Em 1974 Henfil traçou o perfil dos “machões da Rússia”

Desde o início da Copa na Rússia, vários vídeos ‘viralizaram’ na internet mostrando brasileiros assediando estrangeiros. Num dos vídeos, os brasileiros, aproveitando-se da falta de conhecimento da língua portuguesa de uma russa, fizeram-na repetir a frase “b. rosa” (1). Mas não foi o único caso. Outros vídeos mostram brasileiros aproveitando-se da cordialidade dos estrangeiros para coloca-los em situações ridículas, como o caso em que fizeram mulheres repetirem a frase “eu quero dar a b. para vocês”; ou fazendo um adolescente repetir frases chulas como “eu dei para o Neymar”; “eu sou veado” etc (2).  

 

O exemplo que vem da mídia

Essa “modalidade” de assédio, diga-se de passagem, não é novidade nesta Copa. Após a Copa de 2006 (na Alemanha), o roteirista Antônio Tabet (o “Kibeloco”), então como colaborador do programa Caldeirão do Huck (Rede Globo), publicou um vídeo em que brasileiros colocam japoneses em situação constrangedora (3). Até pelo vínculo de Tabet com a Globo (na ocasião era roteirista do programa Caldeirão do Huck), o vídeo fez muito sucesso. A boa receptividade do tal vídeo no Brasil é uma boa mostra da “civilidade” a que estamos nos acostumando – e que merece uma reflexão sobre a falta de educação que a mídia brasileira costuma propagar como “irreverência do brasileiro”. Como se isto fosse uma virtude. A propósito, jorram na mídia exemplos da estupidez disfarçada de humor. O que a mídia, hoje, condena com hipocrisia já rendeu inúmeros programas que promoviam o machismo; o sexismo; o preconceito; a homofobia; a baixaria política; a destruição do mínimo espírito de civilidade. Sobram exemplos esdrúxulos em programas como o ‘Casseta e Planeta”; “CQC”; “Pânico” etc. (4) (5) (6) (7) (8).

 

Henfil e a falta de educação dos “machões” brasileiros

Já em 1974, o grande cartunista e escritor Henrique de Souza Filho, o Henfil, traçou com precisão o perfil dos brasileiros no exterior. Para entender, eis uma ligeira explicação do contexto. Henfil passou uma temporada em Nova York entre 1973 e 1975 para tratar da saúde e tentar “fazer a América” na carreira de cartunista. Depois, lançou o livro ‘Diário de um Cucaracha’, que é basicamente uma compilação das cartas que ele enviou de Nova York aos amigos no Brasil falando das impressões dele como “cucaracha” vivendo na maior cidade dos EUA. Num dos trechos do livro, em missiva dirigida ao amigo Ivan Lessa, Henfil escreveu sobre o curso de inglês que estava fazendo e da infelicidade de ter dois colegas brasileiros em sala de aula. O Brasil estava em plena ditadura e Henfil falava, com ironia, do chamado “milagre econômico brasileiro” (o ufanismo do “Brasil potência” do governo militar).

Obs.: por ironia, o trecho faz comparação da atitude dos brasileiros com o machismo dos russos - hoje anfitriões da Copa 2018.

Eis o trecho:

"O grande problema do curso, no entanto, é aguentar alguns brasileiros. Tem uns dois que são o terror da centena de alunos de vários países que estudam no curso. São piores que os russos. E precisa ver esses russos. Eu não sabia que russo era tão chato assim, não. (...) E, mesmo assim, esses dois brasileiros conseguem irritar mais. Os dois garotões falam a aula toda em português, brincando, levando aparelhinhos eletrônicos que deslumbram a rua 46, se coçam, se mexem, lançam olhares conquistadores para professoras, procuram cantar as alunas. Uns miquinhos doentes. Meu Deus, o que o tal milagre brasileiro criou nestes filhos da elite brasileira... Lembra quando os americanos estavam na idade do ouro e chegavam aí no Rio todos arrogantes, conquistadores no meio dos selvagens, esportivos, inconsequentes e com neon anunciando: 'Sou americano, you know'? Deixa eu mudar de parágrafo...

Pois, Elsie, os filhos do milagre brasileiro são daí pra pior. Dá constrangimento quando os dois miquinhos param a aula pra contar (em português) que são do Brazil! Tanga! Pelé! Ponte Rio-Niterói! Ipanema! A irritação da ONU, que é minha sala, me deixa sem ação. E vira e mexe eles tentam me envolver na perturbação infantil da aula (a média de idade dos alunos é 30 anos na nossa sala, e tem gente de 50 anos), dizendo em português e alto: 'Olha que pernão tem a fessôra (assim mesmo, fessôra), ô Souza!' Todo mundo olha pra mim e vou te dizer uma coisa, não começo a derrubar o milagre brasileiro ali mesmo, na nossa sala, porque os filhos do milagre são fortes e bem alimentados. Algo me diz que vou ter que sair desse curso. Tá insuportável. Olha, é apavorante você estar passando na 6º Avenida e ver sair do Hotel Hilton um ônibus cheio de brasileiros batucando e gritando 'Brasil! Brasil! Brasil!' Aí, quando cruzam com um ônibus de passageiros, começam a fazer gracinhas conosco (eu estava dentro do ônibus), e quando o ônibus deles arranca, eles gritam felizes: 'Bicha! Bicha! Bicha!' E compram que compram. Elsie, é no exterior (contam horrores do comportamento dos brasileiros na Argentina e no Uruguai, né?) que a gente vê que tipo de ricos macacos o milagre brasileiro criou à custa do arrocho salarial de 90% da população. Constrange.”

(HENFIL, Diário de um Cucaracha. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1983, p. 139-140)

 

Fontes

1- Brasileiros fazem mulher russa repetir palavrões

 https://jornalggn.com.br/noticia/brasileiros-que-aparecem-em-video-...

2- Vários vídeos mostram brasileiros assediando estrangeiros

 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44549369

 

3- Copa de 2006: brasileiros assediam japoneses

http://www.youtube.com/watch?v=WLk7RhERQS0

 

4- Programa Casseta e Planeta fazendo humor com o assédio sexual

http://www.youtube.com/watch?v=VIEgLn6638w

5- Programa Casseta e Planeta – “a repórter da camiseta molhada” e “na África o que não falta é comida”.

http://www.youtube.com/watch?v=_lBv7rUkarM

6- Casseta e Planeta e o “tapa nas nádegas” da “repórter” Maria Paula.

http://www.youtube.com/watch?v=XbzSGqR7qo0

 

7- Programa Pânico e o constrangimento de pessoas públicas

http://www.youtube.com/watch?v=dWBJTEIn2ow

 

8- CQC e o rebaixamento da discussão política - o factoide do PEC da cachaça

http://observatoriodaimprensa.com.br/monitor-da-imprensa/o-factoide...

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