Crise de representação. Crise de ausência. Crise nas idiotias

A presente crise brasileira, do político ao econômico, reside em várias cascas, níveis e facetas. Por ser complexa, não há que se falar em núcleo de crise. Complexa e indetectável quanto aos focos e causas. Será verdade?

Este escrito é fruto pretensioso. Pretende exaurir a identificação do núcleo aparente da crise. E seu núcleo de fato. Didaticamente o mistério se resolve por este verdadeiro 'alinhavo cognitivo'. Uma arrumação ( precedente ), das idéias, ao diagnóstico. O que, do que, seria causado qual…

Crise de representação ( ou da impossibilidade de se contingenciar o político, numa democracia ).

Desde o não enfrentamento dentro das premissas de regulação da mídia ( ora, dirá você, explicar a marcha e velocidade dos camelos, pelo tamanho do deserto…?! ), o custo político do enfrentamento desta mencionada regulação, do qual foi decidido que não seria assumido por este atual governo ( ou desgoverno, questão de opinião..! ) , foi escamoteado dentro da seguinte – e inexorável – premissa: Dilma está eleita para escolher o que fazer. Escolherá ( foi dito ) nada regular da mídia. A presidenta é uma democrata e pluralista incorrigível. Pois bem.

Dilma foi eleita para não meter os pés pelas mãos. Isto em português bem claro. Bem antes do direito ( e da folga, neste direito ) de escolha do caminho contingencial, do político e das custas políticas por definição, cabe-lhe a igual e simétrica responsabilidade e dever de não entornar o caldo.

Em outras palavras, o direito de escolha é bem posterior à responsabilidade inerente ao cargo. Deste tipo agora seguinte, quase um anúncio, é de se duvidar: será que alguém conseguiria realmente dizer algo – e desta ordem declarar – à Presidenta pluralista. Ou se alguém, habilitando-se a isto, conseguiria ser ouvido. Ou ouvida.

Aqui, estivéssemos na cozinha, vem a calda do doce, iogurte ou do flan. Alguns dizem, ou autorizadamente, por conhecimento - ou mesmo por experiência pessoal e militância - que nisto nem precisaria negociar, editar lei ou sofrer pela postergada regulação de mídia.

Bastariam serem cortadas as asinhas da distribuição de verbas, as propagandas oficiais. A mesma que tem por base leitura de audiência do que a globo afinal sequer entrega, nem dá e... tampouco tem. Record e “Os Dez Mandamentos” que o digam. E nas recentes leituras de audiência da empresa alemã concorrente do Ibope, dizendo todas as verdades.

Ou, mais açuladamente, empreender mais rigor fiscalizatório com as elisões, corrupções tributárias e fiscais da globo. Os maiores empresários do país não jazem expostos ( família inclusa ) no cadafalso da República do Paraná? Por que com os da globo seria menos, seria diferente?

( notar, obséquio feito, que não estamos a falar da doutrina cardosiana daquela polícia federal republicanamente independente; mas sim da Receita Federal e Advocacia Geral da União. Havendo, e vendo como até um cego consiga ver, excesso de independência por dentro da sina da inoperância, sob semelhante forma..! )

Ao tão mal estimar o risco do caldo entornar, não identificando a atuação de complexo midiático como se partido político fora ( notar, sem um votinho na conta, um sequer ), desde sua própria eleição em 2010, a Presidenta só pronuncia de fato uma das duas das respostas abaixo: ou não consegue governar, ou não quer governar.

Dizer que governar passaria a ser apenas comissionamento direto 'para escolher em lugar de', é não querer saber... ou pelo menos olvidar, o seguinte e sucedâneo risco. O de entornar o caldo. Neste aspecto, os dias atuais, semana após semana de 2015, espelham fiel e claramente, um roteiro de desnecessidade: desgaste do governo, desgaste das esquerdas e desgaste do PT. E mais ainda, um fino tremor de terra, que vem assolando mentes mais habilitadas: um prenúncio de um terremoto, o da desativação das políticas protetoras do extrato social encontrado mais pobre e carente, já agora em 2017. Pela via da contenção, viaualizada dentro do presente orçamento da União.

O que, pelo andor da carruagem presidencial, era e seria 'apenas' risco de escolha, agora consegue ser junto com a trombada de nove e dez por cento de desemprego, com a sombra de três anos de crescimento negativo, e PIB negativo e previsível (!) de 2015 da ordem de 8% (!) reais ... risco real do caldo entornado. ( nada ainda, se comparado aos dois ou três mandatos vindouros a seguir, nos quais a esquerda chegue e.compareça à campanha presidencial, mas solenemente acompanhada e adjetivada de sonoro palavrão, por parte do eleitorado ) ...

Este tópico 'crise de representação', se de fato conseguiu-se bem desenhar, aponta uma geléia geral : nem se identificou, tampouco qualificou e responsabilizou quem seria ou poderia ser partido e mídia, embora 'somente' mídia fosse. Dentro do estado brasileiro.Mediante tal invocada e referida licença, agindo dentro de singular e semelhante conceito de 'pluralidade democrática', sempre ínsito, este, às determinações mais que teóricas, das que habitam a consciência política da Presidenta. E nem se preservou, nisto, ( vá vendo..! ) a representação do ideário de esquerda. Que encontra-se e será ( mais ainda) brevemente detonado ( é só ver o andor da carruagem ) por gerações, adiante...

