A World Without Water from senseisoke on Vimeo.
Quando era pequeno, lembro de ficar imaginando o que seria pior, viver sem luz ou sem água. Ia listando os prós e contras de cada situação hipotética, que por vezes se tornava real. Não raro ficávamos sem água ou luz num apertado apartamento em Botafogo, que sempre me vem à mente quando escuto a música Big Brother, do antológico disco Talking Book do Steve Wonder. Ficar sem água, claro, ganhava disparado na disputa imaginária que eu fazia. Não ter como se lavar nem limpar as coisas, ficar sem ter o que beber, nem ter como se refrescar... dureza total.

Toda essa viagem ao passado me ocorreu ao ver a garotinha boliviana nesse documentário Um Mundo Sem Água, do Channel 4 chorando por não ter amigos. Ela é chamada de 'porquinha' porque não toma banho e não o faz simplesmente porque a família não tem dinheiro para pagar. Foda.

Cerca de 1/3 da população mundial vive sem acesso pleno à água. Em 40 anos, especialistas estimam que metade do planeta sofrerá dessa escassez. Do jeito que estamos poluindo mares, rios, aquíferos, lagos, matas e ar, esse número só tende a crescer assustadoramente - principalmente na África e Ásia.

E nesse meio tempo, empresas vão tomando conta das fontes de água limpa que restam, privatizando um bem comum e cobrando cada vez mais por isso. Na Índia, mostra o documentário, chegamos ao absurdo da população do Rajistão ter que brigar com a Coca-Cola pelo direito à água subterrânea da região! A empresa suga 500 mil litros de água todos os dias para fazer seu refrigerante, deixando fazendeiros e comunidades inteiras sem água nos poços.

O que é preciso para impedir que um direito básico do ser humano seja usurpado em nome do lucro? Protestos? Quebra-quebra? Guerra civil? Massacre de civis?

A crise da água fresca, como alguns especialistas já a chamam, já bate em nossas portas e deverá ser mais severa e crítica do que a financeira e climática que temos hoje juntas. Para muitos, no entanto, o absurdo de termos uma crise de água fresca num planeta 70% coberto por água ainda é papo de eco-chato, de quem reclama de tudo sem perceber a maravilha que é um pôr-do-sol em São Paulo - mesmo que a cor alaranjada do fim do dia seja puro reflexo da poluição da cidade.

Com esse pessoal, a garotinha boliviana não pode mesmo contar.

E onde está o X da questão? No consumo. Tudo o que consumimos gera impacto, muitas vezes terríveis para determinadas regiões. Produtores podem desmatar uma Amazônia inteira ou redesenhar uma praia ou acabar com parques marinhos como o de Abrolhos se o mercado consumidor assim o exigir. Algumas economias, como a americana e européia, são viciadas em consumo e assim jogam pelo ralo a sustentabilidade que poderia garantir o equilibrio socioeconomico necessário para se evitar novas crises.

Para alguns, conforto é prioritário à saúde, ao bem-estar de outras comunidades, à natureza, às comunidades tradicionais. Mais do que financeira, climática ou de consumo, a crise é de valores. Mas isso uma hora tem que mudar - por bem ou por mal.

