Crônica de um linchamento anunciado - E agora, zé-mané???

 

Reprodução de avaliação crítica (ou resenha)

redigida por Liu sai Yam a respeito

do livro Escuta Zé Dirceu de Jair Antonio Alves,

anteriormente postado neste Portal

 

 

 

 

Resenhando e redesenhando

 

O Brasil dos zés não reconhece mais o Brazil do Zé, ou, Ninguém vai abrir o bico, quem tem bico é tucano!!!

Tonico, Tina e Frei não foram – não são ainda – espectadores passivos de um docudrama sem hora nem da
ta para o pano final, um happy-end que misture partido alto com Darcy Ribeiro, aquele que proclamou a bravura de um povo acostumado a realizar revoluções diárias porque há no sangue deste bravo povo a renitência, por mais que lhe vedem os canais de resistência.

Tonico, Tina e Frei são a unidade mediúnica da classe artística premida à luta política pelo direito, o dever, de fazer arte, e a necessidade de fazer de sua arte a ligação orgânica com este bravo povo brasileiro a quem prezam como ninguém, porque dele fazem parte, porque dia sim e outro também sonham com o momento preciso em que este povo fará a arte que lhe cabe, na festa que lhe é de direito, nas roças e avenidas que lhe pertencem, mas lhe são negados.

 

“Não vejo como isso possa vir a acontecer neste momento(...) Talvez seja interessante repassar para os empresários a concessão, desde que eles paguem os custos dos equipamentos que foram financiados com o dinheiro dos serviços que a população utilizou, nos últimos 20 anos”.

 

Esta frase dita por Zé ao Tonico é o despertar de um velho sonho e a sinalização de que a luta há de continuar. Por Tonico e os zés novamente ninguéns. Piero Nadie na estrada, corpo a corpo com a poeira da estrada, e dos sonhos sempre reciclados. La Vida Es Sueño... Para seguirsonhando foi preciso acordar. Zé acordou os artistas para o sonho que continua. Um grande, imenso, projeto político adequando-se ao figurino realpolitik.

Artaud entra em cena, Tonico e Tina se internacionalizam na previsão da tragédia do controle da informação. A “loucura” com último recurso ao resgate da razão. Arlington e os heróis de guerra sangrando em Technicolor. O Zé Carioca embaixador do aquele abraço ainda cheio de uma Capital Federal que iria isolar-se no deserto. A guinada de projeto de um partido que chegou ao poder no peito e na raça e entregou de mão beijada, entregando a voz, a voz calada pela força e calada depois pela força da grana que só destruiu coisas belas.

E agora, José? E agora, Jair? E agora, Zé Dirceu?

Não falamos de manifesto, nem lamento, nem toada, nem saudade. Falamos, pelo Zé que está hoje respondendo por uma política de escolha consciente, companheira, sindical, clandestina, corporativa, bandida, imperialista, as contradições de poder afinal ser Poder... para oPTar em poder nada. Para escolher a complexidade dos acordos com o verdadeiro Poder. Para entregar o ouro ao bandido. Para botar a corda no pescoço.

"Escuta Zé (Dirceu)", de Jair Tonico Alves é drama in progress (ou tragicomédia ou pastelão ou Memorial do Convento das Putas Virgens). E é sonho que se sonha caminhando. Pelos eternos caminhantes: os artistas que iinsistem em ser brava gente, em expressar a gente brava.

O luto continua, por isso a luta.

 

(E haja dossiês, todos guarnecendo a cabeça e o rabo...).

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