Como sabe-se, agentes políticos - politicos mesmo, mas também a imprensa - investem permanentemente em caracterizações que ajudem a melhorar a identificação e facilitar a comunicação dessa identidade construída dos personagens, em função dos seus anseios e estratégias em andamento.

O caso da Dilma é interessante.

Quando chegou ao governo, era apontada como uma técnica de grande qualidade. Engenheira, conseguira evitar que o "apagão elétrico" tivesse atingido o sul. Era a própria esperança encarnada de que o o tecnicismo sobrepor-se-ia ao politicismo.

Depois, durante a crise de 2005, teve de novo seu perfil "gerencial" acentuado contra o perfil político de José Dirceu. Este sim, sempre apontado com o perfil de "ex-guerrilheiro", era apontado como o "mentor político" do PT e do seu sucesso eleitoral, de tal modo que sua derrota era um anseio da oposição. Dirceu foi caracterizado como um "fracasso gerencial", responsável pela "ocupação" de cargos pelos "políticos", de tal modo que a crise havia resultado em enxotá-lo do governo que ficava melhor sob a presença apenas do "habilidoso" Palocci e da "gerente" Dilma.

Nos meses recentes, cresce a construção da imagem da Dilma como "ex-guerrilheira".

A "gerente" foi impelida ao lugar político, possivelmente guindada à condição de candidata a manter em andamento a linha política do governo, e por isso, dá-lhe caracterização de política ao invès de tecnica: agora, quem ocupa o lugar do "guerrilheiro" Dirceu é a "guerrilheira" Dilma; quem ocupa o lugar do "político e mentor" do PT é a "política e mentora" que não se curvou à dita "ditabranda".

No lugar do inflexível Dirceu, tão friamente político e calculista, que conseguira que sua própria ex-esposa não tivesse ficado sabendo de sua verdadeira identidade antes do período da redemocratização, a tão friamente e calculista guerrilheira que seria o cérebro político e financeiro dos revolucionários, que se dava ao luxo da audácia depois do caso dos dólares e escalava os motoristas para levá-la onde quizesse.

"A ministra foi uma guerrilheira que até hoje impressiona os militares. Colecionou epítetos superlativos nos relatórios da repressão, que a definiram como "um dos cérebros" de esquemas revolucionários" (da matéria da Folha).

Atualmente, essa mente fria, audaciosa, calculista, estaria percorrendo o país não mais na condição de "gestora" e "gerente" "linha-dura", mas de "política", razão pela qual as "inaugurações do PAC" tratam-se de "comícios e pré-campanha", o cuidado pessoal é uma "plástica" em sua imagem.

O que é curioso observar neste movimento da identidade construída é que a nova imagem é similar àquela do Dirceu, que desde sempre teria arquitetado o controle inicialmente do PT e depois do governo Lula.

Seguindo a lógica dessa nova leitura, a gerente de grande capacidade, a brilhante engenheira que evitou o apagão no RS terá que dar lugar à Mãe do PAC que estaria "empacado".

Afinal, a dicotomia técnico x ideológico, gerencial x político, nessa leitura, é um princípio absoluto, critério hermenêutico central.

Agora, ainda que o desemprego tenha índices que persistem sendo menores do que aqueles de um anos atrás; ainda que os salários estejam mantidos em níveis mais elevados do que em anos anteriores; ainda que o comércio esteja vendendo mais do que em anos anteriores; ainda que não tenhamos tido quebras no sistema financeiro; etc... ainda que todos os fatos contestem, o pacote da moradia não vai ter êxito: não vai respeitar os pressupostos urbanísticos necessários; não vai atender quase nada da demanda (apenas tímidos 14%!) e olhe que sem prazo para terminar (!) e o PAC não destrava, com o governo já aumentando o prazo de investimentos para depois do séu término, ao final de 2010.

A gestora eficiente substituída pela fria, calculista e incompetente senhora da plástica e das promessas que não se cumprem.

Impressionante a migração da estampa!