Afinal, se necessárias democracia e pluralidades democráticas, realmente destinadas a  que? Ou, naturalmente... 'Pru mode de cuma' ?

Dizendo e revisitando o velho Marx: o econômico explicaria a História. Menos, ironicamente pensa-se, no governo de Dilma Roussef.

Crise de ausência

Na menção da ciência médica, há a 'crise de ausência'. Uma convulsão paralítica, com perda da consciência. O descalabro disto, referido neste texto, emerge neste parâmetro descrito como singular e sem igual. Aliás inacreditável.

Por maiores agruras econômicas que fossem as anteriormente descritas, vê-se hoje que novembro de 2015 permite ver bem pior que janeiro de 2015. Ou dezembro de 2014. Noutras palavras, os dois agentes, tombinis, levi ou levados, agudizaram e pioraram uma crise apenas intuída em 2014. Enfrentemos estas referidas premissas brandidas, já de saída, e em contrário: em primeiro, necessidade de confiabilidade externa.

Com a palavra, as mesmas e (in) críveis agências de risco. Criam, e elas assentaram isto, bem mais em Mantega que Levy. Dilma lá atrás se depararia com a verificação e auditagem das conhecidas agora, na época ignoradas, as famosas 'pedaladas': ora, o panorama de janeiro de 2015 era a vizinha eleição de um elemento mais que inconfiável, monsieur Cunha. Que fez, ou melhor quanto fez o governo Dilma, diante do risco da eleição daquele que podia – e muito previsivelmente queria – utilizar do futuro relatório do TCU, como moeda de troca, meio à balcanização mais que acintosa e em níveis inéditos do Legislativo federal?

Ignorava-se que Cunha seria, em janeiro de 2015, o terceiro na sucessão presidencial?

Segunda premissa. Ignorou-se a perda de apoio, genuíno apoio, suportada pela massa então oxidada da esquerda, que diante da 'crise de ausência' do governo, de janeiro a outubro deste ano, diante desta o Cunha tenha implementado seu governo parlamentar e ocupado políticos - espaços , atenção e noticiário - e ainda, por boa parte do tempo? Mesmo sem haver sequer parlamentarismo formal?

Mais Marx, de novo: a economia, ou o fétido balcão desta atual Legislatura, e o seu poderio econômico, advindo de quem fica do lado de lá do balcão, estão verificados como os atuais mais fiéis determinantes dessa atual quadra da história das Leis desta nação...

Terceira premissa: Dilma faz sim o que pode, dentro da 'camisa de força ' do atual sistema financeiro internacional; ora, mais absoluta inverdade. Lula quebrou paradigmas, apesar de todos os riscos e 'conselhos' da direita pátria, em contrário: o risco (do poder ) da unilateralidade americana ( delicioso momento e memória, no posterior evento ao acordo Irã-Brasil-Turquia, onde ali Hillary Clinton, ao ter que pedir a consideração do Conselho de Segurança diante dos consequentes e adversos vetos seguintes à sua demanda, passou largo e claríssimo recibo da implosão da unilateralidade, da claudicada quebra da pax americana, mormente utilitário, ideológico e prático ideário então disseminado. Pior ainda, versando sobre consolidadíssimos tabus americanos: mundo árabe e energia nuclear para fins não pacíficos ); risco da aliança Sul-Sul, risco dos Brics, risco do comércio exterior ( voltado à pressão da Alca, Alalc e sucedâneos ), risco de pontes no mundo árabe, etc; fez isto o tempo todo. Que tal uma auditagem da dívida externa, como a que fez o Equador? E diante mme. Lagarde, propensa a redesenhar os perfis de atuação do FMI?

Quarta premissa; Dilma governa, apenas não aparece. Torna-se portanto sábia, diante dos castelos de areia, cedendo ante lavajatos, zelotes, e outras. Mas afinal: governa e quer formular uma teoria política sem a honrar a ostensividade da responsabilidade – do acento à ênfase – ocasionado pela clara consagração da liderança política? Em outras palavras, a Dilma que não governa ou nada quer disso, agora passa a querer formular enunciados políticos? Ao sabor ( e risco ) da interpretação do que seja neoparlamentaris-mo, à monsieur Cunha?

Crise de ausência ( singularidade ), conjugada à crise de representação ( sistêmica, permissiva e estrutural ) explicam boa ou maior parte da presente crise instalada.

Crise nas idiotias

Qualquer um tem, pela frente, o risco de se reconhecer um perfeito idiota. Basta, simplesmente, a presença de maior -  e ora adversa inteligência ( afinal e invariavelmente, esta sempre acaba involuntariamente existindo ) - bem dentro de qualquer certa e definitiva ocasião. O autor deste escrito se reconhece como um primeiro e indesejável da parcela incontornável de crônica ou agudizada, incontornável e humana idiotia .

O presente e mais atual mandato de qualquer idiota é, por esquerdista, defender um governo que nem sequer almeja ou consegue se defender. E inescapavelmente, menos ainda, governar...

Exibições: 61

Responder esta

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço