Que tal começarmos uma reflexão sobre a tal "data de validade"? Ainda ontem assisti em algum tele jornal sobre um grande lote de medicamentos, de custo expressivo, sendo descartado por "validade vencida".
Tenho pouco mais de meio século de vida e cheguei até aqui. E, até uns 20 e poucos anos passados, nada tinha data de validade. Se não estivesse nascendo por cima alguma coisa branca ou verde, a gente comia. Algumas vezes, apenas raspávamos a coisa verde/branca e comíamos assim mesmo.
Meu pai era médico. Sempre recebeu representantes de laboratórios que deixavam amostras grátis das mais diversas "poções mágicas". Que eram convenientemente guardadas em um armário de madeira, portas com vidro e lá ficavam. Ficavam até que um paciente carente deles necessitasse. E o paciente saia com o medicamento. E voltavam, tempos depois, agradecidos. Isso era comum entre os médicos daquela geração. Doar amostras aos que delas necessitavam e não podiam comprar. Muitos dos medicamentos ficavam anos lá dentro, quietinhos, esperando alguém precisado. Nunca se viu data da validade. Não havia. E não me consta que algum não se tenha curado. ou tenha tido, pelo menos, seu sofrimento mitigado. Agora, nesse mesmo momento, medicamentos que poderiam estar amenizando a vida de alguém estão sendo jogados fora. Pela validade vencida. Digam-me um único exame, um único teste laboratorial - ou uma seqüência deles - que possa dizer que, depois de tanto tempo o medicamento só tem 93% de eficácia. Depois de mais tempo, ele terá só 84%...
Peço apenas que se faça um único teste. Toda a indústria será obrigada a repor ao comerciante/consumidor o produto vencido, substituindo-o por outro igual e na mesma quantidade.
Sou capaz de apostar que a tal data de validade vai se estender por muitos e longos verões....

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Respostas a este tópico

Oi Xará...

Desculpe me meter nesta discussão, mas como farmacêutico, acho que posso contribuir um pouquinho para ela. A data de validade de um medicamento é estabelecida por testes de estabilidade, que são uma exigência legal para o registro do medicamento junto à ANVISA. Existem testes de validade acelerados e de longa duração. Em ambos, o teor (quantidade de princípio ativo presente na forma farmacêutica) é monitorado ao longo do tempo. Desta forma, dá para se calcular em quanto tempo o medicamento terá um teor de princípio ativo abaixo do aceitável (o teor aceitável está especificado na monografia de cada medicamento, presente na Farmacopéia, que é o compêndio que especifica tudo sobre a qualidade do medicamento e os testes de controle desta qualidade). Este é o prazo de validade. Quando um medicamento sofre degradação e seu teor cai abaixo do mínimo, na "melhor" das hipóteses ele não terá efeito (o que em alguns casos, como nas infecções pode ser muito grave), e na pior delas poderá causar toxicidade pois seus produtos de degradação são tóxicos. Simplesmente não vale a pena o risco sanitário utilizar medicamentos fora do prazo de validade. Foi o reconhecimento deste risco sanitário, decorrente de muitos casos de ineficácia ou toxicidade associados ao consumo de medicamentos fora das suas condições de uso, que criou a regulamentação que hoje existe para determinação do prazo de validade. Isto é claro é muito diferente do prazo de validade de uma lâmpada, por exemplo. Se a lâmpada está fora do prazo de validade, ela pode até ter uma diminuição de sua luminosidade, mas você pode decidir continuar usando ou não, sem nenhum risco maior associdado a esta decisão. Medicamentos são diferentes neste sentido...
Eduardo Oliveira,
Parabéns pelo comentário, esclarecedor e elucidativo.
Agora, a outra face da história: por que medicamentos caros, destinados provavelmente à população carente, provavelmente adquiridos com dinheiro público, alcançam o prazo de validade? Aquisição errada? Falta de distribuição?
[]s
Certamente adquiridos com dinheiro público. Possivelmente há desinteresse - ou interesse oculto - por parte do agente público no sentido de fiscalizar, no momento do recebimento da mercadoria ou, melhor ainda, no próprio pregão, determinar que a data de validade seja condizente com a quantidade adquirida e demanda esperada.
Veja, para mais informações de como funciona essa máfia, a tentativa de instalação de um fabricante de correlatos, no caso específico seriam agulhas atraumáticas para suturas, no estado do Rio de Janeiro, anos 80/90.

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