
p.s: a foto real é mera ilustração.
A encosta sempre esconde um povoado e tem sempre uma história a contar, o porquê do amontoar-se ali...Afundado detrás de colinas.
- Nesse dia que vos conto, quando lampejou o meu olhar nesta terra de mineiros em um povoado qualquer, onde o colonial não andou por lá, em suas casinhas sem eira nem beira, mas ainda faceiras, recolhendo em seus telhados as águas da chuva a gotejar.
- Chuva que trepidava em pingos grossos, espaçados, que caia arregaçando o cheiro da poeira numa tarde que ainda era Verão. Agoniava a quem passava, levando-os a passos desgarrados, esvaindo-se a rumos aquém.
_ Mas eram apenas pingos, pingos aqui e acolá,que mal diziam a calmaria
daquele trecho onde nada acontecia.
-Por ora, não havia festa na capela, onde a missa rezada uma vez ao mês fazia desabrochar um pouco de movimento por lá.
-Neste dia, sempre domingueiro, aconteciam encontros de caipiras, fazendeiros, e os não; que com seus chapéus e cigarros de fumo de rolo falavam da tosca costumeira, das vacas, do leite, de porcos, plantações, colheita. Faziam negócios de trocas, dividiam bandas de porco ou de garrote; tudo no único bar onde o copo de pinga girava sobre o balcão, ao lado da ruma de rapadura.
...Do Banco do Brasil falavam, de empréstimo e juros, conversas que fazem desconfiar, façanhas que correm nas veias dos mineiros. Falavam disso, ou simplesmente falavam sobre o tempo... Se ia chover ou fazer calor... Embora falar do tempo seja assunto circunstancial em qualquer lugar.
-Também as mulheres tinham lá os seus assuntos. Falavam dos meninos, da casa, da comida, das iguarias, da lida... Mas o assunto de mais agrado era falar de dores, uma em que doía aqui outra em que doía ali, e todas se entendiam nas dores; também, esses, assuntos circunstanciais em qualquer lugar.
-Voltando às chuvas, por vezes ela nem lavava os caminhos, mas os limpavam da presença humana, pois ninguém queria uma umidade que desconforta, a secar no calor do corpo misturando-se ao suor da labuta, onde somente à noitinha se tomavam banhos, lavando-se como gatos, por vezes apenas os pés. Banho completo ficava para os sábados no chuveiro de serpentina que pinga pingos espaçados, como a chuva lá fora. Ora a água fervente sapecava a pele, ora a água fria causava calafrios.
- Ainda, ao topar com a chuva, pelas cercas de bambu viam-se as mulheres com seus aventais recolher apressadas as roupas nos varais de arame farpado, pedaços de panos remendados de boa serventia, que por vezes lhes cobriam o corpo, quase sempre roupas de segundo uso, vindas da cidade.
- As crianças, de pé no chão, com seus narizes acatarrados, ficavam à espreita da chuva forte a lhes trazer enxurradas e cravar os pezinhos no volume caudaloso.
Há de se notar balaios por todo lado, tanto os usados pra colocar a roupa recolhida do varal, quanto pra guardar o milho pra botar a galinha no choco e pra embalar criança, e pra tudo mais a improvisar.
Durante a lida, as crianças de colo, carregadas na lateral dos quadris,
possibilitavam à mãe uma mão livre para outra coisa qualquer.Também, por vezes, as crianças eram carregadas por outras menores, do jeitinho que a mãe fazia. E os pequenos ficavam quietinhos no embalo do desconforto, calados por tempos, assim como os adultos comumente de falas espaçadas, sem alvoroço, sem pressa.
_Aquele monótono povoado de uma rua só, com traço impreciso de terrenos mal demarcados, mostrava simplicidade que não tangia constrangimentos, simplicidade que designava costumes.
Simplicidade que se apresentava nos rostos fatigados, na ausência de expectativas de vida, no apenas cumprir a demanda de cada novo dia, dando um tom nos semblantes sem fulgor, mas também desprovidos de angústia.
Era uma vida feliz, do tipo de felicidade que não salta aos olhos; do tipo em que o olhar é brando e absorto, heranças para gerações de filhos gerados em pencas, criados no chão batido, educados na perseverança que dá sentido à vida e não faz enviesar.
- E, por detrás dessa colina onde se esconde uma igreja sem eira nem beira, se
escondem matutos, muitos a virar doutores com o tempo, muitos a virar olhos galantes para donzelas, que, por sua vez, se tornariam professorinhas nesta terra de arraiais onde raia o céu, raia o sol, mas nunca arranha-céus.