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Respostas a este tópico

Caro Jorge Henrique, o que estamos fazendo aqui, diante desta brilhante ideia do Nassif, é um dos caminhos a serem trilhados para resistirmos ao que o neoliberalismo fez e ainda faz conosco. Vamos em frente, junto deste portal trabalharmos para essa mudança. Minha família está na luta, acho que o caminho passa por aí também.
No Brasil sobra água.
É louvável a preocupação com a falta de água no mundo, esta notícia é colocada de forma incompleta e alarmista. Falta de água é uma constante na história humana, tanto em quantidade como em qualidade (o mais importante), a 3000 anos quem vivia no norte da África já tinha problema de falta de água, em 1950 a Europa tinha um problema de falta de água em termos de qualidade, a Holanda que suas fontes de água provinham de rios que passavam por outros países (Alemanha,...) recebiam águas em quantidade suficiente, mas completamente poluídas. Ou seja, água não é um recurso inesgotável, é sim um recurso finito que deve ser bem gerenciado.
A novidade é o alarmismo na notícia, “... o fundo do poço.”. Não estamos no fundo do poço, a África (excetuando as áreas áridas), a maior parte do sul da Ásia, grande parte da América do Norte e Central, e PRINCIPALMENTE o Brasil tem água em quantidade (não em qualidade) em excesso! O problema mundial é falta de um gerenciamento adequado do recurso água e falta de tratamento dos esgotos dos centros urbanos e industriais, um exemplo disso é a situação de São Paulo, nenhum paulista pode nos últimos meses falar que falta chuva em São Paulo.
A solução dos problemas pontuais para a falta de água é dada em dois níveis, o político que deve ser discutido por todos e o Técnico, que deve ser resolvido por TÉCNICOS. Não se deve inverter a solução, primeiro é a solução política, entre países, regiões e consumidores e equacionada esta deve ser deixado para a área técnica a execução do que foi resolvida pela comunidade em geral.
Alarmismos e ecopatias só servem para confundir e criar um cortina de fumaça sobre o problema técnico, falar que hoje em dia há falta de água na Bolívia é simplesmente desconhecer a história, entre os anos 800 e 1200 os Incas e povos que antecederam construíram canais de irrigação que atingiam até 40 km, tudo porque já nesta época faltava água. Os próprios Incas utilizavam sistemas de irrigação baseados na condensação da água durante a noite.
Voltando ao primeiro parágrafo, em quantidade não falta e não faltará água em 80% da superfície do nosso país, nos 20% restantes faltam ações políticas corretas no gerenciamento dos recursos hídricos. Quanto a qualidade tem-se próximo aos grandes centros de consumo problemas pontuais de qualidade de água, estes problemas com a decisão política e com o uso da boa técnica podem ser resolvidos. Insisto não devemos colocar na cabeça da Dona Maria e do Seu João que moram distante de regiões com falta de água a culpa da falta de água no Saara e transformá-los em criminosos quando eles usam a “vassoura hidráulica” para varrer a sua calçada.
Não sei de onde vc tirou os dados para afirmar que não estamos 'no fundo do poço', quando a ONU e diversas outras entidades mostram que o problemas é sério e grave. Ter água em quantidade não significa coisa algo, já que não a temos em qualidade. O problema não é só de gerenciamento, é também de exploração predatoria por parte de empresas, desperdicio por parte de todos (inclusive pela Dona Maria e o Seu João que jogam litros e mais litros fora lavando a calçada, deveria ser multados pesadamente), de mudanças climáticas.

Ecopatia? Vc só pode estar brincando... então todos os que aparecem no documentário estão loucos?, viajando na maionese? Têm interesses escusos ao alertar para um problema grave? Se no anos 800 e 1200 os incas construíram canais, é porque trouxeram água para todos. O que há lá agora é segregação economica.

Vc diz que não faltará água. Diga isso para o 1/3 da população mundial que hoje já sofre para conseguir água com qualidade. Diga isso para outros milhoes de pessoas que deixaram de ter água potável nas proximas duas ou tres décadas.

O pior cego, definitivamente, é aquele que não quer ver....