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Respostas a este tópico

Perfeita a análise, Edmar. A oposição e sua mídia, incapazes de formular um discurso propositivo (defende o quê, afinal? a mesma privatização? o mesmo descuido com o Social? o mesmo elitismo nas decisões entre e para poucos e nobres amigos?) faz um jogo de tentativa-e-erro.
Ela era a "técnica competente" quando isso servia para contrastá-la com o "político centralizador, aparelhador do Estado" que seria o Dirceu. Derrubado este, o perfil dela foi sendo alterado. Depois de colocada por Lula como a "gerente" do PAC, uma soma de programas para a qual a oposição não tem nem sombra de alternativa, é preciso transformá-la numa "má" gerente, revelando sua face política de passado radical.
Só acho que o "timing" da oposição e de sua mídia está errado, novamente. Estão tentando desconstruí-la antes da hora, e tudo isso perderá efeito muito antes das eleições. O eleitorado vai lembrar-se de tudo que agora se diz de mal sobre ela, como coisa do passado, falta de assunto, quando a campanha estiver começando. Apavorados com o prestígio de Lula, com a relativa suavidade da crise importada, e com o crescimento de Dilma nas pesquisas enquanto Serra estaciona ou começa a cair), a oposição está gastando sua munição antes da hora.
O que estarão dizendo daqui a um ano?
As pessoas são o que são, e se mostram a medida do tamanho de sua ambição, seja ela econômica, política ou pela fama. Roma sossobrou quando entregou_se a orgia e a extravagância, quando a polícia era mais importante que o cidadão, quando a minoria ditava e doava para ser bonzinho e quando o poder envenenou os guerreiros.

As pessoas hodiernamente no poder, em alguma época discordaram do poder, e muitos sofreram por isto, e muitos hoje se locupletam por isto, e a Ministra tem seus pecados, será que foi curada, será que não é como Che, tem o espírito da guerrilha, embutido em sua índole, ou será que se pode esperar que o Estado pode torná-la uma estadista.

Todos sabemos que a contenda política, é na maioria do tempo, avassaladora e impedernida, mas ainda existe muitos que não se sentiriam honrados por ter mentido. Esta honra assusta e a muitos é sinônimo de perigo.

Falou...
Olá, Edmar,

Meu palpite é que basicamente porque ministra de minas e energia era cargo técnico e chefe da Casa Civil é pura (ou impura) articulação política, um quase primeiro-ministro republicano. Vidraça das mais visíveis. Bater no governo é bater no articulador político, que bate num programa como todo, além de mais uma superministra encarregada de gerir o PAC, cujo sucesso ou fracasso implica na avaliação prática de um projeto de governo.

Quer dizer, Dilma é bola da vez, e a julgar pela entrevista que concedeu hoje a uma repórter claramente instruida para "cutucar" pontos sensíveis (jornalista mulher, também, esperteza editorial) e expor ligações "ocultas", não fica a dever a Zé Dirceu como "quadro" calejado em debate político. A mulher não é indefesa, tanto que se saiu airosamente de tentativas de descontruçãos, uma vez na provocação imbecil de um senador do DEM e outra na exploração de um suposto "dossiê FHC ou Dona Ruth". Mas é jogo jogado, eleições em vista e não há muitas brechas dentro do campo institucional (por parte dessa oposição que é, por caráter e vício ideológico, sempre situação, não se sentem nada à vontade no papel de oposição) pra bater.

Pra mim, pelo menos à primeira vista, a matéria foi um tiro no pé. Masmo porque Dilma jamais tentou esconder sua participação anterior, como quadro militante, em ações de campo. E mais importante, com apropriado orgulho da dignidade que tal participação confere. Condição que Serra, por exemplo, não tem como se equiparar. Embora o problema nem seja Serra.

Abraço, e só volto se você me der uma força no outro tópico!
"será que não é como Che, tem o espírito da guerrilha, embutido em sua índole?", pergunta-se Cristovam.
Pergunto-me eu: que confusão calculista o quadro político-midiatico está começando a armar, não gente?
Não conheço a ministra, e apenas comecei a prestar atenção nela quando do episodio daquele fulano do DEM, citado pelo Liu aí embaixo, seguido pelo tal dossiê.
Discordo das analises que dizem que tudo é calculado: não me consta que ela tenha adivinhado o que o abominavel do DEM diria, e preparado uma resposta contundente e comovedora.
Agora sim, é claro que há marketing eleitoral, e com não haveria de?
Não me consta tambem que imagem de guerrilheira seja algo que se possa vender numa campanha eleitoral num pais como o nosso.
Creio que o ideal seria o oposto.
Não li a materia da Folha, apenas o primeiro trecho que o Nassif pôs no blog, e até ali achei extremamente interessante o recado ao patrao da reporter sobre a "ditabranda". (E Liu, nao sei também se é tão calculado assim mandar uma mulher entrevistar a Dilma: hoje há mais mulheres que homens nas redações.)
Candidatos em geral curvam-se ao poder da midia. Não foi o que ela fez nesta entrevista, ao menos até onde li.

E nesse sanatorio geral mais intenso que adentraremos agora na época pré-eleiçõe, espero que não seja creditado,por um lado ao mapa genético da pessoa uma "indole guerrilheira", e por outro, apenas ao marketing frio e calculista, qualquer coisa que a ministra fale.

