com os amigos contribuem significativamente para todos os níveis de felicidade e contentamento numa sociedade.

SAÚDE
Os indicadores de saúde avaliam o status de saúde da população, os fatores determinantes da saúde e o sistema de saúde em si. Os indicadores de status de saúde incluem a auto-avaliação da saúde, invalidez, as limitações para atividades e a taxa de dias saudáveis. Os indicadores dos fatores determinantes de saúde incluem padrões de comportamento arriscados, exposição a condições de risco, status nutricional, práticas de amamentação e condições de higiene. O sistema de saúde, que incluí tanto o sistema ocidental quanto o nativo, é medido a partir do ponto de vista da satisfação do usuário em diversas dimensões, tais como amabilidade do provedor, competência, tempo de espera, custo, distância etc.

EDUCAÇÃO
A educação contribui para o conhecimento, valores, criatividade, competências, capital humano e sensibilidade cívica dos cidadãos. Um domínio tal como o da educação não tem por objetivo meramente medir o sucesso da educação per se, e sim tentar avaliar a eficácia da educação quanto a se trabalhar em prol da meta do bem estar coletivo. O domínio da educação leva em conta vários fatores, tais como: participação, competências e apoio educacional, entre outros. Esse domínio inclui no seu escopo a educação informal (competências nativas, técnicas tradicionais orgânicas de agricultura e pecuária, remédios caseiros, genealogias familiares, conhecimento sobre a cultura e história locais), e educação monástica.

DIVERSIDADE E RESILIÊNCIA CULTURAL
A manutenção das nossas tradições culturais é uma das fundamentais metas de política pública do nosso país, já que reconhecemos o valor das tradições da diversidade cultural na formação da identidade, nos valores e na base criativa para o nosso futuro. O domínio da cultura leva em conta a diversidade e o número de instalações culturais, padrões de uso e diversidade no idioma e participação religiosa. Os indicadores estimam valores nucleares, costumes locais e tradições, bem como a percepção de mudanças em valores e tradições.

BOA GOVERNANÇA
O domínio da governança avalia como que as pessoas percebem várias funções governamentais em termos da sua eficácia, honestidade e qualidade. Os temas desses indicadores incluem liderança em vários níveis do governo, na mídia, no judiciário, na polícia e nas eleições.

VITALIDADE COMUNITÁRIA
O domínio da vitalidade comunitária foca nas forças e nas fraquezas dos relacionamentos e das interações nas comunidades. Ele examina a natureza da confiança, da sensação de pertencimento, a vitalidade dos relacionamentos afetivos, a segurança em casa e na comunidade, a prática de doação e de voluntariado. Esses indicadores possibilitarão aos formuladores de política pública rastrear as mudanças nos efeitos adversos para a vitalidade comunitária.

DIVERSIDADE E RESILIÊNCIA ECOLÓGICA
Ao focar no estado dos nossos recursos naturais, nas pressões sobre os nossos ecossistemas, e nas diferentes respostas de gestões, o domínio da diversidade e resiliência ecológica descreve o impacto do suprimento doméstico e a demanda nos ecossistemas do Butão.

PADRÃO DE VIDA
O domínio do Padrão de Vida cobre o status econômico básico dos cidadãos do país. Esses indicadores avaliam os níveis de renda ao nível individual e familiar, medem a segurança financeira, o nível de dívidas, a qualidade das habitações, e o montante de assistência em espécie recebida por familiares e amigos.


DESENVOLVIMENTO HOLÍSTICO
É nossa expectativa que os esforços na direção da elaboração de um índice de FIB possam prover não apenas para o Butão, mas também para o resto do mundo, um valioso conjunto de indicadores que possa ser utilizado para tornar os esforços em prol do desenvolvimento mais holísticos e harmoniosos quanto as suas metas e meios.

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Respostas a este tópico

No grupo DOWNLOAD DE TESES deste Portal, coloquei, à disposição dos interessados, no tópico A BUSCA DA FELICIDADE, cópia de uma tese que apresentei recentemente ao XVIII Congresso Nacional do Ministério Público (Florianópolis, SC, de 25 a 28 de novembro de 2009), na qual são discutidos assuntos como o conceito de felicidade, a mudança de paradigmas sociais, econômicos e ambientais e a proteção jurídica aos fatores materiais e imateriais que concorrem para o seu alcance (faço, inclusive, breve análise do caso do Reino do Butão, único país no mundo em que o direito de busca da felicidade é expressamente protegido por norma constitucional).

Espero que a tese possa colaborar para os debates e as reflexões que o tema da busca da felicidade está a propor.
Obrigada pela dica!
Cida,

Não estou te perseguindo, mas tenho que falar aqui de novo, me desculpe.

Parece brincadeira, o Butão tem uma polulação de 600 mil habitantes e vivem no exterior em campos de refugiados 107 mil Butaneses (que perderam a nacionalidade e foram expulsos do Butão).

É uma monarquia que se tornou constitucional em 2007, antes era absolutismo completo. Para se visitar o Butão o turismo tem que ser guiado pelo governo.