(Ah, devemos SIM, colocar na cabeça de Dona Maria e Seu João que eles são responsaveis por desperdiçar um bem comum e essencial à vida. Mas além da culpa, tinham que pagar uma pesada multa. Quem sabe se tocam e param de fazer besteira?)
Caro Jorge Henrique
Já estava esperando uma reação como a tua, mas vamos logo aos fatos.
Em nenhum momento eu disse que o problema de falta de qualidade de água não existe, em nenhum momento eu disse que a responsabilidade é de todos, mas não preciso ficar repetindo o que os outros dizem para estar certo. Vou tentar responder ponto a ponto as tuas indignações.
Falar que a falta de qualidade de água é mesma coisa do que a falta de quantidade é impreciso. Quando tenho um manancial com quantidade de água suficiente e este é poluído por indústrias ou por pessoas físicas estamos na frente de um problema diferente que a inexistência de água. Um beduíno no Saara não tem simplesmente água para viver nos padrões normais, ele tem que adaptar a sua forma de vida para a existência no deserto, já um habitante de uma grande cidade como São Paulo, tem água em abundância e o que ele tem que fazer é devolver esta água com o mesmo grau de qualidade (ou até melhor) do que ele recebeu. Um problema é transportar, tratar, armazenar, utilizar e recuperar, outro é captar, tratar, utilizar e recuperar, são duas situações totalmente distintas com um BALANÇO ENERGÉTICO de diferentes proporções. Sem maiores cálculos poderia dizer que fornecer um litro de água a mais para o nosso hipotético beduíno consumirá mais energia (por conseqüência maior poluição) do que fornecer 100 litros de água para um paulista.
Quanto ao comentário sobre a sociedade Inca posso dizer com firmeza que esta não era nada democrática (muito antes ao contrário) e aqueles que construíam os canais certamente não eram os beneficiados com ele.
O que a ONU fala sobre a água é exatamente na direção que estou falando, devem-se tomar providências POLÍTICAS para que a água com qualidade chegue a quem precisa. Gerenciamento, racionalização de uso, coleta e tratamento e distribuição deste recurso mineral a quem precisa é o que deve ser feito.
O problema na África, na Ásia e na América Latina é mais da inexistência de saneamento da água do que inexistência da mesma. Água não tratada, falta de redes de esgoto e tratamento das águas servidas é o problema principal das regiões denominadas. Se compararmos o índice de pluviosidade média dessas regiões com a Espanha, por exemplo, veremos que elas têm mais disponibilidade de água que os nossos amigos ibéricos, entretanto a Espanha não está elencada neste rol de locais com falta de água!
Padrões e normas de consumo devem ser adaptados conforme a disponibilidade hídrica, um habitante de uma capital do Nordeste brasileiro não deveria utilizar válvulas de descarga em seus sanitários nem lavar seus carros com a mesma freqüência que um habitante da Amazônia. O tipo de irrigação numa região seca não pode e não deve ser a mesma que numa região com abundância de água. Não podemos pensar em plantar arroz no Nordeste como se faz na região sul.
A dona Maria e o seu João que tem um monte de preocupações deveriam ser impedidos de impermeabilizar o seu pátio e não de usar a água para o seu conforto. Na primeira hipótese eles estariam provocando um problema a sua cidade, na segunda hipótese a sua conta de água seria mais alta (ou seja, a punição já vem por aí).
Eu adaptaria um pouco o ditado, pior cego não é aquele que não quer ver, mas sim aquele que vê exatamente o que querem que veja.
Sou contra este discurso ecopata, pois ele desvia da direção correta da solução do problema, falar que falta água em todo o mundo é uma inverdade, o que falta na maior parte dos países atingidos por penúria de água é SANEAMENTO BÁSICO, não podemos transferir o discurso de ONGs européias para nós sem verificar o que realmente existe. Só para dar um exemplo numérico, a Alemanha numa área de 35.7021km² possui uma população de 82 milhões de habitantes e um volume útil de água de 188 km², o Brasil numa área de 8.511.510km² possui uma população de 196 milhões de habitantes e um volume útil de água de 8.233km². Em resumo cada brasileiro tem um volume disponível de água 18 vezes a água disponível na Alemanha.
Qual é a diferença do Brasil e Alemanha, o alemão utiliza 18 vezes menos água que o brasileiro? Não, o consumo por habitante na Alemanha é maior do que o consumo Brasileiro. Na Alemanha é de 460m³/(habitante.ano) e no Brasil é 318m³/(habitante.ano), ou seja, eles possuem 18 vezes menos água por habitante que os brasileiros e consomem mais! Deixe a dona Maria e o seu João terem um prazer a mais na sua vida (que já são poucos) o Her Johan e a Frau Marichen que devem se preocupar com isto, se alguém está desperdiçando não somos nós.
Poderia citar mais alguns fatos, mas não estão no Discovery Channel nem no site do Green Peace!
Mais uma pequena observação, quanto aos dados, eu sei bem onde tiro. Como mestre em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental a mais de vinte anos e professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas a 32 anos, sei bem o que estou escrevendo! Não preciso ficar repetindo press release de ONGs.
repetindo release de ONGs? De onde vc tirou isso, Rogerio? Seja claro, nao fique dando voltas...

O fato é: temos exploração predatória dos recursos hidricos, aumento da população, poluição dos mananciais, rios, lagos e aquíferos, e vc vem me dizer que nao falta água?

A questao da crise da água está na agenda de todo o mundo e não é com um discurso técnico que vamos resolve-la. É preciso agir politicamente e tambem conscientemente. Se dona Maria e o sr. João quiserem desperdiçar água, que o façam sabendo que serão punidos severamente como quem ultrapassa o limite de velocidade em ruas. Que façam o que quiser com o que conseguirem colher da chuva, mas não com o que vem do sistema publico de abastecimento de água, porque lá na frente, quem vai pagar somos todos nós pelo esbanjamento de pessoas sem noção como D. Maria e S. João.

A ONU fala da necessidade de se implementar politicas para que a agua chegue a quem precise, mas fala tambem que é preciso uma regulacao maior da sua exploração, que em muitos países - principalmente em desenvolvimento - e feita de maneira injusta.

Nao sei onde vc viu um discurso eco-pata, mas esse tipo de critica é tipico de quem prefere ficar nas instancias tecnicas, apresentando resultados e solucoes que ninguem implementa, acabam sempre na gaveta, A NAO SER que os 'eco-chatos' e a sociedade civil peitem os tecnicos e politicos para que façam o que tem que ser feito para piorar a situacao.

Em tempo: ONGs são a voz da sociedade civil. O seu deboche a elas é emblemático de como a academia e seus bilhantes técnicos, mestres e professores se distanciaram da realidade. Se fecham em copas e discutem o sexo dos anjos. Normalmente, quem tá na luta pra cobrar a implementação de solucoes viáveis é justamente esse pessoal que vc e os seus tratam com desdém.

O que adianta vc ser professor disso, mestre naquilo há décadas e continuar ruminando que tá tudo bem, tudo se resolve lá na frente... e a bagaça toda indo pro saco...
Caro Jorge
Se leres na minha primeira resposta, deixei claro que a primeira instância deve ser sempre política “A solução dos problemas pontuais para a falta de água é dada em dois níveis, o político que deve ser discutido por todos e o Técnico, que deve ser resolvido por TÉCNICOS”, não sou adepto de soluções ditas técnicas sem consulta a sociedade, pois elas SIPLESMENTE NÃO EXISTEM. Soluções técnicas são escolhas de diversos métodos para resolver um problema ao menor custo, mas quem define qual o problema a ser resolvido é a sociedade.
Diferentemente do que estás fazendo, não estou personalizando a discutição, vejo somente nas tuas colocações a repetição sem muita reflexão do encontrado nos sites ecopatas de diversas ONGs. Estou te conclamando a reflexão e talvez nestes trinta e dois anos de professor ruminando sobre o que faz as coisas não andarem para frente, vejo centenas de jovens aceitando o senso comum como lei. Estou me contrapondo a este senso comum, o que é bem mais difícil do que repetir o já escrito. Há muitos anos atrás lá nos anos sessenta e setenta quando a dita “solução técnica” (que não existe) me contrapunha ao senso comum da época (bem mais difícil do que nos anos de hoje!), hoje em dia vejo uma inversão perigosa do comportamento, as pessoas deixaram de lado uma posição racional para uma resposta puramente emotiva sem refletir sobre os fatos.
Não vi nas tuas respostas nenhuma ponderação sobre os quantitativos que escrevi, não citaste nada sobre os números por mim escritos, um volume de água num país e uma população são dados quantificados, o consumo per capita de água tratada também o é, porque negares as evidências, vamos lançar sobre as costas dos brasileiros mais uma culpa que eles não tem? Vamos infernizar a vida das pessoas por problemas de outros, criando uma sensação de impotência, pois não é por nós resolvidos. A carência de água nas regiões semidesertas não será resolvida pela economia do uso da água em regiões com abundância deste recurso. Não entendo esta lógica, a Dona Maria não lavando a sua calçada com água vai melhorar a vida do Beduíno no deserto? Se pudéssemos transportar esta água a baixo custo para regiões carentes cerraria fileiras no grupo de defensores da economia universal de água, infelizmente o que podemos fazer é produzirmos mais alimentos com a água que nos sobra e de alguma forma levá-los as regiões carentes. Mesmo assim devemos ter cuidado, muitas ações ditas humanitárias européias derramaram alimentos a custo zero, resolveram o problema da fome durante uma seca e transformaram em permanente esta dependência devido à falência da agricultura local (que produzindo mesmo pouco se capitalizaria para outras épocas).
Meu caro, nada é simples neste mundo, discursos reducionistas dão soluções simples e geralmente erradas. A reflexão é penosa e demorada, mais o resultado é mais confiável.
Artigo de Peter Rogers, professor de Engenharia Ambiental da Universidade de Harvard, sobre a crise da água no mundo:

"Em todo o mundo, a demanda por água doce dobra a cada 20 anos, devido ao aumento da população e de sua riqueza. Mas a poluição, as mudanças climáticas e a contaminação de água do mar estão reduzindo a oferta em velocidade semelhante. Estamos então nos aproximando de uma crise global de água doce?