E digo mais: embora nao mais filiada ao PT há milênios, votarei com muito gosto na ministra e não só por ser mulher- embora pela primeira vez em 121 anos de República isso possa ocorrer com a presidência - mas especialmente por sua competência,e pela barra que enfrentará pelo que já vejo aqui nesse post e nesses comentarios, que realmente me surpreenderam. Talvez seja porque eu quase não leia -- nem assita - mais jornais, por opção.
É verdade. Muitas pessoas não se sentiriam honradas por terem mentido Elas se sentem honradas por terem delatado seus companheiros, e os levado a morte.
Eu se estivesse na posição da Ministra, também me sentiria honrada em mentir. Mentir para salvar companheiros...ser torturada para que outros se salvassem.
Será que é tão difícil entender isso????
Caros amigos,

Acho que o mais interessante dessas diversas posturas que ora se põem na mídia em relação ao passado da Dilma é a própria discussão em si.O Brasil, diferente da Argentina e do Chile que tiveram já seu momento de catarse e expurgo da memória totalitária, ainda não se deu a oportunidade de refazer o caminho das pedras.A ditadura e tudo o que a cerca ainda é memória recalcada no inconsciente coletivo da nação, e como diria Freud, toda memória recalcada faz força pra ser conscientizada, mas encontra resistências que forçam-na de volta ao inconsciente.Só quando a resistência é superada a memória retorna e pode ser elaborada.A administração Lula foi o catalizador, e a candidatura Dilma está sendo o elemento de ruptura que nos dará a oportunidade, durante o processo eleitoral, de trazermos à tona muitos dos nossos medos, segredos e dores relativos a um período obscuro (porque negado) da nossa história recente.
A democracia brasileira precisa discutir a democracia brasileira dando voz a todas as versões.Discutir, a censura, a tortura, a perseguição e quem ficou de que lado da trincheira, de forma a jogar luz nestes calabouços e calabocas que até hoje são assunto tabú.Só a falta de clareza de memória permite o uso da palavra ditabranda por um meio de comunicação de massa como foi o caso da Folha. Se na Argentina algum jornal ousasse falar em ditabranda estaria com as mães da praça de maio e milhares mais de manifestantes batendo panela na sua porta antes de raiar o dia seguinte.
Aonde falta memória falta consciência.
Sem a sua capacidade analítica, que considero perfeita, intuo que a direita está errando no timing, na hora de fazer suas desconstrução da provável candidata. Creio, empiricamente, como observador da política há muitos anos, que ela (a "direita") pretendia um processo em duas etapas.
1) descaracterizar a Ditadura passada como uma coisa tão má. Conta, para isso, com a falta de memória educacional do nosso povo, e principalmente com a juventude do nosso povo. Quantos na população eram adultos em 1974, ou mesmo em 74 ou ainda em 84? É fácil inventar uma História, reescrevê-la, ensiná-la pelos mais poderosos meios de comunicação. A geração Xuxa ouviu quantas vezes a palavra ditadura aplicada ao Brasil? Aposto que nunca. E a direita sabe disso melhor do que eu;
2) no ano eleitoral, colocariam a candidata Dilma como alguém que agrediu o que não merecia ser agredido. Portanto, uma pessoa perigosa, inimiga do País, etc. Quem confiaria em alguém que pegou em armas (ela nunca pegou, mas está na Folha de domingo que sim) contra um regime que só nos defendeu de uma ditadura comunista?
A mim parece que este era o esquema era este. E vão insistir ainda um pouco nele, por falta de alternativas. Este esquema tem fragilidades, é óbvio. Quando falam em ditadura, eles se expõe, e expõe o candidato emblemático da direita, José Serra. Onde ele estava em 64, perguntarão? O que era a AP? Fica difícil este caminho.
O que obstaculizou (desculpem o palavrão) tal esquema, foi a reação ao editorial da "ditabranda". A FSP achava-se mais forte do que na realidade é. Para não perder um passo, o Globo vem com a calúnia contra Brizola, e a Folha novamente manipula a entrevista do ex-guerrilheiro, cujo pronto desmentido nem sequer foi mencionado pelo Frias Jr.
Temos dois candidatos que tiveram origem na Esquerda. Um deles é macho de assumir. O outro bandeu, trocou de camisa. Em quem o povo confiará mais?

Edmar, bom ver você de volta, com seus bons textos e argutas colocações. mas, falando em manipulação simbólica, veja isto:
Mas, o sério mesmo Edmar (ou não... pelo menos eu espero, e torço, e desejo que o tiro saia pela culatra) é que a manipulação está sendo a céu aberto. eles sequer disfarçam mais. certamente porque o nível está caindo e estão precisando ser diretos. me refiro à matéria nojenta publicada pela folha, contra a dilma, através de uma manipulação grosseira e mentirosa de uma "entrevista".

e, claro, seja bem vindo.

e não tinha uma dissertação em andamento?

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