Aí vem um ministro deste país para falar sobre a Felicidade Intena Bruta, e um monte de pessoas levam a sério isto.

Tenham mais cuidado com a realidade!
Para começar, o próprio conceito de felicidade é nebuloso. Podemos lutar por direitos concretos: casa, comida, saúde, escola, cultura. Felicidade? Quem pode garantir felicidade a alguém? Alguém pode ter tudo e nao se sentir feliz. Vai ser obrigado a tomar anti-depressivos?

Freud disse uma vez que a felicidade só pode ser sentida por comparação. Temos um motivo para estarmos infelizes, ele acaba, estamos felizes. Se tudo estivesse bem o tempo todo, nem sentiríamos... Provavelmente seríamos infelizes, com aquela infelicidade difusa que caracteriza o que Machado chamou de "eterna insatisfação humana" (ver a esse respeito o delicioso conto "A Igreja do Diabo").

Fernando Pessoa falou disso de forma ainda mais sofisticada:

Trecho de Lisbon Revisited 2 (do heterônimo Álvaro de Campos)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Fui pesquisar, pois este tema é novo pra mim e estou aprendendo.

A democracia é recente, a questão dos refugiados do final do século XX. Trata-se da formação e discussão destes parâmetros. Os próprios refugiados não estão parados e há discussões no Conselho de Segurança da ONU.

Ou seja é um tema em dinâmica mutação.
Cara Cida.

Concordo que nada está fechado, entretanto temos que tomar cuidado, pois olhando a cronologia dos fatos o que se vê na história recentíssima do Butão não é nada agradável.

Talvez eu por ser mais desconfiado procure sempre olhar o que está por trás da notícia (um pouco de paranóia de minha parte!), e o que me deixou “encucado” é esta história recente do Butão. Eles abriram o país a TV e outras modernidades não faz dez anos, ou seja, até uma década o regime era o mais fechado do mundo, e as primeiras eleições foram ha dois anos.

Passar de um regime totalmente autocrático, com uma monarquia absolutista a propor o mundo um novo paradigma de desenvolvimento me parece um pouco cedo para aceitarmos com corações e mentes a proposta dos mesmos.

Cida, só não me tira o teu “post” do fórum, já estavam atribuindo a maldades da minha parte a retirada da tua última intervenção, e eu acho (eu acho, pode ter sido) que não foi por isto.
Eu retirei porque gosto de diálogo, de troca de saberes, de aprender e o tom da conversa ali estava pesado pra mim. Eu não preciso disto. Estou aqui para conhecer as coisas. Só isto. Me aprecia muito conhecer, entender, estudar. Eu não quero ganhar nada de ninguém.
Cida.

Não refutei o teu Post para ganhar algo. Se quisesse ganhar algo faria parte de algum governo (ou diretoria de time de futebol, é melhor ainda!).

Se o tom da minha conversa foi um pouco pesado, peço escusas, não estou escrevendo para ferir ninguém, mas muitas vezes sou um pouco enfático demais nos meus comentários. Quando sentires um tom pesado demais me comunique que reformatarei o meu comentário, não sou do tipo que goste de perder um amigo por causa de uma discussão.

Podemos adotar várias direções para subir uma montanha, podemos seguir reto como um alpinista, caminho curto, rápido e arriscado. Também poderemos serpenteando ao longo da mesma chegar ao mesmo ponto, caminho longo, também cansativo, porém seguro.

Indique-me qual o caminho que desejas que tentaremos chegar ao topo, e não precisa ser da montanha que escolhi!
Rogério, eu acredito num dos signficados da palavra conversação; dar voltas juntos.

Eu acredito que todos, todos sem exceção, tem algo a contribuir para a evolução da humanidade. Por isto, gosto de dialogar, apreciar a fala do outro, desde que o outro também esteja sinceramente querendo entregar o seu melhor. Aí é uma riqueza só que sai daquela conversa.

Esta é a minha praia. Deixar de lado formatos violentos de trocas humanas. Não necessariamente existam tantos traidores e maldosos capitalistas selvagens no mundo, que não possamos assumir com as nossas mãos novas formas de trazer propostas.

Meu grande desafio hoje é conseguir conversar com os mais renitentes, ver o que está por trás daquele discurso desrespeitoso e violento. Acredito que somente assim algo vá mudar. Sorrir e concordar com o discurso do amigo é fácil.

E, para entender, é preciso estudar, entender. Com aquele post eu queria isto, que todos nós, pessoas inteligentes que frequentamos este espaço pudéssemos dissecar os fractais daquele pensamento e construir argumentos e um entendimento de como pensam aquelas pessoas.

Ou a gente, na minha opinião, enfrenta este novelo e tenta descobrir o nó górdio das grandes questões que nos afetam - principalmente a violência estrutural que impregna a tudo e a todos - ou então teremos perdido a oportunidade histórica de trazer novos paradigmas.

Voltando a este post do FIB, me agrada muitiíssimo a possibilidade construirmos novos formatos de medir o desenvolvimento de um povo pelo parâmetro daquilo que este povo julgue ser felicidade. Esta discussão em si já é fenomenal. Se os amigos do Butão deram a ideia e podemos acolher melhor ainda. Todos tem com o que contribuir para melhorar a humanidade. Talvez o Brasil possa se utilizar de uma ideia butanesa e transforma-la em algo produtivo e mais criativo, inteligente. Quem sabe até ajudando os próprios butaneses a incluirem um outro indicador aos que eles já tem: o indicador de acolhimento a todos os seus compatriotas.

Aliás, a discussão do que é ser compatriota também está ficando quase anacrônica aos estudiosos de Cultura de Paz e Não Violência Ativa, como eu. Me interessa, por exemplo, estudar o que tem ocorrido em comunidades que exercitam a economia solidária, a moeda complementar, justamente por isto, pois se tornam verdadeiros 'países' em que as pessoas estão todas ali tentando não somente sobreviver como também se realizarem como pessoas e não como cidadãs.

Mas isto é história para outro post.
Cida

Voltando ao assunto original do post.

A idéia de desenvolvimento puro e simples me parece que nas mentes mais abertas, já está sendo abandonada.

Expressões como desenvolvimento sustentável, desenvolvimento social e outras na mesma linha de priorizar o homem antes de tudo me parece estar em marcha. A única coisa que tenho medo, é que pessoas de boa índole, com idéias corretas quanto à necessidade de um futuro bem melhor para a humanidade sejam coptadas por esquemas com duplo sentido.

Na minha vida tenho visto que é muito mais fácil enganar uma pessoa bem intencionada do que alguém que está procurando tirar proveito da situação. Mostrar um caminho para um mundo melhor, para alguém que tem este desejo internalizado no seu espírito, é simplesmente como prometer um doce para uma criança, ela aceitará sem saber que o mesmo poderá lhe causar cáries.

Não duvido das intenções da grande maioria das pessoas, acredito no homem como uma espécie que tem mais a contribuir do que destruir, mas exatamente por isto é que há pessoas usando a boa vontade de todos. Não podemos nos desiludir e cair no cinismo, mas se não caminharmos com os olhos bem abertos poderemos tropeçar e o tombo poderá causar danos definitivos.
Todas as pessoas são bem intencionadas - mesmo os 'hitleres'.

E, convenhamos, que não existe mais massa de manobra como no passado. Com o avanço do acesso à informação, o contingente considerável de pessoas aptas a escolher por si o mundo que desejam já é suficiente para começar um bom diálogo. E está aumentando com os esforços: pontos de cultura, Confecom, midias sociais, organizações sociais etc. etc. O povo não é bobo.

Tem um texto que gosto muito e ainda não tive condição de traduzir, infelizmente, http://www.eaglepeak.clara.co.uk/warhabit.html.

The War Habit, o Hábito da Guerra, de Edgard Canfor-Dumas, do Reino Unido, com quem tenho contato regular.

Pessoas querendo destruir sempre existiram, mas mesmo estas queriam construir algo - só que para si somente. A questão, no meu modesto ponto de vista, é saber qual era o motivo primordial delas e que as fez desviarem para o egoísmo e auto-centrismo (se é que existe esta palavra). A tensão é esta em nossa sociedade, aprender a conviverem egoístas e humanistas. Ou chegar ao "caminho do meio'.

Acho que a ingenuidade é destas pessoas, que tentam chegar ao final pelo meio mais rápido, sem levar em consideração os processos, as pessoas envolvidas e suas vidas. A história está cheia de exemplos.

Sair do paradigma da ideologia, da planilha, do plano bem bolado no papel e ir para a vida, para a situação real, me parece ser o desafio de linguagem de como lidar com estes chamados "cabeças de planilha". Isto é o que busco.

Postei aqui mesmo ( http://blogln.ning.com/profiles/blogs/nova-proposta-de-paz-de ) o texto de Ikeda sobre Competição Humanitária, em que ele questiona o "amor abstrato da humanidade ao dinheiro" e busca elevar a consciência dos leitores para o "foco no ser humano". Sair do conceito de cidadania, cidadão, para a discussão de valorização da vida, do ser humano e sua complexidade dentro da biosfera.

Estou lendo agora o livro Memórias de um Espantalho, de Boris Cyrunilk, sobre resiliência, sobre a capacidade de pessoas de superarem a aparência das situações mais dramáticas em guerras, genocídios, conflitos etc. e irem além, construindo algo completamente novo e criativo.

Não precisamos passar pela experiência de deixar cair uma bomba em nossas cabeças para reagirmos. É nisto que estou concentrando os meus estudos ultimamente. Estamos num momento em que milhões e milhões de pessoas querem ser felizes e viverem em paz, ao passo que alguns poucos - em proporção - tentam dominar para si todos os meios de riqueza.

Estou concentrada em como desarmar esta bomba. Do egoísmo para o humanismo.
Você vai no dia 12 no Sarau dos 7 mil... Se for será um prazer conhecê-lo. Abs.

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