Felizmente, a situação parece ser menos alarmante. Isso não significa negar que a oferta de água doce esteja se restringindo. Sem cuidados, pode haver fortes interrupções no fornecimento para a sociedade.

Muitos argumentam que a água é diferente de outros recursos como petróleo porque geralmente não há substitutos para a água na maioria dos casos, especialmente no plantio de alimentos. Além disso, a água é essencialmente um recurso fixo, ainda que se renove todo ano.

Há enorme quantidade de água no mundo, mas a maioria é de água salgada do oceano e de águas subterrâneas. Há grandes reservas de água doce, mas a maioria nos glaciares e calotas polares, com um pequeno percentual disponível imediatamente onde e quando precisamos. O fornecimento de água é também altamente variável entre as regiões e dentro dos países, com enchentes e secas ocorrendo em tempos irregulares.

Um novo fator influenciando a oferta de água doce é o aumento da temperatura global. Apesar de não estarmos seguros sobre os efeitos exatos, muitos cientistas acreditam que a precipitação anual vai crescer, mas que sua sazonalidade e a frequência de extremos também pode aumentar. Isso tornaria mais difícil o uso da infraestrutura existente de represas, reservatórios, sistemas de tratamento e encanamentos sem grandes modificações.

Dos textos dos pioneiros comentaristas modernos dos propulsores de crescimento sócioeconômico e do declínio - Adam Smith, Edward Gibbon, Thomas Malthus, David Ricardo e Karl Max - vemos que a preocupação com o esgotamento dos recursos não é nova. Malthus e Ricardo estavam particularmente cientes dos papéis de recursos como população, comida e energia.

Malthus desenvolveu uma taxa geométrica de crescimento da população (como juros compostos em uma conta bancária) e uma taxa aritmética de crescimento (juros simples em uma conta bancária) da produção de alimentos.

Essas curvas sempre se cruzam após algumas décadas e Malthus previu a expansão da fome e de conflitos violentos: comida e população estariam alinhados um ao outro por "miséria, guerra, epidemias e vício".

Ricardo projetou "retornos decrescentes" dos investimentos em recursos, onde os melhores (com menor custo) recursos são usados antes, seguidos pelos próximos melhores e assim por diante. Demanda crescente por recursos leva a aumentos de preço que continuarão até que o recurso se torne muito caro para ser usado.

Claro, essas restrições existiam ao longo dos séculos anteriores, antes de Malthus e Ricardo as terem articulado, mas seres humanos são capazes de "enganar" a situação, ao ampliar a base de recursos (vide o colonialismo) para trazer recursos e comida mais baratos; ao encontrar substitutos para recursos escassos; ao melhorar a tecnologia de maneira que a mesma quantidade de terra e recursos possa ser usada de forma mais eficiente.

Porque agora o mundo está praticamente completo, há poucas oportunidades para expandir a oferta física de recursos. A verdadeira questão que o planeta enfrenta agora é se podemos continuar a aprimorar nossa tecnologia e a encontrar substitutos mais baratos. Apenas porque algo funcionou nos últimos 200 anos não significa que necessariamente continuará a funcionar. Este é o ponto central do problema do fornecimento global de água.

Mas podemos evitar uma crise ao adotar as seguintes adaptações técnicas e administrativas:

- Comércio de água virtual - a quantidade de água que é usada na fabricação de um produto (geralmente alimentos) e no envio para ser usado em outro lugar. Isso permite que aquele que recebe o produto economize ao não usar sua própria água, que pode ser utilizada em atividades de mais alto valor;

- Conservação da água de irrigação - Como agricultura responde geralmente por algo entre 75% e 90% de toda a água consumida em um país, um ganho de eficiência de 10% poderia economizar tanta água quanto aquela usada por prefeituras e pela indústria. Outra maneira de aumentar a eficiência da irrigação é o desenvolvimento de grãos que produzem mais alimentos com a mesma ou menor quantidade de água. A pesquisa de alimentos geneticamente modificados está avançada em muitos dos grandes países com água escassa, como China e Índia;

- Exploração de dessalinização avançada - Modernos desenvolvimentos em dessalinização trouxeram o custo por unidade de água do mar dessalinizada a níveis comparáveis ao de obter água doce a partir de recursos naturais.

- Ampliação da reciclagem de água - Áreas urbanas geralmente gastam cerca de 85% de sua oferta de água doce com água desperdiçada. O desperdício pode ser tratado e usado para repor águas subterrâneas. Expandir o uso de tecnologias como a separação da urina em banheiros poderia também reduzir as demandas de água nas áreas urbanas.

- Desenvolvimento de políticas criativas e baratas para uso de água nas áreas urbanas e o desperdício de água. Estimar o preço da proteção da saúde humana e do ecossistema é difícil porque formam parte das externalidades associadas ao uso da água. No entanto, muitos usos da água podem reagir de maneira positiva a preços mais eficientes.

Evitar uma crise global de água não será fácil, mas temos à disposição políticas e tecnologias que, se corretamente aplicadas, podem nos levar de forma segura pelas próximas décadas, mesmo considerando uma população maior e consideravelmente mais rica."

(publicado originalmente no blog Verde, do Globo Online.
Fábio
Posso até complementar o que escreveste com um fato ocorrido a quase mil anos.
Historicamente é sabido que os Vikings "COLONIZARAM" a Groelândia e o norte da América por um período de quase cinquenta anos quando era POSSÍVEL a AGRICULTURA na Groelândia. Também se sabe que este mesmo povo na América do Norte cultivou UVAS em locais que hoje em dia com o propalado aquscimento global não se pode produzir esta cultura.
Na realidade o que existe é uma grande IGNORÂNCIA de todos (TODOS MESMO) sobre as variações climáticas. Nos anos viinte do século passado se dizia que a Terra estava aquescendo, nos anos setenta se falava numa nova idade do gelo, nos anos noventa o aquescimento global entrou em voga, e hoje em dia cientistas renomados prevêem um novo resfiamento da Terra.
Durma-se com um barulho desses.
A questão toda não se resume ao fato do planeta estar se aquecendo ou esfriando. O bordão 'aquecimento global' tem dessas coisas, confunde mesmo. O que estamos na bica de viver são mudanças climáticas aceleradas pela atividade humana de poluição dos ares, mares, terra, em nada benéficas tanto para o homem como para o planeta. Será que o colapso de 80% dos recursos marinhos, da água potável, do solo, dos mares, do ar que respiramos, não é o suficiente por si só para vermos que o modelo de desenvolvimento praticado até aqui não é o adequado para termos uma vida sustentável? Será que vamos ter que esperar até o ponto de não-retorno para então tomarmos novos rumos? Será que é preciso dar merda pra gente se tocar e fazer a coisa certa?
Caro Jorge Henrique
Não sei bem se é o que procuraste transmitir, a questão não é o aquecimento global a questão é bem pior do que isto.
Montamos uma sociedade baseada no desperdício onde a racionalização do uso dos recursos naturais é uma constante, por exemplo, abandonamos o transporte ferroviário e hidroviário pelo rodoviário, porque este último “criava mais empregos”.
A produção de energia hidrelétrica tem sido deixada de lado para as termoelétricas. A obsolescência planejada é o mote da nossa indústria. Verticalizamos as nossas cidades e impermeabilizamos o solo urbano para depois sofrermos as conseqüências de tudo isto.
Ou seja, como tu disseste o modelo todo não é sustentável, não é a diminuição de CO2 que vai resolver uma enorme confusão.
O pior de tudo que as soluções todos sabem, não é um problema técnico, é político.
Jorge
Lendo seu relato e tentando entender o porque da pequena menina boliviana passar fome e ficar sem banho, é que resolvi encrever essas linhas.
O planeta é constituido de 70% de agua, como podemos admitir seres humanos passando sede?
Minha unica explicação para esse drama é que o ser humano que passa sede, é porque carece de energia. Sim energia, para transportar, bombear, tratar, despoluir, desalinisar a agua que nos humanos tanto necessitamos.
Todos os pobres do planetas são na verdade os sem energia, não podemos dissociar uma coisa da outra, se tentarmos diminuir o ritmo da produção de energia, estaremos na verdade fabricando mais meninas com fome e sem banho.

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